Entre o Amor e a Espada
17 Capítulo 17 BATISMO DE FOGO
Máscara da Morte olhou para a sacada e sorriu ao ver Afrodite ao lado das duas mulheres que se abanavam e cochichavam algo. O belo escravo piscou, mesmo sabendo que, talvez, daquela distância, o gladiador não perceberia.
Pandora riu, estridente, para chamar a atenção e uma ideia deliciosamente perversa passou pela mente de Afrodite que, solícito, pediu licença e foi orientar os outros servos.
Na adega, buscou uma ânfora de vinho mediterrâneo e, em seguida, foi até a cozinha onde ficavam potes contendo especiarias. Reconheceu uma erva usada como remédio para gases e sorriu.
Usando uma quantia maior que o usual, Afrodite batizou a bebida com Pimpinella anisus, tendo o cuidado de adicionar também o cravo e a canela, ingredientes que domina apreciava, misturado ao vinho.
Chamou uma das escravas e ordenou que levasse o vinho até as duas senhoras, tendo o cuidado de posicionar as taças de acordo com a posição em que ambas estavam na sacada. Depois, selecionou bolinhos de aveia fresca contendo passas de uva, organizando-os numa bandeja de prata e levando-os, logo a seguir.
Sorridente, Afrodite observou a avidez de Pandora ao comer e beber. A aveia provocava sede e, por sua vez, fazia-a beber mais vinho.
Isso, minha querida... Coma e beba à vontade! Pensava o escravo, sentindo um imenso prazer no que resultaria da gula de Pandora.
Os gladiadores se alinharam, mais uma vez sob o sinal do Doctore. Milo olhou para o alto, mas Camus não estava lá. Voltou ao treino e foi falar com Máscara da Morte que não despregava o olho da sacada.
— Tá de enrosco com o Afrodite... – cochichou Milo.
Máscara olhou-o com o cenho franzido, mas não disse nada. Não costumava falar sobre suas relações, nem confiar em ninguém.
— Fica frio, eu e o Afrodite somos amigos, apenas isso. — falou Scorpionis.
— Sei... teu negócio, agora, é o ruivo de nariz empinado.
— Ei, o Camus não tem o nariz empi...
— Máscara da Morte e Milo! No centro! – falou Manigoldo estalando o chicote e interrompendo a conversa.
O moreno encarou Milo com uma seriedade silenciosa. Ergueu o gládio e atacou com força, produzindo aquele som característico do aço e fazendo Milo recuar e sorrir.
— Tá a fim de se mostrar pro Afrodite ou para as mulheres? – provocou Milo.
— Cala a boca e faz o que sabe fazer! – falou Máscara já perdendo a paciência.
Milo baixou as espadas e deixou o tórax desprotegido. Nesse momento, Pandora bebeu mais um gole de vinho, mordeu seu terceiro bolinho e perguntou:
— Por Júpiter! É cada um mais bonito que o outro! O loiro com o moreno gostoso... Quem é?
— Milo, o nosso campeão. – respondeu June.
— Pelos deuses... ele é tudo o que dizem e muito mais. – falou Pandora excitada e, de repente, um som característico acompanhado de certo odor se fez ouvir em alto e bom som. Purrrummmmmmmmmmmmmmmmm!
— Argh! Pandora! – disse June levando a mão ao nariz.
O rosto de Pandora ficou rubro. E quando ela tentou se desculpar, o que saiu pela sua boca foi outro som, alto e longo como o anterior:
— Buuurrrrrrrrrrrrppppppp! D-Des... Desculpe!
Enojada, June levantou-se da cadeira e o gesto chamou a atenção de alguns gladiadores que riram, entendendo que alguma coisa havia acontecido e pela expressão da ex-domina era algo muito desagradável...
— A-Acho melhor me retirar. Meu estômago é muito sensível e... Oh, Júpiter!— disse Pandora se levantando também.
Desta vez não houve nenhum som, porém algo quente e de odor fétido escorreu pelas pernas de Pandora. June ficou boquiaberta e Afrodite controlou-se ao extremo para não cair às gargalhadas.
— Pandora...?! — falou June.
Alternando entre o pálido e o rubro, Pandora nada disse e saiu correndo porta à fora sob o olhar atônito de June e malicioso de Afrodite.
— Não querendo ser desrespeitoso, mas... que merda, hein? – comentou o escravo.
June encarou-o com o cenho franzido, olhando-o cuidadosamente.
— Por acaso... você teve algo a ver com isso?
— Credo domina! Claro que não! Ambas comeram a mesma comida e beberam do mesmo vinho. Por acaso sente alguma coisa?
— Não.
— Então? Está muito claro que essa Pandora não possui bons modos e age como uma porca! Que nojo!— falou Afrodite empinando o nariz.
— Tem razão, ela nunca foi um exemplo de educação. Lembro-me dela e Minos fazendo concurso de arrotos quando crianças.
— Que Júpiter Optimus Maximus nos proteja! Agora, se me permite, domina, está na hora de voltar aos seus aposentos. Logo dominus Saga voltará do mercado.
— É verdade. – disse June suspirando. – Quase esqueço que não possuo minha antiga liberdade e... posição.
— Não se preocupe com isso... Logo, logo, tudo mudará. – falou Afrodite sorrindo.
— Assim espero. E... Afrodite?
— Sim, domina.
— Se você tivesse algo a ver com o que aconteceu com Pandora, teria minha eterna admiração e respeito. Aquela vadia merece todo o mal que recair sobre ela!
— Infelizmente, domina, vou ficar lhe devendo. Desta vez, foi a natureza e não eu a causa daquela cena deprimente. Mas, quem sabe no futuro?
— Você é tão cruel, Afrodite... – falou June rindo.
O escravo sorriu de volta, agindo como se nada tivesse acontecido. June era perspicaz, mas ele era muito mais...
0000****0000****0000
Hades estava sentado como uma bela estátua. Envolvido em seus pensamentos, não notou a presença de Kanon adentrando o senado e direcionando o olhar na sua direção.
— Cônsul! – chamou Kanon.
No instante em que ambos se olharam, o Imperador se fez presente, cortando aquele momento.
— General Kanon! Que grata presença, estava mesmo com vontade de lhe falar. – disse Titus.
— Será uma honra. – respondeu Kanon saudando-o.
Hades aproveitou para retirar-se e encaminhar os preparativos para a viagem à Cápua. Dali a três dias seu plano seria executado e, se os deuses soprassem sobre ele, teria o sucesso que almejava.
Ao sair, viu que Kanon ainda o observava mesmo que tivesse de dar atenção ao Imperador. Sentiu-se satisfeito, pois sabia que o general assim como Saga, tinha toda a razão de temê-lo. Em breve, a Casa de Gemini seria, apenas, uma lembrança...
— Então general, como tem mantido nossas tropas, em tempos de paz?— perguntou o Imperador.
— Todos têm cuidado de suas famílias e negócios, inclusive eu. – respondeu Kanon.
— A arena tem mantido os ânimos, mas precisamos estar atentos. Os bárbaros têm o seu valor e não podemos deixá-los expandir.
— Está falando dos gauleses?
— Gauleses, trácios, celtas... temos de ficar atentos e mostrar quem é o senhor.
— Por isso o torneio em Cápua?
— Hades achou por bem exibirmos nossos gladiadores e os das casas mais importantes de Roma. Será um grande espetáculo, pode ter certeza. Aliás, sua Casa contribuirá com os melhores do momento, não é mesmo?
— Sim, meu senhor.
— Ótimo! Tive o prazer de assistir uma luta informal do seu Scorpionis. Espero que ele tenha o mesmo desempenho no torneio. Se bem que... meus trácios são invencíveis! – disse o Imperador rindo e sorvendo um gole de vinho.
— Veremos. – respondeu Kanon. – Agora, se me dá licença, tenho que ajudar meu irmão nos preparativos da viagem.
Titus assentiu com um movimento de cabeça e tornou a servir-se de vinho. Kanon deixou o senado a passos largos. Frustrado, por não poder confrontar Hades, contentou-se em conversar com alguns cônsules e sentir neles a mesma preocupação. Cápua parecia um caldeirão quente e borbulhante. Levar um espetáculo daquele porte para lá ocultava outras intenções...
0000****0000****0000
Os treinos foram rigorosos e, na noite anterior à viagem para Cápua, os gladiadores tiveram a oportunidade de se divertir antes de enfrentar a dura realidade da arena.
A noite estava agradável e até um pouco quente e todos estavam juntos bebendo, rindo e conversando no pátio. Afrodite contava o que havia acontecido na visita de Pandora, enquanto Zelos segurava o rosto entre as duas mãos e suspirava.
— Acho que me apaixonei por essa domina...— disse ele sob um coro de gargalhadas.
— Já imaginou se ela solta um "daqueles"naquela hora, Zelos?— brincou Aldebaran.
Mu riu, enquanto El Cid e Albafica sacudiam a cabeça, tentando não rir.
Camus estava pensativo e pouco participava das conversas, embora de vez em quando se mostrasse atento ao que era dito. Milo abraçou-o por trás e cochichou em seu ouvido:
— Vamos aproveitar que o dominus retirou-me do castigo e ir ali atrás, um pouquinho?
O ruivo sorriu, encarando os olhos brilhantes e safados de Milo.
— E fazer o quê, gladiador? Precisa manter as forças para amanhã.
— Minha força está nesse seu corpo quente e gostoso. – respondeu Milo mordiscando-o no pescoço.
— Então... me tome e se torne invencível. — sussurrou Camus esfregando, discretamente, a bunda no corpo colado ao seu.
O gladiador sorriu, sentindo sua ereção formar-se numa resposta rápida. Os outros continuavam a rir e não perceberam quando os dois se esgueiraram devagarinho...
Na cela, Camus, novamente, surpreendeu Milo.
— Você quer força, não é? Então, fique bem quietinho e não faça nada. – ordenou ele empurrando o gladiador sobre a cama.
Surpreso, Milo ergueu os olhos em direção aos dele e sentiu o seu membro enrijecer ainda mais ao ver o desafio que havia estampado neles. O ruivo despiu as roupas e logo arrancou a subligária do amante. Os dois riram um tanto apressados e excitados com a visão do corpo um do outro...
Camus se aproximou e sentou no colo de Milo, beijando-o lenta e profundamente. Sempre que ele fazia isso, Milo sentia o desejo ferver em desatino, algo que não tinha explicação. Era, apenas, uma sensação intensa que jamais havia vivenciado em nenhuma das suas relações e que preenchia algo dentro de si com sentimentos bons.
Quando as bocas se afastaram, Milo pressionou os lábios contra a clavícula de Camus e o viu jogar a cabeça para trás e sorrir. Como amava vê-lo sorrir daquele jeito, outro prazer inexplicável que sentia aquecer seu peito todas as vezes que o tinha nos braços.
Finalmente, após o roçar de lábios no pescoço e de mais um beijo molhado e alucinante, Camus montou sobre Milo, apoiando os joelhos de cada um dos lados dos seus quadris. Depois se alçou sobre ele, afastando as coxas para tomá-lo dentro de si.
Quando Milo levou as mãos aos quadris de Camus, ele as afastou.
— Não. Sou eu quem comanda, agora. – disse Camus mordendo o lábio e guiando o falo de Milo pra a sua entrada.
Tudo o que Milo podia fazer era ver, esperar e sentir... Estava tão excitado que deixou escapar um gemido estrangulado quando Camus fechou os olhos tomando apenas a glande dentro de si.
Milo soltou o ar que vinha segurando até então. Camus era sempre apertado e a sensação de ter o seu membro esmagado daquela forma era prazeroso por demais... Podia sentir a entrada de Camus dilatando lentamente para tomá-lo por inteiro, centímetro por centímetro, dentro de si, de maneira incrivelmente lenta.
Camus abriu os olhos e o encarou.
— Isso é... Muito bom. — disse rouco e passando a língua nos lábios.
Milo ofegou e controlou-se para não agarrar aquelas coxas com fúria e tomar-lhe a boca. Camus percebeu e levou os dedos aos lábios do amante, fazendo-o gemer enquanto deslizava para cima e para baixo, lentamente, girando os quadris em torno dele, numa dança lenta e sensual que estava deixando o outro, completamente, louco.
Em pouco tempo o desejo de entrar fundo dentro de Camus tomou conta de Milo. Ele tinha que dominá-lo, tomar-lhe o corpo, fazê-lo tremer e render-se. Seus músculos poderosos ardiam de vontade de se mover, de entrar mais fundo dentro de Camus, com mais força, mais rapidez, mais intensidade, mas o ruivo permanecia impassível no comando absoluto da situação.
O gladiador tentou desviar a atenção, qualquer coisa que pudesse fazer com que se adequasse àquele ritmo torturante de Camus, mas nada adiantava...
Finalmente, com um profundo alívio, ele percebeu que o controle do ruivo estava começando a ficar precário. Sua respiração estava arfante e ele se erguia, quase deixando que o membro escapasse.
Ergueu levemente os quadris para ele soubesse que estava em seu limite e sorriu ao ver que Camus já perdia seu famoso controle e entreabria os lábios...
Camus aumentou o ritmo, sabendo que Milo queria que ele se movesse mais rápido e com mais firmeza. Ele também já não estava aguentando, mas estava adorando ver aquela expressão no rosto de Milo quando inclinava o corpo para frente e provocava os lábios carnudos com a ponta dos mamilos túrgidos.
Milo gemia como nunca, seus olhos estavam injetados, a pele suada e todos os músculos contraídos. A expressão em seu rosto refletia um misto de prazer e dor à medida que Camus o ia provocando, fazendo-o chegar à fronteira do clímax...
— C-Camus... e-eu... – disse ele sem conseguir concluir a frase.
— O que foi? – murmurou Camus em seu ouvido ao deslizar sobre ele mais uma vez, tomando-o por inteiro dentro de si. – Olhe para mim, Milo. Sinta o meu corpo. – disse ele cavalgando-o com mais força. – Goze dentro de mim.
— E... você? – perguntou ele rangendo os dentes, num esforço extremo.
— Eu já estou um passo à sua frente... Vou gozar com a sensação incrível de ter você, inteiro, dentro de mim... Je t'aime, Milo— respondeu Camus, ofegante, misturando sua língua materna ao que falava.
Milo estava atordoado, mas o tom das palavras de Camus o excitou em um nível ainda maior. Deteve as carícias intensas que suas mãos faziam nas costas de Camus, agarrou-o pelos quadris, e, com uma força descomunal, ergueu o peso do ruivo com as mãos até conseguir se recostar na parede e projetar seus quadris para cima, rápida, intensa e freneticamente.
A base da pélvis dele bateu repetidamente contra a de Camus e, de repente, era o ruivo quem estava gemendo, enquanto ele estampava um sorriso diabólico e sentia os tremores do gozo invadir-lhe o corpo. Seus dedos afundavam na carne alva de Camus deixando marcas, mas o ruivo mal se dava conta disso, arfando e gemendo sob as carícias e a penetração forte...
Em um movimento brusco, Milo inverteu as posições e jogou Camus de costas sobre a cama. Seu corpo colou-se ao dele e seu falo enterrou-se mais fundo, fazendo Camus gritar e jogar a cabeça para trás tomado por um orgasmo avassalador que estremeceu ambos os corpos e os fez crispar os dedos na carne um do outro.
Milo gozou junto, agarrando-se a Camus com força e buscando-lhe a boca para invadir com seus gemidos, enquanto se esgotava dentro dele em espasmos violentos.
— Você está se tornando cruel... – murmurou Milo, ainda arfando rente aos lábios de Camus.
O ruivo sorriu e lambeu-lhe os lábios com a ponta da língua.
— Eu gosto de te sentir meu...
Milo estreitou os olhos e acariciou o rosto afogueado de Camus. Depois, beijou-o devagar antes de sair de dentro dele.
— Sou todo seu, ruivo... sempre serei.
Camus sorriu, novamente, e afundou os dedos nos cabelos fartos de Milo, beijando-o e roçando o nariz naquele rosto belo que o encantara e que descobrira amar desde sempre, desde que ele lhe sorrira pela primeira vez e o fizera sentir pertencente aquela casa repleta de homens fortes e senhores generosos.
Em silêncio, Milo estreitou-o ainda mais junto ao corpo saciado, porém com uma pontinha incompleta sinalizando em seu coração. Desejava ouvir, apenas uma vez, o que Camus jamais dissera: Eu te amo.
Às vezes, ouvia o ruivo dizer palavras em sua língua materna, mas era sempre em meio ao orgasmo e nunca perguntara o significado delas. Hoje ele dissera, mais uma vez... talvez significasse gostoso ou que ele sabia foder bem. Na próxima vez, não se esqueceria de perguntar.
Adormeceu escutando suspiros e gemidos nas outras celas, tendo Camus abraçado a si com aquele cheiro bom que exalava da pele alva. Como o amava... Pensou sentindo a respiração baixa do amante junto ao pescoço e adentrando os domínios do deus Somnus...
0000****0000****0000
Cápua fervilhava. Carroças, gritos, aromas, crianças e mulheres olhando-os como se fossem deuses.
Os gladiadores da Casa de Gemini e os da Ludus Maxima eram recebidos sob um céu claro e muita expectativa. Todos queriam vê-los, tocá-los, senti-los reais...
Dos servos da sua casa, Saga trouxera Camus, Albafica e Afrodite para cuidar dos gladiadores caso algum se ferisse e atender a ele e Kanon no que fosse necessário. June permanecia, ao seu lado, e agia como se tudo estivesse normal, sorrindo e abanando para o povo.
— Onde vamos ficar? – perguntou Saga tentando localizar seus anfitriões.
— Sejam Bem-vindos à Cápua! – disse uma voz alta e alegre surgida da multidão. – Eu sou Vespaciano, Pretor desta humilde cidade, domini Saga! Fui incumbido de recebê-los e instalá-los como merecem. Meu servo se encarregará de levar seus servos e gladiadores para as celas na própria arena, enquanto iremos até a minha Villa.
Saga estendeu a mão e sorriu.
— Agradeço a hospitalidade, Pretor. Entretanto, meus servos pessoais ficam comigo. – disse o cônsul.
— Oh, mas é claro. Que indelicadeza a minha. Vou acomodá-los junto aos meus. – respondeu Vespaciano enxugando a testa que exibia algumas gotas de suor.
Kanon cumprimentou-o educadamente, mas sério. Embora, aparentemente, estivesse tudo perfeito, ainda assim, algo o incomodava.
— Por que os gladiadores ficarão na arena? Não me parece um espaço adequado para acomodações de tantos homens. – questionou Kanon.
— Pode ficar tranquilo, dominus, meu servo saberá conduzir seus homens e logo poderá verificar se tudo está ao seu contento. – disse Vespaciano notando a hesitação de Kanon.
— Se não se importa, dominus, eu acompanharei o seu servo, enquanto meu irmão o acompanha. Assim já conheço sua arena, famosa em Roma e além. Tenho que admitir que estou curioso. – disse Kanon num tom cordial.
— Como quiser! Octávio faça às honras ao dominus e atenda-o em todas as suas necessidades. – falou o Pretor.
Octávio inclinou-se, olhando baixo, mas sem deixar de observar a beleza viril de Kanon. A pele bronzeada de sol contrastava com o verde dos olhos e o ouro dos cabelos bem penteados. O servo, acostumado a satisfazer os nobres, em todos os seus desejos, pensou: se aquele, em especial, o quisesse, o agradaria com muito prazer.
— Acompanhe-me, por favor, dominus. — disse o escravo.
Kanon obedeceu, notando a voz macia e os olhares do servo. Podia usar aquele interesse para saber mais.
— Serve ao Pretor há bastante tempo? — perguntou o general.
— Desde menino. – respondeu Octávio.
— Quem ficará guardando os gladiadores? Aliás, sabe de quem foi a decisão de deixá-los confinados na própria arena?
— Meu senhor foi procurado pelo grande cônsul Hades. Os dois planejaram tudo juntos. Meu senhor dispõe da sua guarda pessoal para vigiar a arena e o cônsul trouxe alguns homens, também. Ah, e não podemos esquecer as feras. Elas funcionam como perfeitas guardiãs.
Grande Hades. Pensou Kanon ao ver a admiração explícita nos olhos do escravo. De alguma maneira, o cônsul havia enredado a todos em seus planos.
— Feras? – indagou Kanon.
— Sim, feras. Temos esse diferencial aqui em Cápua. Leões e tigres trazidos, diretamente da África, são treinados para participar dos espetáculos. O cônsul ficou muito contente em saber que no mês passado, duas leoas e dois tigres jovens foram presenteados ao Pretor. Dizem que estes animais eram excelentes matadores na África.
— E sabe se... Elas serão colocadas nesse também? – perguntou Kanon.
— Não sabemos. Os espetáculos são planejados pelos domini. É um segredo guardado a sete chaves.
Kanon respirou fundo e apertou o passo. Tinha que falar com Manigoldo e os gladiadores para prepará-los. Octávio notou a mudança no semblante do general e tentou sorrir.
— Não se preocupe, dominus, no final tudo dará certo. Afinal, nós escravos fomos criados para dar prazer, não? Será um espetáculo inesquecível.
O olhar de Kanon endureceu e, pela primeira vez, sentiu-se impotente naquela situação, o que o irritou, profundamente. Não disse nada e acompanhou Octávio que continuava tentando agradá-lo até perceber que aquele homem era diferente de todos que havia conhecido...
0000****0000****0000
Os gritos já podiam ser ouvidos. Os pés batiam frenéticos e ritmados. A arena já estava pronta para o primeiro dia do torneio em honra ao cônsul Minos.
A noite, anterior ao torneio, havia sido difícil para os gladiadores da Casa de Gemini. O ambiente interno da arena era quente e fétido. O cheiro dos animais e de suas fezes deixavam todos nauseados e as acomodações eram apertadas e sem nenhum conforto. Não havia esteiras, nem nada além de ânforas com água e pão dormido. Os companheiros do outro lado haviam feito barulho e arruaça o tempo todo.
Os gladiadores da Ludus Maxima e da Casa de Gemini disputavam o mesmo espaço, sendo separados por grades que só acentuavam o clima de provocação entre eles.
Falando em sua língua materna, os trácios apontavam e riam, fazendo gestos obscenos com as mãos e língua, enquanto o cheiro desagradável permanecia no ar.
— Não os encarem. – disse Manigoldo. – Não percam tempo nem energia. Dominus Kanon nos alertou para surpresas desagradáveis, então vamos poupar nossas forças para o combate.
— Porra, mas esse fedor... tá insuportável. – disse Milo.
— O puto do Hades fez isso de propósito. Quer nos deixar prejudicados para a luta. – disse Aldebaran.
— O cheiro é o de menos... Pelo que eu observei ninguém ali tem a marca e isso é muito estranho. – disse Manigoldo.
— Como assim? – perguntou Máscara da Morte.
— Eu conheço a marca da Ludus Maxima e nenhum destes cães aí a tem.
— Quer dizer que nos fizeram viajar tudo isso pra lutar com um bando de merda que nem pode ser considerado gladiador?— questionou Milo.
— Vamos esperar. – disse Manigoldo. – Pode ser que estejam, apenas, nos provocando e amaciando para a hora em que os gladiadores de verdade nos sejam apresentados. Hades quer ter a certeza da vantagem sobre nós.
— Isso é bem a cara do Hades... desleal até o fim. Mas ele não perde por esperar, vou aproveitar que este torneio é um tributo ao querido Minos e oferecer a ele as cabeças dessa ralé que ele colocou aqui pra nos insultar. Ao invés de pão e circo, será pão e sangue. – disse Milo irritado.
Os outros elevaram os braços e gritaram, em apoio à fala de Milo, o que deixou os adversários curiosos, já que não tinham ouvido bem o que fora falado.
— Os bastardos estão falando de nós. — disse um dos homens da Ludus Maxima.
— Vamos mostrar o que achamos deles. — falou outro que possuía um buraco no lugar do olho direito.
Todos se viraram e baixaram a subligaria mostrando a bunda e sacudindo-a perto da grade. Do outro lado, Milo e Máscara da Morte expuseram o falo dizendo:
— Querem chupar, putas? Não esperem que a gente meta nesse rabo sujo de vocês, escória de merda!
Houve tumulto e xingamento até os guardas aparecerem com lanças e chicotes, fazendo cessar o conflito. O espetáculo já ia começar e as ordens haviam sido expressas: “Nada devia tirar o brilho e a importância do torneio em honra a Minos”.
No palanque, Saga e Kanon esperavam a entrada de Hades que ainda não havia chegado.
Camus, Albafica e Afrodite observavam, ansiosos, e pressentiam que algo estava errado, mas ninguém lhes falara nada. Entretanto, Camus conhecia Saga e sabia que ele estava, profundamente, incomodado.
Ambos os gêmeos estavam sérios e irritados, fato percebido por June que, até então, apenas usufruíra da hospitalidade sem ser informada dos detalhes sórdidos.
— Permite que eu fale com você, meu marido? – sussurrou ela.
— O que quer? – perguntou Saga com um suspiro profundo.
— Saber por que está tão sério. – disse ela.
— Nossos homens foram acomodados em celas fétidas e apertadas. Os homens que Hades trouxe não possuem a marca e para completar, feras serão colocadas no torneio. Satisfeita?
June franziu o cenho. Não esperava que Hades fosse tão implacável assim, logo de início. Apesar de ter se aliado a ele, sentiu um desconforto inexplicável ao ver que ele levava vantagem. Devo estar ficando louca! Me aliei ao filho da puta, mas agora não sei se fiz a coisa certa. Se ele acabar com Gemini, porque há de importar-se em manter o nosso acordo?
— Oh! Esse calor...não me sinto bem! Posso descer com Afrodite e molhar o rosto? – perguntou June.
Saga sinalizou que sim e logo Afrodite acompanhou June até as escadas que davam para uma pequena sala contendo ânforas com água e vinho.
— Quando Hades colocar os pés na arena eu vou falar com ele. – disse June.
— Mas domina, ele estará acompanhado pelo Pretor e seu servo Octávio.
— É aí que você entra. Distraia o Pretor e aquele maldito servo aparvalhado dele.
— Eu? Distrair? Como? – perguntou Afrodite.
June olhou bem dentro dos olhos do servo.
— Não preciso ensinar-lhe a arte do embuste que você faz e muito bem! Agora deixe de perguntas tolas e faça!
Afrodite respirou fundo e tornou a olhar para a entrada da arena. Hades surgia, imponente, enquanto o Pretor mais parecia um palhaço obeso e suarento, acenando com aquelas pequeninas mãos gorduchas e sendo protegido do sol por seu servo Octávio.
Quando os dois adentraram as escadas que levavam ao palanque, Afrodite aproximou-se de um dos guardas e, tocando-o no ombro cochichou em seu ouvido:
— Pode levar um recado meu ao grande Vespaciano? Sou servo da Casa de Gemini e minha senhora sentiu-se indisposta. Gostaria de falar-lhe, mas como sou novo aqui, estou pedindo para um guerreiro maravilhoso como você para... me ajudar. Não quero interpelá-lo, diretamente. Seria falta de respeito, não é mesmo?
O guarda olhou bem o rosto de Afrodite e admirou-lhe a beleza, sentindo-se excitado com o brilho malicioso que percebeu naqueles olhos azuis, assim como a mão macia tocando a sua, sugestivamente...
— E o que eu vou ganhar com isso? – perguntou o guarda.
— Tudo o que quiser e... puder fazer, bonitão. – respondeu Afrodite mordendo o lábio inferior.
Animado com a perspectiva de foder com aquele belo jovem, o guarda tratou de dirigir-se ao Pretor, enquanto Afrodite corria de volta e sinalizava para June.
Assim que o guarda chegou perto de Vespaciano, Hades continuou andando e, quando se preparava para subir as escadas, June o parou.
— Pensei que tínhamos um acordo, dominus. — disse ela.
Hades olhou-a de cima a baixo e então sorriu.
— Não queria a destruição de Gemini? Não foi isso que buscou indo a minha casa altas horas da noite?
— Não posso recomeçar um negócio se matar todos os meus gladiadores!
— Ora, a Casa de Gemini se orgulha de seus homens invencíveis! Por que a preocupação?
— Não sou tola, dominus. Esse torneio não será simples e eu soube que permitirá a participação de feras. Bem sabe que este não é o costume em Roma.
Hades sorriu e pegou o queixo de June com força, fazendo-a sentir dor.
— Não pense que preciso de você e seus questionamentos sobre minhas ações! Fique ao lado do seu marido e observe. Hoje, todos aqueles que conspiraram contra mim, terão o que merecem.
— D-Dominus! Está... me... machucando.
— Volte para o seu lugar. – disse Hades, agora sério.
June encarou-o com os olhos úmidos.
— Eu voltarei. Mas deixe que eu lhe dê um conselho, dominus. Nem sempre a vingança imediata traz bons resultados.
— Diz isso por experiência própria? – questionou ele com escárnio. — E tem mais, aquele seu servo, Afrodite, eu o quero, quando tudo acabar.
June sorriu.
— Sinto muito dominus, mas agora, Afrodite é meu servo pessoal e não está a venda.
— Não seja tola em me enfrentar, minha cara.
— Estou indo, dominus. Vou assistir a tudo, como ordenou. – disse June dando as costas a Hades.
O cônsul franziu o cenho compreendendo que June não dissera tudo. Entretanto, não tinha tempo de questioná-la, o torneio deveria começar e ele detestava atrasos.
Vespaciano foi até Afrodite que recebeu-o sorrindo.
— Oh, dominus! Fico tão emocionado em estar diante de um homem tão viril e importante... Minha domina havia se sentido mal, mas já passou. Perdoe-me o incômodo! – desconversou Afrodite acenando para o guarda e sumindo pelas escadas.
Vespaciano gesticulou um “está bem” e correu atrás de Hades que já o aguardava no palanque.
Quando Hades surgiu, Saga e Kanon o encararam.
— Bom dia, senhores! É uma grande honra tê-los neste torneio. Eu peço perdão por deixá-los esperando. Mas, creio que as surpresas que reservei para hoje serão o meu “passe de perdão”.— disse Hades com um sorriso cruel.
— Antes de iniciarmos, cônsul, eu gostaria de saber, exatamente, quais surpresas além da péssima acomodação aos meus gladiadores o senhor tem para nos oferecer? – questionou Saga olhando dentro dos olhos de Hades.
— Mais uma vez peço desculpas, meu caro Saga. Cápua não tem a mesma grandiosidade de Roma e aqui, os escravos não tem regalias como em... Gemini. Mas, a surpresa que tenho diz respeito ao “Batismo de Fogo”, um ritual fechado em que os gladiadores ganham a marca da Ludus Maxima ao lutar com os melhores e mais experientes. Este ritual exige força, talento e uma condição física impecável. Eu trouxe este ritual para o torneio em homenagem a Minos que, prematuramente, nos deixou e darei a honra aos gladiadores de Gemini para que determinem quem merece pertencer a Ludus do Imperador!
Saga franziu o cenho e Kanon também.
— Está dizendo que o primeiro dia do torneio será para que seus homens se tornem gladiadores oficiais? – indagou Saga.
— Sim, cônsul Saga. Em nome do Imperador, dê-nos esta honra! A Casa de Gemini é lendária em formar gladiadores que valem seu peso em ouro, então, permita-nos sermos seus acólitos e nos honre com este Batismo de Fogo.— falou Hades elevando os braços e sendo ovacionado pelo público.
Sem ter o que dizer, Saga concordou. Hades havia, realmente, planejado muito bem. Só lhe restava rezar e acreditar na força de seus homens.
Ao término da fala de Hades, uma tocha foi trazida e os nomes foram anunciados.
— Mu de Áries, Aldebaran de Touro, El Cid, Máscara da Morte, Zelos de Sapo e... o famoso e inigualável Scorpionis lutarão pela Casa de Gemini e enfrentarão os aspirantes a gladiadores da Ludus Maxima: Niobe de Deep, Giganto de Ciclope, Ox de Górgona, Caronte de Aqueronte, Markino de Esqueleto e Flégias de Lycaon!
O público delirou, sentindo-se parte de um ritual que jamais fora revelado e que parecia ser sangrento e difícil, bem ao gosto do público.
Ao entrar na arena, cada um dos gladiadores de Gemini tinha um pensamento. Entretanto, a situação exigia que eles agissem diferente do esperado. Não seria cada um por si, embora, fatalmente, pudessem vir a se enfrentar por conta disso.
— É isso aí, pessoal. Nossa meta não é mostrar quem é o melhor e sim nos livrarmos desses filhos da puta! — disse Milo girando as duas espadas e erguendo-as como era a sua marca registrada.
Quando os doze estavam no centro da arena, um gesto de Hades fez descer a tocha e todos ficaram cercados pelo fogo. As feras foram trazidas e, assim que a barreira do fogo baixou, elas foram soltas e rondavam o círculo com uma expressão selvagem e faminta. Um murmúrio se fez ouvir da massa que antes gritava e batia palmas. Os gladiadores se entreolharam e prepararam as espadas.
Atônito, Saga olhou para Kanon que olhou para Hades.
— O que você fez? — perguntou Kanon.
Hades sorriu e respondeu, calmamente:
— Estou lhes dando a chance de provar que são melhores e mais ferozes que a ludus do Imperador!
Fale com o autor