[21 anos]

Os dias que se seguiram, depois que abandonei a Cia, foram muito difíceis. Simplesmente não havia pra onde ir, eu não tinha dinheiro ou amigos para ligar, eu andava sem rumo em busca de um novo sentido pra minha existência.

A solidão é o pior dos sentimentos, éramos apenas eu e Aiden novamente.

–

Estava em uma cidade pequena no interior dos Estados Unidos, a alguns quilômetros de onde eu havia pulado do helicóptero. Eu sabia que tinha que me afastar daquela área pois eles me procurariam.

Estava extremamente quente, eu suava muito sob o sol escaldante, havia andado muito tempo pelo deserto pra chegar aquela área. Finalmente encontrei uma rodoviária, onde recebi diversoso olhares maliciosos de qualquer cara que tentava me aproximar para pedir alguma ajuda. Exausta, me sentei na sombra pra respirar um pouco, estava desidratada.

Q: Eu to com tanta sede... – enxuguei o próprio suor na minha testa. – e eu não vou roubar nada! – Aiden estava preocupado comigo

Sentado na minha frente vi um homem muito simples com um violão velho, ele tentava tocar alguns acordes na esperança de conseguir algumas moedas. Aiden me puxou fazendo com que eu me levantasse e me empurrava em sua direção.

Q: Eu não posso fazer isso... Aiden... Para... – parei diante do homem – olá...

J: Boa tarde! – o senhor respondeu com um sorriso fraco no rosto, sem parar de tocar – a senhora tem alguma trocado?

Q: Me desculpe... eu não tenho nada... na verdade queria pedir ajuda...

J: Ajuda? – ele finalmente parou de tocar e me olhou nos olhos

Q: Eu estou com muita sede... – ele imediatamente colocou o instrumento no chão e buscou a própria mochila, e então me estendeu um pequeno cantil

J: é tudo que eu tenho.... – eu me sentia mal por aceitar, mas eu não podia mais suportar. Peguei o cantil com pressa e dei alguns largos goles

Q: Obrigada... muito obrigada... – eu respirava ofegante enquanto lhe devolvia o frasco

J: Você não parece ser daqui...

Q: Eu... eu to fazendo uma viagem... mas roubaram o meu dinheiro — menti

J: Que pena... desculpa não poder lhe ajudar... são tempos difíceis pra todo mundo... tenho um filho doente e estou desempregado a dois anos...

Q: Eu sinto muito... – ele voltou a se sentar e indicou para que eu o acompanhasse

J: Não sinta... Deus da o peso conforme podemos carregar... – Eu apenas sorri e olhei com atenção aquele homem de barba grisalha, sua pele enrugada por conta da exposição extrema ao sol me fizeram refletir. Ele pegou o velho violão de volta

Q: Como eu faço pra ganhar algum dinheiro por aqui? – Eu interrompi antes que voltasse a dedilhar o instrumento

J: Me faço essa pergunta todos os dias... – ele riu de si mesmo – eu toco pra ganhar a vida, eu não sou muito bom nisso, mas troquei esse violão por um porco velho e agora é tudo que eu tenho...

Q: Me desculpa perguntar.... mas o que o seu filho tem...?

J: Paralisia... Suas pernas não se movem a dois anos... Existem bons empregos na cidade grande mas eu não posso me ausentar por muito tempo, minha família depende de mim aqui...

Fiquei em silencio refletindo por um momento, o homem retomou a melodia. Varias pessoas passavam por ali e não davam a mínima pra nós. Não tínhamos dinheiro, estávamos fora do jogo, simples assim.

Q: Qual o seu nome?

J: Joseph...

Q: Eu sou a Quinn... – estendi a mão e ele imediatamente retribuiu

J: Olha se você não tiver onde passar essa noite você pode ficar na nossa fazenda... não posso te oferecer mais do que uma noite, mas eu espero que você encontre o seu caminho...

Q: Eu também...

–

Joseph me deixou ajuda lo naquela tarde, minhas habilidades com o violão nos renderam algumas moedas a mais , e claro eu dei tudo a ele no final do dia. Era lindo como aquele homem que tinha tão pouco me ofereceu ajuda enquanto o resto do mundo me deixaria morrer na sarjeta. Ambos, eu e Aiden sentíamos boas vibrações, e foi por isso que eu o acompanhei de volta pra casa naquela noite.

Não me surpreendi ao me deparar com uma moradia tão simples quanto ele aparentava ser, mas foi tão bom ter a oportunidade de jantar depois de dois dias sem quase nada no estomago.

Seu filho se sentou a mesa conosco, um garotinho de cerca de dez anos. Ele era muito animado e criativo e me fez milhares de perguntas sobre a cidade grande.

–

E: Ok... está tarde... – Sua mulher disse ao retirar os pratos – Quinn, você pode dormir no sofá....

Q: Obrigada.. é muita gentileza da parte de vocês me deixarem ficar aqui essa noite...

J: Eu não poderia deixar que você ficasse naquela rodoviária... – sua esposa assentiu concordando com o marido

–

Joseph levou o garoto no colo até seu quarto enquanto sua esposa ajeitava o sofá para mim. Eu havia tomado uma decisão.

J: Boa noite Quinn! – Joseph disse ao cruzar o corredor

Q: Senhor...por favor... eu queria falar com você um minuto... – ele se aproximou curioso, sua esposa também parou e voltou sua atenção pra mim

Q: Eu posso curar o seu filho.... – ambos se entre olharam

J: O que?

Q: É eu posso...

E: Querida ele já esta em um estado avançado, por favor não prometa algo que não pode cumprir...

Q: Eu não to prometendo, eu to afirmando... eu posso curar o seu filho...

J: Você é médica? – Joseph me olhava intrigado

Q: Não... mas eu tenho um dom, é um longa história... – sua esposa parecia espantada, eles ficaram em silencio

Q: Sei que vocês são uma família de fé... – apontei pra um crucifixo que estava pendurado na parede – eu não quero que entendam, só peço que tenham fé em mim agora, essa é a minha unica forma de retribuir o que fizeram por mim hoje...

E: Eu acho que ela pode tentar... – a mulher segurou o braço do marido que apenas assentiu

–

Fui acompanhada deles até o quarto do menino, ele dormia tranquilo. Me aproximei de sua cama e me agachei ao seu lado e então coloquei minhas mãos sobre as suas pernas.

O casal se mantinha em silencio e observando a tudo.

Q: Você sabe o que fazer... – disse quase como um sussurro e então permiti que Aiden agisse por mim. Meus olhos se reviraram por completo, o casal se espantou e deu alguns passos pra trás. Certamente o casal não podia ver, mas nossas luzes se misturavam em uma corrente muito forte, e quando ela finalmente foi quebrada eu recuperei a consciência e cai sentada pra trás, um pouco ofegante.

Q: pronto... — meu nariz sangrava, aquele tipo de ligação era muito intensa pra mim. Me levantei enquanto limpava o pequeno sangramento.

A mãe se mantinha agarrada a um terço quando se aproximou da cama e chamou pelo filho. O pai estava nervoso esperando pelo resultado. O menino acordou

Q: pode se levantar... – ele imediatamente tirou a coberta que o cobria e saltou pra fora da cama com muita naturalidade, sem entender ao certo o que acontecia ali. Seu pai teve que se apoiar na parede para não cair, estava em choque.

J: Isso é impossível....

F: Estou pé mamãe! – o menino vibrava enquanto mexia as pernas se certificando de que era real

E: É um milagre! – a mãe abraçou o filho com força com os olhos ainda arregalados.

–

Eles insistiram muito pra que eu não fosse embora no dia seguinte, mas eu sabia que era o certo a se fazer. Estava feliz por ajudar aquela família, com certeza suas vidas mudariam dali em diante. Infelizmente eu sabia que não podia fazer aquilo sempre pelas pessoas, era um processo que requeria muita energia, algo que eu definitivamente não tinha naquela fase.

Parti com um presente, um gesto de gratidão simples como aquelas pessoas, comida pra viagem e aquele velho violão. Joseph consegui que um de seus primos que estava de passagem pela cidade me desse carona, eu disse que iria para qualquer lugar, mas aquele homem estava indo pra Nova York... destino?

–

[Semanas mais tarde]

Eu sonhava com um incêndio antes de acordar, eu podia sentir o calor daquelas labaredas.

Quando abri os olhos um homem me olhava com um olhar curioso, meu corpo estava pesado, tentei levantar de imediato mas era difícil.

S: Calminha ai... – o homem se aproximou para me ajudar mas eu recuei – estava começando a achar que você não acordaria mais...

Q: Onde eu to?

S: Eu Nova York.... Na minha casa... – olhei ao redor e me dei conta que estava em um barraco improvisado em baixo de uma ponte, ele era um morador de rua – não é muito luxuoso, eu sei... – ele sorriu e se aproximou de uma fogueira que estava diante de nós para se aquecer, a tempestade continuava forte la fora

S: Te achei caída na rua a alguns dias... você não parecia nada bem...

Q: Você cuidou de mim esse tempo todo? – me juntei a ele para me aquecer próximo ao fogo

S: Alguém tinha que fazer isso... não posso deixar que um ser humano morra como um cachorro na rua... o frio te derrubou não é mesmo? – apenas assenti, mas no fundo sabia que a entidades haviam me consumido, eu começava a retomar a consciência

S: Já vi muitos casos como o seu... Infelizmente muitas pessoas não são fortes o bastante... Mas qual o seu nome?

Q: Quinn..

S: Eu sou Stan... – ele sorriu, parecia ter uns 40 anos de idade, mas seu rosto era marcado pelo frio e pelos anos na rua – sabe é bom ter alguma companhia de vez em quando... faz tempo que esta na rua?

Q: Algumas semanas...

S: Oh... fazem 3 anos pra mim... Mas se me permite saber... – ele estendeu a mão e me deu um copo contendo café – beba vai te fazer bem... por que você veio parar aqui? Problemas com a família?

Q: Não...

S: Drogas?

Q: Não... – me mantive fechada

S: Bom, tudo bem... desde que não tenha matado ninguém pra mim está ótimo... – soltei uma pequena risada, estava um pouco nervosa com aquela colocação, eu sabia muito bem o que tinha feito

S: Você tem alguém que pode te ajudar? Alguém que esteja te procurando?

Q: Não... – respirei fundo – na verdade existe uma garota aqui em Nova York... mas eu não quero vê la agora, não desse jeito...

S: Tudo bem... – ele sorriu – você pode ficar por aqui enquanto precisar... não tenho muito para dividir mas...

Q: Obrigada!

–

Aceitei a proposta de Stan, eu não tinha outra escolha se quisesse sobreviver ao frio Nova Yorkino. Apesar disso ele era um homem bom, apenas perdeu a cabeça depois que sua esposa faleceu e acabou perdendo tudo. Eu nunca disse a ele, mas as vezes eu podia vê la ao seu lado.

Já fazia quase uma semana que eu levava aquela vida, era angustiante na maior parte do tempo não ter nada. Eu queria encontrar Rachel mas aquela cidade era tão grande, e por que ela ia me querer naquelas condições? Eu precisava reerguer a minha vida mas estava difícil e alguns dias eram piores do que outros.

A ponte em que morávamos era alta, e passava por cima de uma rodovia movimentada da cidade, algumas vezes eu gostava de ficar sentada na beirada vendo o “mundo” passar diante dos meus olhos. Era desesperador pensar em Rachel e no meu futuro, e pensamentos como esses me deixavam muito angustiada as vezes.

Naquele dia eu fiquei em pé diante do abismo, cruzei meus braços com força tentando superar o frio. Fechei os olhos e algumas lagrimas escorreram, era tão difícil suportar. Foi o meu maior momento de fraqueza. Ainda com os olhos fechados, abri os braços e impulsionei meu corpo pra frente, eu estava cansada de lutar, eu estava decidida que era o fim.

Aiden não permitiu que eu caísse e me empurrou pra trás com força, eu senti raiva dele por fazer isso.

Q: Me deixa em paz! – agarrei minhas pernas em prantos – Eu tenho sofrido a semanas e pra que?? Eu não tenho comida, não tenho casa, não tenho a Rachel... MINHA VIDA É UM DESASTRE! – passei a mão pelo rosto tentando conter o choro, mas era algo impossível naquele momento – Eu to cansada Aiden! Eu desisto ta legal? – me levantei – Eu desisto, você ta me ouvindo? – me aproximei novamente da extremidade da ponte, enxuguei as lagrimas e fechei os olhos — vamos acabar logo com isso... — sussurrei

S: Quinn, esta ficando tarde... precisamos arrumar algo pra comer! – Stan apareceu bem atrás de mim – Você vem? – respirei fundo

Q: Claro...

–

Tocar violão nas ruas de Nova York em um fim de tarde gelado como aquele não surtia efeito algum. O sol já havia se posto e só tínhamos dinheiro suficiente para uma refeição

S: Precisamos voltar... você pode comer hoje...

Q: Não, eu estou bem... – me levantei e coloquei o vilão nas costas

S: Dia difícil pra você né? Desculpa, mas eu vi você chorando mais cedo...

Q: Ta tudo bem... – deu um sorriso de lado e começamos a caminhar

–

Quando chegamos próximos a ponte em que morávamos, vimos alguns moradores dos arredores desesperados. Stan correu até um deles.

S: o que houve??

X: Fogo! Botaram fogo nas nossas coisas!! – foi o que bastou pra Stan sair correndo em disparada para o barracão, eram lá que estavam as ultimas lembranças que tinha da esposa. Eu fui atrás dele, sabia que era extremamente perigoso.

O fogo já tinha tomado o local e uma forte fumaça preta saia por todas as partes, ele não aguentaria muito tempo la dentro. Quando o alcancei ele estava de joelhos diante do barraco que costumava ser a sua casa, as paredes frágeis já haviam cedido e tudo era uma enorme fogueira, não teria como recuperar coisa alguma

Q: Stan levanta ! – eu o puxava – anda, nós temos que sair daqui...

S: Eles queimaram tudo que eu tinha, tudo! – Stan chorava com certo desespero

Q: Aqui está perigoso Stan! – eu tossia enquanto tentava cobrir meu nariz com o antebraço. Ele finalmente se levantou, apoiado em mim começamos a procurar um caminho de volta, os corredores formados pelos barracos estavam em chamas. Foi quando me dei conta que aquele era o meu sonho, eu podia sentir o calor exatamente da mesma forma.

Quando encontrei um caminho desobstruído, fomo surpreendidos por um forte golpe nas costas, um garoto de mais ou menos vinte anos com um taco de basebol na mão ria do que acabara de fazer, atrás dele haviam outros, um deles filmava toda a ação.

H: Vejam só, ele arrumou uma namoradinha... – ele debochava enquanto eu e Stan nos levantávamos

Q: É melhor você sair do nosso caminho...

H: Se não o que? – ele veio me peitar, e sem pensar duas vezes eu o golpeei no olho

H: VADIA! EU VOU TE MATAR! — ele imediatamente se afastou colocando a mão sobre o rosto

S: Corre Quinn! – me puxou pelo braço em direção a saída, o caminho se tornava cada vez mais estreito.

–

Saímos sem olhar pra trás, me apoiei sobre os meus joelhos, eu estava ofegante.

Q: O que foi isso?

S: Esses jovens riquinhos, vem arrumar confusão com a gente pra se exibir em vídeos da internet.... eles provocaram o incêndio – ele bateu os pés contra o chão com raiva algumas vezes – eles levaram tudo de mim.... TUDO!

Q: Calma...

E então os garotos surgiram em meio as labaredas, ambos tossiam bastante.

H: Ai estão vocês.... Estava filmando isso Brad? – ele se certificou enquanto se recompunha. Stan voou sobre o rapaz, estava furioso, porem os seus amigos rapidamente o tiraram de cima dele, o jogaram no chão e começaram a golpeá-lo varias vezes com aquele taco e também com vários chutes. Foi quando o “líder” do grupo sacou uma arma de sua cintura e apontou pra Stan que se mantinha encolhido no chão

Q: PARA COM ISSO! – entrei em sua frente

H: Ai está a nossa heroína... – ele destravou a arma – eu falei que te pegava... – ele riu

S: NÃAO!

Ele não disparou aquela arma, na verdade um dos caras que estava atrás de mim, antes golpeando Stan com o taco, me atingiu em cheio na cabeça. Eu nunca me senti daquela forma, eu apaguei por completo mas podia ver flashes da visão do Aiden. Eu me via no chão, a neve sobre a qual eu caí ia ficando cada vez mais vermelha e foi quando Aiden perdeu a força, tudo ficou completamente escuro na minha mente.

–

Eu não tinha noção de tempo naquela escuridão, não sabia se estava viva ou morta, mas Aiden estava comigo, ele era a única luz naquele lugar. Ao contrario do que sempre fora, era eu quem seguia ele, mas eu não sabia pra onde estava indo.

Foi quando uma voz invadiu aquele silencio cortante do meu coma, Aiden pediu para que eu me concentrasse então eu pude ouvir com clareza.

R: Quinn, o que fizeram com você?.... Eu estou aqui... Seja forte.

Era Rachel, eu tinha certeza que era ela, eu só não tinha certeza se ainda fazíamos parte do mesmo mundo.

Q: RACHEL! RACHEEL! — eu gritava a todo pulmão, mas ela não podia me ouvir.

Notas finais
Oi gente, bom esse cap foi dedicado a todos os "perrengues" que a Quinn passou nesse período pós CIA, acho que todos estavam ansiosos por Faberry , maiores explicações e desfecho desse final no próximo cap! OBS IMPORTANTE: esse "buraco" no meio do capitulo já havia sido dado no capitulo 9, quem não lembra o que aconteceu com a Quinn pra estar desacordada da uma voltadinha la! COMENTEM!