Entre cruzes e espadas
1 Prologo
Notas iniciais
Prologo
Astaroth podia sentir o forro de veludo vermelho cedendo sob o peso de seu corpo, como descrito pelo dono, ligeiramente avantajado. O homem, alto, possuía músculos desenvolvidos envoltos por uma grossa camada de gordura. Apesar da barriga protuberante e dos membros flácidos, o rei se via como uma figura elegante e digna de respeito. A verdade, no entanto, era um pouco mais triste. O povo de Hedgesburg respeitava o rei Astaroth por medo genuíno. Não que esse fato lhe fugisse a percepção, ele apenas não se incomodava com o governo a base do medo.
Seus olhos azuis, agora fechados, forneciam-lhe uma visão imaginaria, mas maravilhosamente detalhada, das coisas que almejava ter por suas: a verdejante Aeliar, com seus campos abertos e suas terras férteis, que prometiam lucro; as florestas fechadas e os exercito forte, que logo estaria sob seu comando, nas terras de Avaloth; os magos especializados de Myrdiath e o poder sobre um continente inteiro, possível apenas com a conquista desse malfadado pedaço de terra. “Tudo isso”, ele sabia, “em breve será meu.”.
Passou-se um mês inteiro desde que recebera noticias sobre a conclusão da missão entregue a seus infiltrados. Logo, as novidades se espalhariam e as providencias, altamente prejudiciais para os planos de Astaroth, seriam tomadas. Ele já havia desperdiçado muito tempo planejando e esperando que suas ordens fossem cumpridas. Não havia tempo a perder, a segunda parte de seu plano deveria ser executada o mais rápido possível e por isso, mandara o capitão de sua guarda nessa critica missão.
— Crowley, venha ate aqui!
Por estar de olhos fechados, supôs que seu secretario estivesse na antessala e teve que se esforçar um pouco para que sua voz atravessasse o cômodo cuidadosamente decorado e chegasse ate ele, através da pesada porta de carvalho ornamentada que separava as duas áreas. O homem no trono ouviu os passos firmes e rápidos de Crowley.
— Meu rei – fez-se uma pequena pausa – O senhor me chamou?
Apesar do fato de que Crowley estava com o rei Astaroth a mais tempo do que ele conseguia se lembrar, o homem magro e bem-apessoado o tratava com o maior respeito possível. E, para espanto de muitos, o secretario não nutria medo nem temor pelo rei austero. Enquanto soltava um suspiro cansado, o rei abriu seus olhos de um azul profundo e encarou pesadamente seu assistente.
— Sim, chamei. Você ouviu minha voz clamar o seu nome, não foi? Um fato óbvio é este: eu o chamei.
— é, sim meu rei... Desculpe-me. Eu não... – A paciência de Astaroth estava curta naquele dia, prova disso foi a interrupção brusca na justificativa de Crowley.
- Sim, eu sei. Esqueça isso – um resmungo acompanhado de um revirar de olhos cruzou o semblante de Astaroth, que logo se recompôs. – Me diga: há quanto tempo o sargento Bennet saiu daqui?
Com o cenho franzido, o assistente real olhou pela porta de vidro que servia tanto para iluminar os aposentos do rei, quanto para abrir fornecer uma espécie de palco para os discursos do rei ao seu povo. Pela enorme abertura, se via um campo de mato cuidadosamente cortado e pisoteado. Mais além, se viam as construções da cidade, mas não era a paisagem que Crowley queria ver. Ele observou a posição em que o sol se encontrava no céu resplandecente e calculou o tempo transcorrido desde a visita do sargento.
- Duas horas ou mais, majestade. – Sua voz era mansa e aveludada, se opondo a voz grossa e imponente de seu superior. – Quer que eu mande chama-lo novamente?
Ouviu-se um murmúrio, que parecia ser de negação, seguido de algo como “ele já deveria estar aqui, porque tanta demora?”. Crowley sabia quem era o “ele” citado pelo rei. “ele” se referia ao capitão da guarda, capitão Morris, que havia sido mandado algum tipo de missão urgente e importante pelo rei. Mas o conhecimento desta missão estava bem além de seu alcance. O capitão saíra do castelo havia umas duas semanas, junto com dois sargentos. Naquele dia, o sargento Barret apareceu no castelo dizendo que necessitava de falar com o rei. Crowley havia deixado a porta de carvalho entreaberta na esperança de que, assim, ouvisse a conversa dos dois e descobrisse, afinal, o papel que o rei concedera ao capitão. Foi decepcionante para o assistente curioso perceber que a mensagem que o sargento trazia dizia apenas:
“Majestade, a ordem que o senhor nos deu se cumpriu. O capitão Morris e o sargento Lenny estão a pouco mais de noventa minutos de viagem.”
Astaroth estava perdido em seus pensamentos longínquos, murmurando e encarando a parede na extremidade oposta da sala, seus olhos agitados correndo de um ponto a outro como se estivesse observando fatos diferentes e juntando-os em sua mente. De vez em quando, seus olhos passavam pela figura magra, mas de boa postura prostrada a sua frente esperando ser liberado, porém passava direto como se ele não estivesse ali. De repente, ele encarou Crowley e franziu o cenho:
- Oh, desculpe, amigo. Achei que você já havia se retirado, não o vi parado ai. Volte a suas funções, Crowley – foi impossível conter o suspiro que escapou por entre os lábios do homem moreno em pé na frente do rei.
- Obrigado, meu rei. Com sua licença.
Ele girou graciosamente em seus calcanhares e saiu da sala, deixando o rei e seus pensamentos atarantados. Ao cruzar o batente da enorme porta de madeira, se deparou com um sujeito corpulento e musculoso com o rosto cuidadosamente barbeado e os olhos de um homem acostumado a liderar. Ele tinha o rosto sujo de poeira, com se chegasse de uma longa viagem e sua pele morena reluzia com o suor provocado pelo sol. “Ah, ótimo”, pensou Crowley com ironia, “justo agora que eu ia descansar minhas pernas cansadas”.
- Capitão Morris, como foi a viagem? – perguntou, na esperança de conseguir alguma informação e sendo, mais uma vez, desapontado.
- Tudo correu bem, os detalhes de minha expedição devem ser reportados ao rei.
- Sua majestade esta a sua espera, capitão. Pode ir.
- Imaginei que ele estivesse me esperando, visto que me excedi no tempo de viagem. Obrigado, velho amigo, é melhor eu falar com o rei primeiro. – Morris era tão antigo no castelo de Brimli como o próprio Crowley.
O secretário real usou a mesma ideia da porta entreaberta pensando “vou usar esse truque mais uma vez apenas, afinal, dizem que uma mesma tática não deve ser usada três vezes”. Desta vez, as coisas que ouviu, fizeram seus olhos se arregalarem e seu coração bater mais rápido. Desejou baixinho que não tivesse escutado nada daquilo, mas agora era tarde.
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