Entre o Amor e a Espada
15 Capítulo 15 LEÕES E CORDEIROS...
Notas iniciais
''Lute e lute novamente, até que cordeiros se transformem em leões."
O silêncio era tão palpável que poderia ser cortado à espada. O piso negro e lustroso parecia um grande abismo que fora manchado de sangue, horas atrás e agora jazia quieto e inexorável...
Hades levantou-se e foi até o atrium, recebendo a noite estrelada como uma antiga companheira. Não tinha sono e sua mente, ainda trabalhava incessantemente. Pandora voltara com informações preciosas, mas ele ainda não estava satisfeito. Sua memória ainda era oscilante, mas ele sabia que tanto o escravo chamado Afrodite, quanto o campeão de Gemini eram os responsáveis por sua atual condição.
De vez em quando tinha vislumbres de um rosto animalesco lambendo-o e dizendo obscenidades e se perguntava se aquilo era uma lembrança ou uma armadilha da sua mente...
Franziu o cenho e sentiu uma contração nas vísceras. Não podia e nem ficaria impotente quanto ao que havia acontecido, mas sua vingança teria de ser completa e eficaz, sem expor que estivera nessa situação por livre arbítrio. Também havia o caso de Minos, um mistério a ser desvendado um fato a ser, cuidadosamente, verificado em meio a tantas nuance que se apresentavam.
Os jogos seriam uma excelente oportunidade para por em prática algumas ideias que lhe vieram à cabeça. Olhou para um dos afrescos que cobria o atrium e se deteve em uma fera pintada com maestria. Talvez, fosse interessante mudar algumas regras dos jogos, para variar... Afinal, um embate entre animais sempre movimentava a arena, fossem de duas ou quatro patas! E depois de ter resolvido essa questão, seria a vez de confirmar ou não, a responsabilidade de Julian na morte de Minos.
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As vozes dos gladiadores se alternavam e elevavam. Afrodite levou a mão até a nuca e olhou para Camus que estava sério.
— Bem gente, eu sei que está tarde, mas... Essa reunião é pra estabelecermos uma ação comum. O fato é que depois do banquete, muita coisa está para acontecer e precisamos estar preparados para o que há de vir. – disse Afrodite.
— Preparados para o quê, especificamente?— perguntou El Cid.
— Hã... É que... Eu e o Milo, quando drogamos o Hades, fizemos algo meio...
— A gente ferrou com o Hades! – disse Milo que até então estava quieto. – A verdade é essa.
— E o que ferrar quer dizer, especificamente? – perguntou Albafica que até então desconhecia o que tinha acontecido entre as quatro paredes, além da droga oferecida à Hades.
Afrodite sorriu sem jeito e Zelos, que até então estava sonolento, resolveu falar.
— O pessoal que ainda não tem a marca teve a oportunidade de comer um nobre no capricho! Bem, só eu, meti no rabo dele umas cinco vezes... – falou o gladiador lambendo os lábios.
Albafica franziu o cenho e balançou a cabeça. Olhou para El Cid com uma expressão de “eu não acredito no que estou ouvindo.” O gladiador devolveu o olhar em um cúmplice entendimento, sabendo que o amante jamais seria conivente com algo do gênero.
Máscara da Morte riu, imaginando a festa que tinha sido, enquanto Mu e Aldebaran trocaram um olhar um pouco constrangido, um pouco divertido.
Houve um murmúrio, seguido do silêncio. Milo olhou na direção de Camus que continuava com sua postura séria e compenetrada.
— Eu e Afrodite conversamos. Analisando os fatos, eu acredito que devamos alertar os domini de modo que não haja surpresas quanto a alguma retaliação de Hades que, certamente virá. Mas, não vamos dar todos os detalhes sórdidos, manteremos a versão que houve excessos como em todo o bacanal e que Hades perdeu o controle da situação, assim como alguns de vocês. – disse Camus evitando fixar o olhar na direção de Milo.
— Pois bem, esse lance já tá resolvido. – disse Milo.
— Como assim? — perguntaram Camus e Afrodite, juntos.
— Antes do jantar eu pedi pra falar com o dominus e contei o que aconteceu.
— Você fez o quê?— disse Afrodite.
— Pedi pra falar com Kanon. Ele... Bem, foi ele quem me trouxe pra cá e eu tenho um afeto genuíno por ele, então achei que devia falar com ele, primeiro e esclarecer essa porra de uma vez, antes que ele soubesse de outro jeito. Contei a ele que a gente drogou o Hades, mas fui eu quem fez a brincadeira de ele ser comido pelos gladiadores sem a marca.
— E você acha que isso resolveu? Por que decidiu sozinho? Tínhamos uma estratégia, Milo. – disse Camus com um tom elevado. – Mais uma vez você age como...
— Como um estúpido? Pra você, nada do que eu faço tá certo! Porra, Camus, o que mais você quer?
— Quero que você se de conta que somos um grupo, que isso afeta a todos e assumir a culpa, sozinho, não vai poupar ninguém, só vai alimentar a ideia que os gladiadores são um bando de selvagens ignorantes que agem por instinto e que, no fim, se acovardam e deixam alguém pagar o pato!
— Ei! Eu não sou selvagem, ô ruivo tosco! Aiiiii! – gritou Zelos.
— Cala a boca, Zelos, o assunto não chegou no brejo! – disse Milo depois de estapear com força a cabeça do gladiador.
Todos se olhavam ao ver a discussão entre os dois. Estava visível que Camus se preocupava com o destino de todos, mas mais especificamente com o de Milo e o gladiador sentia-se culpado, não pelo ato contra Hades, e sim em decepcionar Camus. Mas nenhum dos dois se dava conta disso e trocavam farpas, aumentando o zum-zum.
— Meninos! Meninos! Vamos parar com isso! Esse tipo de discussão não nos levará a lugar algum. – gritou Afrodite.
Todos pararam e se olharam. Zelos continuava com a mão no topo da cabeça, no lugar que Milo o havia estapeado, fazendo Aldebaran rir.
— Ótimo! Agora ouçam... Apesar de ter sido inusitado, a primeira parte do plano já foi resolvida com o Milo contando tudo ao dominus. A segunda parte pede mais atenção e sutileza: fiquem de olhos e ouvidos abertos, principalmente nas conversas dos outros servos de dentro da domus. Não podemos ficar desprevenidos. Hades enviou sua prima e pediu a ela que os observasse e ouvi que o tal torneio aberto em honra a Minos terá a participação da Ludus Maxima. Vamos ficar atentos e agir em parceria.
Camus olhou para Milo que permanecia escorado na parede. Queria se aproximar e esclarecer certas coisas, mas, o gladiador parecia desejar ficar longe e ele não se sentia em condições de discutir com ele, novamente.
— Deixe todos saírem e volte mais tarde. Vocês precisam se entender, mas não com palavras... – sussurrou Afrodite para Camus.
O ruivo olhou-o e tentou sorrir, sem sucesso. Talvez Afrodite tivesse razão,quanto mais tentava ser claro com Milo, mais discutiam. Fez um aceno de cabeça e deixou a cela.
Afrodite se aproximou de Milo, antes de sair.
— O que dominus Kanon disse? – perguntou ele, vendo que Milo observava a saída de Camus sem nada dizer.
— Ele me surpreendeu. Achei que ia ficar furioso e mandar me castigar de um modo mais severo E eu ia ter que aceitar, embora esse lance de ser escravo... Bem, eu não vejo da mesma forma que via antes. Vou ficar trancado na cela à noite e não poderei receber visitas noturnas durante uma semana. Esse foi o castigo que ele me deu.
Afrodite sorriu.
— Kanon é um bom homem e tem predileção por você. Sempre teve. Mas você mudou, Milo, e... amar o Camus tem muito a ver com isso.
Milo olhou para Afrodite e havia tristeza em seus olhos.
— Sou louco por ele, Dite, mas não vai dar certo. Somos diferentes e você viu, nada do que eu faço bate com o que ele espera que eu faça!
— Errado, bobo! Ele só fica descontrolado e furioso quando existe perigo pra você! Ele não quer que você meta os pés pelas mãos e sim que fique vivo e bem pra meter outra coisa... Falando sério, agora. Camus se preocupa, Milo, e com razão. Assumir os riscos, sozinho, é perigoso para você e nos enfraquece como grupo. Você tem uma individualidade e liderança fortes, mas precisa confiar nos demais e partilhar. E tem mais, só vejo o ruivo perder aquela fleuma quando está perto de você. De resto, ele mantém aquele nariz empinado e o olhar severo como se tivesse 30 anos de idade. – concluiu Afrodite rindo.
Milo riu, mesmo estando chateado.
— Camus e eu temos a mesma idade, mas, às vezes, me sinto um garoto estúpido perto dele.
— Ele ama você, seu estúpido! – falou Afrodite batendo no braço de Milo.
— Será?
— Você tem ainda tem dúvidas? É um estúpido mesmo!
— Ele nunca disse que... me ama. Ah, tenho que parar com isso! Pareço uma mulherzinha esperando palavras doces. – falou Milo rindo e Afrodite notou que era um disfarce para algo que o incomodava, profundamente.
— Camus é eloquente pra muitas coisas, mas não com suas próprias emoções. Isso não quer dizer que ele não sinta. – disse Afrodite.
— Ou talvez eu não seja o homem certo pra ele amar e ele saiba disso. – respondeu Milo e o tom que usou era tão sério e profundo que Afrodite apiedou-se dele, pois nunca o tinha visto duvidar do próprio valor.
Entretanto, antes que Afrodite falasse o que estava pensando, um chamado tirou sua atenção do gladiador.
— Afrodite!— chamou uma voz carregada de um tom zangado.
— Ah! Mais essa, agora. Tenho que encarar meu irmão, o “senhor certinho”.— disse Afrodite.
Milo sorriu e despediu-se do amigo, enquanto Albafica se aproximava e desfiava um imenso colar de censuras às atitudes de Afrodite.
Manigoldo estava no pátio, segurando o chicote que o acompanhava até na hora de dormir. Olhava para o céu carregado de nuvens e parecia distante.
— Por que não ficou lá com a gente? – perguntou Milo se aproximando.
— Porque não me interessam essas discussões. Vocês fizeram merda, agora consertem. E você, trate de treinar e treinar. Depois desse maldito banquete, creio que as coisas irão ficar ainda mais difíceis.
— Mais? Você quer dizer com a participação da Ludus Maxima?
— A tradição da Ludus Maxima não é uma invenção. O Imperador só recruta os melhores, os mais irascíveis, os mais violentos. São homens, puramente instintivos, que não temem nada. Seu único objetivo é matar.
— Mas você venceu o campeão deles.
— Isso é uma outra história e eu era jovem. Agora, é com vocês! E você, Milo Krisius é a maior esperança desta Casa.
— Não só eu, Máscara da Morte, El Cid, Aldebaran e até o Mu, são todos gladiadores de peso e podem fazer oposição aos trácios.
— Sim, eles podem. Mas você possui um dom, algo que só acontece muito raramente entre os gladiadores. Está no seu sangue. E isso, quando a coisa ficar feia, fará toda a diferença. Agora, vá pra dentro e aproveite. Mais tarde vai ficar trancado como o dominus ordenou.
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Saga estava mudo. Buscou a taça de vinho e bebeu um gole, enquanto tentava digerir o que Kanon lhe contara.
— Hades drogado e sodomizado em minha casa... Eu sabia que tinha algo, nessa história, mas jamais pensei que chegasse a tanto!— disse em voz alta, sob o olhar sério de Kanon.
— Nada incomum para um bacanal. – falou Kanon.
— Você me parece muito tranquilo Kanon. Hades é o braço direito do Imperador.
— E daí? Isso não o impediu de vir por livre e espontânea vontade e participar de uma orgia. Não creio que ele desejará tornar público os resultados de tal decisão.
— Ele não é homem de deixar passar uma coisa destas! Certamente, teremos consequências.
— E estaremos preparados para elas.
— Gostaria de ter a sua certeza. Minha vida está sendo uma sucessão de surpresas desagradáveis! Merda! Mande trazer Milo aqui! Quero falar com ele!
— Eu já o castiguei. – disse Kanon.
Saga olhou para o irmão que continuava com sua postura muito tranquila em relação àquilo tudo.
— E qual castigo infringiu a ele?
— Ficará trancado na cela à noite e não poderá receber visitas noturnas por uma semana.
— Só isso? Você o favorece, Kanon!
— Assim como você favorece o Camus. Estamos empatados, irmão.
— Camus é um prodígio! Um jovem inteligentíssimo que não me aprontaria uma coisa dessas!
— Milo também é um prodígio que elevou a nossa ludus ao patamar da Ludus Maxima e aumentou as riquezas e o poder de Gemini. Eu, no lugar dele, também não deixaria o Hades me enrabar!
— Ele foi, além disso, Kanon. Ele podia ter apenas drogado o Hades.
— Podia. Mas, June os tratou como animais e quando o instinto é despertado, não espere que ele seja contido. Milo já provou sua lealdade a esta Casa muitas vezes. Não aprovo o que ele fez, mas não vou prejudicá-lo por causa de um filho da puta como o Hades que não teve nenhum problema em usar a nossa ausência para confraternizar com June.
— Você tem razão quanto à Hades, mas o que Milo fez não deixa de ser um ato de rebeldia.
— Um ato que ele veio confessar a mim. Ele podia ter ficado calado ou mentido, mas não o fez. Milo tem mais honra e hombridade que muitos senadores que conhecemos, inclusive, o próprio Hades.
— Se eu não tivesse passado uma tarde agradável em seus braços, acharia que defende demais esse jovem gladiador.
— Sabe que meu corpo e meu coração são seus. Meu afeto por Milo é paternal, se eu tivesse tido um filho, gostaria que fosse como ele. Assim como sei que sente o mesmo por Camus.
Saga sorriu. Tendo Kanon ao seu lado, tudo parecia mais claro e fácil de suportar e suas palavras eram sempre carregadas de verdade e sabedoria. Aproximou-se dos lábios do irmão, depositando um leve beijo.
— Vou me deitar. Espere a madrugada e vá até meus aposentos. Desejo ficar nem que sejam apenas algumas horas junto ao seu corpo...
— Não sei se é seguro. Não podemos vacilar, nesse momento.
Um suspiro profundo brotou dos lábios de Saga. Kanon, mais uma vez, tinha razão, qualquer outro descuido seria fatal.
— Está bem. Vou contentar-me com as lembranças de hoje à tarde e esperar que possamos ter mais momentos como aquele...
— Precisamos ser pacientes e cuidadosos. – disse Kanon tocando os lábios de Saga com o indicador e fitando-o bem dentro dos olhos.
O gesto terno e, ao mesmo tempo excitante fez Saga fechar os olhos e recordar a tarde prazerosa, antes de retornar à realidade e ir deitar-se sozinho...
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Albafica estava pensativo, aconchegado nos braços fortes de El Cid. O gladiador dividia a cela com Aldebaran que já estava no décimo sono e ressonava alto, abafando qualquer outro som produzido na cela.
— Conte-me alguma coisa sobre você. Preciso de algo para esquecer toda essa história. Ainda não acredito que ajudei a executar um plano absurdo como aquele. – disse o jovem encostando a cabeça no ombro do gladiador, os cabelos tocando o queixo dele.
Antes de falar, El Cid pensou e acariciou o rosto de Albafica.
— Não tenho nada bonito ou reconfortante para contar. Mas, gostaria que soubesse que tê-lo em meus braços apaga o pior em mim e desperta o outro El Cid, aquele que só você conhece. – disse ele puxando-o para cima de seu corpo com as mãos grandes e fortes, rindo e fazendo cócegas.
Albafica sorriu, se desmanchando. Nunca tinha interagido desse jeito com ninguém. A sua vida sempre tinha sido cheia de assuntos sérios e uma reserva natural que afastava as pessoas de sua companhia. El Cid tinha sido o único que o enxergara além das aparências e despertara a sua sensualidade de um modo tão natural e único que o deixava à vontade para ser outro Albafica.
— Está me provocando, gladiador... olhe que não respondo por mim. – disse ele, esfregando os lábios nos de El Cid.
Beijou-o, suave, doce e lentamente. Estava nu, colado ao corpo forte, fazendo o coração do gladiador disparar... Ele começou a descer e El Cid percebeu o que ele queria, o ato erótico que pretendia.
Lambendo seu umbigo, Albafica roçou o rosto no ventre firme e El Cid se ergueu, ansioso para se render às carícias... Ele prendeu os cabelos de Albafica com as mãos e fios claros caíram em sua virilha em uma sedução final...
O gladiador ficou trêmulo, envergonhado, praguejando contra a dor pulsante de sua ereção. Então Albafica tocou-o lá... um beijo suave como pluma, uma promessa de prazer... El Cid pensou que podia morrer.
— Você é sempre tão quente, tão duro... – sussurrou Albafica envolvendo o falo com a mão e preparando-se para o movimento seguinte.
El Cid ofegou e arqueou o corpo. Albafica tomou-o na boca e levou até o fundo de sua garganta, envolvendo-o em umidade e calor.
Ele separou as pernas para acomodá-lo, permitindo que Albafica ajustasse um ritmo intenso, mas também suave e sensual como era sua característica. Moveu-se com ele, fodendo a boca quente, acariciando seu rosto, perdendo-se no amor que sentia por ele...
— Alba... – gemeu ele e o amante olhou-o, criando mais intimidade.
Albafica tomou-o mais profundamente e intensificou o ato, subindo e descendo pela extensão túrgida e pulsante até sentir os pelos que circundavam o falo tocar-lhe o rosto...
El Cid tremia, pensando se alguma vez ficara tão excitado, desesperado assim por alguém. Antes de perder o controle, puxou Albafica para cima de si e passou as mãos por todo o corpo dele, fazendo-o gemer deliciado.
— Deixe-me gozar dentro de você... – pediu ele.
Albafica sorriu, acariciando os cabelos negros e espessos do gladiador. O beijo foi uma consequência e uma permissão...
Ansioso, El Cid ergueu as pernas do amante até os seus ombros e Albafica se arqueou contra a sua boca. O gladiador encheu-se com o sabor dele, provocando-o com a língua, excitando-o como ele o excitara. E quando os gemidos de Albafica ficaram ainda mais altos, El Cid o penetrou, afundando-se no corpo receptivo numa fusão mágica e plena de erotismo e sentimento.
O ritmo entre eles era lento e convidativo. El Cid saia de dentro de Albafica para penetrá-lo, novamente, intensificando a posse, derramando suas emoções no atrito dos corpos.
Seus olhares se encontraram e eles entrelaçaram os dedos, em completa sintonia. Albafica era a sua redenção, pensou El Cid e quando o amante passou as pernas por ele, prendendo-o perto, beijando-o e atingindo o clímax em seus braços, ele fechou os olhos e deixou-se cair, derramando-se dentro dele, vivendo um orgasmo único e arrebatador...
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June esperou que toda a domus estivesse silenciosa. Vestiu-se de forma simples, mais parecendo uma escrava e tomou o rumo das ruas estreitas. Àquela hora, Roma era um reduto de toda a espécie de gente, porém ela não se importava, precisava tomar uma atitude ao invés de aguardar um destino insólito nas mãos do homem que tentara agradar de todas as formas e que agora poderia ser um inimigo perigoso.
Se não fosse a escrava egípcia contar o que ouvira, ela cairia na cilada que Saga e Kanon haviam armado e acolheria Afrodite como um aliado. Malditos tolos! Pensavam que poderiam enganá-la, mas ela estava com os deuses jogando a seu favor... Agora era, apenas, uma questão de tempo e todos eles iriam pagar!
Chegou a frente à domus suntuosa e estancou. Era o momento certo para pôr seu plano em prática e as marcas que ainda existiam em seu corpo, seriam úteis para o que ela havia engendrado com muita astúcia.
Respirou fundo e bateu na porta ampla e alta. Um escravo sonolento veio abrir e estreitou os olhos ao vê-la.
— P-Por favor... preciso falar com dominus Hades! É um assunto de vida ou morte. – disse ela depositando um anel na mão do escravo.
O homem olhou para a pequena peça em suas mãos e fez que sim com a cabeça, pedindo baixo que ela esperasse no salão.
Ali, na imensidão escura, June estremeceu, porém respirou fundo e preparou-se para mais uma de suas atuações.
Hades surgiu com o cenho franzido e um olhar severo. Um escravo acendia duas tochas laterais para iluminar o ambiente. June deparou-se com os frios e belos olhos acinzentados dele e sentiu um frio no abdômen.
— Dominus! Não pude aguentar mais, nem esperar a Equiria para nos falarmos! Tive que vir vê-lo depois que sua prima, Pandora, foi visitar-me e contou-me sobre o seu... estado. – disse ela pegando a mão de Hades e ajoelhando-se a frente do cônsul.
Com uma expressão desconfiada, Hades libertou-se da mão de June e seus olhos exibiram um brilho perigoso que parecia alimentar-se das chamas, recém-acesas.
— Como ousa vir a mim, há esta hora?
— Peço que me perdoe, mas era o único momento possível, dominus! A verdade, pura e simples, é que ambos fomos enganados e levados às últimas consequências. Sou prisioneira e me vigiam dia e noite. Sofro constantes maus tratos por tentar agradar-vos naquele banquete. Meu marido... ele... pretende se livrar de mim! Eu confiei nele e ele me traiu.
— Fale mais claramente! Ainda não entendo aonde quer chegar.
— Eu descobri que meu marido tomou seu irmão como amante e que fingiu estar doente para afastar-se e não estar presente na noite do banquete. Mas, instruiu seu servo Afrodite para drogar a todos nós e assim, provocar uma situação constrangedora para dar-nos um flagrante. A intenção principal dele era livrar-se de mim e humilhar a vós. Pode não parecer, mas Saga é orgulhoso e acredita que Gemini pode vir a ser maior que a Ludus Maxima.
— Se tudo o que diz é verdade, então por que ele a mantém?
— Por que precisa manter as aparências. Ele finge para que seu status não seja manchado, mas fode com o irmão e ri nas suas costas, vangloriando-se de tê-lo humilhado e deixado que fosse drogado e seviciado em nossa casa. Veja! – disse ela desnudando sua túnica e expondo a pele machucada. – Eu também fui violada como vós, dominus.
Hades fitou June dentro dos olhos claros. A pouca luminosidade não o deixava ver com clareza, porém os registros explícitos na pele clara atestavam que ela falava a verdade ou... parte dela.
— E o que espera de mim ao contar-me tudo isso? – perguntou ele.
— Que faça o que tenha de fazer, dominus. Destrua Saga e sua ludus e depois me apoie nos novos tempos que se seguirão a ela.
Mais uma vez os olhos frios de Hades perscrutaram o rosto delicado. June era ambiciosa e parecia ter um talento natural para o ardil. Usá-la poderia ser útil e interessante...
— Pois bem, seremos aliados... por enquanto. Volte para casa e aguarde novidades. – disse ele, secamente.
June agradeceu e encaminhou-se para a saída. Seu coração estava acelerado, mas ela também sorria. No seu devido tempo, ela se livraria de todos os que estivessem em seu caminho... inclusive, o grande e poderoso Hades.
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Albafica ainda estava deitado sobre o corpo de El Cid. O corpo nu, suado e quente depois do sexo intenso, estava arrepiado com o ar frio da madrugada.
— Preciso voltar para dentro da domus.— disse ele, rente aos lábios do amante.
— Eu sei, mas meus braços não querem soltar o seu corpo... – respondeu El Cid sorrindo.
Tocando o rosto másculo e com uma expressão de total relaxamento, Albafica sorriu e beijou-o na boca.
— Meu corpo também não deseja deixá-lo, mas tenho que ir antes que deem por minha falta.
— Está bem. – falou El Cid deixando que o amante deixasse a cama.
Assim que Albafica saiu, El Cid foi até a cela onde Milo estava trancado. Encontrou-o acordado e pensativo.
— Dominus Kanon tem um grande apreço por você. – disse ele.
Milo sorriu com um olhar malicioso.
— E você pelo Albafica...
El Cid sentou-se do lado de fora da cela.
— Eu nunca tinha gostado tanto de alguém como gosto dele. Naquela noite... era a gente no corredor. Você nos cedeu sua cela e eu sempre lhe serei grato por isso.
— Fico feliz por você, meu amigo. – disse Milo.
— Sei que somos adversários, mas saiba que tem minha consideração. Se um dia nos enfrentarmos na arena, ficarei honrado com tal oportunidade. – falou El Cid.
— Eu também. – respondeu Milo.
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O amanhecer atravessou o atrium e, logo cedo, Hades esperava uma audiência com o imperador. Titus surgiu acompanhado de um escravo que lhe servia vinho, enquanto outro lhe alcançava um pergaminho.
— Hades, meu caro! Vejo que partilha meu gosto pelas horas matutinas. – disse o imperador.
— Perdoe-me se ainda é muito cedo. Esperarei que termine a vossa refeição. – respondeu Hades inclinando-se em uma reverência.
— Ah, deixe de cerimônias, homem! Antes de tornar-me um homem político, fui militar e minha rotina sempre foi espartana. Soube da perda de Minos, uma tragédia que faço questão que seja apurada. Mas, enquanto isso não acontece, concordo com sua ideia de um torneio aberto em honra ao falecido. Você sugere que deixemos os gladiadores da Ludus Maxima participar e também algumas outras... inovações.
— Acho que podemos aproveitar a homenagem e fazermos algo que fique na história dos jogos. Também servirá para reafirmar sua autoridade frente ao povo de Roma. Soube de rumores quanto ao levante de alguns escravos.
— É verdade. Até agora consegui manter segredo de tais rumores, mas, se faz necessário uma medida preventiva, antes que essa ideia absurda de abolição da escravatura se espalhe. Você tem todo o meu apoio e autoridade. Organize tudo conforme seus planos. Já tem uma previsão de data?
— Sim, pensei que podemos estar prontos daqui a três dias.
— Perfeito, meu caro Hades. Envie a comunicação do torneio com meu selo a todas as Casas, tenho certeza que teremos um belo espetáculo.
Hades sorriu. Sim, teriam um belo espetáculo, nos moldes que mais agradavam o público, violência, sangue e crueldade... Mas, o melhor de tudo era que realizaria o sonho de Minos, acabaria com a hegemonia da Casa de Gemini destruindo seus senhores e um por um de seus gladiadores até chegar ao seu campeão, Milo Krisius, o homem que teria prazer em ver desmoronar...
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