Entre o Amor e a Espada
14 Capítulo 14 ALIANÇAS OBSCURAS ...
Notas iniciais
“Não me cante canções do dia, pois o sol é inimigo dos amantes. Cante as sombras e a escuridão, cante as lembranças da meia-noite.”
A luz do archote estremecia, em seus últimos resquícios da chama, que antes ardia forte, iluminando o corredor e parte da cela. Ainda era madrugada e o ar fresco percorria os espaços, se fazendo presente antes do amanhecer...
— Senti saudades suas... – disse Milo ao abrir os olhos e ter Camus abraçado a si.
O ruivo havia tomado a iniciativa e o deixado surpreso e excitado. Chegara a pensar que Camus desejava tomá-lo e a ideia inusitada lhe parecera estranha, pois jamais fora passivo. Porém, não era algo desagradável para se pensar. Se um dia Camus o quisesse...
Sorrindo e, ainda de olhos fechados, Camus cheirou o pescoço do amante. Milo tocou-o no rosto e buscou-lhe a boca. O ruivo correspondeu ao beijo e logo, seu corpo se esfregava no de Milo e seus mamilos descobriam o caminho afoito dos lábios do gladiador...
De repente, o falo grosso e quente o adentrava e ambos gemiam juntos, rentes dos lábios um do outro... Camus arquejava e tentava pensar, mas nunca conseguia quando estava com Milo. Seu corpo, apenas reagia enlouquecido, seu interior doía e exultava com a penetração ritmada e forte. O desejo era sempre desenfreado e ilógico, parecendo que o mundo parava quando Milo o possuía e só voltava a exigir-lhe a razão quando longe do gladiador.
Bem fundo dentro de Camus, Milo sentia o prazer do confinamento prazeroso, jogando um pouco da cabeça para trás e logo retornando para a boca que se abria junto a sua, tomando-a e provando-a com fome renovada. Cada vez mais os corpos reagiam em sintonia, sentindo e dando prazer num reconhecimento mútuo dos anseios um do outro.
Os quadris iam e vinham, chocando-se em êxtase e suor. Os movimentos cada vez mais rápidos, a respiração ofegante, o coração acelerando com a chegada do orgasmo...
E, finalmente o alívio veio para Camus, fazendo todo seu corpo estremecer e se contorcer. Ele franziu seu cenho e sorriu com satisfação, sentindo seu sêmen projetar-se entre os corpos e, em seguida, Milo derramar-se quente e abundante dentro de si.
— Pelos deuses... – disse o ruivo sentindo um forte torpor, após o orgasmo.
Milo sorriu, exausto e orgulhoso. Gostava de ver a expressão afogueada de Camus, o rosto relaxado e feliz, o sorriso que sabia ser o único a receber, daquela maneira...
— Deuses não... eu!— disse o gladiador rindo.
— Seu presunçoso... – falou Camus rindo também.
Os lábios de Milo cobriram os do ruivo num beijo logo e apaixonado. E quando ambos se afastaram para respirar, Camus perguntou o que desejara, desde o reencontro.
— Como foi o banquete?
Milo sorriu, coçou a cabeça e contou tudo, nos mínimos detalhes... De imediato, a expressão de Camus mudou. Ele franziu o cenho e levantou-se da cama como se ela estivesse coberta de espinhos.
— Eu não acredito no que acabei de ouvir! Vocês enlouqueceram?! – disse Camus.
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Nailah havia vindo do Egito e acabara escrava na Casa de Gemini. Todas as noites ela agradecia aos deuses de sua terra por ter sido levada até aquela casa onde era bem tratada e também, onde residiam homens vistosos e viris como os gladiadores.
Desde que chegara à Gemini, sua atenção recaíra sobre um moreno com olhar agressivo e profundo. Até mesmo seu nome evocava os deuses antigos do lugar onde nascera. Máscara da Morte... Sim, esse era o nome dele e só em pronunciá-lo, mentalmente, sentia-se úmida, entre as coxas voluptuosas...
Sorrateiramente, ela deixou o salão onde dormiam os escravos e foi até as celas, encontrando o gladiador acordado e bebendo vinho. Ela sorriu, exibindo dentes brancos e lábios carnudos. A pele escura parecia refletir as chamas e seus cabelos longos e escuros ondularam quando ela andou, rebolando na direção de Máscara da Morte.
— Um homem como você não deve dormir só... – disse ela com um tom de voz macio.
Máscara baixou a ânfora e olhou-a. A escrava possuía um olhar sedutor, acentuado pelo castanho escuro e profundo emoldurado em cílios bem desenhados. O corpo era cheio e curvilíneo, revelado pela pouca roupa e pela postura sensual que ela fazia de propósito.
O gladiador não podia negar a si mesmo que aquela mulher era atraente, entretanto, não era nem de longe, uma rival capaz de desbancar Afrodite que parecia entranhado em seu corpo e em seu coração...
Merda! Pareço um idiota esperando, enquanto aquele puto deve estar se refestelando pra outro! Disse o gladiador para si mesmo, lembrando que Afrodite não o procurara e cuja postura era sempre altiva e distanciada.
Nailah aproximou-se, ainda mais, ao ponto de Máscara da Morte sentir-lhe o hálito quente próximo ao seu rosto. O gladiador nada disse e a escrava interpretou o silêncio como um sim! Com ousadia, ela levou a língua aos lábios de Máscara da Morte e contornou-os, até adentrar-lhe a boca em um beijo que foi, brutalmente, interrompido.
Pega pelos cabelos próximos da nuca, Nailah gritou quando aterrissou no chão da cela e deparou-se com um par de olhos azuis faiscantes que pareciam duas adagas voltadas para si.
— Fora!— disse Afrodite com uma voz de comando e um olhar incisivo, do tipo que não permitia nenhuma brecha para o revide.
A escrava franziu o cenho e preparou-se para reagir, porém, algo no olhar e na postura do corpo de Afrodite a fez recuar e obedecer, xingando baixo em sua língua nativa.
Máscara permaneceu em silêncio, até Afrodite aproximar-se e esbofeteá-lo no rosto. O gladiador estreitou os olhos e pegou o escravo pelo pulso com tanta força que chegou a cortar-lhe a circulação do sangue.
— O que pensa que está fazendo? – perguntou Máscara da Morte rente ao rosto de Afrodite.
— Você é um... um traidor sujo! Eu não devia ter vindo! Foi só virar as costas e você já estava beijando aquela... vadia com complexo de Ísis!— respondeu Afrodite.
O gladiador sorriu, algo raro e inusitado. Afrodite estava com ciúmes e seus lábios perfeitos tremiam, enquanto ele falava...
Por Júpiter... Como ele é bonito sorrindo! Pensou Afrodite, enquanto Máscara da Morte aproximava o rosto e lhe mordiscava o lábio inferior com uma sensualidade que fez tremer suas pernas.
— Pensei que havia desistido de mim... – disse o gladiador antes de aprofundar o beijo e sentir as mãos de Afrodite agarrá-lo com força e enredar-se em seus cabelos.
Não houve mais palavras entre os dois.
Forte como era, Máscara da Morte carregou Afrodite para a cama, beijando-o enquanto o despia. O calor do seu corpo e a forma ardente com que ele o beijava, impedia Afrodite de dizer tudo o que desejava. A intensidade de tudo aquilo o assustava, pois o belo escravo sempre fora livre em seus desejos, nunca permitindo ser de ninguém, além de si mesmo.
Máscara da Morte parou para apreciá-lo em sua nudez, algo que não fizera da primeira vez em que foderam no corredor, mas agora, devorava-o com os olhos e sem pressa nenhuma...
Aquele olhar aguçou os sentidos de Afrodite, excitando-o em ver o quanto era desejado por um homem que todos diziam ser cruel e sem sentimentos. Máscara olhava-o ofegante e com os olhos brilhando de luxúria.
Num ato inusitado, Afrodite puxou-o com força para cima de si e o gladiador entendeu a mensagem... Logo, o corpo poderoso e rijo estava sobre Afrodite, pressionando-o contra a cama e prendendo seus braços acima da cabeça, enquanto cobria os mamilos rosados e duros com seus lábios.
Afrodite se concentrou naquela maravilhosa sensação de sentir a dominação prazerosa das mãos de Máscara da Morte em seu corpo e também da boca faminta saboreando-o, sugando-lhe os mamilos e depois toda a sua pele sensível. Mergulhou num prazer indescritível e gritou de satisfação quando o sentiu sugar próximo da virilha e depois roçar o nariz e a boca em seu falo que pulsava quente e rijo.
O corpo do belo escravo arqueava, convulsivamente, com cada toque, beijo e mordida. Máscara se detinha em cada recanto do corpo que o enlouquecia e Afrodite sentia a razão escapar-lhe junto com os gemidos baixos e a vontade de ser tomado com força...
— Eu o quero... dentro de mim. – balbuciou ele, contorcendo-se sob as mãos fortes do gladiador.
Máscara passou a língua nos lábios e afastou as coxas de Afrodite com as suas. Seu falo latejava, e o pedido enrouquecido do amante só o fez endurecer ainda mais... Mordeu o pescoço alvo e puxou Afrodite pelos quadris, penetrando-o com uma única estocada forte e profunda.
Afrodite ergueu o corpo e soltou o ar, sorrindo com o prazer feroz misturado à dor. Levou a mão de Máscara da Morte à boca e sugou um dos dedos, relembrando-o da vez em que tivera o falo túrgido entre seus lábios... O gladiador moveu-se com ânsia e seus quadris chocaram-se ao corpo de Afrodite, arrancando ofegos roucos de ambos.
O escravo tomou o gladiador em seus braços e se deixou invadir pelas emoções, simplesmente sentindo, sem controle ou artifícios tão característicos da sua personalidade. Quando Máscara aumentou o ritmo, ele não resistiu. Envolveu-o com as pernas, atraindo-o para mais fundo dentro de si.
Máscara da Morte levantou a cabeça e olhou-o nos olhos. Afrodite foi tomado por uma sensação nova e desconhecida... Máscara continuava fitando-o, mantendo-o preso em seus braços fortes e cheios de cicatrizes. Não se ouvia um som. Os dois mal respiravam, apenas se olhavam.
Afrodite percebeu que Máscara estava tenso, os músculos de seus ombros contraídos, sua expressão, inescrutável... Era como se ambos estivessem conectados por um sentimento maior do que poderiam suportar. Afrodite pegou o rosto de Máscara e o beijou. O ato fez o gladiador mover-se dentro do seu corpo, rápido, forte e tão profundo que o ponto de seu prazer era tocado várias vezes e com uma precisão que o fazia estremecer e ofegar....
Os espasmos do orgasmo atingiram os dois que gemiam juntos e se abraçavam como se nunca mais quisessem se separar. Afrodite gritou primeiro, explodindo num clímax intenso que o fez fincar as unhas nas costas largas e suadas, enquanto repetia o nome do gladiador.
Máscara grunhiu, logo em seguida, e derramou-se dentro do outro, sentindo muito mais que uma simples liberação da sua semente. Sentia um prazer diferente, intenso e reconfortante. Tudo o que desejava era abraçar Afrodite e senti-lo respirar junto ao seu peito, beijar aqueles lábios até deixá-los ainda mais vermelhos do que já eram...
Ficaram juntos, abraçados numa cumplicidade insólita. O peito arfando, as batidas do coração serenando devagarinho...
— Você tem muitas marcas... – disse Afrodite passando os dedos no peito de Máscara da Morte.
— Algumas, eu ostento com orgulho. Outras, me recordam coisas que faço questão de esquecer. Acha que são repugnantes?
— Não, apenas notei... algumas parecem...
— Chicote. Eu costumava ser chicoteado antes de vir para cá.
— Mas, você veio para cá ainda criança...
— Meu pai tinha muitos filhos e bebia muito. Quando minha mãe morreu, ele usava a mim e meus irmãos para roubar ou pedir esmolas. Eu nunca o obedecia, então ele tentava me disciplinar com o chicote. Até o dia em que... Eu o matei. Sei que isso parece hediondo... matar o próprio pai. Nem sei por que estou contando isso a você.
Ditas as palavras, Máscara tentou levantar da cama, mas Afrodite o deteve pelo braço, olhando-o com um olhar aberto, límpido, sem piedade ou julgamento.
— Todos nós temos nossos fantasmas... Não sou ninguém para julgá-lo. – disse Afrodite sorrindo e acariciando as costas largas com sua mão macia e aliciante.
Máscara da Morte sentou ao lado de Afrodite e abraçou-o.
— Você é tão belo... E não parece um escravo. Sua pele, seus olhos, seus cabelos... Mas não é só isso, é algo dentro de você que parece estar acima desta condição de merda.— disse Máscara, enquanto usufruía do calor do corpo esguio.
Afrodite correspondeu ao abraço e fechou os olhos. Aquele homem era perigoso... deliciosamente perigoso. Dentre tantos, fora o único capaz de enxergá-lo em sua verdade mais íntima.
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— Eu não entendo porque ficou tão incomodado. – disse Milo vendo que Camus continuava com aquele olhar de censura.
— Não entende? Pois eu vou explicar, Hades é o cônsul que representa a Ludus Maxima, ele é o braço direito do Imperador. Humilhá-lo, publicamente, resultará em sérias consequências.
— Não foi publicamente, foi privado. E ele foi por sua livre e espontânea vontade. O único detalhe foi que... bem, ao invés de meter no dos outros, quem foi enrabado foi ele. – disse Milo rindo.
— Vocês o drogaram e sodomizaram, Milo! Isso não é brincadeira.
— Se a gente não tivesse feito isso, tinha tomado bem direitinho no... Ah, não sei por que esse drama todo! O cara nem vai se lembrar direito do que aconteceu e, pra falar a verdade, acho que ele deve ter gostado de sentir todos aqueles paus no rabo. Principalmente, o do Zelos... – completou Milo com um ar debochado e malicioso.
— Você está sendo ingênuo e estúpido!
— Ah, é? E o que você queria? Que eu fodesse com ele?
— Não se trata disso, Milo! A questão não é somente sexual, Hades é um homem perigoso. Esse ato vai desencadear uma reação à altura. Não pense que ele vai deixar passar! E tem mais, essa estupidez trará consequências para a Casa de Gemini.
— Sinto muito se me ensinar a ler e foder comigo não me passaram a sua inteligência! Fiz o que achei ser certo para me livrar daquele escroto e não me arrependo! Se der merda, eu assumo e pronto! Agora com licença que eu tenho que me preparar para o treino. – disse Milo irritado.
— Certo! O dia em que algo, além de sexo e violência, importar pra você, nós voltamos a conversar, gladiador!— respondeu Camus com aquele tom gélido que usava quando estava furioso.
Milo olhou-o com irritação, mas também com mágoa. Às vezes não entendia o ruivo e achava-se muito estúpido perto dele. Mas, tudo o que fizera, em grande parte fora para não submeter-se à Hades, para não ter que desempenhar um papel que antes lhe era indiferente: foder com outro, apenas pelo prazer do ato. Amava Camus, essa era a verdade e, como Manigoldo lhe dissera, esse amor também era a sua fraqueza.
— Se somente o sexo me importasse, eu não teria nenhum problema de deixar Hades se esbaldar no meu corpo. Quanto à violência, cada um com seu dom, ruivo. Ser tão sábio é o seu. O meu é matar!— disse Milo e deu as costas, antes de ouvir qualquer resposta.
Camus o viu deixar a cela e nada falou. Em sua mente, mais uma vez, fervilhavam pensamentos que pareciam um turbilhão. Precisava preparar-se, achar um meio de atenuar as consequências daquele ato, porque sabia que elas viriam e Milo seria o alvo principal.
Seu tolo! Tudo o que me importa é que nada aconteça a você! Pensou Camus, enquanto via Milo entrar no pátio e receber o gládio das mãos de seu companheiro de treino.
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Pandora vestiu a túnica negra, em sinal de luto. Um fino véu cobria-lhe os cabelos escuros e longos que caíam em perfeitos cachos sobre os ombros nus. Olhou para Hades que permanecera sentado, como se estivesse mergulhado em lembranças muito profundas. Desde que haviam levado Minos, ele ficara distante e pensativo.
— Estou pronta! Irei à domus de June, como pediu. Alguma última recomendação? – perguntou ela.
Hades fixou os olhos gélidos nela.
— Peça para assistir um treino dos gladiadores da Casa. Depois me conte o que observou. – disse o cônsul.
— Está bem! – disse Pandora exultante. – Pelo menos terei algum prazer na companhia daquela mulher.
— Não se esqueça de não deixar transparecer nada além de amizade e cinismo. Quero que ela confie em você.
Pandora riu.
— Confiar? Confiança cega é para os homens, meu caro primo. Mulheres possuem interesses compartilhados.
— Que seja. Agora deixe-me.
O tecido esvoaçante do tecido ainda permaneceu no ar, criando um desenho fluído quando Pandora deixou o salão. O reflexo de seu porte altivo refletiu-se no piso escuro e Hades, acompanhou-lhe os movimentos, enquanto sua mente era invadida por lembranças vívidas e doloridas...
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O treino fora intenso e extenuante, como sempre. Milo lutara com os mais fortes e agora descansava na sombra, bebendo água com uma expressão de “poucos amigos”. Manigoldo aproximou-se, encarando-o.
— O que foi? Nunca o vi tão mal-humorado. – disse Doctore.
Milo virou a cabeça e seus olhos azuis demonstravam preocupação junto à irritação.
— Briguei com Camus. Mas, agora pensando melhor, vejo que ele tem razão. – respondeu Milo jogando água no rosto.
— Tem a ver com aquele maldito banquete, não é? Não sei o que você e Afrodite fizeram, mas boa coisa não foi. O que aprontaram?
— Melhor não falar sobre isso. Vou dar um jeito, não se preocupe. – respondeu Milo se levantando.
— Agora fiquei ainda mais preocupado. – disse Manigoldo.
— Tá, outro que me acha um estúpido. – falou Milo.
— Não, estúpido é o Zelos. Você é impulsivo e descuidado.
Milo fitou Manigoldo e depois riu.
— Preciso fazer uma coisa. – disse o gladiador.
— O quê, eu posso saber?
Suspirando e guardando a espada, Milo respondeu:
— Deixar claro quem foi o responsável por toda essa merda.
Manigoldo tocou-o no ombro e olhou sério.
— Não faça nada no auge de suas emoções. Você não é tolo, apenas precisa refrear seus instintos quando fora da arena.
Milo bateu no ombro do Doctore num ato de cumplicidade. Depois rumou até o corredor das celas para ter uma palavrinha com um certo guarda.
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Pandora fazia uma espécie de “beicinho” ao ser informada que June estava indisposta e não podia recebê-la.
— Ah, mas vim de tão longe para vê-la! Meu primo Hades enviou-me para agradecer a homenagem feita a ele e cumprimentá-la. Será algo breve. – dizia ela para Nailah que permanecia séria e irredutível, pois as ordens do dominus era que ninguém poderia visitar June sem seu prévio conhecimento.
Afrodite notou a movimentação e resolveu interferir. Desde que os sobrinhos da ex-domina haviam sido enviados para Cápua, suas atribuições eram controlar os outros servos e administrar o andamento dos serviços da domus.
— Pode deixar, Nailah. Eu atendo domina Pandora. – disse ele.
Nailah baixou a cabeça, ainda com a vívida sensação das mãos de Afrodite nos seus cabelos. Assentiu em silêncio e se retirou, demonstrando nos olhos escuros que não esquecera o que o escravo lhe fizera.
Pandora olhou para Afrodite e sorriu. Achou-o belíssimo e, estranhamente, familiar.
— Perdoe, Nailah, domina. Ela é nova nesta casa e ainda desconhece como tratar alguém como a senhora. Por favor, sente-se e fique à vontade. Irei até os aposentos da domina June e verei como estão as coisas. Gostaria de apreciar um vinho, enquanto espera? – falou Afrodite.
— Oh, seria muito bom. Você é... tão educado e belo para um escravo. June tem sorte de tê-lo! A maioria é grosseira, feia e despreparada.
— Gentileza sua, domina. Na verdade, sou o professor da Casa, mas agora, em vista da viagem dos sobrinhos da domina estou assumindo algumas tarefas administrativas. Bem, com licença, vou ter com domina June.
Com um sorriso sedutor, Afrodite deixou Pandora no salão e ordenou que lhe levassem frutas e uma taça de vinho mediterrâneo. A presença da prima de Hades lhe causou um calafrio na espinha e ele tratou de colocar a estratégia engendrada por Saga e Camus em prática. Ao mesmo tempo em que Pandora o preocupava, ela lhe dava a chance de aproximação com June.
— Domina... – sussurrou ele ao entrar no aposento de June.
June, que estava recostada e de olhos fechados, abriu-os e estreitou-os ao ver Afrodite olhando-a com surpresa e atenção.
— O que foi? O que faz aqui? – perguntou ela.
— Preciso ser rápido. Domina Pandora veio vê-la. Pelas ordens expressa do dominus, ninguém pode vê-la ou falar com a senhora, mas vejo que Pandora parece ansiosa em encontrá-la. Os outros escravos estão na lida doméstica e o atrium me parece um lugar seguro para uma conversa informal. Vou mantê-los ocupados, enquanto a recebe.
— E porque está fazendo isso, Afrodite? – questionou June.
— Mais tarde, domina... Creio que poderemos ser úteis um ao outro. Agora se prepare, Pandora está deslumbrante. Tem de mostrar-se à altura dela. – disse Afrodite com malícia na voz e no olhar.
June olhou para o baú das roupas. Saga havia deixado-o ali, mas ela vestia túnicas simples por permanecer trancada em seus aposentos. Já nem sabia como se vestir.
— Pode ajudar-me? – perguntou ela.
— Claro, domina. – disse Afrodite sorrindo. – Vou deixá-la deslumbrante!
Quando June adentrou o salão, sentiu-se estranha, mas feliz em sair do quarto onde permanecia confinada. Afrodite tinha penteado e desembaraçado seus cabelos, fazendo-a se sentir mulher novamente.
Percebeu que Pandora olhava ao redor e sorriu, sabendo que, pelo menos nisso, levava vantagem sobre ela. A Casa de Gemini era famosa por sua suntuosidade e até mesmo Hades, notara seu esplendor. Inspirou fundo e estampou seu melhor e mais cínico sorriso.
— Pandora querida! O que a traz aqui, depois de tanto tempo?
— June! Minha cara amiga! Cheguei a pensar que não desejava me receber.
— Estive indisposta e meu marido proibiu-me de receber visitas. Ele não quer que eu me canse, mas... para você, essas regras nada significam! Já fazia muito tempo que não nos víamos!
— Ah, que bom! Fico feliz em vê-la, também! Que casa bonita você tem e... escravos muito educados. Esse Afrodite é de uma beleza e refinamento ímpares.Gostaria de ter um assim. Se bem, que eu gostaria de outros atributos num escravo pessoal... se é que você me entende. – falou Pandora rindo.
— Afrodite é mesmo uma pérola. Agora me diga, quando chegou? A última vez que nos encontramos, você estava indo morar em Pompéia.
— Ah,sim! Fiquei lá, algum tempo, mas após a morte de meu marido, resolvi retornar a Roma. Também houve essa coincidência horrível da morte de Minos... Uma tragédia! Vim prestar meus pêsames. Hades o estimava muito, como bem sabe.
— Sei. – disse June. – Mas, conte-me o que tem feito.
— Na verdade, pouca coisa. Vim aqui por isso, estou um tanto entediada com esse clima fúnebre, mas Hades resolveu criar um torneio em homenagem a Minos. Um torneio onde os gladiadores da Ludus Maxima se apresentarão em igualdade com qualquer casa. Soube que a sua já levava vantagem sobre as demais. Hades me disse que seu campeão é forte e que o deseja no torneio.
June franziu o cenho. Havia muito mais embutido naquelas palavras ditas com uma naturalidade forçada.
— Um torneio aberto... Interessante! Há algo mais que seu primo mandou me dizer?
— Ah, sim. Ele deseja falar-lhe às sós e... em um ambiente privado. Sugeriu as catacumbas, daqui a dois dias.
— As catacumbas? Como vou justificar uma saída dessas? Diga-lhe que o encontrarei no Templo de Marte. Daqui a dois dias se realizará as preparações para a próxima Equiria. Haverá uma intensa movimentação no templo e poderemos nos encontrar sem levantar suspeitas.
— Suspeitas? Diga-me June... você e meu primo estão tendo um caso?
June riu, satisfeita. Depois cobriu a mão pequena e Pandora com a sua.
— Um caso com Hades? Você me faz rir, Pandora!
— Se não é um caso, então porque ele deseja, ansiosamente, encontrá-la e... às sós?
— Ofereci um banquete a ele sem a presença de meu marido. Saga possui mais sangue grego que romano e seus malditos escrúpulos o impedem de vivenciar certas experiências... Não vou mentir pra você, Pandora, ofereci ao seu primo, o melhor divertimento ao estilo romano como uma forma de mostrar a ele a minha estima.
— Creio que este divertimento custou caro à ele... Hades está, lastimável, fisicamente falando!
— Como? – indagou June, agora preocupada com aquela afirmação.
— Ele nada disse, mas é só observar bem. Hades mal pode caminhar, o que sugere certas coisas... Sei que ele gosta de homens, mas jamais o vi assumir um papel passivo. E, pelo visto, alguém o sodomizou e com violência. Você não sabia disso?
June estremeceu. Hades sodomizado em sua casa! Não tinha lembranças claras daquela noite. Bebera vinho, muito vinho...
— Pandora, perdoe-me, mas minha indisposição está retornando... Se não se importa, prefiro que retomemos nossa conversa outro dia. – disse June e sua palidez era verdadeira.
— Claro! Oh, mas que indelicadeza a minha... Espero vê-la mais vezes! Gostaria muito de ver os campeões da sua casa lutarem. Posso voltar amanhã?
— Sim, claro. Amanhã estarei melhor, obrigada. – respondeu June.
Pandora deixou Gemini exultante. Sim, havia algo estranho e sombrio naquela casa. Se descobrisse algo que agradasse ao primo, teria mais regalias e poderia desfrutar dos prazeres que merecia. Mas, o que mais a deixava feliz, era sentir que June, a traidora, não era tão afortunada como desejava mostrar e, se dependesse de si, faria tudo para que ela afundasse ainda mais no poço da desgraça que parecia se abrir entre ela e o... marido.
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Os senadores já haviam encerrado as discussões devido ao luto. Hades não comparecera e Saga permanecia atento à movimentação e teorias que continuavam a especular sobre o caso de Minos.
— Bem, senhores, também me retiro. Já é tarde e creio que teremos muito ainda a discutir. Portanto, deixemos para amanhã. – disse Saga.
— Está correto, cônsul. Amanhã, teremos a presença do Imperador e poderemos traçar novos objetivos, também.
Saga assentiu e deixou o senado. Kanon o esperava, junto de Aiolia e ele sentiu-se mais renovado somente em olhar para o irmão que sorria e conversava, animadamente.
Sentia saudades... Saudades do toque, do corpo quente de Kanon cobrindo o seu... Depois de tudo o que ocorrera, mal tinha tempo de trocar algumas palavras com ele, a não ser nas refeições do dia e sempre acompanhado de algum escravo.
— Meus queridos, eu estou livre. – disse Saga sorrindo. — Por favor, digam que teremos algum tempo juntos para que eu possa esquecer um pouco toda essa confusão.
— Seu irmão tem, mas eu já tenho um compromisso. – disse Aiolia batendo no ombro de Kanon.
Foi a vez de Kanon sorrir e colocar o braço sobre os ombros de Saga.
— Venha, vamos à casa de Petrônio, um velho amigo. – disse Kanon.
Um lampejo de decepção correu pelo olhar de Saga. Desejava ficar às sós com Kanon, mas o entusiasmo do irmão não deixava espaço para uma cobrança desse tipo. Notando o semblante de saga, Kanon sorriu, disfarçadamente e foi em direção aos cavalos.
Após cavalgar, algum tempo, Saga virou-se para o irmão e perguntou:
— Onde fica a casa desse tal Petrônio? Fora da cidade?
— Logo ali, estamos perto. – respondeu Kanon com tranquilidade. – Desfrute do ar e da paisagem do caminho.
Ao chegar a uma casa suntuosa, parecendo um templo, Kanon desceu do cavalo e estendeu a mão à Saga.
— É aqui.
— E o que viemos fazer? Uma visita de cortesia?
— Você verá... – respondeu Kanon com um sorriso malicioso.
Saga estranhou, mas sorriu. Kanon parecia relaxado e isso o agradou. Seu irmão era sempre sisudo e sério. Após os últimos acontecimentos, via-o preocupado e pensativo. Mas, ali, ele parecia leve e feliz.
A entrada da casa reproduzia a entrada de um templo, porém, ao adentrar mais, via-se um atrium, comum a toda domus romana e logo a seguir, um salão e as demais peças. Uma piscina de água cristalina encontrava-se bem no centro do salão principal, entre colunas trabalhadas e diversas obras de arte.
— Sejam bem-vindos, domini!— disse um homem velho e cego que movia-se com desenvoltura e segurança.
— Olá, Petrônio. Preparou tudo que eu pedi?
— Sim, dominus!
— Venha comigo. – disse Kanon para Saga que estava visivelmente surpreso com tudo aquilo.
— Petrônio é...
— Petrônio é o homem que cuida desta casa. Eu a adquiri há muito tempo atrás. Sempre pensei que quando você tivesse um filho eu deixaria a sua casa e viria para cá.
Saga estava mudo. A domus era magnífica e Kanon... ele o olhava com amor e desejo. Deixou que ele pegasse a sua mão e o conduzisse para a sala de banhos. Chegando lá percebeu o vapor se elevando da água coberta por flores de alfazema, exalando um aroma delicado...
Kanon despiu a túnica e colocou-se a frente do irmão. Seu corpo, quente e endurecido por muitos anos de batalha parecia o do próprio deus Marte. Saga o abraçou, saudoso e excitado. As bocas se uniram, sôfregas. As línguas traçaram o mesmo caminho do desejo intenso, se enroscando e molhando os lábios um do outro...
— Ah, Saga... – Kanon sussurrou nos lábios do irmão, enquanto suas mãos ágeis soltavam a faixa que prendia a túnica a sua cintura. Retirou-a devagar, deixando-a cair ao chão.
Aquecido pelo desejo e nu diante de Kanon, Saga sentiu o aroma que se desprendia da água e sorriu quando entraram na piscina quente.
— Você sempre me surpreende... – disse ele roçando os lábios no pescoço de Kanon.
O centurião sorriu. Sim, havia pensado, febrilmente, em ter Saga em seus braços. Não naquela casa impregnada de devassidão, mas ali, onde jamais trouxera ninguém...
Beijaram com lentidão, usufruindo cada sensação e gosto... O aroma do ambiente misturado ao do corpo de Kanon fazia Saga sentir-se em brasa e desligado de todos os problemas.
Os dedos de Kanon acariciavam-lhe o rosto, afastavam o cabelo sedoso da sua testa enquanto ele o fitava nos olhos que refletiam o ardor intenso que sentia. O amor também cintilava no verde de seus olhos e o fazia sorrir sem medo, com uma confiança total no homem que amava.
O olhar seguro e amoroso de Saga tocou o fundo da alma de Kanon e ele o tomou loucamente nos braços, apertando-o contra seu corpo, afogando-se na boca que se abria contra a sua, bebendo dela como se fosse o melhor dos vinhos...
Logo estavam encaixados e Kanon penetrava o corpo de Saga com força. Os dois pareciam uma só carne e cada movimento confirmava a paixão intensa que era proibida, mas também sagrada...
A água ondulava enquanto eles se moviam e se engastavam cada vez mais fundo no ser um do outro. Saga gemia rouco ao sentir o falo de Kanon possuindo-o de um jeito único e prazeroso. Kanon se afastava e mergulhava repetidamente no corpo do amante, ouvindo o ritmo dos gemidos de Saga, guiado pelas mãos dele, a boca, os olhos, o sibilo do ar entre seus dentes...
Gemeram alto ao se aproximarem do orgasmo e, em seguida, gritaram seu prazer e desejo devorador que ecoou pelas paredes quando o clímax explodiu em seus corpos. O sêmen de Saga derramou-se no tórax de Kanon no mesmo instante em que sentia o prazer dele dentro de si.
— Eu te amo... – disse Kanon ainda permanecendo dentro de Saga.
— Também te amo... – respondeu Saga sorrindo e beijando Kanon com uma ternura ardente, amando sentir-se preenchido daquela forma e dos sentimentos que se fortificavam em seu coração. Havia muito a ser feito, mas, por enquanto, somente Kanon tinha o poder total da sua atenção...
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