Entre nós
2 02 - Feriado em família
Notas iniciais
Naquela noite o jantar de Ação de Graças seria apenas para cinco pessoas, Steve estava feliz em rever os filhos e Maggie, nossa, ela nunca estivera tão deslumbrante, nem mesmo quando se casaram. Steve se orgulhava de tudo que tinham conquistado juntos, a casa, a família, o negócio em que investiram todas as economias...
April, a filha mais velha, estava sozinha porque o marido estava viajando a negócios, mas seu casamento era estável, Kenny era bom para ela e era visível o quanto se amavam. Harry viera de Dartmouth para passar o feriado com a família, sempre fora o mais inteligente dos três irmãos e também o mais afetuoso, e agora estava prestes a terminar a faculdade, logo seria um advogado de sucesso e quem sabe, mais tarde, um juiz?
Já Erick era outra coisa, dos três filhos, ele sempre fora o mais isolado, Maggie e Steve chegaram a pensar que seria o mais desafiador dentre os irmãos, mas a medida que o tempo passava, ficou claro que ele era apenas... Distante; e para a surpresa de todos, num belo dia de primavera, Erick recebeu uma carta de um dos professores da Juilliard e meses depois o rapaz se tornara o músico da família.
Steve se orgulhava da família, Maggie se mostrara a mais incrível amiga nos meses de divórcio amigável que tiveram, para todos os parentes eles ainda estavam juntos, ela insistiu na farsa, pois queria que os filhos soubessem antes de qualquer outra pessoa, e como parte do acordo, Steve deveria assumir-se até o fim do ano, pois o ano seguinte seria um recomeço para os dois.
O jantar foi longo e divertido, Maggie e Steve trocaram amenidades o tempo todo, sempre sendo muito formais, April não demorou a perceber, mas decidiu falar sobre isso mais tarde com seus pais, separadamente. Erick sentiu falta dos parentes e Harry constantemente fazia observações sobre seu último ano em Dartmounth.
Quando todos estavam cheios, Steve e Maggie conversaram através de breves olhares, e então, após a mulher balançar a cabeça afirmativamente, ele pigarreou e disse em voz alta:
— A mãe de vocês e eu temos algumas coisas para contar... – aquelas palavras eram como uma pedra na janela do inconsciente de cada um dos filhos.
— Sabia que algo estava errado! – April exclamou batendo a palma da mão na mesa.
— Minha nossa, Sherlock... Você é a única detetive da família, né? – Harry ironizou.
— Shhh... – foi a única coisa que Erick disse.
— O que aconteceu? – April ignorou o irmão caçula e desatou a falar. – Quem está doente? Alguém da família faleceu? Vocês resolveram ter um filho?
— April, silêncio, por favor! – Maggie estava tensa.
— Por favor... – o tom de voz de Steve era apaziguador demais, sua companheira passou muitos anos invejando todo esse autocontrole. – Preciso que fiquem em silêncio e me escutem... Vocês podem fazer isso?
Todos assentiram.
— Ótimo, a mãe de vocês e eu, nós... – por um instante ele teve vontade de mentir, ele hesitou, o que estava prestes a dizer poderia acabar com a família que haviam formado, mas ele prometera para Maggie quando assinaram os papeis do divórcio, por isso ele respirou fundo, armou-se de coragem e continuou. – Maggie e eu, nós... Nós nos separamos...
— O que? – Erick falou tão alto que assustou a todos.
— Como assim “nos separamos”? – Harry estava pálido.
April tentou dizer algo, mas não conseguiu e começou a chorar.
— Será que o pai de vocês pode terminar de falar?! – Maggie ralhou. – Pelo amor de Deus, controle-se April!
Todos os olhares estavam concentrados na cabeceira da mesa.
— P-pai? – April disse entre um soluço e outro. – O q-que est-tá ac-cont-tecendo...? V-vocês n-não se am-mam m-mais? P-por isso se s-sep-pararam?
Steve lançou um olhar de ternura para a mulher sentada do outro lado da mesa. Como poderia deixar de amá-la? Depois de tantos anos ele poderia perder tudo, menos o amor que sentia por ela.
— Escutem uma coisa... – disse Steve agora decidido a ir adiante com sua escolha. – Eu jamais deixaria de amar a mãe de vocês, ela me deu os melhores anos da minha vida, foi a minha parceira na saúde e na doença, nos tempos de fartura e de crise, e de quebra ela ainda me deu vocês... Todos vocês, os melhores filhos que um pai poda desejar! Eu amo a mãe de vocês... Amo você Margareth, você sabe disso melhor do que ninguém...
— Sim, eu sei, e também te amo Steve – ela respondeu com um sorriso tristonho nos lábios.
— Nós decidimos nos separar porque eu sou gay.
Um silêncio fúnebre se instalou na sala de jantar.
— Mas que diabos você está falando?! – Harry exclamou batendo os punhos na mesa.
— Tenha modos Harry! – Maggie esbravejou, mas o filho não lhe deu atenção.
— Só pode ser piada...
— Não, Harry – Steve continuava com seu tom de voz tranquilo, embora lá no fundo sentisse vontade de dar a surra que o filho nunca recebeu quando era mais novo. – Eu estou falando bem sério, já assinamos os papéis do divórcio e há um mês estou morando em outra casa...
— Você não pode ser normal como qualquer outra pessoa?
— Não viro um monstro nas noites de lua cheia, se é o que você quer saber... – Steve retorquiu de forma ácida ao mesmo tempo em que Erick gritava furioso. – Não fala desse jeito com o nosso pai!
— Erick tem razão, Harry, respeite seu pai! – Maggie era o tipo de mulher que nunca precisou falar duas vezes com os filhos, mas a raiva de Harry era tanta que ele não conseguia se calar.
— Você nem deveria estar aqui fedelho, você nem é da família, porque não vai caçar os pais que te abandonaram seu pivete? – quando Harry falou, sua voz estava repleta de crueldade fria e calculada, e pelo olhar de Erick, ele percebeu que havia conseguido machucar o irmão caçula.
Erick se levantou sob os protestos do pai, enquanto sua mãe gritava com Harry. O rapaz atravessou a porta da frente enquanto Steve o seguia alguns passos atrás, mas quando alcançou a rua Erick havia desaparecido, e enquanto olhava ao redor tentando encontrar uma pista do caminho que o filho tomara, ele sentiu um par de braços envolverem seu corpo por trás.
Delicadamente Steve colocou as mãos sobre as mãos de April e ela o apertou com mais força enquanto soluçava.
— April – ele murmurou –, desculpe por tudo minha querida... Não queria que fosse...
— Não fala nada pai... Amo você Steve, você é o meu pai, sempre apoiou as minhas maluquices, não vou virar as costas para o senhor... Mas eu vou pra casa... Preciso... Preciso processar tudo isso.
Ela o libertou do abraço e minutos depois deu a partida no carro e foi embora. Com passos lentos Steve retornou até a entrada da casa enquanto ouvia Maggie e Harry discutindo, mas estava cansado demais daquilo tudo, por isso, quando cruzou com o filho ao entrar em casa, e este o ignorou por completo, Steve conseguiu apenas respirar mais aliviado.
Mas o alívio deu espaço ao horror quando Harry deixou escapar a palavra “veadinho” ao atravessar a porta, Steve se virou a tempo de ver o rapaz correr em direção ao centro. Maggie estava com o celular numa mão e um olhar triste em seu belo rosto, ao se deparar com o ex-marido ela até tentou sorrir, mas não conseguiu.
— Deixei um recado no celular do Erick, estou preocupada com ele... – sua voz mostrava o quanto aquela noite havia conseguido minar suas energias.
— Foi um completo desastre... – ele desabou em uma cadeira ao lado da mulher, que entrelaçou os dedos nos seus em um aperto de mão consolador. – Harry me odeia, April parece estar sem rumo e Erick... bem, pra ser sincero não sei como ele está...
— Harry não precisava ter feito aquele papel ridículo, mas Erick está bem, meu coração está tranquilo, embora não possa deixar de me preocupar... Já a April, dê um tempo a ela, é muita informação de uma única vez, ela precisa digerir tudo e não vai ser fácil, mas ela consegue.
— Eu sei... Acho que este foi o pior feriado em família que tivemos.
— Ora relaxe Steve, ninguém morreu como em 1996, lembra-se do tio Bernie? E mais, ainda temos sorvete no congelador, a torta de maçã está no forno e eu vi que agora a noite vai ter uma maratona de filmes do James Bond... Não quero perder!
— Como pode pensar em doces e TV numa hora dessas? Os nossos filhos...
— Criei cada um deles, Steve, conheço bem os meus filhos, e sei que nenhum deles vai morrer por algo tão bobo, se não podem aceitar uma coisa que eu deveria ter criado caso, mas aceitei numa boa, então precisam crescer porque já passou da hora! Agora, vamos aos doces e TV!
Ele riu e deu um selinho em Maggie.
— Mulher, eu te amo!
— Tá, tá, tá... Também te amo, todos nos amamos, somos todos amados, agora vamos ver o filme, porque não tenho licença pra matar, mas se perder o início te enforco!
***
Maggie acabou adormecendo no sofá ao lado de Steve, quando começou a esfriar, ele se levantou e foi ao quarto buscar um cobertor para ela, e assim que voltou estendeu-o sobre ela, escreveu um bilhete que deixou sobre a mesa de centro, pegou o casaco e abriu a porta da frente, trancando logo após passar. Ela havia insistido para que Steve ficasse com uma cópia da chave da casa, mesmo não morando mais ali.
Somente quando levantou os olhos foi que viu Erick do outro lado da rua com um cigarro entre os lábios. O rapaz se levantou, tirou o cigarro da boca segurando-o entre os dedos enquanto a fumaça escapava pela boca aberta em forma de “O”, então devagar ele se aproximou do pai e sem dizer nada os dois caminharam juntos.
Steve estava feliz por dentro, era bom ficar na companhia do filho.
— Pai... – Erick disse após um longo tempo. – O senhor falou sério quando disse que não se transformava em uma fera nas noites de lua cheia?
Por um instante o homem encarou o rapaz ao seu lado e por fim jogou a cabeça para trás dando uma gostosa gargalhada.
— Falei sim filho... – Steve respondeu ainda rindo. – Continuo em minha humilde forma humana em qualquer fase da lua...
— Droga! – Erick exclamou. – Achei que alguma coisa havia mudado... – era impossível não notar o humor na frustração fingida que ele encenou, e isso fez com que Steve gargalhasse ainda mais, até que algo fez com que o riso morresse.
— Olha Erick... Sobre o que o Harry disse...
— Eu já sabia.
Mais uma vez Steve parou e encarou o filho, que se voltou para o pai com uma expressão curiosa.
— Qual é pai, não me pareço com o senhor, e nem com a mamãe, nem com ninguém da família... Eu não sou burro, mas vocês são o que tenho de mais próximo de um pai e uma mãe, então o que vou fazer? Bater o pé e espernear porque tive a sorte de ter vocês dois me criando como filho, dando carinho, amor, me ajudando a crescer.
— É, mas nós poderíamos ter contado...
— Vocês tiveram suas razões para não contar e eu respeito isso, assim como respeito e admiro sua coragem em assumir que é gay.
— Por favor, perdoe seu irmão, ele...
— Harry ataca a todos quando se sente ferido – Erick murmurou agora encarando os próprios pés. – Eu saí naquela hora porque senti muita vontade de quebrar o jogo de jantar da mamãe na cabeça dele, mas ela adora aquela louça...
Steve ouvia tudo em silêncio, e então parou mais uma vez, e quando Erick se virou, ele sorriu e abraçou forte o filho.
— Afinal de contas, quem é o pai e quem é o filho? – disse Steve baixinho enquanto Erick retribuía o abraço.
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