Entre no Ritmo do Amor
9 Capítulo 8
Notas iniciais
O dia no agressivo e apressado escritório de Economia da Fundação Guerra estava passando de uma forma extremamente lenta para Paulo. Ele estava estirado em uma cadeira da sala de reuniões, as folhas brancas de papel A4 a sua frente totalmente rabiscadas com palavras sem sentido e desenhos de caveiras. A sua frente, em ambos os lados da mesa, estavam executivos e acionistas igualmente exaustos esperando que aquele que estivesse falando, seja lá quem fosse, terminasse logo para que eles pudessem voltar para suas salas, tomar um café ou conversar com um colega pela última hora daquele dia de trabalho.
Estava irritado. No sábado, dia seguinte ao telefone de Bibi que dizia que Alícia ainda estava no hospital e não poderia lhe der aula na sexta, ele não recebera um telefone da instrutora para aula de reposição de fim de semana, apenas outro telefonema de Bibi:
"Boa tarde, Sr. Guerra" a voz dela iniciava a mensagem "Gostaria de avisar que não haverá aula de reposição, mas que com certeza haverá aula na segunda-feira breve. Estaremos reembolsando seu dinheiro o mais rápido possível. Obrigada pela compreensão".
Compreensão? O que diabos ele havia compreendido? Que a sua instrutora de dança desmaiara em seus braços no meio de um restaurante lotado, teve que ser levada ao hospital pela emergência, não pudera lhe dar aulas por dois dias, pois ainda estava no hospital e agora estaria completamente curada na segunda-feira? E eles ainda achavam que ele estava preocupado com reembolso? Francamente, a Fundação Guerra tinha dinheiro o suficiente para sustentar um pequeno país subdesenvolvido, dinheiro não era o problema, o problema era a falta de informações que ele tinha em relação à Alícia.
— E é isso. — Paulo foi salvo de sua mente pela voz do rapaz que apresentava os gráficos e números para os presentes na sala de reuniões.
— Então, por hoje é só, obrigado. Tenha uma ótima tarde, senhores. — ele foi o primeiro a se levantar, dizer essas palavras sem emoção e sair da sala. Quando passava pelos corredores em direção ao elevador ainda podia ouvir as conversas animadas sobre algum barzinho em que colegas pudessem ir depois do expediente.
Pegou o elevador e olhou para o relógio. Mais meia hora de espera até o fim do expediente e mais alguns minutos para chegar ao seu apartamento, se trocar e correr atrás de sua instrutora para algumas respostas. Paulo não fazia ideia de como aquele desmaio mexera com ele.
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— Valéria, você prefere salmão ou rosé? — perguntou Maria Joaquina indicando a Valéria duas toalhas de mesa de cores levemente diferente.
— Rosé combina mais com os vestidos das damas de honra. — disse a moça. — Mas Paulo não ficará incomodado com tanto rosa assim?
— Ele deixou tudo em minhas mãos! — respondeu à médica. — Venha, já fechei por aqui, vamos até a gráfica pegar os convites.
Elas saíram da loja sorrindo para a balconista e seguiram para o carro de Maria Joaquina.
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Na calçada da frente, de dentro de uma sorveteria, saia uma moça de cabelos longos e negros, tranquilamente, com um sorvete de baunilha numa das mãos. Vestia uma calça preta de pano solto, sapatilhas de dança e um bolero de lã por cima do collant preto. A bolsa de tecido de histórias em quadrinhos pendurada ao ombro. Estava sorridente e sentindo-se melhor do que nunca por poder voltar ao trabalho.
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Paulo parou o carro no seu lugar de sempre e esperou uns minutos com as mãos bem fechadas em volta do volante, querendo não parecer ansioso demais. Desceu e meteu as mãos nos bolsos, só retirando a direita depois de percorrer todo o caminho de pedras amareladas, dar uma olhada nos praticantes de Ioga que ainda estavam estendendo seus colchonetes no chão e não tinham começado e então entrou, sentindo que mesmo assim chegara cedo demais.
— Bem vindo, Sr. Guerra. — disse a voz de Bibi parando de rabiscar o caderno. Parecia muito mais animada que o normal. — O senhor chegou cedo, Alícia ainda não está na sala.
— Ela está aqui? — ele não pode evitar a pergunta que se seguiu. — Ela está bem?
— Está ótima! — Bibi soltou um risinho cúmplice a qual Paulo não notou. Aproximou-se um pouco do balcão para a menina completar. — Siga o corredor, vire a esquerda, depois a próxima direita e ela está na quarta sala.
O rapaz olhou para o corredor, incerto, e de repente ele parecia extremamente longo. Olhou uma última vez para Bibi que não largava o sorriso e começou a andar. Assim que virou a esquerda esbarrou com alguns alunos de hip hop que estavam saindo de uma das salas. Passou por eles rapidamente e continuou seguindo. Contou as portas lentamente até chegar à quarta. Parou olhando para ela, exatamente igual à porta da sua própria sala de instrução de valsa.
Pensou em bater ou somente abrir, mas não fez nem um nem outro. Ficou ouvindo o som de música clássica que saia de lá. Logo depois ouviu o que queria:
— Primeira posição. — instruía a voz de Alícia, calma, melódica, suave e completamente bem. O moreno sentiu um contêiner cheio de bigornas ser retirado de seu estômago e deixou um sorriso escapar de seus lábios.
Alguém que passasse o visse ali, com a mão espalmada sobre a porta, os olhos fechados e um sorriso no rosto debocharia dele, mas Paulo não se importava. Logo atrás dessa porta ela estava bem.
— Segunda posição, muito bem. — ela continuou e Paulo não sabia o que aquilo queria dizer apesar de saber ser francês. — Plié, grand plié! — passos apressados. — Assim, Sarah.
— Obrigada, professora Alícia. — uma voz infantil respondeu alegre.
— De novo: Segunda posição, plié, grand plié. — a música se encerrou bruscamente, aparentemente a aula havia terminado. — Meus parabéns a todas, muito bem.
As vozes animadas das meninas começaram a falar todas juntas e, enquanto isso, Paulo percebeu Alícia conseguindo falar sem gaguejar.
— Professora! Professora! — disse uma voz animada quando as outras silenciaram um instante, soltando risadinhas excitadas. — Faça o Fouetté para nós vermos, faça.
— Meninas, eu não sei, tenho que ir para a próxima aula...
— Por favor, professora Alícia! — disseram todas em coro.
— Uma vez só. — a menina que pedira o passo dizia com uma voz chorosa.
— Está bem. — Paulo despertou de seu devaneio quando ouviu seu consentimento. A música voltou a tocar, uma música diferente, e ele arriscou abrir a porta levemente, somente para poder ver o que sua instrutora ia fazer.
O piso da sala era desconhecido para Paulo, numa coloração cinzenta. Em duas paredes ele podia ver espelhos preenchendo-as com barras de ferro pintadas de branco, com certeza para se apoiarem para os passos, logo a frente deles. Na outra parede, através do espelho, ele via bolsas e coisas de meninas e, em frente a elas, várias dessas meninas sentadas esperando o desempenho da professora, mas eram meninas de rostos redondinhos e olhos puxados, diferentes. Ele sabia o que aquelas feições queriam dizer. Ele podia ver Alícia através do espelho.
"Linda!" foi o pensamento involuntário que lhe veio à mente. Ela vestia o collant preto e uma meia-calça branca ornando perfeitamente com sua pele e sapatilhas diferente das sapatilhas da aula de valsa. Essas eram azuis, de bailarina com ponta de gesso, pelo que sabia.
Ela iniciou a dança, fazendo alguns passos rápidos com os pés, de olhos fechados. A sala era grande e ela correu pulando e mantendo uma perna para baixo, jogando a outra para trás e abrindo os braços em um Jeté, caindo perfeitamente e realizando três rápidos giros em que ela flexionava uma das pernas. Ali estava o Fouetté.
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Alícia sorriu e abriu os olhos enquanto as meninas vinham batendo palmas e gritando se juntar a ela. Ela sorriu de volta e, dispensando-as, olhou para a porta encontrando olhos negros e um sorriso nos lábios sempre sérios. Sentiu-se extremamente envergonhada e abaixou a cabeça corando perante o olhar de Paulo Guerra.
Ele terminou de abrir a porta e entrou, as mãos nos bolsos. As meninas pararam de arrumar as suas coisas e olharam para o moço que lhes lançou um olhar de volta fazendo-as corar e soltarem risadinhas e cochichos enquanto terminavam de recolher suas coisas para irem para os vestiários. Ele se aproximou de Alícia e somente ficou ao lado dela esperando as meninas saírem, mas parece que elas não iriam fazê-lo tão cedo.
— Você está bem? — perguntou por fim, desistindo.
— S-sim, Sr. Guerra. — lá estava a gagueira novamente. Paulo já captara a ideia de que era uma gagueira perante homens desconhecidos e/ou não íntimos.
— O que é que você tem? — ele perguntou conseguindo esconder a preocupação, mas não a curiosidade.
— Não é nada... — ela levantou a cabeça do chão, sorrindo para ele corada, para desencorajar suas perguntas. — Com que deva se preocupar.
Uma das meninas, aquela que pedira para Alícia realizar sua performance de ballet, limpou a garganta fazendo-os olhar para todas as meninas.
— Professora Alícia. — ela começou e suas bochechas ficaram vermelho vivo.
— Ah, meninas. — ela disse lembrando-se delas na sala e sabia exatamente o que elas queriam saber. — Esse é o Paulo Guerra. Ele é... — fora cortada pela menina.
— Seu namorado?
— Sarah! — disse a instrutora em coro com uma das outras garotas que lhe cutucou fortemente o braço repreendendo-a pelo comentário impróprio.
A morena olhou para Paulo, a face completamente rubra, buscando algum apoio, mas ele somente deu de ombros e sussurrou alguma coisa como: "Diga o que quiser". O coração da morena deu um pulo dentro do peito quando a ideia de que ele meio que gostaria que ela fosse namorada dele lhe passou pela cabeça e depois esse mesmo coração pareceu endurecer e virar pedra ficando pesado demais em seu peito quando o seu pensamento foi que ele simplesmente a repudiava e que era indiferente qualquer coisa que ela dissesse para as pequenas bailarinas.
Mas se ele a repudiava, porque estaria preocupado com ela? Definitivamente não era por finalmente estar gostando de dançar.
— V-vão andando, meninas. — e elas foram, saindo uma a uma da classe ainda com suspiros, cochichos e risadinhas.
A porta se fechou deixando Paulo e Alícia na sala, sozinhos, com o silêncio. Ela se afastou dele indo até suas coisas e colocando a calça de pano solto por cima da meia calça e sentou-se no chão desamarrando as sapatilhas e tornando a vestir as sapatilhas pretas de valsa.
Paulo entendera bem que Alícia não queria falar o que acontecera com ela para desmaiar naquela noite e ele não iria insistir, iria somente mudar de tática. Passeou um pouco pela sala e voltou-se para ela novamente, comentando:
— Porque ensina crianças com Síndrome de Down? — ele referia-se as meninas que tinham acabado de sair. Meninas portadoras da Síndrome que estavam aprendendo Ballet. Porque ele estava surpreso?
— Porque temos que dar uma chance a todos. — ela respondeu séria não gostando do tom que ele usara. — E a Síndrome, Sr. Guerra, não as incapacita de dançar.
Paulo gostou de como a voz de Alícia soou. Ainda era a mesma voz melódica e baixa, mas estava carregada com uma determinação que ele desconhecia, um profissionalismo que ela ainda não precisara usar com ele. Ela não gaguejara, também. Então aquela era a Alícia Gusman por trás da tímida professora de dança? Aquela era a Alícia que ele não vira praticar o exercício de coordenação por estar vendado, mas que estava lá? Era aquela a mulher que estava se zangando com Jorge para que ele não fosse tão super protetor?
"Acho que eu gostaria de conhecer essa Alícia Gusman, também!" ele pensou divertido não impedindo um sorriso de canto ao vê-la levantar, pegar suas coisas com determinação e abrir a porta da sala esperando que ele saísse.
— Por favor, Sr. Guerra. — a voz dela perdera a determinação de minutos atrás.
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