Entre nós

3 03 - Vidas cruzadas


Notas iniciais
Demorou mas saiu... A história de Steve e Daniel aos poucos vem se mostrando cada vez mais difícil, há muitas nuances a serem exploraras e manter o fluxo de acontecimentos é tão simples quanto encontrar uma agulha em um palheiro; não porque escrever seja difícil, mas sim porque até onde sei essa história, apesar de ficcional, pode estar acontecendo em qualquer parte do mundo, olhando por esse ângulo, como eu poderia escrever sem pensar em cada personagem vivenciando cada momento que escrevo? Por mais absurdo que possa ser, ainda assim é um absurdo possível e valendo-se disso, acabo me questionando se devo continuar expondo uma suposta vida de um suposto alguém...? Estou divagando, aproveitem o capítulo.

Daniel estava faminto, com frio e tinha a sensação de que ia passar mais uma vez a noite na rua. Naquele momento, sentiu falta da sopa e da cama que ofereciam no abrigo, embora a sopa fosse aguada e o colchão duro, era alimento quente e um teto, ao invés de mais uma noite faminto e com frio.

Ele não conseguiu chegar a tempo no abrigo e quando finalmente chegou todas as camas estavam ocupadas, claro que havia outros abrigos, mas ele precisaria pegar um ônibus, metrô ou táxi para ir rápido e ele corria perigo de perder também a hora, sem falar que não tinha dinheiro.

— Feriado americano... – ele murmurou irritado.

Tremendo de frio, caminhou por um longo tempo até chegar a uma rua de casas de classe média, o que fez com que se lembrasse de sua família, a lembrança doeu fundo, e ele sacudiu a cabeça tentando jogá-la num canto escuro de sua mente. Enquanto caminhava, Daniel observava as casas, todas tinham alguma luz acesa, até que ele viu uma casa completamente escura.

Não seria difícil tomar aquela decisão, afinal não seria a primeira vez que invadiria uma casa. O difícil era contar com a sorte e encontrar uma casa sem um sistema de segurança. Daniel deu a volta na casa e tirou uma blusa grossa da mochila, envolveu a mão e com um único golpe quebrou o vidro da porta passou a mão livre pelo buraco e destravou o trinco.

Sua noite estava salva.

***

Steve entrou em casa acompanhado por Erick, curiosamente nunca tiveram uma conversa tão longa como a daquela noite, e para Steve, como pai, estar tão próximo do seu filho era maravilhoso.

— Fique a vontade filho... – disse Steve. – Acho que deixei as luzes acesas lá em cima... Volto num minuto.

Erick sentou no sofá enquanto o pai subia as escadas. Steve não se lembrava de ter deixado luz alguma acesa, mas tinha certeza de que não deixara a banheira ligada, e nem a porta do banheiro entreaberta, por isso quando entrou cautelosamente no banheiro a princípio ele ficou sem reação, havia um jovem estranho em sua banheira, e após o choque inicial veio a desconfiança.

— O que está fazendo na minha banheira?

— Puta merda! – o rapaz exclamou quando viu o homem parado dentro do banheiro.

Em seu susto ele ficou de pé e o queixo do homem caiu ao ver o rapaz sexy e excitado parado bem a sua frente.

— Você tem cinco minutos para explicar o que está fazendo aqui... Ou então eu vou chamar a polícia. — disse Steve tentando manter a calma.

— Não chame a polícia, por favor... Meu nome é Daniel e eu não tenho para onde ir...

Steve respirou profundamente e então assentiu.

— Termine seu banho e desça, meu filho está lá em baixo comigo.

Daniel assentiu enquanto Steve saía do banheiro fechando a porta logo atrás de si, não se demorou no banho, e quando desceu viu que Steve e o filho esperavam por ele na cozinha.

— Não sabia se você estava com fome, mas posso adivinhar que esteja, por isso sente-se e coma enquanto me conta como foi parar na minha banheira... Tudo bem?

Daniel assentiu e sem fazer cerimônia começou a se servir.

Steve e Erick observavam chocados pela maneira como Daniel comia, bebia e explicava toda a história de como fora parar ali; Erick estava muito interessado no que o outro rapaz tinha a dizer enquanto Steve volta e meia tentava esconder as lágrimas que desciam enquanto ouvia o que aquele rapaz andava fazendo para sobreviver fora de casa, ele não conseguia parar de visualizar seus filhos em cada uma daquelas situações.

— Mas... – Steve busca as palavras exatas e então continua. – Por que está morando na rua, Daniel? E seus pais? Você deve ter alguma família...

— Sou gay, Steve... – as palavras fluíam mais facilmente agora do que quando admitiu para o irmão quem realmente era. – Isso para eles, quer dizer que eu não sou mais filho deles, que sou um veadinho, queima rosca, uma bixinha... – as palavras do pai ainda queimavam dentro dele.

— Cala a boca!

— Erick, tenha modos...

— Qual é pai?! Depois de tudo o que aconteceu no jantar acha mesmo que vou ficar aqui sentado escutando isso? Autopiedade a essa hora da madrugada é demais pra mim...

— Não é...

— Daniel, você está assumindo para si o que seus pais lhe disseram... – Erick continuou sem se deixar interromper. – Sinto muito cara, de verdade, sinto que você tenha um pai miserável e uma vadia como mãe... Foi ótima a ideia de sair de casa, invadir a casa dos outros já não é uma ideia tão boa, mas você precisava de um lugar para passar a noite. Se vender pra arranjar grana? Não posso falar nada sobre isso, acho que a necessidade faz a situação, e você sabe melhor de si do que qualquer outra pessoa... Porém, aceitar o conceito que impuseram a você, independente de serem seus pais...

— Eu não disse...

— Disse sim! Agora pouco você estava aí repetindo o que cuspiram na sua cara. Os seus pais não estão certos sobre você, assim como muitos filhos não estão certos sobre seus pais... – Erick fitava Steve com um olhar repleto de ternura. – Alguns parentes simplesmente fazem com que valha a pena viver, e sei que você deve ter alguém assim na sua vida, então pega o que jogaram na sua cara e deixa de lado, porque isso não vai te levar a lugar algum.

As palavras de Erick pesaram demais na atmosfera da cozinha, então o rapaz se levantou e saiu pela porta da frente. Steve e Daniel trocaram um longo olhar e por fim, após um pigarro, Steve contou o que havia acontecido durante o jantar, contou a reação de cada filho e contou também sobre a conversa que tivera com Erick ao longo do trajeto até em casa.

— Seu filho... – Daniel começou a falar, mas se interrompeu, não havia palavras brandas para aquela pergunta, então decidiu continuar. – Erick... Ele é o adotado?

— Sim...

“Mas, como assim?”, pensou Daniel. “Esse rapaz ficou ao lado do pai adotivo enquanto o outro filho lhe deu as costas!”. Steve sorriu ao identificar a confusão no olhar de Daniel.

— É estranho, não é? – disse ele. – Esse rapaz que acabou de sair, minha ex-mulher e eu o adotamos quando fizemos uma viagem para a França... Era uma criança linda, mas tinha um semblante muito triste. Tinha dois anos quando o encontramos na rua, estava tão faminto quanto você, ou talvez até mais que você – Steve sorriu de lado enquanto seus olhos passeavam até a porta por onde o filho acabara de sair. – Nunca soubemos o que aconteceu aos pais dele, tudo o que eu via era uma pessoinha que se recusava a morrer de fome ou de frio, enquanto Maggie... Ela viu um filho, e quando o trouxemos para casa, com o passar do tempo acabamos entendendo uma coisa...

Steve ficou em silêncio enquanto secava os olhos.

— O que foi que vocês entenderam? – Daniel perguntou sem conseguir conter a curiosidade.

Por um longo instante o homem fitou o rapaz e abriu um sorriso terno, ele conseguia ver toda a vida do filho caçula atravessando seus olhos, sua infância e a adolescência quase muda em que secretamente ele se dedicou a estudar música para que pudesse dar aos pais um motivo para se orgulharem dele, como se em algum momento houvesse mesmo necessidade disso.

— Nós entendemos – disse Steve sentindo um calor dentro do peito. – Que foi Erick quem nos adotou, e não o contrário...

***

Daniel não precisou ir embora no dia seguinte e nem na semana que se seguiu, Steve por alguma razão parecia gostar da sua companhia e Daniel não via problema algum em estar no mesmo cômodo que um homem mais velho sem precisar tirar a roupa para agradá-lo.

Novembro terminou rapidamente e dezembro avançou ainda mais rápido; no Natal, Daniel acordou cedo e sentiu um aperto no coração, Tommy deveria ter entrado no quarto para acordá-lo e arrastá-lo até a sala para abrirem os presentes, seu pai deveria estar ali para abraçá-lo e desejar um feliz natal, e sua mãe deveria entrar na sala com uma travessa nas mãos, repleta de rabanada.

Mas nada disso aconteceu, e nem voltaria a acontecer, seu Natal seria tão solitário quanto os meses anteriores.

Quando a porta do quarto se abriu, Daniel despertou de suas lembranças e sem perceber, sorriu ao ver Steve colocar a cabeça para dentro do quarto, por alguma razão, aquele homem conseguia preencher os seus dias e fazer com que eles fossem ao menos suportáveis. Ele que sofrera o mesmo tipo de repúdio que Daniel, estava ali, aberto ao rapaz sem pedir nada em troca.

— Feliz Natal! – disse Steve entrando no quarto, em suas mãos havia uma pequena caixa amarrada com uma fita amarela. – Achei que você estava dormindo e ia aproveitar para... – ele mostrou a caixa, um sorriso iluminava seu rosto. – Você sabe...

— Você comprou um presente pra mim? – Daniel se levantou em um salto.

— Na verdade, eu havia comprado para o meu filho, Harry... – seu rosto ficou rubro, apesar da timidez, Daniel podia perceber perfeitamente a nota de tristeza que havia atrás de cada palavra. – Mas... Eu acho que ele não vai querer um presente meu por um longo tempo, então pensei... Sei lá... Pensei em você, aqui...

— Steve, eu...

Mas antes que Daniel dissesse qualquer coisa o celular de Steve tocou e ele pediu licença, o rapaz conseguia ouvi-lo conversando no quarto, seu tom de voz era animado e ele concordava e agradecia várias vezes.

Mais tarde, quando se lembrasse daquele episódio, Daniel não saberia dizer como conseguiu passar por ele e manter o bom humor, porém, naquele momento, humor foi tudo o que faltou. Quando Steve foi para o quarto a campainha soou, e Daniel, prontamente se dirigiu a porta e abriu.

— Steve não sabia se você... – havia uma mulher em frente a porta da casa, quando viu o rapaz ali parado, ela se afastou para olhar o número da residência e ao confirmar que estava no lugar certo ela encarou o rapaz com um olhar interrogativo.

Maggie esperava encontrar o marido usando aquela horrorosa blusa de flanela que ele insistia em nunca jogar fora e a calça jeans desbotada como se estivesse num daqueles desenhos onde os lenhadores eram retratados da mesma forma, como se aquele fosse o uniforme básico, ou então esperava que ele tivesse adquirido um pouco de gosto, afinal depois de assumir ser gay poderia usar o que quisesse e quando quisesse.

Mas nunca, em toda a sua vida ela imaginou encontrar um garoto que poderia ter a mesma idade de Erick vestindo a blusa horrorosa de flanela do marido e apenas uma cueca samba canção, e o choque fez com que ela respirasse profundamente e duvidasse de que estivesse acordada.

— Você deve ser Maggie, não é? – disse o rapaz estendendo a mão. – Meu nome é Daniel...

— É... É um prazer, Daniel... – disse Maggie apertando a mão do rapaz. – Será que o Steve está... Disponível?

Ela não sabia qual era o tipo de pergunta que deveria fazer, afinal nunca havia tido muito contato com alguém que fosse... Gay... Não sabia nem como falar com o provável ninfeto que o ex-marido havia encontrado, provavelmente na véspera de Natal. Novamente respirou fundo, aquilo realmente era demais.

— É... Ele está sim... – disse Daniel sem entender o motivo para ela encará-lo daquela forma estranha. – Ele está lá em cima ao telefone... Entre, por favor...

Maggie entrou e Daniel fechou a porta atrás de si, gentilmente ele indicou o sofá e pediu que ela aguardasse, pois ele diria a Steve para descer, e então subiu as escadas antes que Maggie protestasse dizendo que poderia voltar num horário mais propício. Minutos depois Steve desceu, seu semblante parecia mais iluminado e havia a linha de um sorriso em seu rosto, como se tudo o que ele tivesse feito nos últimos dias fosse manter os lábios abertos em um sorriso congelado.

— Nossa, que coincidência, eu estava justamente me arrumando para poder ir visitá-la – disse ele estendendo uma sacola para a ex-mulher. – Aqui está o seu presente... – O olhar de Maggie era gélido e corria da sacola nas mãos de Steve para seu rosto alegre. – Está tudo bem?

— Quando foi que vocês dois começaram a se ver? – sua voz estava áspera e ferida.

— Nós? – ele perguntou sem entender. – Nós quem?

— Seu namoradinho de quinze anos... Quando ia me contar? Já estavam juntos antes do nosso casamento acabar?

— Ei, ei, ei... Espera um pouco, você se refere ao Daniel? Qual é Maggie, ele tem idade pra ser meu filho...

— Exatamente! – seu olhar duro fulminava o homem que um dia chamou de companheiro, e tudo o que sentia era uma raiva cega e inexplicável. – Como pode? Eu não fui o bastante?

— Está me ofendendo Margareth! – a voz de Steve trovejou no cômodo.

Maggie andava de um lado para o outro murmurando consigo mesma, enquanto Steve calmamente colocou a sacola sobre o sofá e sentou, ele nunca se permitia ficar nervoso demais e isso a tirava do sério.

— Pode ao menos ser sincero comigo? – ela murmurou com a voz entrecortada.

— Sente-se Maggie.

— A primeira vez que vi Daniel ele estava nu dentro da banheira...

— Poupe-me da sua sordidez!

— Pelo amor de Deus, Maggie, deixe-me falar! – sua voz mais uma vez trovejou pela sala.

— Prefiro me jogar na frente de um ônibus... – ela murmurou se levantando de repente e batendo a porta depois de sair.

Daniel entrou na sala sem fazer barulho e encontrou Steve com o rosto enterrado nas mãos e soluçando baixinho.

— Estraguei tudo, não foi?

Steve ergueu o rosto na direção do rapaz, seu olhar era pura tristeza, então ele sentou ao seu lado e gentilmente passou o braço em torno do pescoço de Steve e o abraçou forte, enquanto ele chorava inconsolável.

— Não foi nada de mais Steve... Não chore, por favor, nós podemos explicar tudo para Maggie...

— Maggie... Ela não... Não é o único problema, Daniel... – Steve falava entre um soluço e outro. – Eu... Não... Eu Não devia ter feito isso, Daniel...

— O que aconteceu Steve? Antes de descer ouvi sua voz quando falava ao telefone... Você parecia tão animado... Não deixe que o que aconteceu com Maggie o coloque para baixo.

O homem ficou em silêncio por algum tempo, apenas chorando, Daniel fez mais algumas tentativas para levantar o astral de Steve, mas nada funcionava e ele apenas repetia que “não devia ter feito”, porém não dizia o a que estava se referindo e ignorava quando o rapaz perguntava o que ele estava tentando dizer.

Sem saber o que fazer, o rapaz tomou o rosto de Steve nas mãos e sem dizer nada o beijou. Steve empurrou Daniel para longe de si, enquanto ele encarava o rapaz, que parecia surpreso com sua reação.

— Por que fez isso?

— Porque todo homem que chorou perto de mim acabou tirando a minha roupa logo depois e me comeu com força, e eu nunca quis mais do que o dinheiro deles...

— E o que você quer de mim?

— Sinceramente Steve? Eu não sei.

Notas finais
Mais uma vez encerro um capítulo, esse não é "um grande capítulo", é uma espécie de ponte, pois a partir daqui tudo muda, mas não vou dizer muito... Espero sinceramente que tenham gostado, "Entre nós" tem sido uma experiência muito boa para mim e garanto que o penúltimo capítulo fará com que vocês vibrem... Deixem um comentário dizendo o que estão pensando, afinal uma história também é feita da opiniões de leitores. Agradeço a quem esperou pacientemente e peço desculpas pela demora. Bjo grande a todos, até o próximo capítulo (que não demora a sair).