Crescer por si só já não é uma tarefa fácil, para ajudar eu tinha sentidos e poderes que ninguém jamais seria capaz de entender, não existia ninguém igual a mim, um espelho, mesmo assim eu sempre quis saber como seria ter uma vida normal, como era ter amigos... Com a minha insistência em ter atividades fora da base de pesquisas, o Nathan já começava a considerar que talvez eu pudesse cursar o ensino médio como uma adolescente normal. Mas eu tinha apenas 12 anos, não sabia quase nada além das paredes do meu quarto, foi então que ele sugeriu uma experiência. A filha de uma outra médica que trabalhava comigo na base faria uma festa de aniversário, então mesmo que eu não a conhecesse, eu fui convidada pela sua mãe, a pedido do Nathan, para ver como eu me sairia interagindo com pessoas mais novas, era um grande passo, cujo resultado contava muito sobre a decisão de me mandar ou não para uma escola regular.

Me arrumei com um vestido azul horrível que o Nathan havia me arrumado para a festa, eu estava nervosa, prestes a desistir, mas finalmente entrei no carro. O Nathan percebeu a minha insegurança

N: Ei... apenas respire fundo... não existe razão pra pânico, é só uma festa de aniversário... – continuei quieta, encostada sobre a janela do carro – vai ser divertido... eles vão gostar de você....

Dei de ombros e esperei até que chegássemos ao destino, ele parou o carro em frente a casa.

N: Anda... vai dar tudo certo... – abri a porta do carro – aah, não esqueça de levar o presente... – ele buscou um pacote no banco de trás e me deu

N: é um livro de poemas do Poe... é bem raro, com certeza ela vai gostar...

Ao entrar na casa fui recebida calorosamente pela minha médica, que imediatamente chamou pela filha, Kris, que desceu as escadas com pressa.. Ela era bem mais velha do que eu na verdade, estava fazendo 16 anos, eu começava a achar que talvez realmente não tivesse sido uma ótima ideia .

M: filha essa é a Quinn, a garotinha que eu te disse...

K: ah, oi Quinn... isso é um presente pra mim? – estendi a mão e a entreguei o presente

Q: Oi...

K: vem Quinn, meus amigos estão la na sala... algumas garotas e os caras menos babacas do colégio...

M: Não fique tímida Quinn... – sua mãe me empurrava pela base das minhas costas – filha, eu vou sair... não deixe seus amigos fazerem nada estúpido, ok?

K: ta bom mãe... – Kris revirou os olhos enquanto abria a porta que dava acesso a sala.

Alguns garotos estavam la e nos olhavam curiosos

K: finalmente ela saiu pessoal! – nos aproximamos do grupo – bom... essa é a Quinn, ela esta na unidade 4 com a minha mãe...

B: unidade 4? O departamento paranormal? – um garoto perguntou logo de cara

L: woow, o que você pode fazer, entortar garfos? Falar com gente morta? Coisas desse tipo? – um segundo garoto perguntou... pronto, todos já estavam com as atenções voltadas para mim

Q: nã.. não...

K: Hora da festaa!! – a Kris por sorte me cortou – eu vou pegar as bebidas! garotos, vocês cobrem as janelas... meninas, vocês cuidam das velas... e Quinn, você pode cuidar da música...

Cada um saiu rapidamente pra completar as suas funções, mas eu levei algum tempo, até achar o rádio em um canto da sala. Eu não conhecia aquelas pessoas, eu não conhecia festas, nem da idade deles eu era... Escolher um CD do Johnny Cash que estava sobre a bancada me pareceu uma ótima ideia. Após alguns segundos da primeira musica uma das amigas da Kris surgiu atrás de mim.

S: o que é isso? Será que você pode por algo desse século? – ela me empurrou para poder mexer no rádio, eu fui dando passos pra trás até estar longe dali e finalmente me sentar no sofá. Um desastre, eu estava me sentindo muito deslocada.

K: escondi isso a semanas de baixo da minha cama... – a Kris colocou uma caixa de cervejas em cima da mesinha de centro na minha frente, todos rapidamente vieram pegar uma lata. Eu permaneci parada, olhando pra eles.

K: ei... Quinn... você quer uma? – eu fiquei em duvida, mas... eu estava lá para experimentar uma festa de verdade não é mesmo? Assenti e peguei uma lata.

Dei meus primeiros goles, que coisa horrível! Eu tossi levemente depois de sentir aquele gosto inédito descer pela minha garganta.

S: parece que é a primeira vez dela.... – todos olharam pra mim com um sorriso debochado no rosto

Q: não... eu já provei um pouco antes...

L: ah com certeza você tomou... – um dos garotos satirizou

Esperei até o momento certo para largar aquela latinha sem que percebessem que eu não havia tomado tudo. A festa continuava, ninguém verdadeiramente ligava pra mim, eles agiam normalmente, dentro do mundo deles, do qual eu definitivamente não pertencia.

Eles fumavam e bebiam excessivamente, faziam joguinhos e brincadeiras idiotas, típico de jovens fúteis, loucos por atenção. Eu ficava só ali, observado aquela selvageria, como eles eram incompletos, perdidos, como se esforçavam para parecerem felizes e descolados... patético. Foi quando veio um menino se sentar ao meu lado.

M: Oi... Quinn né? – assenti – Eu sou o Matt.... Eu nunca vi você na escola antes, você não tem aulas na base?

Q: é um programa especial... eu tenho meus próprio professores... é um pouco chato – sorri tímida

M: Hum... e então, você trabalha com a mãe da Kris?

Q: Sim... Nós trabalhamos juntas no laboratório e ela achou que seria um boa ideia eu vir para a festa... então, aqui estou eu...

M: legal.... eu morava em Londres antes de me mudar pra ca... e você, é de onde?

Q: Nova York... – menti, eu não sabia de onde eu vinha, como eu poderia saber? Desde tão nova eu morava na base.

M: isso é... muito legal... eu amo NY

Q: quem não ama? – ri um pouco nervosa, ele parecia descontraído

M: e você tem algum hobbie? Tipo... eu surfo, e toco em uma banda de vez em quando...

Q: isso pode parecer chato... mas eu gosto de ler... eu não posso deixar a base por muito tempo, então...

M: posso te perguntar uma coisa? – ele me cortou com um tom curioso – afinal, por que você esta na unidade 4?

Q: bom... – eu estava nervosa – pode parecer estranho... mas eu tenho... eu nasci com um dom... parece loucura... mas é como ter uma outra pessoa invisível ligada a mim... – ele me olhava um pouco chocado, mas sem perder o interesse

M: e essa coisa esta aqui agora?

Q: sim... – pela primeira vez seu olhar pareceu assustado, mas uma musica lenta começou a tocar na sala, e após um pequeno espaço de silencio pareceu a oportunidade perfeita pra ele mudar de assunto

M: quer dançar um pouco? – ele se levantou rapidamente

Q: sim... claro... – eu o segui, ninguém nunca tinha me chamado para dançar antes, embora naquela época eu já me sentisse diferente em relação as outras garotas, ao que eu realmente deveria sentir, naquele momento ele me quis, e eu me senti especial. Eu não sabia o que era aquilo, eu estava apenas experimentando.

Ele passou a mão pela a minha cintura em um abraço não tão apertado, ele era um jovem bonito. Dançamos um pouco e por um momento eu me senti parte daquele mundo, eu me senti quase normal.

Ele se aproximou do meu ouvido

M: sabe, você deve ouvir isso bastante... mas você é muito bonita... – ele buscou o meu olhar, eu não sabia o que fazer, eu devia estar vermelha

Q: você... também é... – ele sorriu de volta, e então começou a se aproximar do meu rosto, ele queria me beijar, eu estava em pânico, eu não sabia beijar, eu nem sabia se queria beija lo. Eu já podia sentir a sua respiração, mas quando seus lábios iam se encostar nos meus eu o afastei.

Q: desculpa... eu, não posso... eu não...

M: o que?

Q: Eu não tenho certeza se quero ter esse tipo de envolvimento agora...

M: é só um beijo Quinn... – eu continuei calada, ele deu de ombros – ok, tanto faz... eu vou até ali com os rapazes então...

Q: tudo bem....

Ele saiu e eu fui até o banheiro, eu podia ter perdido a minha única chance, eu me sentia péssima.

Lavei o rosto, olhei pro espelho e me senti uma covarde.

Q: eu sei Aiden... eu também sinto que não devíamos estar aqui...

–

Quando eu sai do banheiro parecia que todos já me esperavam.

S: Ei Quinn, que tal uma pequena demonstração dos seus super poderes?

L: eu pagaria pra ver isso... – uma rodinha se formou em minha volta, eles não me deixariam sair.

Q: não... eu não tenho nada pra mostrar...

K: anda Quinn, por favor, sabemos que você não está na base a toa...

S: eu disse que isso era besteira... – alguns deles riam

L: eu esperava mais, cheguei a achar que você fosse uma bruxa ou algo do tipo com aquele livro velho que você deu de presente pra Kris... – as risadas continuavam, e eu sem espaço para sair do meio da roda

Q: é um livro raro... uma coletânea do Allan Poe...

S: estranha....

K: você roubou esse livro da onde? Você vem a minha festa e me da algo que pegou de graça na biblioteca?

Q: não é roubado... ele é realmente raro...

S: sim... assim como o seu vestido.... – todos riram

L: isso parece uma piada...

T: ela se acha tão inteligente, e tão especial... você tem muito o que aprender pirralha...

Q: eu não acho nada... – me virei para a garota que me provocou

T: você não passa de um ratinho de laboratório... estranha...

M: é, e ela ficou me seguindo o tempo todo achando que ia rolar algo... – o Matt riu com alguns amigos próximos a ele

K: eu nem queria convida la... a minha mãe me obrigou... — a Kris justificou

L: bom a gente podia dar um jeito nisso até o fim da festa... – eles se entre olharam

–

Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa eles já tinham me trancado no armário em baixo da escada, estava escuro e empoeirado la dentro. Eu me debatia contra a porta, mas ninguém parecia ligar, eles fecharam a porta da sala em que estavam e eu podia ouvir o som que vinha de la de dentro. E estava me sentindo sufocada, eu não gostava do escuro, eu tinha motivos pra não gostar, aquilo me apavorava de uma forma que parecia que não acabaria nunca. Cansada de me debater em vão me encolhi em um dos cantos

Q: Me ajuda Aiden! — pedi chorando

Foi quando Aiden arrebentou aquela pequena porta. Me levantei enchugando as lagrimas enquanto media o estrago, a minha médica não merecia aquilo... mas eu estava furiosa, o certo e o errado conflitavam fortemente na minha cabeça naquele momento. Eu olhei pra porta de onde vinha o som, estava com raiva, definitivamente era hora de ir embora.

Q: Se vinga deles Aiden.

–

Confesso que gostei de ver o medo estampado naqueles rostos naquele dia, Aiden entrou no cômodo em que eles estavam, travou as portas e começou a revirar os móveis, eles tentaram sair claro, mas as portas estavam bloqueadas. Aiden se divertia com os gritos conforme ele brincava com a luz, balançando o lustre, e causando frio ao passar ao lado dos garotos, mas ele sempre queria mais. As velas que a Kris tinha colocado como decoração da festa foram tombadas por ele, e um pequeno incêndio começou pelas cortinas, aqueles jovens estavam mais desesperados do que nunca, a fumaça fazia com que eles tossissem, e Aiden mantinha as portas fechadas.

Q: Chega Aiden! Vamos embora!

Quando ele voltou ao meu lado os garotos puderam abrir a porta e correr pra fora

K: VOCÊ É UM MONSTRO! OLHA O QUE VOCÊ FEZ! – a Kris gritava pra mim entre soluços, enquanto olhava para as labaredas do fogo que saiam de uma das janelas da casa.

Eu nunca tinha visto o Aiden tão raivoso até então, talvez eu realmente fosse um monstro ao olhar deles, mas eles não faziam ideia do que os verdadeiros monstros eram capazes.

–

Algumas noites eram mais difíceis que as outras, mas desde que eu era pequena eles me visitavam no escuro, eram entidades negras, tomadas pelo ódio. Aiden me disse uma vez que eles eram guiados pela minha luz, e o que me ligava a ele era uma força muito poderosa da qual esses monstros queriam se alimentar. Eles vinham desesperados, eram muitos as vezes. Aiden lutava contra eles para que eu pudesse dormir, mas algumas noites ele não era capaz de conte los e então eu era arrastada, arranhada, eles consumiam a minha energia, eles deixavam marcas... não existia nada mais assustador para uma garotinha como eu. Todas as noites eu abraçava meu ursinho Rufos e dizia a mim mesma que tudo ia ficar bem.

Por mais assustador que ele pudesse ser quando estivesse nervoso, o Aiden não era um monstro, mas pessoas como a Kris não sabiam disso, ele me salvava todas as noites...

Notas finais
Olá pessoal! espero que estejam gostando... estou imensamente feliz por ver tantos leitores de Heavy Rain retornando... como disse pra alguns, até o quarto capítulo postarei um capitulo por dia, pois sei que essa é uma fase bem introdutória da fanfic e alguns podem ficar impacientes, por isso estou me programando pra postar rápido... Spoiler: Primeira cena Faberry no próximo capítulo! COMENTEM!!