Entre no Ritmo do Amor
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Paulo passou por Alícia saindo da sala e foram andando pelos corredores calmamente até a sala de instrução de valsa. Algumas pessoas que estavam passando para seguirem para suas salas ou para irem embora cumprimentavam Alícia que sempre respondia de forma muito simpática. A morena parecia ser muito querida ali. De dentro de uma sala, vestido com roupas pretas, camisa de botões e calça, saiu uma rapaz ruivo e chamou enquanto se aproximava:
— Alícia!
— Sim, Tomás! — ela respondeu no mesmo tom e, quando ele se aproximou o suficiente, enlaçou a cintura da moça girando-a em um passo improvisado de uma dança qualquer. Paulo estancou sentindo-se incomodado.
"Ela fica amiga de todos os homens... Jorge, Mário, esse tal de Tomás. Qual é o meu problema?" pensou o moreno, até que se lembrou de uma única coisa incômoda para uma relação entre ele e Alícia a qual ela provavelmente sabia e só queria evitar problemas "Maria Joaquina".
— Aquele é o último? — perguntou Tomás olhando para Paulo, pensando que ele não o escutava. — Não parece ser um cara fácil de lidar.
— O Sr.Guerra é um ótimo aluno. — rebateu Alícia. — Ele só precisa se soltar um pouco mais.
Paulo voltara a andar depois dessas palavras, fazendo com que Alícia tivesse que se despedir de Tomás às pressas e correr um pouco para alcançá-lo, mas chegaram à sala de aula sem mais interrupções. Como sempre, enquanto Alícia arrumava suas coisas e o rádio, o rapaz ficou olhando através das janelas as pessoas em seus colchonetes sob as árvores praticando Ioga.
Alícia se aproximou dele:
— Vamos começar, Sr.Guerra? — ele virou-se e deu alguns passos até ela. Colocaram-se em posição de valsa.
— Não tem nenhum exercício hoje? — ele comentou sério, mas com a voz carregada de malícia.
Ela desviou o olhar completamente desconfortável.
"Porque diabos eu disse isso?" pensou o rapaz. Paulo definitivamente não era um homem de dizer essas coisas somente para deixar uma mulher desconfortável, ele as respeitava até mais do que algumas mereciam. Talvez estivesse gostando de provocá-la para vê-la ficar encabulada. Gostava da cor vermelha em sua face, junto com as cores do crepúsculo.
Passaram-se menos de três minutos e ela se recompôs, olhando-o com um sorriso terno, as bochechas vermelhas, e começaram a dançar. Dois passos para a direita, um para a esquerda, um para trás e uma meia volta. Dois passos para a direita, um para a esquerda, dois para trás e uma meia volta. Passaram à primeira, a segunda e a terceira músicas inteiras fazendo isso, em silêncio. Nenhum dos dois queria manter o olhar nos olhos do outro.
Pela janela os praticantes de Ioga continuavam se contorcendo e o sol já estava na metade da linha do horizonte. As cores inundavam a sala transpassando o vidro das janelas, refletindo nos espelhos e nos olhos negros e brancos. Ali naquela sala eles também estavam alheios a tudo e a todos, pois estavam tendo várias sensações com os diferentes toques e roçares de suas peles, olhares cruzados e rapidamente desviados.
A música parou e o casal parou com ela.
— Muito bem, Sr.Guerra. Você já pegou esses passos, agora. — ela estendeu as mãos para que eles voltassem à posição — Vou explicar como você terá que guiar no casamento.
A música voltou a tocar e a morena fechou os olhos, deixando que o profissionalismo e a pressão de fazer um ótimo último trabalho vieram a sua mente impedindo-lhe os gaguejos e as falas pausadas. Ali estava novamente a outra face de Alícia Gusman.
— Você é quem guia. — ela disse. — Você tem que ser o senhor e sua mulher, confiando em você, tem que ser submissa. A valsa não é uma dança que torna qualquer um dos dois parceiros superior, pois se sua parceira não colaborar você só estará dançando com uma boneca de trapos.
Paulo olhava os olhos fechados de Alícia. Eles ainda estavam parados. O moreno baixou o olhar fixando-o nos lábios da morena, finos e avermelhados pelo sol, que se movimentavam com firmeza e profissionalismo. Molhou seus próprios lábios com a língua.
Quando Alícia não voltou a pronunciar nada ele soube que era hora de começar a guiar e foi o que fez. E nunca em sua vida conseguiria imaginar como era fácil guiá-la, de um lado para o outro, com a colaboração de suas pernas ágeis e bem treinadas. Sentiu o estômago esquentar em poder fazer o que estava fazendo e o coração acelerar com o ritmo do violino na música clássica. Parecia um tambor. Fechou os olhos, eles tornaram-se completamente dispensáveis, os passos pareciam estar gravados na sua mente desde sempre, assim como a música.
Notou como as mãos dela pareciam encaixar-se perfeitamente com as suas e como os pés cobertos pela meia calça branca e a sapatilha preta sabiam exatamente para onde fugir dos seus, pois nunca se esbarravam. A música estava acabando ele podia sentir as últimas notas da harpa. Mas então porque não queria parar? Porque não queria mais soltá-la? Porque queria que seu coração e sua respiração continuassem acelerando e desacelerando como estava fazendo agora? Definitivamente não era por finalmente estar gostando de dançar.
Aquele dia sua mente estava cheia de perguntas. Vazia de respostas.
A música parou e os corpos também. Uma nova música começou, mas eles se mantiveram parados, os peitos dos dois subindo e descendo ritmados.
— A valsa é uma música para amar. — foi o último comentário profissional de Alícia naquele dia.
— Não sei se posso dançá-la no meu casamento, Alícia. — ele abriu os olhos e os olhos castanhos de Alícia o encaravam, sorrindo, apesar da boca dela não estar fazendo o mesmo. O sol lhes dava seu último adeus e ia embora, assim como os praticantes de Ioga, deixando o céu em seus tons de azul cobrindo os tons de roxo. Ela não entendeu o que ele queria dizer.
Não existia amor entre ele e Maria Joaquina para que eles dançassem aquela música. Mas e entre ele e Alícia, qual era esse sentimento que os permitia poder dançar tão facilmente? Paulo Guerra meteu na cabeça que era apenas o profissionalismo da instrutora.
— Você melhorou muito, Sr. Guerra. — enfim Alícia sorriu, sem desviar o olhar. — Sua noiva ficará satisfeita.
Quando ela tentou sair de perto dele, Paulo a impediu, sem quebrar o contado visual. Os olhos dela tremeram perante o olhar penetrante do rapaz, mas não era medo. O moreno pensava seriamente em cometer um pecado, mas seu corpo não o obedecia. Qual era o segredo daquela mulher, afinal? O que ela tinha para fazê-lo ficar como na outra noite? O que ela tinha para deixá-lo preocupado somente com um desmaio por todo o fim de semana? O que ela tinha?
Mas a pergunta muda que seus olhos negros mandavam para ela, sem seu conhecimento, era outra: "E eu, ficarei satisfeito dançando valsa com outra que não você?". Não obteve resposta. Ela afastou-se dele e foi desligar o rádio e pegar suas coisas. Paulo sentiu suas mãos e seu corpo esfriarem. Voltou a colocar as mãos nos bolsos e se aproximou, fazendo uma coisa que nunca esperaria fazer:
— Quer ir tomar um café? — perguntou para as costas de Alícia e viu-a parar o que quer que esteja fazendo. — E... Conversar?
As pernas de Alícia queriam ceder, mas ela não deixou. Mil e uma desculpas passaram por sua cabeça, mas o fato era que não gostaria e se arrependeria para sempre se não aceitasse aquele convite. Ele estava noivo, sua consciência a avisava, mas ela rebatia dizendo que somente iriam andar e conversar. Nunca havia sentido nada parecido. Nada como quando ele se aproximava e seu estômago se rebatia e como se sentia segurando sabendo que sob o olhar dele estaria protegida, pois ele não lhe julgaria nem insultaria e como era bom saber que, mesmo não conseguindo, podia se abrir e ser verdadeira com ele.
Se o tivesse conhecido antes, muito antes, gostaria de tê-lo amado, mas se tivessem se conhecido antes, em outras circunstâncias, o sentimento seria diferente.
Colocou o bolero e virou-se, sorrindo envergonhada:
— Adoraria, Sr.Guerra.
— Me chame de Paulo. — ele disse sério e ela entendeu. Formalidades não era mais necessário, ambos sabiam por quê.
Somente Paulo e Alícia estava bom o suficiente.
~*O*~*O*~*~*O*~
Maria Joaquina estava no hospital, de plantão. Na cozinha dos plantonistas tinha uma mesa onde ela deixara um papel cheio de nomes rabiscados e reescritos, às pressas para atender a um paciente grave.
O papel era branco, mas a caneta da médica, sempre vaidosa, era rosa:
Lista de Casamento
Paulo x Maria Joaquina
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Valéria e Davi — Padrinhos
Mário e Carmen — Padrinhos
Adriano e Laura — Padrinhos
Daniel Zapata
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Academia de Dança Bio Ritmo
Helena...
Dia 25 de Outubro
~*O*~*O*~*~*O*~
Alícia estava voltando pra casa, feliz e caminhando, sentindo-se completamente disposta para tanto, adorava caminhar, mas Jorge sempre dizia para evitar ao máximo qualquer esforço.
Fora agradável sair para tomar aquele café com Paulo, havia muito tempo que não se sentia feliz daquele jeito. Simplesmente contente. O rapaz não falava muito, nem ela, mas eles não precisavam. Seu interior estava completamente aquecido. Paulo a fazia voltar a ser uma menina tola, com sentimentos idiotas como se ele fosse o cara que a levaria para o baile de formatura do colegial.
Ele não era, rebatia sua consciência sempre sensata, ele era o noivo de outra a qual ela somente tinha que ensinar valsa. Ela sabia disso, sabia bem demais, mas afastava essa voz com um balançar da cabeça e voltava a sorrir. Queria permitir-se sonhar apenas por um momento.
O celular tocou assustando-a e fazendo-a parar e sentar-se num banco vago ali perto para colocar a bolsa no colo e vasculha-la a procura do aparelho. Encontrou. Era uma mensagem de Tomás sobre a apresentação de ballet de conclusão de curso a qual Alícia sempre fechava a noite com uma apresentação especial, na mensagem dizia a
"25 de outubro".
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