Caminhava pelo campo da escola com minhas mãos dentro do bolso tentando fugir do frio, meu capuz tampava parcialmente meu rosto na vã tentativa de me esconder, uma sensação que sentia de estar sendo observada me tomava, era estranho me sentir assim, mas às vezes via vultos se passando rapidamente diante dos meus olhos. Eu olhava para todos os lados desconfiada, mas não tinha nada, nunca havia nada e sempre ficava imaginando que eu era louca, poderiam me achar uma maluca por imaginar essas coisas, mas nada tirava da minha cabeça que aquelas coisas são reais.

Era o segundo horário na escola e eu decidi vir me esconder no meio das arvores, odiava educação física e não tinha nada melhor do que matar aula sozinha sentada num tronco velho e também fugir das felicitações de todos os meus pouquíssimos amigos. Fiquei olhando a direção que o vento batia e levava as folhas secas, nevoas empoeirada seguiam um caminho desconhecido. Meus pensamentos corriam para o pesadelo que tive, da noite gélida que fazia naquele local nem um pouco conhecido, me parecia tudo tão real e tão familiar era como se aquele lugar fizesse parte do que eu sou.

Um barulho de grasno de um corvo tira dos meus devaneios, o observo voando até uma arvore para perto de mim, me assusto com seus gestos, ele me olha nos olhos como se me estudasse ou como se me conhecesse, não conseguia desprender o olhar daquela criatura, era estranho e incrível ao mesmo tempo.

Não sentia medo, a única coisa que senti foi meu coração batendo forte enquanto o olhava.

— O que está fazendo aqui sozinha? — O susto foi tão grande que um grito alto sai da minha garganta e a única coisa que vejo é o corvo voar para longe sumindo de minha vista, Theodor tinha a sobrancelha erguida estranhando minha atitude, eu só queria entender porque essa mania dele me assustar a todo o momento.

— Eu juro Theodor que se você fazer isso de novo eu contrato um assassino pra te matar. – O ameaço sentido meu coração bater rápido, não sabia se era pelo susto ou por aquela criatura que me olhava.

— Calma gata eu só fiquei preocupado com seu sumiço... – Se justifica sentando ao meu lado no tronco velho.

— Foi só um horário, você sabe que eu odeio educação física. – Tiro meus fones do ouvido pausando a musica que escutava, Theodor me olha desconfiado então ele solta uma gargalhada.

— Ta maluca Samy? As aulas já acabou há tempos. – Arregalo meus olhos olhando as horas no visor do meu celular. – Não acredito que você ficou aqui o dia todo. – Na verdade eu nem percebi que tinha se passado horas, aquilo era irreal pra mim eu jurava que tinha ficado ali minutos.

— E o que você está faz aqui? – Mudo de assunto para que ele não confirme que eu esteja louca mesmo.

— Fiquei preocupado já disse... E também vim te atualizar sobre a sua festa... – Theo se anima rapidamente, me levanto do banco caminhando para fora do colégio querendo fugir do assunto. – Hey Samy vai ser legal você só precisa cooperar com a gente e ir. – Ele caminha ao meu lado insistentemente.

— Eu já disse que não quero participar disso... – Já estava agradecendo a prevenção divina por ter chegado à saída da escola, desta vez Maria não tinha encrencado comigo, ela sempre via um motivo para me lançar olhares de repreensão e xingamentos.

–Samy você vai sair com a gente?- Theo insiste perguntando novamente querendo minha atenção

–Não! — Digo seca. — Já te disse que não gosto de ir nesses lugares e que me sinto sufocada.

Ele não insistiu mais, continuei a caminhar e minutos depois percebi que eu estava sozinha, sem nem olhar pra trás para confirmar se ele realmente tinha ido embora andei rapidamente até chegar na minha casa.

Moro em um dos bairros mais pobres de nova York, uma das coisas boas em se morar em Bronx pra mim era ver a diferença de raças que havia nas interligações dos bairros, eram muitos americano-africanos, hispânicos, mexicanos, porto-riquenhos e dominicanos e eu gostava de ver aquela mistura a cada esquina que me virava.

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Cheguei em casa indo direto para meu quarto tomar um banho demorado e pensar nas coisas que aconteceu naquela manhã. Coloquei uma blusa cinza com manga e uma calça jeans, aproximei-me da minha janela olhando o movimento, meu inconsciente pedia para ver aquele corvo novamente, mas tudo lá fora era só frio e nevoa.

O dia estava escuro e a rua vazia odiava dias assim, afastando da minha janela abri a gaveta da minha cômoda pegando meu maço e acendendo um cigarro, era uma boa forma de me aliviar e tirar aquela tensão que meu corpo estava.

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Sai do meu quarto e me dirigi à cozinha, Helena e John estavam sentados a mesa almoçando, sem dizer nada eu me aproximei dos armários e peguei um prato colocando minha comida logo em seguida. Era comida enlatada e requentada, já havia me acostumado com aquela vida rotineira de enlatados e muitas vezes estragados.

Quando me sento à mesa os olhares dos meus pais vêem para mim curiosos, dou um sorriso amarelo não chegando aos olhos e mastigo aquela coisa em silencio.

— Jonh disse que você voltou com os cigarros. – Helena me olha esperando uma resposta sabia que aquilo não era uma pergunta e foi por isso que só dei de ombros. – Não quero você se metendo em confusões está me ouvindo Samira? – Helena impõe balançando o garfo na minha direção

Segundo o governo e meus documentos diziam que aquelas pessoas sentadas na minha frente era meus pais, mas pra mim se tratava de dois estranhos.

Desde criança nunca me apeguei neles e nem nunca fui carente ao ponto de querer o carinho amoroso deles.

— Pode ficar tranqüila que o governo vai continuar te pagando em dia – Jogo minha ironia em cima deles.

— Você é muito abusada garota se soubesse que se transformaria nisso nem te pegaria pra criar – Helena na sua forma arrogante e megera joga suas ferpas em mim, nunca suas palavras me feriram e sempre ria debochadamente do seu sarcasmo barato.

— E ficar sem grana pra sustentar esse aí? – Lanço o grafo na direção de Jonh que se encolhe de medo. — Me desculpe Helena, mas essa não cola.

A única coisa que sabia sobre mim era que fui abandonada num abrigo barato nos Estados Unidos, era uma criança feia e estranha que gostava de ficar sozinha, ninguém gostava de mim e a única que me lembro de gostar se tornou minha melhor amiga.

Quando completei seis anos conheci Nimel e desde pequenas tínhamos a mesma personalidade, com a diferença de que ela era mais atenciosa e carinhosa com as pessoas, Nimel não demorou a ser adotada me deixando sozinha naquela espelunca. Ficar sem minha amiga era a única coisa ruim pra mim naquela época em que eu fui obrigada a me adaptar.

Quando completei sete anos conheci Helena e Jonh, dissimulados e falsos na minha frente dizendo me amar a primeira vista, como eu era um negocio pra eles e para governo saí do orfanato indo morar em Bronx.

Foi simples e satisfatória a solução que o governo americano arrumou pra mim que já vivia a sete anos num internato. O nome se pronuncia como Foster home que significa lar sustentado, o governo propõe uma bolsa auxilio mensal para as famílias para acolherem uma criança que vive nos abrigos, e foi o que me aconteceu como uma bagagem me enviaram para um outro orfanato, mas que tinha o nome de lar e é a casa onde moro hoje.

Os olhos de Helena me fulminam, sabendo que ela não poderia fazer nada comigo apenas sorrio dissimulada pra ela.

Após terminar minha refeição, se é que se podia chamar aquilo de comida, subo para meu quarto pra tentar ocupar meu tempo.

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A noite se fazia presente no quarto, tudo estava escuro, suspirei aliviada por ter me livrado dos meus amigos no dia do meu aniversario, eu não queria e buscava entender a necessidade de comemorar algo com alguém tão chata como eu, estava deitada na cama ouvindo musicas deixei meus olhos se fechar caindo na inconsciência, mas meu celular vibra com a chegada de uma mensagem, era Nimel.

Olho para o conteúdo da mensagem espantando meu sono:

“Porque você foi sumiu o dia todo? Eu e Theodor ficamos procurando por você em todos os cantos da escola!”

Ignoro a mensagem e retorno para minhas musicas, mas meu telefone vibra mais uma vez com outra mensagem.

“Porque você nunca me responde hein? Você é uma péssima amiga!”

Sorrio para o exagero de Nimel e clico em responder a mensagem, mas um barulho e cochichos no andar de baixo chama minha atenção. Levanto-me da cama tateando a parede em busca do interruptor para iluminar meu quarto, na ponta dos pés saio do quarto andando pelo corredor, sabia que John e Helena não estavam em casa e aquele barulho só poderia ser algum ladrão.

O corredor estava escuro continuei andando na ponta dos pés mesmo no escuro não poderia me arriscar se realmente houver alguém invadindo minha casa, desço as escadas em direção a sala e não ouço nada procuro em todo o cômodo e não encontro ninguém.

Antes que eu pudesse me defender uma mão tampa a minha boca me segurando com força, tento me soltar desesperadamente me contorcendo bruscamente nos braços de quem quer que seja fazendo-me ele me soltar, por impulso soco o ar e sinto minha mão em algo duro e em seguida escuto um “AI” alto, acendem a luz e vejo o semblante assustado de Nimel olhando para a cena, olho para trás e vejo Theo se contorcendo de dor segurando o rosto tentando segurar em algo pela casa, volto meu olhar para Nimel que também me olhava e juntas gargalhamos inesperadamente.

— Mas que merda é essa que vocês estão fazendo – Assim que recupero meu ar pergunto.

— Era uma xurpreja... Mas Voxe que quaje me matou xua louca... – Theo tentava falar com a mão na boca, o nariz dele sangrava. Nimel foi à cozinha e pegou alguns gelos embrulhando-os no pano e dando a ele.

— Eu te avisei que um dia te mataria, hoje quase cumpri minha promessa. – Gargalhei me sentando ao seu lado — Mas porque vocês me assustaram entrando na minha casa desse jeito?

–Nós queríamos te levar a festa e a única idéia que tivemos era te levando a força- Nimel olhou para Theo com raiva, tentei segurar o riso miseravelmente.

— E nox já dexistimos de levar voxe... – Theo choramingava segurando o gelo no nariz, não sabia como eu consegui dar um golpe e machucar a boca dele também.

— Quem mandou vocês trapacearem pra cima de mim... – Gargalho olhando para a cara de cão abandonado de Theo.

Nimel se aproxima de mim com aquela expressão que eu tanto conhecia e que me fazia mudar de idéia de muitas coisas que era contra.

— Por favor, Samy... Pelos nossos anos de amizade... Vamos com a gente você vai se divertir muito? – Reviro os olhos e me levanto a contragosto.

—Bem... Já que tiveram esse esforço todo e eu consegui socar o Theo eu vou com vocês nessa festa.

Tampei meus ouvidos para a falação e animação deles e corri para o meu quarto pra me arrumar. Pelo menos essa festa é uma boa desculpa para parar de ficar pensando na minha vida anormal.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.