Entre duas almas
15 Lembranças
[18 anos] Foi muito difícil me adaptar ao exercito no inicio. Eu não queria estar ali, eu me sentia depressiva, impotente, e esse tipo de sentimento me deixava fraca e quando isso acontecia os “monstros” sempre voltavam.
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Eu só tinha direito a uma ligação por semana e durante vários meses gastei todas elas tentando falar com Rachel, mas só depois de muito tentar, consegui falar com ela. Apenas uma vez.
L: Quinn, você novamente... – Leroy parecia surpreso depois do sermão enérgico que seu marido tinha me dado na semana passada
Q: Leroy por favor não desligue... — pedi imediatamente — eu preciso falar com ela, só isso...
L: Hiram ficará bravo se souber que....
Q: Por favor Leroy — interrompi — você sabe que ela merece uma satisfação minha... – um silencio se instaurou do outro lado da linha, esperava aflita por uma resposta
L: Tudo bem, olha.... ela veio passar o final de semana aqui em casa, se ela quiser... – novamente silencio, ele parecia cochichar do outro lado da linha, provavelmente com Rachel.
R: Você tem 5 minutos.... – Rachel tomou o telefone, era estranho ouvi la novamente depois de tanto tempo, ainda mais tão fria.
Q: Rachel! Meu Deus eu tentei tanto falar com você desde que cheguei aqui...
R: Vá direto ao assunto Quinn, esta perdendo o seu tempo...
Q: Nossa... Não seja tão dura, creio que Nathan explicou em que circunstancias deixei Ohio... eu não tive culpa
R: Você nunca tem culpa! – ela tinha agora uma voz de choro – Você nunca impõe a sua vontade, você deixa eles fazerem o que quiser com a sua vida... Te usam! Você prometeu que não me deixaria e adivinha só qual foi a primeira coisa que você fez? ME DEIXOU! – ela respirou fundo após o desabafo
Q: Rachel... Eu recebi uma convocação, não tem como dizer não pra essa gente... Mas assim que eu terminar as minhas coisas aqui....
R: Não! – ela me cortou – não prometa nada! Eu estou cansada Quinn...
Q: Me escuta! – começava a me desesperar diante da sua resistência – vou me formar daqui a 2 meses, e como agente eu vou ter minha casa, vou ter folgas... eu quero te encontrar, quero conversar pessoalmente, concertar as coisas... – tentava manter a calma
R: Quinn, tem sido tão difícil... eu não esperava ficar sozinha agora, justamente agora que eu precisava tanto de você... Eu estou decepcionada, cansada, os últimos meses foram os piores da minha vida...
Q: Nós vamos concertar tudo... Vamos nos encontrar, por favor...
R: Não Quinn, eu não aguento esperar mais um dia sequer, você vendeu a sua vida a esses caras, e se eu vou ter que viver sem você é bom eu começar a me acostumar, alias já comecei, estar em Nova York é uma nova fase da minha vida e eu não quero desperdiça la com frustrações amorosas, essa é a minha chance...
Q: Eu sei que é ! E eu estou tão feliz por você estar correndo atrás dos seus sonhos, mas eu quero estar ao seu lado...
R: Eu acho que você não entendeu... – ela soluçou entre o choro – acabou Quinn, eu não tenho mais como suportar isso...
Q: Deixa eu te ver, por favor, vamos conversar, não faça isso... – eu também já chorava
R: Eu não posso...
Q: Por que? Eu vou até você, eu vou pra NY pra gente conversar...
R: Eu não quero, eu não quero te ver, eu sei se teria forçar para fazer isso na sua frente...
Q: Terminar comigo? – Rachel ficou em silencio, eu apenas ouvia o seu choro abafado do outro lado da linha
Q: Rachel?
R: Adeus Quinn, por favor não me procure mais... Eu preciso concertar a minha vida...
Q: Rachel não faz isso, eu te amo tanto...
Ela desligou. Fiquei ali parada algum tempo sem coragem pra por aquele telefone no gancho, as lagrimas escorriam pelo meu rosto, não podia ser o fim, não podia ser real. Eu tinha perdido o amor da minha vida. O meu maior medo tinha se tornado realidade.
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[21 anos] Cresci muito no exercito, frequentava todas as aulas possíveis para manter a mente ocupada, e em pouco tempo la dentro eu era a melhor da corporação.
Me formei após um ano de curso com várias honrarias e desde de então comecei a trabalhar pra CIA, na equipe liderada por Ryan que também era composta por pessoas que se formaram comigo. Eles eram ótimos amigos embora nossas relações não se excedessem muito do profissional, eu estava focada em cumprir o meu tempo e ir embora.
Ganhei um pequeno apartamento perto da corporação e passei a ter direito a férias mas raramente as usava, eu já não tinha noticias de Rachel a 2 anos, provavelmente ela tinha uma nova vida agora, talvez estivesse muito melhor, e além de tudo não queria me ver, então eu não tentei encontra la, embora fosse o meu maior desejo.
Minhas missões eram de extrema importância pra CIA, com o Aiden eu podia roubar arquivos de outras embaixadas, destruir documentos e observar pessoas a distancia e sem deixar rastros. Destruí diversas tentativas de outros países em construir condensadores, a única passagem de estudo do inframundo, e eu sabia que era um serviço importante que só podia ser executado por mim. Todos eles se achavam capazes de enfrentar o outro lado, mas eles não tinham ideia do que aquilo representava.
Mas após aqueles dois anos, os nossos supervisores pareciam se sentir mais a vontade para designar novas missões a minha equipe, passei a fazer coisas que jamais imaginei que faria, como torturar ou machucar pessoas para obter informações, entre outros serviços.
Certa vez fui mandada a um país Africano que estava em guerra civil, eu não entendia inicialmente qual era o interesse do governo dos estados unidos ali, mas uma missão era uma missão.
O território era perigoso, então fui mandada sozinha e seria monitorada a distancia por Ryan.
Era dia quando o helicóptero me deixou em um deserto, a cidade não estava longe. Me aproximei com cuidado, a região estava lotada de militares armados.
Demorei quase dois dias para chegar até um prédio no centro da cidade, indicado por Ryan como seguro, e lá me concentrei em Aiden. Faríamos algo inédito naquela tarde, eu havia treinado pra isso antes, mas seria a primeira vez que mataríamos.
Aiden atravessou a parede do prédio onde eu fiquei segura e cruzou a rua. Do outro lado ele alcançou a subprefeitura da cidade, que estava fortemente protegida por diversos soldados. Aiden sabia o que tinha que fazer, então, sem que eu pedisse ele possuiu um dos guardas que protegiam a entrada, ele segurava uma AK-47. Não tinha como perceberem, o plano era perfeito.
Aiden entrou no prédio usando o corpo do soldado e deu inicio a uma verdadeira chacina. Todos os homens que estavam na sala de reunião foram mortos, e por terem sido pegos de surpresa nenhum deles consegui reagir ao ato. Eram eles o alto escalão do governo local, incluído o grande ditador que Ryan havia me mostrado como alvo principal da missão.
Assim que Aiden “limpou” os dois andares, fez com que o soldado que possuía atirasse em sua própria cabeça. Pronto, estava seguro para que eu saísse do meu posto e entrasse no prédio. Avisei o Ryan pelo rádio, ele já estava posicionando o helicóptero para me tirar dali antes que percebessem o que tinha acontecido.
Peguei os documentos necessários e quando estava indo em direção ao pátio percebi um certo movimento dentro de um armário próximo a saída. Rapidamente saquei a minha arma e me aproximei com cuidado, pedi para que Aiden abrisse a porta e assim ele fez. Para a minha surpresa havia um garotinho la dentro encolhido. Ele abriu os olhos, estava com muito medo.
Q: está tudo bem... pode sair... – Levantei minha arma para que ele se sentisse seguro, e o garoto saiu boquiaberto do armario, mas ele não me olhava, seu olhar estava fixado a um dos corpos que estava caído atrás de mim. Ele saiu correndo e se debruçou sobre aquele cadáver, o garotinho chorava com certo desespero e falava em uma língua que eu não podia entender. Fiquei ali parada, estática, e só nesse momento pude recuperar a humanidade que a CIA havia tomado de mim naqueles últimos anos, e perceber que eu havia tirado vidas, que eu e Aiden afetamos varias famílias, o rumo de um país, um ditador estava morto e eu não sabia nem o motivo daquela missão, eu apenas a cumpri. E então eu estava diante daquele garoto e pude perceber, ele chorava diante do corpo de seu pai.
Dei alguns passos para me aproximar dele e ajuda lo mas então ouvi o barulho das hélices, as sirenes já haviam sido acionadas a algum tempo, logo vários soldados estariam no local e isso era muito perigoso... Eu não podia perder tempo, dei as costas pro garoto e corri até o pátio, o helicóptero nem chegou a pousar, eu subi e aquele garotinho surgiu correndo atrás de mim, esbravejando com pistola do pai na mão. Eu ainda estava de costas quando ouvi o som do primeiro tiro, obviamente o garoto não sabia atirar, mas a minha equipe sabia, e para eles o garoto não passava de uma testemunha do nosso plano perfeito, e com um tiro na cabeça ele foi morto e o problema foi resolvido.
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Todos estavam orgulhosos com o sucesso da missão, mas eu estava destruída. Não existe nada bom em si, tudo só é bom para alguém. E eu só me dei conta disso naquele momento.
Dentro de algumas horas já estávamos em um helicóptero especial que era designado a elite do exercito, voando de volta para os estados unidos. Eu me mantinha encostada sobre a janela refletindo sobre o que tinha vivenciado mais cedo, passava meus dedos sobre a minha aliança, que estava pendurada em uma corrente em meu pescoço, como se aquilo pudesse me ajudar.
Ryan veio se sentar ao meu lado após dar algumas ordens aos pilotos.
R: Você esta tão quieta.... ta tudo bem? – Ele retirou o headphone que usava, eu apenas assenti
R: Nunca vi nada como isso... – ele olhava ao seu redor – o chefe mandou esse helicóptero especial só pra te tirar da África em segurança... – ele era realmente luxuoso, nem eu nem Ryan estivemos em um antes
R: Todo o alto escalão é louco por você Quinn... E Aiden, claro... – eu mantinha a minha cara fechada e olhando para a janela
R: Quinn... — ele respirou fundo – eu sei que essa foi pesada... mas acabou, nós vamos pra casa agora! Missão comprida! – ele disse ainda entusiasmado
Q: Não precisávamos ter matado aquele garotinho...
R: Ele nos viu, não tínhamos escolha...
Q: Ele viu o pai morrer... – finalmente me virei para olhar em seus olhos
R: Quinn esse é o nosso trabalho, pode não ser o mais lindo do mundo mas é necessário para um bem maior, você não pode se deixar afetar dessa forma... – ele tentou acariciar o meu rosto mas eu afastei a sua mão
Q: Isso ta errado!
Naquele exato momento uma reportagem sobre as mortes que causamos começou a aparecer como destaque no jornal que era transmitido, no pequeno televisor da aeronave que estava diante de nós
“Ex ditador Africano é morto por um membro de sua própria equipe que traiu a todos os oficias de seus país que também morreram durante uma reunião nessa tarde...” Ryan sorria maravilhado
R: Genial! Traição... nossa missão foi perfeita, jamais desconfiaram de nós!
“O ex ditador havia sido eleito a cerca de uma semana após um longo processo de democratização no país... Ninguém sabe que rumo tomará o pais e o tão lucrativo mercado do petróleo em que ele vinha se destacando.... Durante tempo indeterminado as forças armadas norte americanas devem entrar no país para impedir que a guerra civil se expanda até que o novo governo seja definido....”
Como um clique minha ficha caiu naquele momento, estava tudo ali bem debaixo dos meus olhos, como eu pude concordar com aquilo?
Q: Ryan, nós matamos o homem que foi eleito pelo povo..... por dinheiro.... ou melhor, por petróleo....
R: O progresso tem o seu preço... – ele abriu uma lata de refrigerante totalmente indiferente com o que acabávamos de ver
Q: Você sabe que eu não faria isso se soubesse o motivo dessas mortes...
R: Foram ordens Quinn.. Você não tem que concordar
Q: Você mentiu pra mim!
R: Eu? – ele sorriu
Q: Ele não era um ditador... ele era o presidente, ele lutou pela liberdade daquela gente!
R: Quinn nós somos da CIA, nós cumprimos ordens pelo bem do nosso país, só isso! — Ryan elevou o tom de voz, e no mesmo instante a aeronave deu um forte solavanco, Aiden estava furioso
Q: Você mentiu pra mim! – me levantei me equilibrando para não cair, as luzes piscavam, e alertas de emergência tocavam indicando que devíamos apertar os cintos
R: Ok Quinn se acalme ou nós vamos morrer aqui... – Ryan segurou minhas mãos mas eu me soltei dele imediatamente
Q: Vocês me usaram pra fazer o trabalinho sujo de vocês... – o helicóptero sacolejava e perdia altura, me aproximei da porta
R: Onde você vai? – Ryan se manteve sentado – Quinn, você entendeu tudo errado...
Q: Eu tenho sangue nas minhas mãos Ryan! Eu confiei em você... – apertei o botão que abria a porta lateral – O que vocês pensam que eu sou? Um brinquedo? Uma arma letal?
R: Quinn por favor para com isso... – Ryan se segurava com força em sua poltrona enquanto o piloto se desesperava dizendo que perdera o controle da aeronave
Q: Ninguém nunca mais vai me usar! Não vou mais fazer parte disso... chega!
Pulei sem nem olhar pra trás, aquele foi um momento decisivo da minha vida. Embora tivéssemos perdido muita altitude ainda estávamos bem alto, mas eu tinha o Aiden que me impediria de espatifar no chão.
Eu estava furiosa, me sentindo mais usada do que nunca. Abri mão de tantas coisas realmente importantes pra mim por um bem maior que não era tão bom assim, mas agora chega, não tinha mais volta, eu seria livre!
–
A imagem daquele garotinho ficou cravada em minha mente nos meses que se seguiram... Eu me sentia suja, naquele momento eu tinha me tornado o monstro que todos sempre temiam que eu seria, e carregar esse fardo nunca foi algo fácil. Me sentia triste por todas aquelas mortes, mas aquela em especial me fez pensar no amor entre um pai e um filho, algo bem semelhante a algo que eu já tinha visto antes.
[10 anos]
Era tarde e eu não conseguia pegar no sono naquele noite na base, Aiden estava tão inquieto quanto eu. Fui até o escretitório do Nathan onde ele e Cole trabalhavam até tarde como sempre
C: Oi princesa... – Cole automaticamente me estendeu os braços para um abraço
Q: Não consigo dormir...
N: Tema algo errado?
Q: Não... – me afastei do Cole – será que alguém pode ler uma história? – os dois sorriram
N: Não tem como negar a um pedido como esse... – Nathan sorriu – vá escolher um livro na sala de espera... Mas ande logo, preciso ir embora logo – eu assenti e me retirei da sala saltitante.
Quando entrei na sala a luz começou a piscar
Q: Para com isso Aiden, não tem graça... – me aproximei da estante, mas quando fiquei na ponta dos pés para ter uma visão melhor sobre os livros, um livro que estava mais abaixo caiu aberto no chão, então suas paginas foram viradas por um forte vento até que ele se fechasse.
Q: Aiden! Eu não gosto disso! – eu esbravejei enquanto me abaixava para pega ló, era um livro infantil de capa rosa, presumi que Aiden queria que eu o escolhesse e então assim eu fiz.
Quando me levantei vi uma uma mulher e uma garotinha, um pouco mais velha do que eu, paradas na minha frente, eu me assustei e dei alguns passos pra trás. Elas tinham cortes por todo o corpo e sangravam enquanto me olhavam com um olhar perdido. Eu fechei os olhos com forças e me agarrei ao livro, então corri de volta até a sala onde Nathan e Cole trabalhavam.
Eu fiquei com muito medo daquilo, eu sabia que podia ver alguns espíritos eventualmente, mas nunca daquela forma.
N: Ah ai esta ela... – Nathan estendeu a mão e eu lhe entreguei o livro, mas la estavam elas novamente, os dois espíritos estavam ao lado de Nathan e ainda sangravam. Eu não queria dizer isso a eles mas era inevitável não olhar para elas, Nathan percebeu.
N: Esse era o favorito da minha filha... Ei... você ta bem? – eu assenti, fechei os olhos com força mais uma vez e quando abri elas não estavam mais na sala.
N: Você parecia assustada....
C: Ela esta cansada, isso sim! – Cole comentou ainda digitando em seu computador
O telefone tocou.
N: Só um segundo querida... – Nathan sorriu pra mim e atendeu.
Depois de poucos segundos de conversa a sua feição mudou, eu o observava com certa curiosidade. O livro que ele carregava caiu de seus braços e logo ele procurou o apoio de sua própria cadeira. Cole já estava preocupado, Nathan ouviu por mais algum tempo e então desligou sem dizer uma palavra.
C: O que aconteceu? – Cole se aproximou do parceiro e segurou o seu braço – Nathan?
N:Minha esposa... Elas estavam voltando pra casa... sofreram um acidente de carro... – ele parecia em choque
C: Meu Deus! – Cole se virou pra mim – Quinn, você precisa ir pra cama agora... – ele se aproximou e me pegou no colo
C: Você fica aqui! – ele olhou pro Nathan – eu volto em um minuto!
No instante em que soube do acidente eu sabia que elas tinham morrido, eram elas nos rodeando naquela sala. Mas eu não disse nada, não podia fazer nada... Essa é a pior parte da morte, não podemos controla la. Seu eu pudesse, aquele dia no escritório e o desfecho naquele dia na Africa seriam diferentes. Mas eu não podia...
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