Notas iniciais
Aconselho a ouvirem essa música. Ela mostra realmente como estou sentindo com tudo isso e quanto a Alícia sente em relação ao Paulo. https://www.youtube.com/watch?v=i-Hv2ZVYm7A Boa leitura e entrem no ritmo Kissus jane RCB

As luzes do salão de instrução de valsa foram acesas. Alícia e Paulo ainda estavam lá, dançando sem parar, aproveitando cada segundo juntos que ainda possuíam. Naquele dia Paulo não ficara observando os praticantes de ioga no gramado a meia luz do pôr do sol, ficara somente admirando como aquelas cores se misturavam com o tom castanho do olhar dela.

Alícia não o dispensara, nem fizera menção de parar de dançar. Ignorava a dor latejante de suas pernas. O céu já estava completamente escuro, passara da hora de Paulo ir embora, mas eles ainda estavam lá, dançando e dançando e dançando. Ela apoiou a cabeça no ombro de Paulo pela última vez. Aquele era o desfecho final da última valsa daquele CD.

O moreno sentiu-a estremecer em seus braços. Não queria soltá-la, não queria ir embora e não voltar mais aquele lugar, o que, provavelmente, era o que iria acontecer. Passou as mãos pelas costas desnudas de Alícia sentindo a maciez daquela pele de seda. As pontas de seus dedos estavam frios contra a pele sempre morna dela. Ele também sentia seus lábios frios, até sua respiração estava fria.

A música foi terminando e a morena desencostou de Paulo. Olhou profundamente por vários instantes incontáveis. Era difícil desviar seus olhos do dele, tão difícil que doía. Ele olhava-a querendo que ela entendesse que aquilo também era difícil pra ele, que tudo aquilo fora mais que simples aulas de dança, que cada vez que ele entrava por aquela porta era como se um raio de sol invadisse seu peito e o fizesse respirar tranquilamente por ela simplesmente estar ali, mais uma vez com ele. Toda vez que Alícia olhava-o e piscava era como se ele estivesse observando um par de estrelas muito próximas a si, pois se você olhar atentamente para uma única estrela brilhante no céu poderá perceber como ela pisca levemente, como se ocorressem explosões constantes com ela a milhares e milhares de anos-luz de distância.

Todas as vezes que Alícia Gusman piscava, Paulo Guerra sentia uma explosão dentro de si. Ele não percebera antes, pois era uma explosão suave, mas estava lá. Ela piscou mais uma vez e tinha um ar triste nos olhos quando os abriu novamente. Nenhum dos dois queria se despedir embora ambos sabiam ser necessário.

— Eu amo dançar, Paulo. — ela encarou-o sorrindo abertamente, mas seus olhos claros estavam transbordando de lágrimas e de tristeza — Mas você será meu último aluno...

— Alícia... — antes que pudesse ou quisesse impedir seus braços a envolveram completamente enquanto as lágrimas salgadas molhavam sua camisa.

Ele não sabia o porquê dela estar dizendo-lhe isso ao invés de um curto e dilacerante adeus, aquilo só iria piorar as coisas ainda mais, torná-las mais dolorosas, mas para Alícia era como se fosse necessário fazê-lo. Ela estava perdendo a dança e o que Paulo estava fazendo? Tornando as coisas ainda mais difíceis pra ela. Dando-lhe esperanças inconscientemente ia lentamente arrancando-lhe pedaços de seu coração como se eles fossem pedaços de um quebra-cabeça. Ele queria tanto arranjar um jeito de amenizar sua dor.

Enquanto Alícia sentia-o junto a si tentava convencer-se a soltá-lo, tentava conversar consigo mesma para que no momento em que ele se afastasse e saísse por aquela porta não fosse tão mórbido quanto ela acreditava que iria ser. Chorava de encontro ao seu peito por ser uma fraca que teria que abandonar a dança, por ser uma idiota apaixonando-se por uma pessoa que era inalcançável, por ele ter que ir, ir para os braços de uma mulher muito melhor que ela. Soltou-lhe a camisa branca e fechou a mão pequenina em punho sem se afastar e começou a socar-lhe o peitoral firme sabendo que não o estava machucando. Não queria isso, machucá-lo, só queria fazê-lo perceber que ela estava ali, ao alcance dele, que era somente estender a mão. E que, depois de fazê-lo, por favor, não a soltasse mais!

Ele não lhe estendeu a mão e ambos sentiram o frio atingir-lhes quando Alícia parou se socá-lo e recuou. Enquanto eles estavam se tocando parecia que suas peles ardiam deliciosamente aquele contado. Ela tinha as duas mãos sobre o peito tentando suprimir a dor física de suas pernas e a dor emocional de seu coração. A dor de seu coração era ainda mais intensa, muito mais que a dor de sua doença. Não importava o que as pessoas diziam, que o tempo cura todas as feridas. Não cura, só as afasta e às vezes as enterra. Elas ainda continuam lá e quase sempre conseguem escavar para encontrar a luz e doer novamente.

— Paulo, eu... — Alícia interrompeu o silêncio. Sua voz melodiosa tocava uma música triste com notas únicas. Uma música daquelas que, mesmo não tendo nada a ver com a sua situação, te deixam com aquela vontade de chorar.

— Sim? — o ar estava sumindo. Era isso que ele sentia, que todo o ar da sala de repente não existia e ele não conseguia trazer nenhum resquício para dentro de seus pulmões. Ele só conseguia fitá-la, continuar prendendo a respiração e esperar pelo que quer que fosse que ela tinha a dizer-lhe, apesar de ele já saber do que se tratava.

— Nós... Temos que ir.

— Por quê?

"Não!" alguma coisa gritou dentro da moça fazendo-a fechar os olhos "Por favor! Não dificulte as coisas!".

— Porque temos.

Ele aproximou-se dela e tocou-lhe os ombros calmamente, com as duas mãos envolvendo-os completamente. Levou as costas da mão direita à face dela roçando-lhe na pele alva. Sussurrou-lhe que eles não tinham que ir que podiam simplesmente ficar juntos ali. Que ele iria ficar com ela.

Não, ele não fez isso. Mas era o que ela sonhava que ele fizesse e o que ele queria fazer.

— Então é isso? — ela afirmou com a cabeça sem coragem de encará-lo. Sua voz era fria e doía-lhe dizer, mas era melhor ser o mais ríspido possível, machucá-la para não machucá-la. — Nenhum último conselho, instrutora?

Ela negou com a cabeça novamente e, sem que Paulo percebesse, deixou escapar um risinho miúdo. Sua franja escondia seus olhos marejados, mas com o brilho de felicidade e angústia. Ele estava indo embora, mas a coisa da qual ela mais se lembraria era de como ele conseguia mudar fácil e rapidamente o seu estado de humor. Era fascinante observá-lo num momento totalmente calmo e concentrado enquanto no outro estava querendo enforcar o primeiro idiota que aparecesse.

Ele deu um passo à frente, na direção dela, mas desistiu da ideia e mudou de rota, indo até a porta dupla de madeira por qual nunca mais iria passar. Deslizou a mão pela maciez da madeira bem talhada até chegar ao choque frio do metal da maçaneta. Queria prolongar aquilo. Girou lentamente a abriu a porta.

— Meus... — a voz melódica o arrepiou. Pensar agora que não mais a ouviria. — ...Parabéns, Paulo. Que vocês sejam muitos felizes.

— Obrigado. — terminou de abrir a porta. Aquele encorajamento por parte dela foi como quando você toma algo gelado muito rápido e vem aquela dor de cabeça instantânea. — Boa sorte amanhã.

— Obrigada.

~*O*~*O*~*~*O*~

"- Não, rosas amarelas você dá para sua avó doente no hospital... Para uma mulher, orquídeas".

— Orquídeas? — disseram Jorge e Margarida em uníssono. O rapaz pegou um punhado de pipoca da vasilha sobre o colo da esposa e tacou na televisão querendo acertar o cara do filme que tinha dito tal coisa.

— Esse cara não sabe nada sobre mulheres.

— E você sabe, Jorge?

— Você teria se casado comigo se eu não soubesse? — ele deu-lhe um sorriso sedutor o que fez Margarida se aproximar e beijá-lo apaixonadamente. Tinha se apaixonado por Jorge e aquele jeito meio sério meio arrogante e super protetor de ser. — Eu te conquistei foi com lírios laranja.

— E eu ainda fico curiosa em saber como você acertou.

Ele somente deu-lhe o seu sorriso misterioso com uma piscadela. Ela sentou-se direito no sofá e tacou-lhe uma almofada que acertou o abajur atrás dele.

— Isso, destrói a casa. — ele disse em tom de brincadeira.

— Se você não tivesse desviado, eu não teria quebrado nada.

Ele não conseguiu rebater, o celular tocou e Jorge correu ao quarto onde o tinha deixado carregando. Tirou o fio do carregador preso ao celular e o levou a orelha assim que reconheceu o número.

— Sim, tio?

— Jorge, o recital de formatura da Alícia... — ele fez uma pausa como se não soubesse como continuar.

— É amanhã à noite, tio.

— Sim, eu... Quero dizer, você e sua esposa irão?

— Sim, senhor. Letícia também, que já confirmou agora a presença. — se a inteligência de Jorge não o estivesse enganando, Lima Gusman estaria interessado em um recital de sua filha? Ele nunca se importou com isso, nunca fora a nenhuma das outras apresentações.

— Eu imaginei. — mais uma pausa — Eu só... Eu...

— Tio? — será que ele estaria querendo ir só para ver a filha em sua última dança?

— Sim?

— Eu comprei um ingresso extra, o senhor gostaria de ir?

O telefone ficou mudo, mas Jorge sabia que a linha não tinha caído nem qualquer coisa assim. Ele podia ouvir a respiração de seu tio do outro lado da linha.

— Eu... Adoraria ir.

~*O*~*O*~*~*O*~

E ele saiu.

A porta foi se fechando lentamente e, quando ela bateu, Alícia caiu sobre os joelhos abraçando o próprio corpo, caindo lágrimas silenciosas por suas bochechas e um sorriso lindo riscado em seus lábios doces. Olhou para si mesma através dos grandes espelhos na parede e sentiu-se patética. Era por isso que Paulo não ficaria com ela. Ele irá se casar com uma mulher forte, independente e decidida, tudo de que ele necessitava para apoiá-lo na vida futura. O que ela seria para ele? Apenas um peso.

“Não sei como aconteceu. Mas quando me vi, não consegui controlar meus sentimentos. Eu te amo, Paulo Guerra. Sempre irei te amar. Não tenho forças para lutar por você. Mas sabendo que você será feliz, serei feliz mesmo que não seja comigo. Levarei esse amor comigo para o meu túmulo. Não serei um peso para você. Te amarei para sempre.”

~*O*~*O*~*~*O*~

Já no corredor Paulo se afastava a passos largos. Tinha que sair logo daquele lugar, de todas aquelas coisas que o faziam se lembrar dela, daquele cheiro de madeira que estava impregnado em tudo e que ele sempre sentia quando eles dançavam valsa. Tinha que passar logo por Bibi e ouvi-la dizer pela última vez o costumeiro "Até amanhã, Sr.Guerra", mas que dessa vez seria algo como "Adeus, Sr.Guerra". Jorge não estava lá, recostado ao balcão, raramente o primo de Alícia estava, somente quando a morena tinha uma consulta.

E ele passou pelo balcão:

— Sr.Guerra! — chamou Bibi, ele não parou, então a moça gritou — Adeus!

Ele caminhou pelas pedras amarelas e chegou ao portão grande de ferro pintado de cinza. Virou-se e olhou para a sala, mas ela já estava completamente às escuras. Algumas bailarinas passaram por ele rindo e indo em direção à estação de metrô. Ele as seguiu com os olhos quase podendo ver uma Alícia de anos atrás entre elas, talvez rindo e se divertindo daquele mesmo modo. Balançou a cabeça negando a si mesmo.

"Não, Alícia não ficaria entre elas" e a sua mente veio à imagem de uma garota magricela, um pouco baixinha e com cabelos negros preso em um coque feito às pressas deixando fios soltos por sua nuca e têmporas, um collant negro e uma meia calça branca. As sapatilhas brancas de ponta estariam sujas e meio gastas e ela estaria indo para casa sozinha, as sapatilhas pendendo da mochila e um suéter sobre o collant. Aquela sim era a imagem de Alícia.

Ele ainda olhou para a Academia de Dança Bio Ritmo com várias de suas janelas iluminadas, os sons de músicas variadas abafadas pelas paredes, pela madeira cheirosa e pelos seus vários alunos. Era a última vez que veria aquele prédio. Deu-lhe as costas, entrou no seu carro e não olhou para trás.

~*O*~*O*~*~*O*~

Alícia estava em seu quarto, sentada na cadeira da escrivaninha em frente à cama abraçando as próprias pernas. Ela já havia chorado, não adiantava mais, então estava somente sentada ali, no escuro, a luz da rua entrando sorrateira pela janela para iluminar o que ela estava olhando sobre sua cama. O figurino do recital de formatura que seria daqui a algumas horas. Já passava da meia noite.

Era lindo. Branco, com cetim e fitas prateadas, com brilho e resplendor. Mas ela mesma tinha perdido o seu brilho natural. Sentia que não conseguiria fazer isso, mas tinha que fazer. A possibilidade de, no dia seguinte, encarar toda aquela gente como se fosse somente uma boneca programada para fazer aquilo havia sido descartada com a mesma rapidez que chegara a sua mente. Não seria justo para si dançar sua última dança com amargura, assim como seria ainda menos justo para as pessoas ali presentes assistirem a uma coisa sem emoção. Era ali que estava toda a graça da dança, transmitir a beleza que, por sua vez, transmite emoção.

Ela sabia, enquanto olhava para a vestimenta estendida na cama, que não conseguiria dormir muito bem naquela cama, especialmente com todas as fotos de seus momentos felizes grudadas ao teto. Ela não estava se sentindo bem para isso, então soltou as pernas, pegou uma coberta no armário e seu travesseiro e foi se deitar no sofá da sala, grande e espaçoso. Não demorou muito para que sua gata Mel voltasse de sua voltinha noturna e se ajeitasse com ela sob as cobertas.

— Nós não dissemos adeus, Mel. — a gata miou quando ela tocou-lhe atrás das orelhas pontiagudas. — Nem ele e nem eu.

Ela sentiu como se uma bola de tênis estivesse querendo sair pela sua boca, mas ela a engoliu de volta. Não se permitira chorar novamente. Nem pela dança. Nem por Paulo. Ela virou-se de barriga para cima e Mel resmungou e colocou a cabeça sobre seu ventre enquanto o resto do seu corpo gorducho ficava entre Alícia e o sofá. A morena sorriu para a sua fiel companheira.

— Vamos seguir a vida. — ela sussurrou e fechou os olhos — Até onde der.

~*O*~*O*~*~*O*~

Aquele quarto era branco demais e um pouco escuro. Foi o primeiro pensamento que ele teve ao encarar o teto. Ele pode ouvir os aparelhos com aquele apitar irritante e, ao se mover um pouquinho, sentiu uma dor aguda no peito e a agulha do soro em seu braço. Seguiu a linha do soro, ainda estava pela metade. Ele tinha uma máscara para ajudá-lo a respirar. Sentia-se um pouco sonolento, mas sabia ser por causa da anestesia e também sentia fome. Muita fome.

Olhou para os lados. Para além das venezianas brancas do quarto dava para ver o hospital movimentando-se, os enfermeiros passando por aqui e por ali, várias pessoas doentes de várias maneiras e os médicos, sempre o mais apressados. Olhou para os lados de sua cama, desapontado, ninguém ainda ficara sabendo do seu acidente para lhe mandar algum buquê de flores ou uma cesta de café da manhã?

— Então já acordou? — ele conhecia aquela voz. Olhou para a única poltrona presente no quarto para ver Maria Joaquina. Ela não estava mais com o jaleco, estava com suas roupas normais. Seu plantão havia terminado fazia uma hora, mas ela continuava ali, trazia um casaco no colo e as pernas estavam estendidas por cima de um dos braços da poltrona branca enquanto apoiava suas costas no outro braço.

— Em que ano eu estou? — ele retirou por um segundo a máscara de oxigênio de seu rosto para poder falar.

— Você só dormiu por algumas horas. — ela levantou e deixou o casaco na poltrona. Aproximou-se e, abrindo mais ainda suas pálpebras, focou em seus olhos a luz de uma pequena lanterna. — A cirurgia foi um sucesso.

— Aprendemos muito bem. — ele disse isso em um tom malicioso.

Ela sorriu-lhe, abaixou a cabeça e fungou enquanto lhe dava as costas para voltar a se aproximar da poltrona.

— Você não deveria estar em casa, descansando para o seu casamento? — ele sabia que naquele estado estava fora de cogitação ir, mas não precisava falar nada.

— É, acho que eu deveria, sim. — ela pegou o casaco. — Só queria te ver acordar... Ver se você estava bem.

Quando ela o encarou ele pôde ver o brilho de satisfação em seus olhos castanhos. Satisfação por ele simplesmente estar vivo. E pensou que teria sido melhor se ele tivesse morrido naquele acidente, não estaria provocando em Maria Joaquina aquela incerteza que via acontecer em seu coração através de seus olhos.

— Eu estou ótimo, Maria Joaquina. Mas e você, está bem?

— Estou. — sua voz tinha certeza.

— Então você deveria estar mais feliz. — sorriu-lhe encorajando. Ela já tinha chegado à porta e estava preparada para sair.

— Eu estou feliz. — ela também lhe sorriu e Daniel sabia que aquele sorriso de felicidade era por ele estar vivo.

— Hoje é o dia do seu casamento.

— É, hoje é o dia. — o seu tom ao dizer isso era melancólico. Ela sorriu-lhe fracamente uma última vez e saiu. A porta se fechou com um "click" deixando Daniel apenas com o som dos aparelhos de monitoramento.

"Por favor, não faça nada impensado." ele rogou.

Mas o que Maria Joaquina iria fazer não era impensado. Enquanto ele dormia por efeito dos entorpecentes, ela havia pensado muito.

Notas finais
Ain meu Deus! O Sr.Gusman vai ao recital de formatura da filha! Ela ficará muito feliz, mas e quanto à pessoa que ela mais quer que a veja em sua última dança? Eeita quanta emoção! Saberemos no proximo capitulo! Chorei quando tava revisando a parte da Alícia. Me senti no lugar dela, sério! ç.ç O que acharam? Kissus jane RCB