Batendo meus pés no ritmo da musica cantarolava baixinho. — Back in the back of a Cadillac, number one with a bullet, I'm a power pack…

Sentada na minha poltrona no quarto com meus fones escutava a minha musica preferida, entre meus dedos dançava um cigarro que estava chegando ao fim e eu não queria que acabasse logo agora que eu estava começando a me divertir.

— Yes I'm in a bang with the gang they gotta catch me if they want me to hang...- (Sim, eu estou numa banda com uma gangue, eles terão que me pegar se quiserem me enforcar...)

— SAMY! – Tira-me do meu momento com um grito e batidas fortes na porta do meu quarto, assustada caio da poltrona em que eu já estava em pé pulando e curtindo a musica batendo minha cabeça no chão.

— Aí... – Minha cabeça latejou com o impacto e me perguntava como consegui bater minha cabeça logo no chão – O que foi? – Grito em resposta, mas tudo que sai é um gemido de dor.

— Você está atrasada garota... – Não entendi nada do que ela disse já que batia na porta tão alto que sua voz foi cortada.

Levantei-me do chão e olhei para o relógio, estava mais do que atrasada. Agachei-me debaixo da cama e peguei minha latinha bebericando o restante do liquido e como por precação arremesso a latinha e o resto do tabaco janela a fora, vou para o banho xingando internamente essa maldita vida.

Uma calça jeans, uma camiseta branca, uma blusa com capuz e meus tênis completava meu figurino pra ir à escola, me fito no espelho penteando meus cabelos, eram curtos e negros nada de muito interessante, mas que pra mim era algo que tinha que ser estudado porque eles nunca crescem, escovo meus dentes em meio a caretas para a enorme espinha na minha testa.

.

.

.

— O que foi? – Assim que abro a porta do quarto me deparo com meu pai, ele me olhava estranhamente como se eu fosse um bicho de sete cabeças ou um monstro ou algo que precisava ser enjaulado e mantido longe da sociedade, sorrio debochadamente o fazendo arregalar os olhos em surpresa.

— Seu quarto ainda fede a cigarro... – Ele murmura e vai para o andar de baixo.

— Qual é eu tomei banho ta legal! – Exclamo me cheirando.

Preguiçosamente saio de casa e ponho meus fones e puxo meu capuz tampando meus cabelos, o tempo gélido em nova York fazia com que tudo em mim se corroesse, sentia frio até no meu dedinho do pé e odiava aquele tempo. De cabeça baixa caminhava pela calçada ouvindo atentamente a letra da musica, olhando às vezes para as pessoas sentia que estava sendo perseguida por alguém, uma sensação que não me abandonava.

.

.

.

— Nem pense em dar mais um passo Samira. – Congelei no lugar em que eu estava apenas com um passo para poder entrar na escola sem ser vista, mas infelizmente aquela voz horripilante sempre me pegava. – Ninguém me engana mocinha principalmente você.

Viro-me e olho para Tia Maria, porteira da escola ela sempre conseguia me impedir de conseguir entrar, impossível alguém passar por ela quando se estava atrasado.

Maria era o sargento da escola e colocava medo em todos ali com seu jeito turrão de ser. Eu até que gostava do seu jeito mandão e atrevido.

— Maria eu tenho aula e preciso entrar... – Digo dissimulada a olhando.

— Muito engraçadinha. – Ela olha no relógio e me fita – Quase no fim da aula, pode se sentar ali. – Aponta o banco e eu bufo me dirigindo pra lá.

— Eu odeio a minha vida! – Grito exasperada para Maria que me dá um sorriso de escárnio.

— Se você odeia a sua imagina eu? – Levanta os braços e me dá um “tchau” dissimulado entrando na escola, bufo me acomodando na cadeira.

.

.

.

O sinal finalmente bateu e consegui entrar na escola, com minha carranca me embolei em meio a tantos alunos e praticamente fui carregada. Cheguei ao meu armário jogando minhas coisas dentro e o batendo com força pra que feche.

— Quanto mau humor Samy... – Mais um mala para me assustar hoje, Theodor bate no meu armário me assuntando que acabo gritando, muitos olhares vêem em minha direção.

— Quer me matar é? – Soco minha mão para não poder socar aquele rostinho liso dele.

— Não, mas um dia eu te mato... Chegou atrasada de novo? – Se encosta-se ao armário para me ver melhor. Theodor meu amigo e o garoto mais mala e idiota que já conheci o que salvava de bom nele era seu jeito de ser e sua beleza, pois o garoto era sem noção .

— Não é nenhuma novidade, eu sempre chego atrasada – Retruco saindo de perto dele e indo pra minha sala, não poderia perder mais uma aula.

— Porque é estranho você conseguir chegar todo dia atrasada... – Theodor debocha indo atrás de mim, como não o respondo ele tira meu capuz querendo a minha atenção. Era estranha a mania dele de querer a atenção de todos pra tudo o que ele fazia e falava. – A Nimel quase teve um treco quando não te viu na entrada...

— Dá um tempo Theo. – Interrompo a tagarelice dele e fecho meus olhos rapidamente me encostando à parede, sentindo-me zonza novamente.

— Esta tudo bem Samy? – Theodor me olha preocupado segurando meu braço uma atitude que eu odiava nele, não gostava da atenção das pessoas.

— Sim! – Dou um sorriso amarelo para não preocupá-lo, minha vontade às vezes era de socá-lo. – Sua voz irritante me deu tontura.

— Há muito engraçado Samira... – Sorrio e entramos na sala, Theo ainda estava na minha cola. – Eu e Nimel marcamos de sair amanhã. – Ele joga a isca me olhando pelo canto do olho.

— Que legal... – Pego me celular e troco de musica.

— Qual é Samy é pra você também ir... Vamos lá vai ser legal. – Praticamente me implora de joelhos.

— Não gosto desses lugares... – Retruco com nenhum pouco de interesse naquele assunto.

— E daí? Vai ter muitas mulheres e quem sabe você desencalha arrumando um namorado... – Pra não por em pratica meu plano de desfigurar seu rosto apenas aumento o volume da minha musica. – Tô brincando Samy não fica assim vai...

— O que esta fazendo com ela posso saber? – A segunda intrometida chega gritando e mais uma vez sinto olhares na minha direção.

— A Samy não quer sair com a gente... Eu sugeri que era pra ela desencalhar, mas ela emburrou a cara... – Theodor juntou sua cadeira pra perto de mim colocando seu braço em meus ombros.

— O QUE? – Nimel exclama pondo a mão na cintura, eu tinha amigos loucos. – Como você não vai é o seu aniversario?

— Não gosto de festas... – Dou de ombros e Nimel se senta ao meu lado e me encara.

— Você é um porre! – Me julga fazendo um beicinho como se eu fosse voltar atrás com minha decisão.

— E vocês me amam! – Debocho e eles bufam.

Nimel era a pessoa mais certa que eu já conheci, cabelo preto que batia em sua cintura, pele branca e totalmente rockeira, foram essas características que nos juntaram e nos tornamos amigas, Nimel tinha uma mania que às vezes me incomodava bastante de sempre querer comemorar algo e dessa vez era o meu aniversario de 17 anos. Odiava qualquer lugar que tinha amontoado de pessoas desconhecidas eles sempre tentavam me carregar para um lugar desses.

Literalmente falando minha vida não tinha nada de muito interessante, tinha amigos estranhos, eu era estranha e minha vida era estranha, ponto.

Monótona e tranqüila até de mais, meus pais eram relativamente distantes e eu não tinha feição alguma por eles, deve ser pelo simples fato de eu ser adotada. Ser adotada em si não era algo ruim, como muitos tinham lares familiares e um bom relacionamento com os pais adotivos como a Nimel tem, mas no meu caso era só um empecilho que me afastava a cada dia mais dos meus pais.

Era algo que eu não conseguia entender e explicar, meus amigos diziam que eu tenho algo ruim dentro de mim, algo mau e que às vezes demonstrava dependendo do meu humor, eu concordava com eles e amava quando me diziam aquilo.

.

.

.

“Uma nevoa gélida passa por todo o meu corpo e eu sinto um cheiro de sangue, aquele cheiro me faz querer saber mais e procurar de onde vinha, apuro meu olfato e caminho em busca daquele cheiro. Estava muito escuro em toda volta só a Luz da lua que se fazia naquele lugar estranho e por incrível que pareça não tive medo de estar ali, tudo me era familiar de mais.

Ouvia barulhos da água correndo pelo rio que estava próximo dali, caminhando mais naquele local desconhecido sentia mais forte o cheiro de sangue, algo pingava como se fosse o som mais ensurdecedor que já tinha ouvido. Busco minha visão para aquele campo aberto tentando ver algo, ao longe vejo uma pedra que na sua ponta algo brilhava, parecia que me chamava. Fui atrás. Um circulo vermelho se formava em volta da pedra, à iluminação ali era maior, me agachei passando a mão naquela marca, era sangue.

Uma nevoa forte passou por mim fazendo um grande circulo de vento a minha volta, me levantei assustada olhando em volta, mas não tinha ninguém. O circulo cada vez ficava mais nítido e eu estava no meio dele, tentei sair de lá, mas era como uma parede ou escudo que me manteve presa. Um barulho estrondoso me fez arrepiar, senti os pelos de todo o meu corpo se arrepiar. Me virei tentando examinar a escuridão a minha frente, mas tudo era confuso e não enxerguei nada, desorientada eu gritei. Eu sentia uma presença conectada a mim, uma sensação terrivelmente familiar e em um batimento cardíaco eu entendi o porquê, percebi que estava morrendo. Comecei a tossir e meu corpo tremia tudo que gritava em minha mente era ‘Estou com medo’, um eco me paralisou e então o primeiro chifre se projetou e começou a ganhar forma diante de mim, branca, afiada e perigosa e tudo que eu conseguia fazer era me afastar. Então a fera se projetou completa na minha frente e ele me olhava como se me conhecesse e podia ver a maldade em seus olhos e podia jurar que eu me via naquela fera.”

.

.

.

Assustada me levanto da cama completamente zonza, abro meus olhos, mas tudo estava escuro a minha volta, tive o mesmo pesadelo novamente, mas aquele era o pior que já tive, nunca havia sonhado com aquela criatura. Um borrão escuro tampou minha visão me sentei no chão esperando minha respiração voltar ao normal, perecia que corri uma maratona e me perguntava se os sonhos teriam que ser tão reais assim, parecia que a escuridão queria me sugar a todo tempo.

Levantei um pouco mais calma com a minha visão clareando, fui tomar um copo de água na cozinha e retornei pro quarto, esses pesadelos me faziam perder energias me deixando com a boca seca e minha cabeça doía.

Tentei voltar a dormir novamente e não consegui, aquela imagem rodava na minha cabeça, aquela criatura horripilante. Olhava para o escuro do quarto e tentava decifrar aquele pesadelo, não entendia da semelhança daquela criatura comigo, mas eu me via nela.

Fiquei me perguntando o porquê desse sonho? E porque dele ser tão real?

Levantei-me novamente sem sono e inquieta indo para o chuveiro tentaria afastar aquelas imagens da minha cabeça coloquei roupas comuns, um short jeans e uma regata branca e me deitei de novo, tentei me distrai tentando ouvir minhas musicas e afastar um pouco a sensação que eu tinha que aquilo seria só o começo de tudo.