Entre duas almas
10 Quarto
[6 anos]
O sentimento de abandono era recorrente na minha vida desde muito nova. Embora eu quisesse que as coisas fossem diferente na época, hoje eu entendo que foram apenas como deveriam ser, e que ninguém era obrigado a estar preparado para lidar com algo como eu e o Aiden.
Me lembro com clareza do dia em que meus pais adotivos me levaram definitivamente pra base, apenas alguns meses depois da minha primeira consulta, onde conheci o Nathan.
Eu tinha 6 anos, e entrei de mãos dadas com Sara no quarto em que passaria os próximos anos da minha vida. Ele era rosa, aconchegante e cheio de brinquedos, mas ali também haviam câmeras que me monitorariam 24h. Talvez a base não fosse o local ideal para uma criança crescer.
Eu olhava tudo com grande curiosidade, sabia que tinha algo errado.
–
S: Quinn, não vai demorar muito, eu prometo... – ela se ajoelhou na minha frente e segurou as minhas mãozinhas. Nathan nos assistia a uma distancia segura, e na porta do quarto meu pai adotivo, Harry, esperava de braços cruzados.
S: É só até eles descobrirem o que acontece com você...
Q: Não me deixa aqui sozinha, por favor...
S: São só alguns dias... – ela tinha os olhos cheios de lagrima, mas não chorava – você vai ver que vai passar rápido...
H: Sara! – Harry se aproximou – nós temos que ir... – Sara finalmente começou a chorar, ela me olhou por um minuto e então me puxou para um abraço forte
S: Seja forte querida... – eu também chorava, não queria ficar longe da Sara – eu sei que você é forte...
Ela deu um beijo no topo da minha cabeça e se afastou aos soluços. Eu só fiquei ali parada, não me virei para vê la indo embora, doía de mais. Nathan imediatamente se abaixou do meu lado
N: Quinn... eu sei que é difícil deixar sua casa e sua família... mas aqui nós temos mais chance de te ajudar, de te proteger...
Q: ninguém pode me proteger! – Eu fechei os olhos com força tentando cessar o choro. Nathan ficou em silencio sem saber o que dizer por um momento, mas finalmente falou.
N: Suas coisas já estão no armário... Eu e Cole sempre estaremos na sala ao lado, o que você precisar é só falar com a gente... – eu apenas assenti.
–
[16 anos]
Apesar de ter muito medo de que Rachel fosse apenas mais uma pessoa importante na minha vida que me abandonaria, algo me dizia que com ela era diferente, nós tínhamos que estar juntas, era o nosso destino.
Não nos falamos por alguns dias, eu cheguei até a faltar nas aulas que teria em comum com a Rachel para que ela não ficasse desconfortável. Estava bem determinada em deixa la totalmente livre para escolher o que faria com a sua vida. Acabei fazendo outras amigas, mas nunca era como a Rachel, e a troca de olhas entre nós nos corredores era inevitável.
–
Durante um almoço de uma quarta feira, Santana se aproximou com a sua bandeja e se sentou ao meu lado, na mesa em que eu comia com duas amigas da aula de biologia.
S: Quinn, preciso falar com você... – ela mediu as outras duas garotas – a sós...
Q: Santana você é bem vinda pra almoçar conosco mas não pode expulsa las daqui... – Santana se mantinha olhando fixamente para as garotas
B: Tudo bem Quinn... nós já estávamos de saída mesmo... – uma delas disse, e então ambas se levantaram e saíram.
Q: Santana você é...
S: Amável, eu sei... – ela me interrompeu
Q: Eu não ia dizer isso... – sorri
S: Tudo bem Fabray, vamos direto ao ponto... Que tal começar me explicando o por que da Rachel ter me dado 10 dólares pra te perguntar se você esta saindo com alguma de suas amiguinhas da biologia...?
Q: Ela fez isso? – eu ri
S: Fez.. disse que era pro Puck, mas eu sei que não...
Q: Olha Santana, eu não sei.... E não, não estou saindo com ninguém...
S: Você pegou a Berry? – Ela me encarou séria e eu mantive o sorriso bobo no rosto
Q: Claro que não... Ela namora
S: Não namora mais, já fazem alguns dias...
Q: Ta vendo, você sabe mais dela do que eu...
S: Não brinque comigo! Eu sei quando alguém esta mentindo por que eu faço isso o tempo todo... Vocês duas estão estranhas!
Q: Eu não sei...
S: Anda! — me mantive em silencio — Ok, não quer dizer.... então se você pegou ela da uma colherada nesse purê de batatas, se não pegou da um gole no seu suco....
Apesar de todos temerem a Santana eu a via com bons olhos. Tudo bem que ela me forçou a revelar que era gay a duas semanas atrás me ameaçando de várias coisas horríveis, mas eu sabia que aquele era o seu jeito de tentar ajudar. De fato ela era a única além da Rachel que sabia da minha sexualidade no McKinley e tinha mantido a promessa de não contar. Não haviam motivos para não vê la como uma amiga e confiar nela. Dei então uma garfada no meu purê de batatas e ela imediatamente arregalou os olhos.
S: Sua cachorra! – Santana de um tapa no meu braço – Não tem um ser humano nessa escola que não daria pra você, e eu me inclui nisso, e você escolhe justo a Berry!
Q: Shiuuu... Fica quieta! É segredo...
S: Droga agora eu não sei se fico feliz ou triste por você ter me contado...
Q: Sem exageros Santana...
S: A Rachel?? Tem certeza que estamos falando da mesma Rachel, a baixinha, a irritante?
Q: A perfeita... — Eu falei em um tom mais baixo, entre um sorriso
S: Ta bom... Chega! Eu vou sair daqui, tenho medo de ser contagioso! — nós rimos
–
No final daquela mesma tarde recebi uma mensagem.
*Quinn você pode passar na minha casa hoje depois da aula? Acho que estou pronta pra conversar sobre tudo... Eu sei que talvez você esteja chateada, mas eu preciso muito que você venha. Rachel*
Eu não respondi nada, estava em duvida sobre o que fazer. Se eu fosse sumir da sua vida aquele era o momento certo. Mas quando a aula acabou eu estava decidida a ouvir o que ela tinha a dizer.
–
Q: Aiden, a Rachel é muito importante pra mim, seja la o que aconteça hoje eu preciso que você não se intrometa... por favor não faça nada! – Eu pedi antes de tocar a campainha. Não tinha certeza de se ele me respeitaria, mas eu tinha que tentar.
Rachel abriu a porta e pareceu surpresa.
R: Você... veio!
Q: Sim... você me pediu um espaço e eu te dei... você me pediu pra voltar, e eu voltei... – Ela sorriu
–
Nós fomos até o seu quarto, acho que Rachel se sentia segura para tratar de assuntos mais sérios naquele espaço. Ela me pediu que sentasse sobre a cama e ficou na minha frente.
R: Me desculpa pela forma que eu tenho agido... sei que você não tem culpa de nada...
Q: Rach...
R: Não... – ela me interrompeu – Eu passei por muitas coisas nos últimos dias, precisei me redescobrir de tantas formas... É complicado, eu sempre gostei de garotos, sempre sonhei em ser namorada do Finn, e de repente você chega e vira o meu mundo de cabeça pra baixo... E então eu agi como uma garotinha assustada, te usei, menti, me aproximei, me afastei... Eu não quero mais ser essa pessoa...
Q: Seja apenas você Rachel, é só isso que eu to pedindo...
R: Eu contei pro Finn. – Ela disse rápido, desviando o olhar de mim
Q: Contou sobre o que?
R: Sobre nós... sobre o que eu estava sentindo... obviamente nós terminamos...
Q: E agora? Ele quer me matar? – Rachel deu um sorrisinho de lado
R: Não... O Finn é um cara legal, claro que ele também quer entender tudo, que ficou bem decepcionado, mas ele me apoiou.... me disse que não contará a ninguém até eu saber lidar com tudo isso...
Q: Woow... – passei a mão nos meus próprios cabelos, não tinha como não ter receio da reação de um cara de quase 2 metros de altura – E o que você pretende fazer..?
R: Ficar com você... isso é, se você quiser também, claro... – ela enrolava a ponta do próprio cabelo, como costumava fazer quando estava nervosa.
Q: Rachel eu.... — respirei fundo — Eu também sinto algo especial por você desde o momento em que te vi... Eu não sei se isso existe, se é loucura... Mas acho que foi amor a primeira vista... Então tudo que eu mais quero é estar com você... mas eu tenho o Aiden, sempre terei... É tão complicado... – me levantei e fiquei diante dela
R: Você acha que a gente poderia tentar?
Q: Eu tenho tanto medo de que ele te machuque... – tirei uma mecha de cabelo do seu rosto
R: Uma hora ele vai ter que reconhecer que alguém pode gostar de você tanto quanto ele... e eu estou disposta a esperar por isso...
Eu segurei o seu queixo e olhei por um momento aqueles lábios carnudos, tão perfeitos. Aproximei meu rosto ao dela, e depositei um selinho suave em sua boca. Foi Rachel que em seguida avançou para algo mais intenso. Como já era de costume ela segurou a minha nuca, e ela me fez dar alguns passos pra trás, sem cortar o beijo, até sentar novamente em sua cama onde ela se sentou no meu colo. Nós estávamos nos descobrindo, nos ajustando. Eu não estava preocupada com sexo ou com o mundo la fora, eu só queria aproveitar aquele beijo ao máximo, como se ele não fosse real, como se eu fosse acordar a qualquer momento, como se Rachel nunca tivesse largado tudo por mim, mas ela me escolheu.
Quando Rachel me empurrou para deitar o beijo foi cortado, ela parou por um estante e me olhou sorrindo.
Q: Posso te perguntar uma coisa? — ela apenas assentiu
Q: É verdade que você pagou a Santana pra saber se eu estava saindo com outras garotas?
R: Ela te contou isso? — Rachel riu um pouco sem jeito — Sim, eu estava um pouco preocupada quanto a isso...
Q: Você desistiria se eu estivesse?
R: Não... Eu só teria que arrumar mais dinheiro pra Santana se livrar delas pra mim... — nós rimos, eu observava atentamente cada detalhe daquele sorriso lindo, era tão bom vê la daquela forma.
Q: Você é linda Rachel... — disse meio que sem pensar — Nunca deixem que te façam sentir o contrário — Ela se aproximou do meu pescoço e depositou alguns beijos, fazendo uma pequena trilha até os meus lábios, ela me deu um selinho e levantou um rosto para me encarar novamente.
Q: O que foi?
R: Eu acho que eu te amo... — Eu sorri um pouco corada, nunca tinha ouvido aquilo daquela forma de alguém.
Eu puxei o ar para responde la, mas quase que instantaneamente todas as prateleiras do quarto da Rachel vieram abaixo. Por um momento eu havia me esquecido do Aiden.
Q: Droga! — Me levantei com a mesma velocidade que a Rachel para medir o estrago.
Ela se aproximou de algumas coisas que estavam quebradas pelo chão, como alguns porta retratos e alguns dos seus troféus de dança. Eu me abaixei ao seu lado
Q: Me desculpa! Eu me esqueci completamente... Eu vou arrumar tudo, eu juro! — ela havia perdido o sorriso que estava em seu rosto momentos antes
R: Você não tem culpa Quinn... — ela segurou o meu braço me impedindo de juntar os cacos e se levantou em seguida
R: Isso foi um golpe baixo Aiden, essas coisas são importantes pra mim... Mas eu não vou abrir mão da Quinn, eu sei que você esta enciumado, eu também estaria, Quinn é uma garota incrível e você quer o melhor pra ela.... Mas por favor me deixe mostrar que eu posso oferecer isso... — Ela dizia olhando para os lados conforme outras coisas iam sendo mexidas por Aiden, eu me levantei e fiquei ao seu lado.
Q: Isso é extremamente infantil Aiden!
R: Não... — ela me abraçou por trás com um pouco de medo que ele lhe tacasse algo — Ele só esta me testando...
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