Entre no Ritmo do Amor
16 Capítulo 15
Notas iniciais
— Dra. Medsen, o que a senhorita está fazendo aqui? — perguntou a recepcionista quando viu Maria Joaquina, seus olhos se arregalaram.
— Não tenho tempo pra explicar, me dá meu crachá! — a recepcionista entregou e viu Maria Joaquina correr até o elevador.
A médica entrou e apertou repetidas vezes o número do sétimo andar, andar dos pacientes em recuperação. Olhou-se no espelho do elevador para ver a si em um vestido de noiva arfando, sua coroa pendida para um lado enquanto fios do seu cabelo soltavam-se do penteado pela corrida e um sorriso enorme em seus lábios avermelhados de batom.
O elevador se abriu com um abafado barulhinho de sino e ela voltou a recolher as barras de seu vestido de noiva e disparar pelos corredores da ala de recuperação, rezando para que o supervisor do hospital não a visse naquele momento. Passou por um senhor sentado na cama com a perna engessada, um paciente que ela não conhecia, deveria ter sido atendido àquela tarde. Ele virou-se para ela, estendeu as duas mãos e sorriu-lhe banguela ao dizer:
— Ah, moça, tem que se casar comigo!
— É claro, senhor! — ela disse isso sem parar de correr. Chegou à porta do quarto a qual já conhecia bem e entrou sem nem mesmo bater. — Daniel!
— Maria Joaquina? — ele olhou-a com os olhos arregalados. Já lhe haviam retirado a máscara de oxigênio. — Não me diga que você abandonou Paulo no altar?
— Não — ela ainda sorria enquanto se aproximava. — Nós só abandonamos o altar.
— Eu não acredito que você... — ele não completou a frase, a voz de Maria Joaquina soou mais autoritária que a dele. Ela ainda mantinha o sorriso brilhante no rosto.
— Daniel! — ele se calou e ela se aproximou. — Você é racional demais! E todo certinho como sempre!
E selou os lábios dele com os seus. Estavam frios por ficar naquele quarto de hospital, enquanto os dela estavam quentes e macios como ele se lembrava. Fechou os olhos rendendo-se ao beijo e deixando que o que tivesse que ser, fosse. Fez Maria Joaquina sentar-se na cama deixando o beijo mais confortável e correspondeu-lhe. Ela sorriu no meio do beijo e separou-se dele.
— Ai! — soltou um gemido de dor ao sentir uma fisgava do peito. — Quando você me operou, deve ter roubado meu coração.
A médica riu da cantada ridícula do rapaz, mas eles ouviram suspiros vindos da porta e, quando se viraram, viram uma pequena plateia de enfermeiros e pacientes parados ali apreciando a cena. A médica riu ainda mais.
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"Droga!" foi o único pensamento que Alícia teve ao sentir-se cair com a turva visão do teto.
O baque não veio e, no lugar dele, aquele barulho de chuva que ela identificou como os aplausos da plateia. Reabriu os olhos, mas antes mesmo de fazê-la já sabia de quem pertencia àqueles braços fortes que a agarraram pela cintura. Conhecia aquela eletricidade passando por sua pele com aquele toque delicado e possessivo. E a plateia urrava com o belíssimo final, como se Paulo devesse fazer aquilo desde o início. A morena fitou os pontos negros de seus olhos esperando sua visão de turvar. Continuava na mesma posição e plateia aplaudia, agora se levantando.
Quando sua visão estabilizou-se ela pôde vê-lo. Os olhos negros, os cabelos arrumados com gel, o terno negro e o sorriso malicioso e doce. Sorriu-lhe e apertou os braços que a seguravam sentindo os músculos por baixo do pano do paletó. Ele a levantou e abraçou-a tão forte como jamais abraçou alguém na vida. Sentia o seu cheiro de glitter misturado a algum leve perfume floral, enquanto Alícia sentia o mesmo cheiro de perfume deliciosamente másculo Paulo sempre usa. Os seus cabelos ainda estavam meio úmidos e ela adorava a sensação dessa frieza quando seus dedos se perderam por ali.
— Você não deveria estar aqui. — ela disse tão emocionada que não gaguejava.
— Quem se importa? — ele perguntou e afastou-se dela. Olhou fundo em seus olhos admirando a cor deles, castanhos chocolates. — Eu amo você.
Alícia não respondeu. Não conseguia. Aquelas eram as três palavras que mais queria ouvir saindo da boca de Paulo e ali estavam elas. Fungou alto e passou os braços por seu pescoço enterrando a cabeça na curva dali para logo depois deixar que ele lhe acariciasse a bochecha manchando seus dedos com glitter e tinta branca e a beijasse. Não se importou que seus lábios estavam cheios de batom artístico, não se importou de estarem no meio do palco no fim da apresentação dos formandos da Academia, não se importou de Lima Gusman estar na plateia com Letícia urrando de alegria ao seu lado.
Apenas fez o que já deveria ter feito há muito tempo. Beijou-a para demonstrar que era ela e mais ninguém, que estava ali e era onde iria permanecer, com ela. Gostou da sensação das estrelas explodindo em seu interior, agora com mais intensidade. Segurou-lhe a cintura e pegou-a pelas pernas, ainda beijando-a. Separaram-se e ele sorriu-lhe de canto enquanto andava seguramente até a beirada do palco, sem parecer que estava fazendo esforço em carregar qualquer coisa, e curvou-se agradecendo ao público que bateu ainda mais palmas. Então ele saltou a pequena distância do palco até o chão e foi seguindo com Alícia em seus braços até a entrada no meio daquelas fileiras abarrotadas de gente. Os holofotes os seguiam.
— Paulo, aonde nós vamos?
— Vamos fugir.
— Fugir? — ela arregalou os olhos.
— Fugir. — ele disse na maior naturalidade enquanto andava pelos conhecidos corredores da Academia e deixava as palmas irem terminando no auditório. — Quer fugir comigo?
— Com você eu faço qualquer coisa. — ela disse corando para ele entender a duplicidade de sentido de suas palavras. Ele apenas sorriu e continuou andando pelo caminho de pedras amareladas até a entrada. — Mas para aonde vamos?
— O que você prefere? — a instrutora não respondeu. Nunca fizera ideia de um lugar que gostaria de ir, pois nunca cogitara a opção de sair daquela cidade, quem dera aquele país. — Vamos rodar o mundo.
Ela riu divertida com aquela opção e ele a colocou no banco do carona dando a volta no carro e sentando-se no banco do motorista. Assim que ele sentou Alícia o beijou novamente demorado, calmo, apreciando o contato e como os lábios dele ficavam encantadores cheios daquele glitter prateado. Colou sua testa com a dele sentindo a eletricidade que sempre acontecia ao contato de sua pele e seu estômago querendo sair com a intensidade de seus olhos de negros.
— Eu amo você também, Paulo.
~*O*~*O*~*~*O*~
Quando Fernando chegou na empresa depois de uma viagem de negócios ficou sabendo do que acontecera no casamento de Paulo e não estava nada satisfeito. A sua secretária anunciou que o sobrinho havia lhe deixado um bilhete sobre a mesa. Quase arrancou a porta ao passar por ela como um furacão. Pegou o papel e começou a passar os olhos pela letra fina e perfeitamente reta de Paulo.
"Tio,
Desculpe não me casar, como você queria. Quer dizer, que se dane. Eu consegui minha parte da herança mesmo sem ter que enlaçar matrimônio. Não com Maria Joaquina, pelo menos. Agradeço pelos anos que convivi com você, foi uma tortura.
Até nunca,
Paulo.
PS: Já visitou Natal?".
Fernando tacou o bilhete no lixo e deixou que seus olhos castanhos passassem momentaneamente para a coloração vermelha de efeito do sol. Sorriu frente a ousadia de Paulo. Havia o ensinado muito bem.
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