Entre o Amor e a Espada

13 Capítulo 13 RÉQUIEM DE SANGUE!


Notas iniciais
O trecho do poema que fecha o capítulo é de Jorge Barbosa Filho!!

Minos estava morto.

O escravo esperava as ordens de seu senhor que permanecia abraçado ao corpo inerte, alheio ao olhar confuso e aflito. O sangue nas vestes, de ambos, criava um estranho contraste com o piso negro e lustroso, como se, de repente, Hades fosse um arauto da morte recebendo Minos em seus domínios...

Hades embalava Minos e acariciava seus cabelos. As lágrimas haviam cessado e um brilho seco e perigoso buscou lugar nos olhos do cônsul. Já vira tantas mortes, mas nenhuma delas causara esse estranho vácuo dentro de si. Um vácuo cuja força espiralava em suas entranhas à busca do responsável...

Depois de algum tempo, Hades ordenou:

— Chame os outros escravos e levem o corpo para prepará-lo para o funeral. Também chame Pandora, imediatamente.

— Sim, dominus.

O corpo foi levado para ser lavado com água quente, perfumado e vestido com um manto enfeitado com as insígnias da Casa de Griffon. Depois, seria exposto em um leito no átrio, onde se colocaria flores e coroas, até o momento em que seria levado em um caixão aberto até o fórum, num cortejo acompanhado por alguns músicos e carpideiras especialmente designadas para chorar e lamuriar a sua morte.

Dominus, depois dos preparativos, levaremos o corpo para a domus do cônsul Minos? – perguntou o escravo.

— Não. Ele será homenageado no fórum e depois, na Ludus Maxima. Mande alguém avisar os servos dele, para que preparem um traje especial e fecharem a casa. – respondeu Hades.

Algumas horas depois, a notícia da morte de Minos espalhou-se, juntamente a outra, tão misteriosa quanto a sua.

Julian Solo foi encontrado morto em sua casa, esfaqueado sobre a mesa abarrotada de pergaminhos cujo conteúdo se referia às finanças da ludus e a compra de mais escravos para serem transformados em gladiadores. O punhal usado para matá-lo, foi reconhecido como sendo de Minos e uma confusa teoria surgiu sobre ambas as mortes...

— Está óbvio para mim que Minos descobriu que Julian o estava roubando, os dois discutiram e Minos o matou!— disse o senador.

— Minos parece ter sido envenenado de forma misteriosa. Como poderia ter matado Julian? – questionou outro.

— Então... Minos descobriu que foi envenenado e foi ter com Julian. Chegando lá, descobriu que tinha sido o próprio amigo quem o envenenara, os dois discutiram, lutaram, Minos matou Julian e depois morreu. Mistério resolvido!

— Mas e a causa? Porque Julian envenenaria Minos? Os dois eram sócios e, embora estivessem sem muitos campeões, estavam indo bem.

— Um motivo passional, talvez? – inquiriu um dos senadores que até então, não se pronunciara.

Os senadores continuaram a discutir e tecer várias teorias sobre o caso. A verdade, porém, estava longe de ser descoberta e tinha raízes bem mais profundas que aquelas que eram apontadas na discussão e eram conhecidas, apenas, por Vanth, a bela e fria deusa romana da Morte...

Domus de Minos, uma hora antes do trágico fim...

“Maldito! Mil vezes maldito!” Pensou Minos ao deparar-se com seu rosto pálido na superfície espelhada. Seu corpo doía e as olheiras roxas denunciavam que algo estava errado. A febre já começara e o fazia estremecer, de tempos em tempos.

Olhou para o corte no dedo e para as manchas arroxeadas em seus braços. Por que não ouvira os alertas que sua mente enviara quando vira Julian todo sorrisos junto à June? Num primeiro momento, achara que ele estava representando e continuara com o plano de envenenar a espada para acabar com Milo. Agora, a verdade se anunciava tardia e mortal. Julian e a vadia estavam juntos e, a espada envenenada não era a sua e sim a do gladiador!

Julian o traíra... Mas, mesmo que estivesse condenado, iria vingar-se dele. A vadia teria de esperar, pois sentia que sua vida estava se esvaindo... “Talvez os dois se encontrassem nos Subterrâneos para um acerto de contas.”

Com dificuldade, Minos ordenou que trouxessem a liteira e dirigiu-se até a domus de Julian. Chegando lá, como era íntimo, entrou direto pelo solarium, sem deparar-se com nenhum escravo e foi até o salão, onde seu sócio estava entretido com diversos pergaminhos.

Aproximou-se, sorrindo como se nada tivesse acontecido.

— Olá, Julian.

— Minos! Puxa, homem, mas que cara horrível? Está doente? Venha, sente-se aqui. Deseja que eu peça algo em especial? Um vinho, talvez?

— Não desejo nada, obrigado. Acho que peguei alguma doença daquela casa amaldiçoada. E você, o que está fazendo?- perguntou Minos, tossindo um pouco.

Estou fazendo uma lista de escravos a serem comprados. Vamos ampliar a ludus! Eu ia te mostrar, mas... achei que estaria cansado. Eu mesmo estava meio “fora” sabe? O vinho oferecido pela vadia era mesmo bom! – respondeu Julian com o seu tradicional entusiasmo.

Minos encarou-o e sorriu, aproximando-se devagar com a intenção de abraçá-lo.

— Ah, Julian... Ainda me lembro quando o acolhi e o tornei meu sócio. Éramos amigos de infância e eu sempre gostei de você.

— Éramos? Éramos não, nós somos! Veja, com esta lista que fiz de nomes em potencial, nós nos tornaremos maiores que Gemini!

— Amigos não traem, Julian... – disse Minos abraçando-o e sussurrando ao ouvido do jovem.

— M-Minos...o-o que... você?

Julian não concluiu a frase. Em meio ao abraço de Minos, sentiu a lâmina fria adentrar-lhe as costas e, de imediato, um gosto metálico de sangue subiu-lhe à boca. Seus olhos buscaram os de Minos que o encarava com ódio, enquanto enfiava o punhal mais fundo na altura dos pulmões.

— Você envenenou a minha espada! Você e aquela vadia armaram prá mim. Mas, você não vai viver prá colher os louros... Eu morro, mas você vai comigo!

As mãos de Julian se fecharam sobre os braços de Minos. Sua boca estava cheia de sangue e suas últimas palavras foram:

— P-Perdoe-me...

O sangue de Julian manchou a túnica de Minos, quando por fim, seu corpo escorregou e caiu.

Minos deixou a domus tão sorrateiro quanto entrara. Sentia que seu corpo cedia ao veneno e seu primeiro pensamento foi para Hades. Precisava vê-lo, tocá-lo uma última vez...

Dispensou a liteira e andou pelas ruas, tropeçando como se estivesse ébrio. Sentiu os cheiros, ouviu a gritaria... Seus pés tocaram a terra e ele percebeu a textura do pó e sorriu, sabendo que logo seria coberto por ele.

E quando chegou à domus do homem que amava, se permitiu morrer em paz...

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— E então, como ela recebeu a proposta? – perguntou Kanon.

— Bem demais, para o tipo de mulher que ela é. Entretanto, descrevi as cenas como se estivesse sendo benevolente e apelei para o bom senso feminino. June é inteligente, sempre foi. Sua inteligência sempre foi motivo de orgulho e será, também da sua queda. Agora, começa a segunda parte do plano. Deixaremos que ela tenha um amigo íntimo e descobriremos o que ela andou planejando e se... ainda planeja algo. — respondeu Saga servindo-se de vinho.

— Acha que ele será apropriado?

Saga sorriu e colocou o copo de vinho sobre a mesa. Olhou dentro dos olhos do irmão e disse:

Ninguém mais o seria tanto quanto ele. Afrodite é tão ou mais ardiloso que June. Ele a convencerá de sua lealdade e poderemos nos livrar dessa mulher, definitivamente. Ninguém me tira da cabeça que neste banquete tem o dedinho dele em alguns aspectos cruciais e inexplicáveis.

— Você acha? – perguntou Kanon franzindo o cenho.

— Hades saiu daqui, totalmente, fora de si. A maioria dos nobres sorria e agradecia, enquanto era enxotado. Ainda ontem, chegaram flores de agradecimento à domina pela noite memorável.

Bacanais são sempre memoráveis. June deve tê-lo instruído para oferecer um espetáculo diferente e excitante. Sabe como os nobres adoram sentirem-se poderosos e sem limites. – disse Kanon.

— Pode ser. Mas ainda acho que teve algo a mais, embora não tenha encontrado nenhum vestígio de drogas ou algo do gênero. Bem, o que quer que tenha sido, só saberei se alguém resolver falar e, sendo sincero, não sei se quero saber.

— Bem, vamos dar um passo de cada vez. Agora, tenho que encontrar Aiolia e...

Kanon foi interrompido pela entrada apressada do homem que acabara de pronunciar o nome.

— Senhores, eu venho informar-lhes que Minos faleceu. E seu sócio, Julian, também foi encontrado morto. Ele foi esfaqueado em seu lar. – falou Aiolia.

Saga franziu o cenho e Kanon também. A notícia os pegou desprevenidos e tanto um quanto o outro ficaram sem ter o que dizer.

— Teremos que ir ao fórum. Certamente, o corpo dele será levado para lá. – disse Saga.

— A homenagem no fórum será breve. Hades o levará para a Ludus Maxima segundo me informaram. – disse Aiolia.

— Por Júpiter o que está acontecendo em Roma? – disse Saga, mais para si mesmo que para os demais.

Kanon nada disse, guardando para si mesmo as inúmeras questões que lhe ocorreram sobre o assunto.

— Não sei, meus amigos, mas pressinto que tempos piores virão. – disse Aiolia.

Confinada em seus aposentos, June ouvira os cochichos das escravas, mas não se atrevera a perguntar nada. Quando Shina entrou, trazendo roupas limpas e a sua refeição do dia, ela arriscou fazer um comentário:

— Aconteceu alguma coisa? Ouvi uma movimentação diferente na domus, hoje. – disse June mordendo um pedaço de pão.

Dominus Minos e seu sócio, dominus Julian, morreram. – respondeu Shina.

— Oh, Pai dos deuses, que coisa terrível!— falou June levando a mão aos lábios.

— Parece que dominus Minos foi envenenado pelo senhor Julian e, antes de morrer, o dominus o matou. Pelo menos é o que estão comentando. – emendou Shina.

Pobre Julian e... pobre Minos, também. Admito que não simpatizava muito com Minos, mas Julian era tão alegre e bonito. Não é mesmo?

— Sim, domi...

Shina interrompeu sua fala. As ordens expressas de Saga eram para nenhum deles chamar June de domina.

June sorriu, compreensiva, e tocou, carinhosamente, a mão de Shina.

— É difícil, eu sei... Mas não me importo. Sei que... devo pagar por meus erros, mas espero que possa tê-la como uma amiga. Por favor, pode chamar dominus Saga, para mim? Preciso pedir-lhe algo.

Dominus nos proibiu de falarmos com a senhora e de atendermos qualquer pedido seu. – falou Shina.

— Tudo bem, deve obedecer ao seu senhor. Esqueça o que eu falei, sim? Apenas, por favor, peça a ele para vir aqui. Quero pedir a permissão dele para fazer um ritual de purificação.

Shina assentiu e se retirou.

Quando a escrava deu as costas, June tapou a boca para que não a ouvissem gargalhar e levantou-se da cama com um humor renovado. Pediria a Saga para que a deixasse purificar-se, quando na realidade, estaria fazendo uma oferenda de agradecimento aos deuses.

Ela tinha muito que agradecer...

Primeiro, agradecer a morte de Minos, aquele idiota pretensioso que ousara propor um embate com seu campeão e ir à sua casa sem ser convidado.

Como fora fácil usar Julian para atrair Minos para uma perfeita armadilha...

Os dois pensavam que as espadas estavam preparadas com veneno. Minos achava que era a sua. Julian, que era a de Milo.

O que nenhum deles contava era que o veneno destinado à Minos não se encontrava na espada e sim, no vinho frutuoso oferecido quando ele deixou a luta, derrotado e sedento.

Ela ainda lhe dera uma chance... água ou vinho, vida ou morte! E, ele escolhera... a morte! Bom menino...

Ela jamais arriscaria perder um gladiador como Milo para dois merdinhas que nem aqueles dois! Envenenar uma espada poderia, acidentalmente, ferir quem ela não queria...

Raivoso e enciumado, o estúpido Minos tomara um copo de vinho oferecido por um escravo sem desconfiar de nada e deixara a domus, acreditando que conseguira ferir e prejudicar o campeão de Gemini...

Quanto a Julian, bem, a morte dele tinha sido uma boa surpresa... Afinal, em algum momento, ela teria de se livrar dele também e até já tinha um plano engendrado para este fim...

O que Julian tinha de bonito, tinha de estúpido, e na mesma proporção! Quando ela planejara, apenas um pequeno e inofensivo sequestro para afastar Saga da domus e incriminar Minos, ele contratara bandidos incompetentes que acabaram machucando seu marido e sendo mortos, logo a seguir. Ainda existia esse fio solto para amarrar, antes que Kanon avançasse em suas investigações...

No entanto, os pergaminhos contendo informações sigilosas sobre as finanças e os pequenos desfalques que Julian tinha efetuado, agora estavam expostos e justificariam a sua morte por vingança. No fim, a estupidez dele tinha servido para fins nobres... Tudo havia se encaminhado para o seu sucesso!

Os deuses lhe eram benéficos e bons!

— Ah, meu grande e bom deus Marte. Devo a vós esse réquiem de sangue e juro que, assim que eu retomar meu lugar de direito, vos oferecerei o sacrifício de um lobo. Mas, enquanto isso não acontece, dê-me poder sobre os meus inimigos!

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Minos estava belíssimo e parecia adormecido, envolto em um manto branco com detalhes em ouro e prata. Fora colocado em um estrado forrado de seda vermelha, à semelhança de uma cama sem dossel. A pele clara não exibia a cor característica da morte e seu rosto estava sereno, como se a qualquer momento ele fosse despertar de seu sono...

O perfume de lavanda, misturado ao sândalo e mirra evocava lembranças em Hades, que fizera questão de trazer os melhores Preparers Ex Mortuis, uma espécie de confraria da morte onde seus integrantes eram ensinados a deixar o corpo igual ao que era em vida. O quê e como faziam, era um segredo que nem mesmo Hades ousava questionar. Seu desejo era, apenas, oferecer sua última homenagem para Minos, para o objeto de um amor que havia sido perdido, brutalmente, para a morte...

Hades fez o laudatio e todos os presentes colocaram as máscaras representando os antepassados da Casa de Griffon lembrando em voz alta, as conquistas de Minos e exaltando as qualidades que ele possuía. Flores e coroas se espalhavam pelo atrium e um farto banquete foi oferecido em honra ao morto.

Quando todos saíram, Hades permaneceu ao lado do corpo. Ao amanhecer, Minos seria levado em um cortejo até a ludus de sua casa e lá ficaria durante oito dias até ser, finalmente sepultado em sua tumba e descansar.

Uma luz prateada invadia o atrium, projetando-se sobre o chão e o corpo de Minos, criando um halo fantasmagórico, como se ele fizesse parte de um mundo sobrenatural. Por alguns segundos, Hades imaginou que ele abriria os olhos e que lhe diria algo com seu humor ácido e seu olhar mordaz. No entanto, os olhos dele não mais se abririam, e a última imagem que ficara gravada deles, fora a expressão de um amor que o responsável pela Ludus Maxima jamais se permitira corresponder.

As mãos longas e macias de Hades tocaram a face sem vida e, também, os lábios que ficaram entreabertos. Lembranças e sensações se sobrevieram ao toque e seu corpo reagiu...

Saudade... Tesão....tristeza.

Beijou os lábios frios de Minos, como se a paixão contida em sua boca pudesse incendiar o corpo que outrora se oferecera a si e que agora jazia inerte. Sentiu o próprio corpo doer, cada movimento exigindo um esforço supremo.

A recomendação do médico fora que fizesse repouso absoluto e, no entanto, ele ficara envolvido nas homenagens e, mesmo com uma visível dificuldade, permanecera firme ao lado de Minos. A força para tudo isso, vinha do desespero contido, da certeza do adeus...

Hades estava ofegante e já não pensava com clareza, agia como se estivesse possuído, tomado pela energia de um incubus que, ao invés de roubar a energia dos vivos, tentava infligir vida nos mortos. Retirou suas vestes, o corpo nu coberto de marcas arroxeadas e avermelhadas. Cada movimento seu, acompanhado de dor...

Com cuidado, despiu Minos e acariciou, lentamente o tórax e os mamilos, descendo até as coxas e abrindo-as. Olhou-o, febril e transtornado, imprimindo um tom mais forte às carícias, até sentir que a pele fria parecia acolhê-lo.

Eu... te amo. – sussurrou Hades contra os lábios de Minos, e sua mão acariciou-lhe o interior da coxa, antes de posicionar-se para penetrá-lo.

Em sua mente, Hades revivia os momentos de erotismo intenso, da carne rija de Minos, da força sensual que emanava do corpo quente...

Minos rindo, se entregando e sentindo prazer na dor e nos jogos de submissão. Gemidos permeados pelo seu nome, gritos, o peito arfante... O interior quente.

Minos... você sempre será meu...meu! Gritava sua mente em meio à necessidade de possuir o corpo lívido, uma última vez.

Um grunhido de ânsia lhe escapou da garganta e se transformou em um soluço agoniado quando ele deslizou para dentro de Minos, penetrando-o com dificuldade, mas ainda assim com tanta força que o corpo sem vida balançou de um jeito grotesco.

Hades continuou estocando fundo, como se estivesse com uma fome pulsante que tornava seus movimentos selvagens, quase animalescos. Então, ele estremeceu, os músculos do pescoço tensionaram para trás e um gemido alto e estrangulado pareceu rasgar-lhe a garganta e ecoar por entre as colunas brancas e gélidas...

O orgasmo aflitivo sacudiu-o, em meio aos tremores convulsos do seu corpo, intimamente unido ao cadáver de Minos. Dor, frieza, calor, morte... misturados ao horror explícito que se esvaía, assim como o sêmen por entre as pernas de Minos.

Hades agarrou-se ao corpo do amado, rendendo-se ao vazio doloroso e a angústia que queimava em seu coração. Lágrimas torturantes queimaram seus olhos e banharam a pele fria de Minos. E, enquanto vivenciava aquele momento íntimo e inusitado, uma voz feminina cortou o ar, num tom jocoso que tirou a dor para vestir com a fúria os olhos ensandecidos de Hades.

— Que eu saiba, necrofilia é um crime considerado hediondo em Roma! – disse Pandora.

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— Não gosto desta história, Afrodite. Já começo a pensar que erramos em interferir no...

— Shhhhh! Sem detalhes e sem nomes, Alba. – disse Afrodite levando o dedo indicador aos lábios. – Como diz o Milo, fica frio, eu sei o que estou fazendo.

Amigo da víbora, irmão? Ela não vai engolir isso!

— Ah, ela vai sim! Principalmente depois que eu compartilhar um segredo íntimo com ela. A víbora adora uma intriga...

Aquilo não, Afrodite! Nós juramos nunca...

Nós juramos? Você jurou! Eu nunca fui conivente com essa história, portanto, é algo que vou usar para ajudar o dominus. Aliás, ele nos uniu e você deveria ser mais agradecido por isso!

— Eu sou muito grato!

— Pois não parece.

— Está sendo injusto. Sirvo à Gemini muito além do que esperam de mim.– disse Albafica ficando sério e emburrado.

— Está bem, vamos deixar assim. Precisamos conversar hoje à noite. Fale com Camus e vamos nos reunir. Depois dos últimos acontecimentos, precisamos ter um mesmo discurso e agir em conjunto.

— Eu vou, mas, por favor, repense essa história de contar o nosso segredo.

— Pensarei, agora vá. –falou Afrodite com um ar enfadado e o tipo de olhar que Albafica conhecia muito bem e que dizia: Farei o que eu quero e pronto!

Shina uniu-se a Albafica e ela confidenciou-lhe o pedido de June. O escravo suspirou e olhou na direção de Afrodite que organizava os afazeres da casa e lembrou-se da fala do velho Krasso: “Você sempre foi orgulhoso, Albafica. A sua origem é responsável por isso... Espero que ela não seja o seu fim”.

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A velocidade da bofetada pegou-a desprevenida, assim como a mão forte pegando-a pelos cabelos e quase os arrancando. O grito que lhe escapou da boca ecoou, retornando aos seus ouvidos em meio ao ato violento.

— O que faz aqui? – perguntou Hades puxando-a de encontro ao corpo nu.

— V-Você... me chamou... – respondeu Pandora com dificuldade, o lábio inferior cortado e sangrando.

— Eu disse para esperar-me na domus!

— E-Es-tá tudo b-bem... E-Eu... não vi nada! – gaguejou ela.

Hades soltou-a e levou a mão aos cabelos. Seu olhar insano recaiu sobre a face delicada e trêmula de sua prima.

Saia daqui! Espere-me em minha casa. – disse ele, seco.

Pandora obedeceu, porém quando saía, Hades a chamou:

— Espere! Vamos acabar logo com isso. O que quero de você é muito simples, vá até a casa de Gemini e leve uma mensagem minha para June. Desejo falar com ela às sós e em um lugar privado.

— June? Eu, visitar aquela... provinciana? Se bem que, pelo que falam, ela mudou bastante e se tornou uma anfitriã quase perfeita.

— Se eu bem me lembro, vocês duas foram bastante próximas.

— Isso foi antes de ela... arruinar minhas chances de casar com Saga! Ela me traiu.

— Não importa. Você resgatará essa amizade e será minha porta-voz. Vai observá-la nas mínimas atitudes e palavras. Quero saber tudo sobre essa mulher. Como é a relação dela com Saga, se tem algum amante e como o marido reagiu ao banquete que ela ofereceu.

Pandora olhou para Hades e seu semblante mudou, voltando a ser sorrateira e sorridente.

— E... O que eu ganho com isso?

Hades olhou-a com desprezo.

— Você já ganha mais do que o suficiente! Não basta ser uma vagabunda livre e rica? Eu a sustento desde que enviuvou do seu terceiro marido, gastando horrores e acabando com a herança que ele lhe deixou. Suas necessidades me custam caro.

— Ah, meu querido primo... porque insiste em tratar-me de forma tão grosseira? Sempre lhe fui útil... As festas que ofereci ao Imperador e os meus... favores, ajudaram bastante para que ele o escolhesse, lembra? Ambos somos úteis, um ao outro.

— Faça o que eu mandei e continuará com suas regalias.

— Está bem. Mas, para eu aparecer assim, na casa de June, preciso de um motivo. O que sugere?

Os olhos acinzentados de Hades adquiriram um estranho brilho.

— Diga-lhe que o banquete que me ofereceu deixou-me... sedento por emoções mais fortes. Entretanto, com a tragédia da morte de Minos, creio que não será possível uma festa naqueles moldes. Porém, em homenagem ao cônsul, eu farei um torneio aberto a todas as ludus , inclusive à maior de todas, a Ludus Maxima. Os gladiadores escolhidos pelo Imperador lutarão neste torneio.

Pandora sorriu.

— Dizem que o Imperador adora os trácios... Que os lutadores da Ludus Maxima são quase invencíveis e que ele os está reservando para a grande inauguração. – disse ela.

— Pois eu o convencerei de deixar que lutem antes. Será um torneio de vida ou morte. Somente os melhores chegarão à final e aí sim, lutarão na inauguração da nova arena.

— Eu ouvi, certa vez, que um trácio é capaz de foder por várias horas e com várias mulheres, ao mesmo tempo. Que seu pau permanece duro até que a mulher goze muitas vezes. Gostaria de verificar se... é verdade ou lenda. – disse Pandora rindo.

— Faça tudo direitinho e talvez tenha a sua oportunidade. Diga à sua amiga June que prepare seu campeão. Depois marque um encontro com ela daqui a dois dias nas catacumbas fora da cidade. Diga-lhe que o assunto é urgente e que conto com a presença dela. Agora deixe-me. – falou Hades.

— Hades... – disse Pandora, agora com o semblante sério.

— Sim?

— Eu sinto muito pelo Minos. De verdade. Eu gostava dele e... tenho boas lembranças do tempo em que nós três éramos...inocentes.— disse ela com um sorriso triste.

Hades permaneceu calado e quando Pandora saiu, olhou na direção de Minos. Inocentes... Sim, haviam sido, um dia. Um dia ele acreditara que tudo poderia ser conquistado de forma justa e verdadeira. Que a proteção do homem estava em sua honra.

Nada mais era tão simples. A vida mudara e ele, também.

E agora, em meio a todo aquele turbilhão, lembranças desagradáveis lhe vinham à mente. Rostos e toques grosseiros, o riso e a expressão de escárnio de dois homens cujos belos rostos dançavam em meio a tudo isso. A domina e sua conversa aliciante, adulando-o, enquanto tudo parecia se encaminhar, apenas para o prazer...

Minos estava morto e ele havia sido sodomizado. Havia uma ligação entre os fatos, embora nada se encaixasse como deveria. Não havia inocência na sociedade romana. Todos buscavam seus interesses e eram capazes de chegar às últimas consequências para obter sucesso.

No entanto, sua memória sempre fora seu maior trunfo e sua inteligência, a arma mais eficaz dentro daquele universo de intrigas e jogos de poder... Ele não chegara ao posto de cônsul e responsável pela Ludus Maxima por sorte ou um golpe do destino. Era o homem de confiança do Imperador e já provara, muitas vezes, ser a escolha certa para ajudar na manipulação das vontades do povo de Roma. Portanto, quem havia mexido com ele, havia mexido com o homem errado!

“Enterrar meu corpo,

no cemitério

de teu sorriso…

é voo impreciso,

e minha língua prova

as asas de tuas salivas…”

Notas finais
Muitos agradecimentos!!! Tantos elogios, carinho e paixão nos reviews me deixam flutuando!!!! Obrigada mesmo!!!! JANENEGUME, ANGELIQUE, CARLOS SAMA,MILILIKA, SHALL, MEL DARK, PRESÉFONE_SAN, GUIMA, KIRA FOX, DDDKAROLINA, KEMYLLY, HITSUJIKAI ATSUYA, VANESSA BRAGA DA SILVA, SION NEBLINA, JOYCE e todos os silenciosos que favoritam para ler de mansinho...*risos!!! Algumas coisinhas da fic: ***Preparers Ex Mortuis= preparadores dos mortos. Isso já é uma viagem minha. Pensei nisso, porque as funerárias tem pessoas que maquiam, preparam o corpo e eu imaginei que nesta época podia haver algo semelhante. ***laudatio= discurso que é feito em honra de quem morreu. ***incubus= demônios que sugam a energia vital dos vivos através do ato sexual. ***Necrofilia= Necrofilia (do grego νεκρός [nekrós], "morto", "cadáver", e φιλία [filía], "amor") é uma parafilia caracterizada pela excitação sexual decorrente da visão ou do contato com um cadáver. Pobre Hades... ***Trácios. Foi um povo hindu-europeu que habitavam a Trácia, Bulgária, Romênia, Moldávia, nordeste da Grécia, Turquia, leste da Sérvia e partes da Macedônia. Muitos deles, escravizados, deram excelentes gladiadores.