Notas iniciais
Aconselho a ouvirem essa música. Minha música preferida ♥ https://www.youtube.com/watch?v=87jUZy78Up4 Entrem no ritmo e boa leitura. Kissus jane RCB

Eles não quiseram um casamento convencional na igreja. Aliás, Maria Joaquina não quis. O seu casamento iria ser no saguão de um hotel lindíssimo no centro da cidade. Tinha fileiras de bancos de madeira lotados de convidados, entre eles amigos dos noivos, sócios da empresa de Paulo, médicos amigos de Maria Joaquina, familiares. Entre os bancos estavam depostos arranjos belíssimos de lírios brancos e rosas. No altar tinha um arco de madeira enfeitado com mais flores.

Um quarteto de cordas em um dos lados, o padre estava esperando atrás de um púlpito de madeira no altar. Eles tocavam uma música alegre. Do salão ao lado, para dar água na boca dos convidados, vinha o cheiro do delicioso banquete que seria servido na festa após o casamento. Festa essa em que Maria Joaquina e Paulo iriam dançar a tão esperava valsa dos noivos. Lá fora a noite estava caindo, era hora de começar o casamento.

As damas de honra esperavam na porta com seus belos vestidos rosa bebês e Mário, Laura, Davi e Valéria estavam sentindo-se incomodados no altar esperando por Paulo e por Maria Joaquina. Eles estavam um tanto atrasados já. Mário estava pegando o celular o bolso enquanto levava a mão à garganta para afrouxar inutilmente seu colarinho sufocante, mas mais uma vez foi à voz da secretária eletrônica que chegou a seus ouvidos.

— Davi. — ele sussurrou. — Quais as chances do Paulo não vir?

— Acredito que muito altas.

— Droga!

Ele também sabia dessas altas chances, mas ainda tinha uma esperança vaga de que o moreno cumprisse sua palavra e não fizesse um escândalo desses que cairá nos jornais no dia seguinte. Cerrou o punho decidido a esperar mais cinco minutos, se ele não aparecesse iria ele mesmo achá-lo. O rapaz desceu do pequeno altar e foi andando entre as duas fileiras de bancos apinhados de convidados impacientes e tagarelas até a entrada. Parou na porta entre o pequeno tumulto das damas de honra e levou novamente a mão ao colarinho.

— Maria Joaquina... — havia uma limusine estacionada na entrada do hotel. Uma limusine branca que supostamente deveria buscar a médica em casa e trazê-la até a cerimônia. A porta estava aberta e ela tinha os pés para fora enfiados nas sandálias prateadas. As barras do vestido tinham um bordado lindo de pequenas flores rosadas e detalhes verdes para os caules e folhas.

Mário esticou-se um pouco para ver a face de Maria Joaquina, mas seu braço foi puxado bruscamente fazendo-o retornar para dentro da igreja. Ele olhou para o lado para ver Paulo vestido com o terno preto do casamento, os cabelos arrumados com gel, um perfume masculino muito bom e a face impassível, nem demonstrando irritação ou felicidade. Apenas sério.

— Você demorou, seu idiota!

— Não enche, palhaço!

— Onde você estava?

— Estava me arrumando. — Mário deu a conversa por encerrada. Eles haviam chegado ao altar em meio aos cochichos discretos. — ou nem tão discretos assim. — dos convidados falando da falta de consideração pelo moreno estar atrasado.

Nenhum dos padrinhos mais teve oportunidade de dizer qualquer coisa, Maria Joaquina ia entrar a qualquer minuto e os convidados se levantaram. A marcha nupcial começou a ser tocada pelo quarteto de cordas e a memória mais vívida que Paulo tinha daquele casamento era o cheiro do banquete na sala ao lado. As damas de honra entraram despejando pétalas de flores pelo caminho. Logo após elas vieram um casal de crianças que ele não fazia ideia de quem eram carregando as alianças e de mãos dadas. Eles paravam de minuto a minuto para o fotografo fazer o seu trabalho. E então veio Maria Joaquina. Ela estava radiante com os longos cabelos castanhos puxados para trás e presos com a coroa. Ela deu alguns passos muito lentamente, mas Paulo notou seus olhos vermelhos e a falta de seu sorriso. Ela vinha entrando sozinha, fora uma decisão dela mesma.

Paulo ficou no centro da passarela, um tapete vermelho estendido por toda aquela extensão, agora salpicado de flores pisoteadas. Maria Joaquina estancou de um lado, ele do outro. Entre eles na passarela estava o vazio, as desculpas e o entendimento mútuo. Ela deixou as lágrimas silenciosas voltarem a escorrer do seu rosto e elas não abrandavam mesmo a médica tentando secá-las com as costas da mão enluvada. E, pela primeira vez desde que aquele pesadelo de casamento tinha começado, Paulo se sentiu aliviado e deixou que o peso que esmagava o seu estômago fosse removido. Permitiu-se sorrir.

O moreno foi com passadas largas até o meio da passarela e Maria Joaquina completou o caminho, ainda chorando, mas rindo entre as lágrimas. Ela chegou, deixou o buque no chão e ele colocou suas mãos nas suas. Ela continuava rindo. Ele tirou o lenço do bolso da frente e estendeu-lhe a qual ela aceitou de muito bom grado. Os convidados soltavam suspiros e sorriam, mas o fotógrafo e os padrinhos não estavam entendendo mais nada. Não era isso que eles tinham combinado nos ensaios. Mário e Davi se entreolharam.

— Eu não posso fazer isso! — eles disseram em uníssono e sorriram ao mesmo tempo.

Paulo Guerra aproximou-se e beijou os lábios delicados de Maria Joaquina Medsen.

~*O*~*O*~*~*O*~

Aquele quartinho onde ela estava, com suas paredes brancas com espelhos emoldurados por luzes, penteadeiras lotadas de maquiagem e glitter e araras com figurinos parecia abafado demais. Alícia se olhou no espelho mais uma vez. Quase não se reconhecia quando colocava aqueles figurinos e aquelas maquiagens. Sua veste era apenas um top brilhante e uma saia rodada com fitas. Tinha mais fitas presas em seus braços e nos cabelos. Em sua face tinham feito uma maquiagem para que parecessem duas asas brancas de pássaro sobre seus olhos e um batom de glitter prateado. Ela estava brilhante.

— Alícia! — Tomás colocou a cabeça dentro do camarim. De inicio, a morena pensou que era para avisar que a apresentação dela começaria em tantos minutos. Só que ele não sorria, coisa que a deixou preocupada.

— Sim, Tomás?

— Tem alguém que quer falar com você.

A garota levantou-se da cadeira e colocou as duas mãos cruzadas em frente ao corpo. O seu coração se aqueceu de repente e ela até se assustou com a sensação. Tomás abriu mais a porta afastando-se e deixando que o homem no terno negro ficasse visível. Ele tinha a face, como sempre, séria, mas naquela ocasião ele deixou escapar um sorriso. Um sorriso triste, um sorriso de desculpas. O sorriso que Alícia jamais vira na vida.

— P-pai?

— Alícia. — ele repetiu o nome dela saboreando cada letra enquanto Tomás fechava a porta e os deixava a sós.

— O que o... O senhor faz aqui? — o que tinha aquecido o coração de Alícia dissipou-se. Ela tinha, realmente, pensado que Paulo voltara para ela. Mas aquela presença não era acolhedora como a dele, era amedrontadora e fazia aquela saleta abafada esfriar demais repentinamente.

— Eu vim com Jorge. — eu deu um passo em direção aos figurinos, não a encarava. — Vim ver sua última apresentação em memória da sua mãe.

Quando ele se virou bruscamente para encará-la os frios olhos acinzentados estavam úmidos. Alícia assustou-se com a visão de seu pai tão frágil. Ele nunca se deixara ver frágil como estava agora, não pelas filhas, pelo menos.

— Eu lhe devo desculpas, Alícia.

— O que está...?

— Por favor, deixe-me fazer isso. — ele estendeu a mão para interrompê-la. — Desculpe por descarregar em você a dor da morte de sua mãe. Eu sei que se ela me visse agora iria ficar muito zangada pelo pai amargurado que eu me tornei. — ele riu tristemente com a lembrança. — Sua mãe era uma mulher incrível e perdê-la tão repentinamente no parto da Letícia mexeu muito comigo. E eu acabei descontando tudo em você, minha filha.

Alícia aproximou-se e colocou uma mão no ombro largo do patriarca Gusman. Aquela altura seus olhos também estavam repletos de lágrimas e, provavelmente, teria que refazer sua maquiagem.

Sempre que Alícia Gusman estava na presença daquele homem ele não era um pai, era um educador, um disciplinador que queria que ela e Letícia dessem o melhor de si em tudo o que fizessem e não ser boa nisso era uma desonra. Lima Gusman era o homem que não brincava com as filhas, ou lhes sorria, ou lhes pegava na mão quando doentes. Ele era o pai que ralhava por uma nota baixa, que ia na formatura da universidade, que pendurava o diploma na parede. Não era o pai que vinha em recitais de dança.

Mas ali estava ele, com os olhos marejados, querendo se redimir com a filha por um pecado que ela nem fazia ideia de que ele vinha cometendo e, muito menos, escondendo.

— Você é muito parecida com ela. — ele não a encarava perdido em memórias. — Mas o chefe dos Gusmans não pode demonstrar fraquezas e foi o que fiz. E eu só queria criar vocês para serem fortes e não ficarem se lamentando a perda dela. Quando você quis dançar eu não suportei mais. — a essa altura Lima já não conseguia mais conter as lágrimas. — Sua mãe foi a mais bela bailarina que eu já vi cruzar esse palco e eu a vejo em você sempre.

— Oh papai... — Alícia o abraçou e o homem mais poderoso de todo os Gusmans deixou-se ser abraçado carinhosamente pela filha, desabafando, derramando prantos e colocando por terra suas defesas.

— Desculpe não vir a seus recitais, mas é muito doloroso reviver essas memórias.

— Está tudo bem, pai. — a morena acariciou-lhe a costas deixando um sorriso brotar-lhe nos lábios. — Está tudo bem.

~*O*~*O*~*~*O*~

— O que é que você está fazendo, seu idiota? — esbravejava a voz de Mário ao telefone. Paulo sorria como um bobo ao volante.

— O que os convidados acharam?

— Ficaram escandalizados! O que você esperava?

— Guie-os até o salão e faça a festa assim mesmo.

— O quê? Maria Joaquina está com você?

— Não, porque ela estaria comigo? — ele ainda continuava com o sorriso e os flashes dele e de Maria Joaquina correndo de mãos dadas para fora daquele lugar continuavam a vir pela sua mente. Na porta do hotel eles se separaram e cada um foi seguir com sua vida.

— Não sei, vocês saíram juntos, pensei que estavam fugindo. — ouve-se uma pausa — Se liga, todas as mulheres estão pensando que vocês fugiram por amor!

O moreno gargalhou diante daquela frase.

Fugindo por amor!

Eles estavam mais era fugindo do amor.

— Mário?

— O quê?

— Vá aproveitar o banquete e coma por mim.

— Você vai ficar bem, Paulo?

— Eu te mando um postal.

Desligou o celular e tacou-o no banco do carona. Ainda estava sorrindo.

~*O*~*O*~*~*O*~

— Alícia? — Tomás colocou a cabeça para dentro do camarim da morena, ela tinha acabado de refazer a maquiagem destruída pelas lágrimas, mas agora o sorriso em seu rosto era mais radiante do que nunca. — Você está pronta?

— Sim. — ela levantou-se, checou as sapatilhas brancas ficando na ponta e foi até ele.

— Então vamos, é a sua deixa. — ela segurou a porta aberta para ela que foi até uma das coxias.

— Tem... Muita gente? — ela perguntou torcendo as mãos.

— Tem. Muita! — ele sorriu. Estava vestido com terno, não com uma de suas roupas de tango. Tomás fora um dos professores que fizera a entrega dos certificados de conclusão de curso. — Boa sorte! E arrase!

Respirou fundo quando a música do último grupo terminava e as meninas começavam a entrar nas coxias sendo muito parabenizadas. Sua música começou a tocar e ela entrou na ponta. Quando começaram os rodopios ela tentou olhar para a plateia, saber se estava tão lotada quando Tomás lhe dissera, mas não conseguiu. Os holofotes jogavam seus jatos de luz diretamente em seu rosto e, como em todas as apresentações que fez, ela abençoou e amaldiçoou aquela luz. Abençoou por não ter que olhar para os rostos das várias pessoas que estavam ali e amaldiçoou por não poder ver seu pai, Letícia, Jorge, Margarida e... Ele. Não queria ficar pensando em Paulo, seu coração ardia ao saber que aquela altura ele já estava casado. Não queria pensar em Paulo, mas ainda tinha aquela vã esperança dos tolos.

Suas pernas estavam firmes aquele dia, apesar do cansaço do dia anterior e da noite mal dormida. Fechou os olhos enquanto executava a coreografia que ela mesma montara para aquela ocasião especial. Ouvia a música atenta sabendo em qual compasso deveria fazer o quê. E fazia. Com perfeição. E enquanto dançava pensava sempre nos momentos bons que tivera.

Seu pai pedindo-lhe desculpas.

Jorge e Margarida a apoiando sempre.

A ajuda com o vestido que dera a Maria Joaquina, mesmo achando que a médica não fora com a sua cara.

Quando conheceu Mário.

E Paulo... O que mais lhe vinha à mente, mesmo querendo evitar forma definitiva, era o moreno de olhos negros. Vinha à imagem dele de olhos vendados, dele carregando aquele menino em seu sonho, de si mesma e ele dançando aquele ritmo latino e como era deliciosamente ardente o toque dele sobre sua pele. As pontas frias de seus dedos naquela mão grande e nos ombros largos, mas especialmente os raros sorrisos.

Sorriu e voltou a abrir os olhos, as imagens de qualquer coisa estavam desfocadas. Os holofotes ainda a cegavam e sua música estava chegando ao fim. Sentiu uma vertigem, mas se obrigou a continuar, tinha que terminar. Terminar aquela apresentação pelos seus alunos, por seu pai e por si mesma. Já fora um fracasso por tempo suficiente. Fez mais alguns passos e, infelizmente, não aguentou mais. Deixou-se sair da ponta ouvindo o baque de seu pé contra o assoalho. Seus olhos se semicerraram e tudo parecia mais escuro do que deveria, os holofotes já não a cegavam, mas sua única visão era o teto.

Da plateia, eles observavam aquela bela bailarina cair.

Notas finais
O que acharam? A ficção tá quase no fim realmente!! Reviews? Kissus jane RCB