Notas iniciais
Aconselho a ouvir esta música.. https://www.youtube.com/watch?v=WVe80iZtlYU Uma ótima leitura e entre no ritmo rssrs kissus jane RCB

"Paulo, eu tenho certeza que você gostará dessas aulas de dança e acho que elas lhe farão muito bem." Essa frase pronunciada por Mário deveria ser um encorajamento, mas ficava passando e repassando na frente de seus olhos, enquanto dirigia pelas ruas pouco movimentadas daquele bairro, como se fossem a pior das torturas. Porque mesmo tinha aceitado aquela estupidez toda?

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Lembrou-se, então, da curta conversa que tivera com sua noiva:

— Paulo, nós vamos dançar valsa! — ela anunciou sorridente e autoritária do outro lado da mesa do restaurante onde almoçavam.

— Maria Joaquina, você sabe que eu não danço. — ele respondeu sem nem ao menos encará-la.

— Mas é o nosso casamento, meu amor. Temos que dançar.

— Não.

A garota ficou em silêncio por alguns instantes, instantes que começaram a deixar Paulo levemente preocupado, mas só levemente.

— Então eu estou em greve!

Até temia perguntar, mas o fez:

— Greve de quê?

— De sexo, querido — a voz dela era séria e essas palavras fizeram Paulo olhar para ela, sério. Greve de sexo? Quem ela pensava que era para tamanho atrevimento? — E, não importa como, eu farei de tudo para não lhe dar um filho.

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Aquela fora a gota d'água. Teve uma imensa vontade de acertar-lhe um sonoro tabefe na cara, mas se controlou apertando os punhos.

Porque mesmo tinha aceitado casar-se com aquela mulher, em sua opinião, irritante e manipuladora? Ah, sim, pois se não se casasse até o fim daquele ano não poderia receber a sua parte de direito na empresa do seu pai e a escolha de esposas estava limitada entre Maria Joaquina e Margarida.

Será que Margarida seria melhor que Maria Joaquina se a tivesse escolhido? Era uma pergunta a qual ele nunca teria resposta.

— Certo, valsa, que seja! — relaxou, então, voltando a fitar o prato. Não era uma coisa tão macabra afinal. Paulo Guerra apenas nunca dançara em sua vida.

Maria Joaquina sorriu e começou a se preparar para ir embora, retirou um cartão de cor creme da bolsa e estendeu-o para o noivo.

— Esse é o endereço do professor de dança.

— Espere aí, professor?

— Sim, ou acha que eu quero "algumazinha" perto de você? Esteja lá, Paulo Guerra, ou irá se arrepender. — ao terminar de falar levantou-se e partiu como se Paulo realmente tivesse medo dela.

— Essa mulher vai transformar minha vida num inferno. Droga!

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"Ou melhor, essa mulher é o inferno" pensou estacionando o carro na frente de um casarão antigo junto com outros poucos carros. Suas paredes e pilastras eram pintadas com um tom de verde aconchegante, enquanto suas portas e janelas eram feitas de uma madeira escura. Era um bairro tranquilo e de aparência familiar e isso o fazia lembrar-se de sua noiva, deixando-o estressado.

Andou por uma pequena e curta estrada de pedra amarelada até a entrada da casa, as grandes portas duplas se encontravam abertas e um som abafado de músicas — clássica, mambo, tango e até rock — vinha de lá de dentro. O moreno entrou no pequeno Hall que servia de recepção, um balcão estava disposto logo na parede esquerda e uma garota aparentemente entediada rabiscava em um caderno.

Quando ele se aproximou a garota levantou a cabeça e o encarou com dois grandes e curiosos olhos claros, os mais claros que Paulo já vira, beiravam o azul-acinzentado, mas tinham um tom leve, quase imperceptível, de azulado. Ela sorriu-lhe marotamente, conhecia muito bem aquele sorriso que as mulheres lhe mandavam, e começou dizendo:

— Seja bem vindo a Academia de Dança Bio Ritmo, posso ver seu cartão? — ela tinha a voz firme e decidida, mas parecia ser uma garota bem jovem, deveria ter mais de dezessete anos. O moreno entregou-lhe o cartão que sua noiva lhe dera e ela o analisou, sorrindo logo após — Sou Bibi, venha comigo.

A garota de cabelos ruivos saiu de trás do balcão, era visivelmente muito mais baixa do que Paulo. Ela guiou-o por alguns corredores, o assoalho era impecavelmente brilhante e bem encerado sob seus pés. Ás vezes, ao passar por uma das grandes portas de madeira escura, ele podia ouvir o som de várias músicas diferente, desde Mozart ao mais recente sucesso pop, ás vezes também podia ouvir algum professor de dança instruindo algum aluno.

Bibi parou em frente a uma porta do fim do corredor. Abriu-a e um leve som instrumental saiu de lá de dentro, ela lhe sorriu e disse:

— Essa será sua sala pelas próximas seis semanas, Sr. Guerra. — depois passou por ele seguindo o caminho de volta por onde tinham vindo — Divirta-se.

O rapaz ficara olhando a garota virar em uma esquina do corredor e desaparecer. Mirou a porta entreaberta e se aproximou com certo receio, não gostara nada de Maria Joaquina ter-lhe contratado um professor de dança. O som ia ficando cada vez mais alto. Ele olhou para dentro do cômodo, era espaçoso e de onde estava podia ver um pedaço de grandes espelhos dispostos na parede direita e grandes janelas na parede oposta a porta e na parede esquerda por onde a luz do sol poente entrava.

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Deu alguns passos para dentro da sala observando a paisagem das janelas, os jardins bem cuidados do casarão onde algumas pessoas praticavam Ioga sob as árvores frondosas.

As mãos do moreno mergulhadas em dois dos vários bolsos que aquela calça larga preta possuía uma calça esporte que ficava extremamente bem no rapaz, e a expressão séria habitual.

— Sr. Guerra? — seus ouvidos captaram uma voz suave, tão melódica quanto à música que, sem que percebesse, havia silenciado no cômodo. Virou-se para encarar olhos castanhos.

A jovem possuidora daqueles olhos tinha cabelos longos e pretos, vestindo-se com um collant negro sob uma larga blusa de lã branca e polainas lilases sobre as sapatilhas negras. Sua postura era dolorosamente ereta e matinha as mãos unidas atrás do corpo. Era esguia e magra como uma dançarina deveria ser, mas escondia suas curvas que Paulo sabia que ela possuía sob a blusa de lã.

Quando o rapaz voltou a olhar para sua face ela estava avermelhada, um pouco pelo sol poente, um pouco pela vergonha de ser analisada tão atentamente por aqueles olhos castanhos audaciosos.

— Meu nome é Alícia Gusman. — ela disse, estendendo-lhe a mão. — Eu serei... Sua instrutora de valsa.

Ele não pode conter o sorriso miúdo e imperceptível que esboçou. Então os planos de Maria Joaquina de ter um instrutor masculino foram por água abaixo, teria aulas de dança com uma professora que, mesmo parecendo muito tímida para aquela profissão, não era nada de se jogar fora.

Notas finais
O que acharam?? Kissus jane RCB