Entre no Ritmo do Amor
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Mas estava curioso, o que será que havia acontecido para que ele não tivesse o tal instrutor? Alícia, como se lesse seus pensamentos, respondeu:
— Infelizmente, Sr. Guerra... O senhor Giovanni não poderá lhe instruir — ela o olhou fixamente. — Ele fará uma cirurgia leve no joelho. — o jeito de falar dela era pausado e baixo, e isso era meio irritante para o moreno que estava tão acostumado ao jeito espalhafatoso e alto de Maria Joaquina falar – Me pediu para substituí-lo.
O rapaz deu de ombros, virando-se para as janelas de novo. Não se importava nem um pouco que esse tal de Giovanni fosse fazer o que quer que seja no joelho, já que aquilo lhe garantira uma instrutora, pelo menos, do seu sexo oposto, estava tudo bem.
— Gostaria de... Começar, Sr. Guerra?
— Antes de tudo eu gostaria de deixar bem claro que eu não danço! — ele pronunciou-se pela primeira vez encarando os olhos castanhos ameaçadoramente como se aquela garota tivesse toda a culpa da situação em que Maria Joaquina lhe colocara — Só estou aqui por causa da neurótica da minha noiva, então me ensine logo à valsa para que isso termine de uma vez.
Por um minuto Paulo pensou que aquela tal Alícia iria se desfazer em lágrimas tamanho o tremor que viu passar por sua face, mas ela somente soltou as mãos das costas e começou a dizer em sua voz pausada e melódica:
— Infelizmente... Não é tão fácil assim. — ela seguiu até o aparelho de som apertando o play. Imediatamente a Valsa do Beijo começou a tocar e a garota aproximou-se ficando a apenas três passos de distância do moreno — O senhor nunca dançou, Sr. Guerra?
— Não acabei de dizer isso? — ele cruzou os braços sobre o peito.
— Bem, então... — ela ignorou a resposta malcriada e encurtou a distância entre eles — Coloque a mão direita aqui. — ela segurou o braço do moreno por cima da manga da blusa azul tomando cuidado para não tocar sua pele e levou a mão dele até o alto de suas costas sentindo como aquela mão de pele tão branca era grande e forte. — E a mão esquerda aqui — ela pegou em sua mão esquerda e a estendeu junto com a sua direita, enquanto sua esquerda repousava no ombro dele.
Alícia achava aquela valsa essencialmente perfeita para o começo da aprendizagem, não era tão lenta e nem muito rápida. Ela deixava os sons fluírem enquanto instruía Paulo a dar dois passos para trás, um para o lado direito, dois para frente e então uma meia volta.
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Pena que o rapaz não parecia querer colaborar. Ele mantinha-se extremamente rígido, olhando para seus pés e muitas vezes fazendo o contrário do que Alícia dissera para fazer. Realmente aquele homem nunca havia dançado na sua vida.
Os olhos negros se mantinham extremamente atentos em seus pés, enquanto a cabeça de Alícia estava inflexivelmente ereta. Aquele era o total sinal da insegurança. Alícia o conhecia bem, pois era daquela maneira que permanecia quando não estava dentro daquela Academia de Dança, introvertida, amuada e quieta.
Estava pensando nisso quando sentiu o pé de Paulo pisar pesadamente sobre a sua sapatilha provocando-lhe uma dor que subiu instantaneamente para seu cérebro. Não eram incomuns as pessoas pisarem em seus pés na primeira aula de dança, já estava mais que acostumada e já sabia o que viria a segui.
Paulo parou bruscamente saindo de perto da morena com a face mais séria e carrancuda do que a que entrara. Voltou a colocar as mãos nos bolsos e encarou Alícia.
— Eu disse que não danço! — ele começou a caminhar rumo à porta. A Valsa do Beijo voltando a tocar repetitivamente — Podem ficar com o dinheiro do depósito que Maria Joaquina fez e em troca diga a ela que eu estou frequentando as aulas.
— Mas, Sr. Guerra...
O moreno não deu tempo para Alícia falar, já saíra pela porta e seguia pelo corredor. Ela ficou parada na sala, a mão a meio caminho estendida para a porta por onde ele saíra. Estava inconformada, como ele podia desistir tão facilmente?
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Por um momento pensou que era melhor deixá-lo ir, mas lembrou-se da promessa que fizera e concluiu que as coisas simplesmente não podiam terminar daquela maneira. Saiu pela porta, o sol já estava quase totalmente posto e as luzes do local começavam a se acender. No fim do corredor pode ver os cabelos negros de Paulo virando a esquina do corredor. Correu até lá o agarrando pelas costas da blusa azul.
Paulo sentiu o puxão e estancou. Já estava pronto para se virar e despachar quem quer que fosse com palavras ríspidas, mas perdeu a coragem ao cruzar seus olhos impiedosos com os suplicantes de Alícia. No fim do corredor, Bibi novamente desviara seus olhos dos rabiscos no caderno para assistir a cena.
— Sr. Guerra... Não vá! — ela suplicou com a voz levemente mais alta do que a que usara para falar com ele na sala de aula — Por favor, eu tenho certeza que... Posso te ensinar — as mãos pálidas dela tremiam.
Ao longe uma porta foi aberta e vozes animadas se aproximavam. Paulo praguejou tão baixinho que nem mesmo Alícia ouviu, ele não queria que os vissem naquela situação, a garota era instrutora ali, ficariam do lado dela com certeza. Olhou novamente para os olhos dela sentindo-se tentado a abanar o braço para fazê-la soltá-lo e virar as costas, partindo, mas ele sabia que não conseguiria. Ele queria ficar, queria saber o que aqueles olhos queriam lhe dizer. Alícia fazia-o querer essas terríveis aulas de dança.
— Tudo bem. — a mão de Alícia o soltou para que junto com a outra fossem se cruzar sobre o peito da moça. Na face da morena a expressão desesperada foi substituída por uma extremamente aliviada.
Ele estranhou, sentia que havia algo mais naquele pedido. As professoras de cursos como dança, artesanato, pintura, línguas e etc., na verdade não deveriam ficar tão desesperadas por um de seus alunos decidir deixar o curso, na verdade deveriam apenas concordar com a decisão. E uma professora de qualquer coisa ficaria até aliviada se seu aluno desistente fizesse o que Paulo fez, não exigisse reembolso.
Virou-se para continuar seu caminho sem dirigir mais nenhuma palavra a garota.
— Até amanhã, Sr. Guerra. — foi à última fala melódica que seus ouvidos captaram, pois logo tudo foi abafado pelos alunos que acabaram a aula do dia e iam embora conversando animadamente. Ele passou pela recepcionista Bibi que apenas o seguiu com o olhar.
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Paulo abriu a porta do seu apartamento, tirou os sapatos, tacou a chave sobre a mesinha do Hall de entrada e pendurou o casaco num dos ganchos atrás da porta. De tão distraído que estava nem notou o outro casaco que jazia ali e o cheiro de comida queimada que predominava em todo o ambiente.
Deitou-se no seu macio e enorme sofá de cor preto e pousou o antebraço sobre os olhos. Sua mente estava longe, vagando em um mundo novo que acabara de conhecer, a música clássica ainda tocando em sua mente. Sentiu suas pálpebras pesarem e desistiu da ideia de ligar a televisão para ver as notícias, ao invés disso virou-se de costas para a mesma, adormecendo.
Depois de apenas meia hora de sono Paulo despertou de seu estranho sonho de uma imensidão banhada com as luzes do pôr do sol por uma voz, não suave, baixa e melódica, mas alta, extravagante e aguda. Maria Joaquina chamava-lhe e lhe cutucava o ombro. Pelo jeito ele ainda não lhe dissera como odiava que o acordassem, ainda mais daquela maneira.
— Queria te acordar antes para avisar que estava fazendo o jantar, Paulo, mas você parecia tão bem dormindo. — a moça disse sentando-se em um espaço do sofá.
"E estaria melhor se você não tivesse me acordado, obrigado!" muitos de seus pensamentos o moreno tinha mesmo vontade de dizer, mas a sua boa educação e galanteio para com as mulheres sempre falava mais alto. Mesmo que essa mulher fosse Maria Joaquina Medsen.
— Venha, vamos jantar. — ela levantou-se e estendeu a mão para ele que, mesmo sem fome e a contra gosto, aceitou e deixou-a guiá-lo a cozinha. Sentaram-se a mesa em silêncio, Maria Joaquina já estava mais que acostumada com as poucas ou quase nulas palavras do noivo. — Como foi à aula de dança? — perguntou esperando mais silêncio, mas para sua surpresa ele respondeu.
— Péssima, eu te avisei que não danço — ele lembrou-se dos olhos castanhos de Alícia, calmos e pacientes, banhados pelas luzes do crepúsculo — Porque não desiste dessa ideia, Maria Joaquina?
— De maneira alguma, Paulo. — ela disse sorrindo convicta. — Precisamos dançar valsa no nosso casamento.
— Eu espero que isso não seja nenhuma ideia absurda para provocar a Valéria. — ele nem se deu ao trabalho de levantar os olhos do prato, aquilo estava muito gostoso.
— Não! Como pode pensar isso?
Ficaram alguns minutos em silêncio, ele não precisava responder, sabia como Maria Joaquina e Valéria gostavam de se alfinetar, não era surpresa toda a insistência de Maria Joaquina para aquela tal de valsa, portanto só se deu ao trabalho de continuar mastigando aquela comida deliciosa e que tinha impressão de conhecer. Quando foi que Maria Joaquina teve tempo de sair de perto de seus pacientes para aprender a cozinhar? Aquela mulher não era do tipo dona de casa.
— Podemos convidar o professor Giovanni para o casamento, o quê você acha? — ela perguntou inocentemente, o que fez o moreno responder imediatamente um sonoro.
— Não!
— Ah, eu sei, ele é bem esquisito, não é? Credo! – ele não conhecia esse tal Giovanni, mas não queria era que Maria Joaquina soubesse que não estava sendo ensinado por um homem, mas por um ser delicado e de várias curvas.
— Maria Joaquina, onde foi que você escondeu? — ele terminou de comer, colocou os cotovelos apoiados na mesa enquanto cruzava as mãos e encostava a boca nelas.
— Escondi o quê? — ela sorriu desconfortavelmente.
— As embalagens, ou você acha que eu vou acreditar que foi você quem cozinhou isso?
"Maldição!" ela pensou.
— No lixo do corredor.
— Hm. — se levantando e caminhando em direção ao quarto.
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Paulo estava debruçado na sacada do prédio, a sacada que ligava os dois quartos de seu apartamento mais a sala. Ele vestia apenas uma cueca boxer preta e não se importava com o vento da madrugada. A suas costas, vista pela porta entreaberta do quarto, com a lua e algumas luzes de fora a iluminar o cômodo, encontrava-se a noiva completamente nua entre os lençóis brancos da cama, dormindo meio descabelada, mas com uma expressão serena. Pelo assoalho jaziam suas roupas esparramadas.
O rapaz estava cansado, mas não conseguia dormir. Não tinha nenhum remorso ou arrependimento de suas decisões, mas pensava em como deveria ser para Maria Joaquina casar-se com ele somente para que ele conseguisse a sua parte por direito na empresa. Ela tinha apenas 23 anos, acabara de começar sua carreira e já ia se casar e ele também queria aproveitar mais a vida.
Quando perguntara isso a ela, a moça apenas lhe disse que lhe amava e que faria de tudo por ele. Mas e ele, a amava?
"Não, com certeza não" pensou respondendo a sua pergunta "Isso é só obrigação... E sexo".
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