Entre cruzes e espadas
3 Fuga?!
Notas iniciais
Siegfried foi o primeiro a se recuperar do espanto. Will continuou sentado com as sobrancelhas juntas e os olhos arregalados, enquanto Arquimedes sentava sobre as pernas e encarava a parede com cara de bobo. Segundos se passaram para que o rosto de Sieg adquirisse uma expressão rude e dura, os lábios formando uma linha fina e dura.
– Quem é você?
– Um ancião disposto a ajudar a vocês três. Se não quiserem, apenas digam e eu vou embora — o velho disse enquanto abria outro buraco mais em cima para que pudesse ver os garotos.
Arquimedes, o mais ingênuo dos três, abriu um sorriso esperançoso. Will semicerrou os olhos pensando se poderiam ou não confiar no velhinho. Siegfried, que sempre fora o mais desconfiado dos três, estalou a língua e soltou:
– Porque deveríamos confiar em você?
– Bom, já que vocês não querem minha ajuda, eu vou embora- e o rosto do velho sumiu. Os garotos nem imaginavam, mas o que aconteceu foi que o homenzinho, muito espertamente, se abaixou um pouco para fazer parecer que tinha ido embora.
– Sieg, chame ele de volta! – Will disparou na mesma hora e soltou um suspiro quando viu o rosto enrugado voltar com um sorriso no rosto. O velhinho explicou que se chamava Yamidir, que era um mago poderoso e leal apenas à oposição contra o rei Astaroth. Disse que estava disposto a ajudá-los a fugir e, se o tempo os ajudasse, a ensinar algumas coisas ao jovem mago do grupo. Ouvindo isso, o rosto de Arquimedes se iluminou de felicidade e ele perguntou a Yamidir o que seria preciso fazer para fugir.
–Os guardas desse lugar fazem uma ronda a cada meia hora, a próxima vai ser daqui a cinco minutos, o que quer dizer que… — ele ergueu as sobrancelhas como se quisesse que alguém terminasse a frase por ele e esse foi Will:
– Você não tem muito tempo, certo?!
– Certo. Muito bem, agora prestem atenção. Principe Arquimedes, me ajude a colocar os tijolos no lugar. Ótimo, obrigado. – Mais uma vez, só se via sua boca. – Eu vou me esconder e esperar a próxima ronda passar. Quando o sentinela for embora, eu volto aqui e vocês me ajudarão a abrir um buraco suficientemente grande na parede. Entenderam?
– Entedi, mas deixe-me fazer uma pergunta: Como você conseguiu soltar os tijolos? Nós tentamos isso mas a parede era absurdamente sólida…
Mais um sorriso do velho. Ele não disse nada e desapareceu, deixando os príncipes com uma dúvida horrenda. Os meninos se olharam e nenhum deles precisou falar, mas a pergunta que rondava a cabeça deles foi compreendida: o que será que vai acontecer agora?
Enquanto esperavam o velhote aparecer de novo, discutiram o ocorrido, tentaram sem sucesso repetir o feito do buraco na parede, Arquimedes continuou lançando feitiços na perna de Will e Siegfried se posicionou em frente a parede quando cansou de andar.
O que aconteceu não era esperado por ninguém; nem pelo velho Yamidir, nem pelos nossos jovens. A sentinela veio e foi embora; Yamidir esperou um tempo e se aproximou da parede externa da cela. Ele tocou um tijolo com o dedo indicador direito e o correu pelo contorno do tijolo e repetiu isso duas vezes, enquanto sussurrava um feitiço simples. O velho, então, empurrou o tijolo para dentro e sorriu ao não sentir resistência. Enquanto falava com os garotos, repetia o feitiço em outros tijolos. O homem idoso ensinou Arquimedes a fazer isso, mas o menino mal teve tempo de soltar dois míseros tijolos; dois guardas apareceram na frente da cela e correram a fim de avisar o sentinela da noite.
Yamidir e Arquimedes se poram a trabalhar mais rápido enquanto Siegfried ajudava Will a se levantar e batia o pé no chão nervosamente enquanto murmurava "vai... mais rápido com isso..."; mas bastou eles terminarem o serviço para que aparecessem 5 guardas correndo. Yamidir estava cansado pelo uso de tanta energia mas abriu a mão perto da boca, murmurou algumas palavras e soprou a palma de sua mão. Logo, uma bola de energia verde surgiu e explodiu no peito de um dos guardas; Siegfried deixou Will perto da parede e roubou a espada do soldado caído, se virando para o próximo guarda. Arquimedes recitou alguns feitiços, mas os seus não eram tão eficientes quanto os de Yamidir, que, mesmo cansado, conseguiu derrubar outro guarda.
Siegfried estava cercado por três soldados quando as energias de Yamidir se foram e ele desmaiou; o garoto era menor e mais jovem do que os soldados mas estava em boa forma e lutava furiosamente, bloqueando e estocando onde dava. Frequentemente, sentia as espadas afiadas em sua pele mas ignorava a dor e continuava lutando.
Will estava sentado no chão observando aquilo tudo. Sentiu um aperto no peito quando viu Yamidir desabar em cima de Arquimedes e soube que tinha que fazer alguma coisa. Não tinha mais seu arco precioso nem suas flechas, o porco Astaroth o havia tomado, mas ainda possuía uma mira magnífica. Olhou o chão ao seu redor e encontrou algumas pedras graúdas. Sua posição não era das melhores mas o vento estava a seu favor e os guardas não estavam usando elmos. Sua visão treinada captou uma têmpora desprotegida; ele pegou uma pedra, mirou e atirou. A pedra jogada por Will errou seu trajeto e acabou batendo no ombro de Siegfried, mas ele percebeu o que o amigo estava fazendo e começou a bloquear recuando. Enquanto recuava, os soldados se sentiam obrigados a irem atrás dele, para perto de Will. Logo, um dos soldados foi atingido por duas pedras em sequência e desabou no chão; sabendo que ele só estava desmaiado, o jovem guerreiro enfiou a espada na barriga do soldado caído e correu para junto do arqueiro. Apanhou duas pedras com a mão livre e as lançou, uma em cada uma das sentinelas restantes; a primeira pegou no pescoço do soldado e a segundo atingiu o esterno. O primeiro pôs a mão no pescoço e sentiu um pouco de sangue nos dedos, enquanto o segundo cerrou o punho no peito e tossiu desesperadamente. Siegfried disparou com a espada apontada para o peito do segundo guarda e girou, atingindo quase que por acidente, o pescoço do primeiro.
Cansado e machucado, O guerreiro se sentou no chão. Assim que normalizou sua respiração, ele se levantou apressado e levantou o mago desmaiado até seus ombros cansados, dizendo:
– Arquimedes, ajude Will a se levantar e vamos sair daqui antes que mais guardas decidam aparecer.
– Espere, Sieg, você está todo machucado. Tem certeza que consegue carregar Yamidir?
Siegfried apenas suspirou e continuou andando a passos duros, ignorando os resmungos de Will e a preocupação de Arquimedes, parando apenas quando estavam numa clareira na floresta.
– Acho que estamos longe o suficiente do castelo. Agora você pode descansar, Yamidir — ele havia acordado no meio do caminho mas ainda estava fraco e continuou sendo carregado pelo jovem — e Arquimedes, você pode curar meus machucados agora.
Essas foram as últimas palavras do garoto, antes de ele desabar de exaustão.
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