Entre no Ritmo do Amor
11 Capítulo 10
Notas iniciais
Era um dia quente de verão e ela estava sob uma das muitas árvores da Academia de Dança Bio Ritmo somente aproveitando a sombra. Sentiu o vento lhe trazer o perfume de alguma flor que não conhecia e abriu os olhos. Sorriu ao ver Paulo brincando com o garotinho de cabelos negros, rindo e se divertindo.
O rapaz caiu para trás com o garotinho sobre sua barriga e encarou-a e sorriu e Alícia não pôde evitar o tremor que passou por seu corpo, era o mesmo tremor sempre que ele lhe sorria, e levantou-se colocando o garoto sob o braço pela cintura e correndo até ela.
— Olha só, mamãe! — gritava o garotinho enquanto Paulo o colocava por cima da cabeça.
Alícia simplesmente sorriu-lhe. Não tinha palavras para sua felicidade.
— Já chega, Miguel. Vamos levar a mamãe ao médico. — disse Paulo descendo o garotinho. Ele correu até a mãe abraçando-a para então se ajoelhar e passar as mãos pequeninas sobre sua barriga.
— Vai ser uma irmãzinha, não é, mamãe? Você prometeu!
— É o que vamos descobrir hoje, meu amor. — Alícia disse passando a mão nos cabelos do menino e dando um beijo em cada lado do rostinho dele. Miguel se afastou para ela poder levantar, mas Alícia sentiu um peso muito grande ao tentar. Olhou para baixo para notar sua barriga protuberante sob o vestido e o peso somente ficava pior. Desistiu de tentar levantar.
— Alícia, tudo bem? — perguntou um preocupado Paulo agachando-se para ficar mais próximo a ela.
— Eu... Não sei.
— Mamãe!
— Miguel... Paulo... Está tão... Pesado! — Alícia debatia-se na cama para livrar-se do peso, mas não conseguia. Abriu os olhos assustada e deu de cara com uma bola disforme de pelos laranjados sobre sua barriga e olhos muito verdes — Mel, sua obesa!
A morena afastou a gata com um safanão a qual ela rebateu com um miado, empinou o rabo ofendida e deitou-se em alguma outra parte da cama. Alícia olhou para as várias fotos espalhadas pelo teto de seu quarto enquanto voltava a respirar normalmente depois de sua gata quase ter lhe esmagado os pulmões, fotos de todas as coisas que a morena mais gosta, milhares de fotos de todos os tipos de danças, de seus amigos, de alunos e até de seu pai, Lima, com Letícia, ela mesma e Jorge e com os tios ao lado.
"Ainda não tenho uma foto do Paulo..." pensou e sentou-se bruscamente na cama arrancando mais um miado resmungado de Mel enquanto as lembranças do sonho voltavam para sua mente fazendo-a abrir levemente a boca em surpresa e corar com as coisas que sua mente produzia.
— Nós estávamos casados, Mel... — disse Alícia para a gata ainda estática. — Com um filho e eu... Ah, nossa! — ela olhou para baixo colocando as duas mãos na barriga para garantir que não tinha nenhuma barriga protuberante ali. — O que será que isso quer dizer? Ai, meu Deus!
Olhou para a gata, mas ela não estava nem um pouco interessada em qualquer coisa que Alícia fizesse, só queria dormir confortavelmente entre as cobertas. A dançarina colocou as duas mãos na cabeça para afastar aquele sonho e qualquer significado que sua mente tentava encontrar pra ele. Paulo está noivo e vai se casar, ela ficava repetindo para si mesma.
O celular tocou no criado-mudo fazendo-a dar outro pulo ainda sentada por se assustar. Pegou-o. Era uma mensagem de Tomás.
"Onde é que você está, Alícia? A Formatura é daqui a duas semanas e temos prova de figurino hoje, esqueceu? Venha logo!".
Havia se esquecido completamente dos compromissos matinais com Tomás. Tacou o celular em algum canto da cama e tentou se desvencilhar das cobertas para chegar o quanto antes ao banheiro, mas estava sendo impossível e quando estava quase conseguindo...
— Ai!
— Miaau! — cai da cama levando a coberta e a aborrecida Mel junto.
— Ótimo jeito de... Começar o dia. — massageando a coxa. — Ai!
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Paulo estava com as sobrancelhas negras franzidas, o rosto muito sério enquanto digitava os últimos relatórios para mandar para a divisão de contabilidade para que as contas daquele mês pudessem ser quitadas sem mais problemas, mas não conseguia se concentrar de nenhuma maneira. Estava perturbado com um acontecimento na noite anterior, enquanto estava com Maria Joaquina.
Colocou os últimos números para imprimir para que sua secretária viesse buscar, girou a cadeira para ficar de frente para o enorme quadro atrás de sua mesa, era uma paisagem de um campo verde, com montanhas ao longe e muitas árvores, mas as nuvens eram escuras anunciando uma tempestade. Paulo gostava daquele quadro desde sempre e, com o barulho da impressora e aquela visão, deixou que as lembranças da noite anterior voltassem:
— Paulo... — sussurrou a voz feminina de Maria Joaquina em seu ouvido, a respiração quente da moça roçando a curva de seu pescoço enquanto ele a deitava levemente na cama e depois se colocava por cima. Arrancou-lhe o jaleco branco e a blusa também branca que ela vestia.
Suas mãos passeavam livremente pela da médica, ele podia senti-la se arrepiar com o toque. As mãos de Maria Joaquina percorreram o caminho de suas costas retirando a blusa e logo seguindo para o botão da calça enquanto lhe arrematava a boca novamente. Ele deixou uma trilha de beijos por sua barriga enquanto seguia para a calça branca, a sua já arriada pelos joelhos a qual ele fez o favor de tirar seguida da calça dela.
Inverteram as posições e ele comprimiu o abdômen quando ela deslizou as unhas por ali se demorando e depois descendo mais, a respiração quente em sua orelha, mordiscando o lóbulo, depois o beijando sedutoramente. Ele sentou-se bruscamente trazendo-a para colocar as pernas em volta de si já podendo sentir a elevação ali presente. Beijou-lhe com necessidade de saciar-se e suas línguas travavam uma batalha por espaço. Lúbricas, depravadas, mas apenas um intenso e incurável desejo carnal. Ele desabotoou-lhe o sutiã facilmente e abocanhou-lhe o seio enquanto ela jogava a cabeça para trás de prazer e soltava um gemido alto. Escorregou e despenteou ainda mais os cabelos negros esperando-o saciar-se por ali para de novo colocá-la por baixo e arrancar-lhe a última peça íntima, retirando sua própria também.
Beijou-lhe mais uma vez e ergueu-se levemente ainda com os olhos fechados. Maria Joaquina sussurrou seu nome, mas a voz que ouviu era diferente, mais suave e melodiosa, como uma nota musical. Ele abriu os olhos lentamente e viu sob si dois olhos carinhos e castanhos lhe encarando, sentiu o tremor involuntário que ela sempre tinha quando a olhava por tempo demais, era delicioso. Ele sorriu e beijou-lhe delicadamente, com medo de quebrá-la, provando todos os sabores que podia querer. Segurou suas costas com firmeza enquanto a colocava sentada sobre si novamente, se posicionando e, antes de fazê-lo, balbuciou em apenas um mover de lábios, tão baixo que nem ele mesmo ouviu, o nome errado:
— Alícia...
Uma batida na porta fez o moreno tremer todo de susto, reabrir os olhos e sair de suas lembranças. Ele olhou para a porta de mogno entreaberta e para sua secretária que metia a cabeça e a cabeleira ruiva por ali:
— Sr.Guerra?
— O que é, Luiza?
— Você me pediu para vir pegar os documentos da contabilidade, senhor. — ela entrou completamente na sala dando largos passos até ele com suas pernas compridas. Paulo retirou os documentos da impressora, colocou-os em uma pasta de cor creme sobre a mesa e estendeu-os a ela sem ao menos encará-la. — Mais alguma coisa, senhor?
— Não, Luiza, isso é tudo! — ela concordou e saiu da sala com seus passos longos.
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— Ai! Não precisa me sufocar! — Maria Joaquina colocou a mão por cima do pano branco de apertava suas costelas. Estava fazendo a prova do vestido de noiva. — Eu quero realçar os seios, não fazer parecer que eu corri uma maratona!
— Desculpe, senhorita. — a costureira tentou de novo, ajeitando aqui e ali, tomando extremo cuidado para não espetá-la com os alfinetes.
A médica estava sob um suporte redondo e branco, em frente a três espelhos em três ângulos diferentes, Valéria estava sentada em um sofá logo a frente de Maria Joaquina folheando um catálogo da loja enquanto a médica vestia e ajustava vários dos vestidos que gostara. Em um canto havia uma pequena saleta, um provador para ela colocar o vestido. A sua volta tinham-se mais lugares desse estilo, com três espelhos em ângulo, um sofá em frente e uma saleta de troca.
Todos os tipos de roupas eram feitos ali.
— Majo? — Valéria levantou a cabeça do catálogo e torceu o nariz para o vestido.
— O quê? — perguntou a moça enquanto se libertava um pouco do aperto em suas costelas.
— Você não acha que esse vestido tem penas demais?
A médica olhou para baixo. Tirando o corpete bordado lindamente, todo o resto do vestido era completamente de penas.
— Você acha? Eu estou parecendo uma galinha, não estou?
Valéria somente deu de ombros e voltou a olhar o catálogo.
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O dia estava ensolarado bem no meio da primavera. Alícia vestiu um collant branco, colocou por cima um suéter azul qualquer, colocou uma calça de pano largo preta e saiu de casa pulando enquanto colocava as sapatilhas nos pés. Apressou-se e conseguiu pegar o metrô a tempo. Com mais calma subiu as escadas e andou dois quarteirões até encontrar o salão de prova onde tinha combinado de encontrar Tomás e a classe de alunos que iria se formar, aquele dia era especialmente o dia da prova da classe de tango. Era uma equipe de costureiras muito conhecida que todos os anos fazia os vestuários da Academia Bio Ritmo.
A instrutora entrou na loja, era grande, confortável e cheia de vários tipos diferentes de panos e vestidos prontos. Ela andou um pouco entre os compartimentos de três espelhos, mas não conseguiu encontrar Tomás ou sua turma de tango, nem se quer encontrara a amiga que sempre lhes ajudava a escolher e fazer os melhores figurinos, Cristina.
Olhou para os lados procurando alguém para se informar, mas parou quando seus olhos encontraram os de Maria Joaquina. Ela não saberia definir o que os olhos da médica queriam dizer, mas com certeza não eram muito simpáticos. Aproximou-se para ser educada, nem se lembrara de agradecer pelo dia em que desfalecera no restaurante, mas agora já fazia muito tempo.
— É um... Belo vestido. — disse Alícia em sua voz musical.
Maria Joaquina lembrava-se dela, a garota que desmaiara no restaurante grego enquanto dançava com Paulo. De certo modo, sem saber como, Maria Joaquina simplesmente não ia com a cara dela. Talvez fosse o fato que de achara que ela e Paulo pareciam já se conhecerem quando dançaram naquele dia, os passos dos dois eram complementares um ao outro.
Quando Alícia se aproximou e falou, Valéria levantou os olhos do catálogo para olhar Alícia dos pés a cabeça, depois se voltou para Maria Joaquina brevemente e de novo para o catálogo, mas somente fingindo ler, os ouvidos estavam pregados na conversa. Mais uma pessoa se manifestou ao ouvir a voz de Alícia, a costureira que ajustava o vestido da noiva. A moça levantou-se e encarou a morena.
— Alícia, que bom que chegou, a D.Cristina está lhe esperando para as provas do figurino da Academia Bio Ritmo no último compartimento.
— E-eu ia mesmo... Perguntar por ela. Obrigada. — sorriu aliviada para a costureira.
— Academia de Dança Bio Ritmo? — quem perguntou aquilo foi Maria Joaquina.
Alícia levantou os olhos para Maria Joaquina.
— Sim.
— Você dá aulas lá?
— Si-sim. Algum problema? — o tom de Alícia não era desafiador, muito menos ofensivo quando fez essa pergunta.
— Não, meu noivo tem aulas lá. Vamos dançar valsa no nosso casamento e Paulo é um tanto teimoso. — a morena sorriu inconscientemente a menção do nome de Paulo. — Falando nele, tenho que lembrá-lo de vir provar o terno.
Uma sombra passou pelo rosto pálido da jovem, mas se dissipou num instante. Ela não podia, não deveria, ali estava Maria Joaquina provando o vestido de noiva e Paulo iria vir provar o terno e eles se casariam e seriam felizes juntos, com vários filhos, não era ela quem iria interferir nessa felicidade, mesmo sentindo que a sua própria seria prejudicada. Maria Joaquina se pronunciou de novo.
— Figurino pra alguma peça?
— Musical de formatura. — Alícia repetiu automaticamente, como se já estivesse cansada de corrigir as pessoas.
— Jura? Eu adoro musicais, quando será?
— 25 de outubro.
— Ah, que pena, é no dia do meu casamento.
A morena sentiu um baque em seu estômago. Dia 25 de outubro, Paulo iria se casar e ela iria dançar. Queria tanto convidá-lo para o seu musical, para sua última dança. Pensou se poderia chorar por isso, mas resolveu que seria muito humilhante fazê-lo ali, depois pensou se poderia sair correndo. A única coisa sensata que fez foi ficar parada.
Sorriu mais uma vez para Maria Joaquina e disse antes de se afastar:
— Esse é um belo vestido, mas... Sugiro aquele. — a médica virou o rosto para ver para onde ela apontava. Era um belo vestido branco com flores em um tom celestial de rosa bordadas na barra e pelo corpete que eram acompanhadas por delicados caules em bordado verde.
Era um vestido belíssimo.
Maria Joaquina virou-se para encará-la de novo, mas Alícia já tinha ido e a costureira voltara a seu lugar, como se aquela conversar jamais tivesse acontecido. Valéria levantou os olhos para provar o contrário.
— Tenho que admitir, é um belo vestido. — ela encarava o vestido que Alícia apontara. — Bom gosto.
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Alícia chegou ao último compartimento e sentou-se no sofá sem falar nada. Tomás veio até ela sem perceber a palidez excessiva em seu rosto que aquele encontro provocara.
— Ah, você chegou! — ele exclamou e todos se voltaram para a instrutora de dança falando todos de uma vez, até que Cristina se aproximou e sentou-se ao lado de Alícia. — Ei, todos vocês, dá pra se acalmarem?!
Começaram a fazer silêncio aos poucos e iam sentando-se pelo local e Cristina abriu um livro de desenhos sobre as suas pernas e as de Alícia, mas ela sim lhe percebera a palidez.
— Alícia, aconteceu alguma coisa?
— Na-não, D.Cristina. Não se... Preocupe.
— Não me peça uma coisa dessas, Alícia. — Cristina, ainda sentada, acenou para uma das costureiras desocupadas que veio correndo. — Vá buscar um copo de água com açúcar, rápido!
— Alícia? Quer ir ao médico? — era Tomás dessa vez, ao lado dela.
— Por favor, eu estou bem. — ela sorriu aliviando-os um pouco. Realmente não tinha nada, não se sentia mal fisicamente, levara um pequeno susto com o encontro com Maria Joaquina e somente sentia seu coração pesado demais.
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