Entre a Luz e a Escuridão

2 Capítulo 2 - Conhecidos


Notas iniciais
Personagens do capítulo:

Mary - A protagonista. Estudante de veterinária, apaixonada por animais, porém, trabalha como gerente de uma empresa para poder se sustentar enquanto não se forma. É ela quem narra toda a história, porém ela não se descreve tão cedo.

Nala, Kiara e Lady - suas três cachorras adotadas da rua.

Milly e Alex - seus dois gatos também adotados da rua.

Maggie e Kim - suas duas amigas da faculdade que vão passar um final de semana com Mary.

Luke - o lobo, guardião de Mary.

Fazia tanto tempo desde a ultima vez em que Maggie e Kim não vinham passar um final de semana juntas na minha casa... e este final de semana Kim prometeu que viria. E então as três iriam para baladas, e nos divertiríamos a noite, todas as noites. Mas claro, meus planos nunca dão certo.

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– Mary, a Kim disse que viria, não disse? — Maggie me perguntou, ainda jogada no meu sofá.

– Sim. Foi o que ela disse, mas você sabe, a Kim é Kim, a gente não pode levar a risca tudo o que ela fala.

– Mas então, que horas ela vai vir?

– Ela me ligou avisando que virá depois das sete horas da noite. Ela teve um imprevisto com os pais dela, mas não me disse mais do que isso.

– Ótimo! — Maggie respondeu. — Então o quarto maior de hóspedes é meu!

Maggie saiu correndo com suas malas e eu fui atrás, rindo. Minha casa tinha três quartos. Como eu vivia ali sozinha, dois deles eram quartos de hóspedes, porém, um era maior um pouco que o outro, e sempre que Maggie e Kim vinham para cá, elas brigavam pra ver quem iria ficar no quarto maior.

Entramos no quarto parecendo um furacão, e minhas três cachorras aproveitaram para brincar de pega-pega conosco. Maggie pulou pra cima da cama, eu pulei para cima de uma cadeira, então nos olhamos por alguns instantes e começamos a rir. Nossa! Fazia tanto tempo que eu não ria deste jeito! Logo, tudo foi se acalmando e eu me sentei direito na cadeira. Maggie apoiou as costas na parede e Nala, Kiara e Lady saíram correndo do quarto. Elas ainda estavam brincando de pega-pega.

– Então, aonde vamos hoje a noite? — Maggie me perguntou. É claro que eu sabia. Eu programara cada hora deste final de semana para que nada desse errado. E eu estava redondamente enganada, de novo.

– Tem um barzinho aqui perto. É legal. Ás vezes, quando eu estou sem sono e não tenho nada pra fazer, eu fico lá, tomando alguma coisa e olhando o movimento. Nos poderíamos ir para lá.

– E quanto tempo faz que você não vai lá? — Maggie riu, e eu a acompanhei.

– Faz um bom tempo.

– E depois? Vamos para onde? Ou vamos ficar lá a noite toda?

– Não sei. Vocês decidem.

– Claro. Eu sempre decido não é?

– Ha! Maggie, você não quer pôr seu carro na garagem? Esqueci de te avisar!

– Ah não, agora não. Depois eu coloco. Não se preocupe. Falando em carro... Você está bem agora?

– Não quero falar sobre isso Maggie. Eu estou bem. Por favor. — esse era um assunto delicado para mim. E ela sabia. Ela me ajudara quando eu passei por toda aquela crise, e eu era grata a ela por ainda se preocupar comigo, mas não queria falar sobre isso. Não queria lembrar.

– Tudo bem. Se você acha melhor assim... só queria saber se estava bem.

– Sim, estou. — respondi, rispidamente. — O que acha de mudar de assunto?

– Tudo bem. Ha! Tenho uma novidade para te contar!

– Sério? Que novidade?

– Lembra aquele cara de direito que veio falar comigo esses dias?

– Lembro sim! É James o nome dele não é?

– É sim. Então, agora posso chamá-lo de Jay. — Maggie riu.

– Jay? — fiz cara de espanto — Maggie, Maggie, o que você andou aprontando essa semana? — eu ri e Maggie me acompanhou.

– Nada! Por que eu faria alguma coisa? É que Jay me ligou, quarta-feira, e me convidou para ir tomar um chopp com ele à noite.

– E você foi?

– Claro! Um chopp assim, no meio da semana, com um cara como ele, e de graça ainda! Por que não aceitaria? — Maggie e eu rimos.

– Ai ai, você não tem jeito mesmo.

– Credo Mary, parece minha mãe falando!

Continuamos a rir por algum tempo, até que a campainha tocou. Olhei no relógio de cabeceira e vi que era quase sete e meia da noite. Deveria ser a Kim então. Lady e Kiara estavam latindo no portão e Nala veio até o quarto e começou a latir. Ela estava me chamando. Levantei da cama e rumei para a cozinha, depois até a porta de entrada.

– Calma garota, já estou indo! — respondi à Nala, para fazê-la parar de latir. Funcionou? Claro que não.

Assim que abri a porta de entrada, vi uma garota de cabelos negros parada no portão. Era incrível como ela tinha a pele branca e cabelos tão pretos. Quando eu a conheci, eu brincava e a chamava de Branca de Neve.

– Kim! Você veio! — Maggie, que estava atrás de mim, gritou e saiu correndo até o portão. Eu ri e a segui.

– Com uma hora de atraso mas veio. Até que enfim! — eu disse, assim que alcancei as duas no portão. Então eu o abri e Kim entrou. Ela não tinha nem metade das malas de Maggie.

– Claro que vim! E por acaso a atração principal da noite poderia faltar? — Kim riu, e Maggie lhe deu um tapa no ombro.

– Ei! — Kim protestou, e retribuiu com um tapa no pescoço de Maggie. — Aposto que você pegou o quarto maior!

– Claro que sim! Ninguém mandou chegar mais tarde!

Alcançamos a porta de entrada e as duas foram para a sala. Eu as segui, rindo. Elas pareciam duas crianças. Então me deparei com uma em cada sofá, de modo que sobrara apenas a poltrona para mim. Me sentei e observei-as, de forma brincalhona.

– O que foi? Esta esperando o que? Vai fazer o jantar! Estou com fome! — Kim disse para mim.

– Não sou sua empregada. Como pagamento por sua estadia em minha casa, você deveria fazer o jantar. — respondi, sorrindo.

– Claro. Sendo assim, vão morrer de fome.

Eu sorri e lhe mostrei a língua. Então fui para a cozinha e peguei minha carteira em cima da mesa.

– Vou até a padaria aqui perto, procurar alguma coisa para a gente jantar. Já volto.

Peguei a chave, que ficava pendurada perto da porta.

– E não destruam minha casa sem mim!

– Pode deixar! — Kim e Maggie responderam em uníssono.

Fui andando tranquilamente até o portão. Eu abri e sai, depois só fechei, mas não tranquei. Eu voltaria logo mesmo. Fui andando pela calçada e percebi que todo mundo me olhava estranho. Só então notei que eu estava sorrindo sozinha. Tentei me controlar e olhei para o lado. Eu estava passando em frente ao Park Sunshine. Era estranho chamá-lo de parque luz do sol, pois as árvores altas e fechadas sempre faziam dele um parque escuro. Ainda mais a noite. Talvez esse nome fosse uma ironia. Então, de repente, notei que um par de olhos cor de mel me observavam no meio das árvores. Eu deveria sair correndo, mas fiquei estagnada, congelada ali mesmo. E quanto mais eu olhava, mais eu queria entrar e ver quem era.

E assim como surgiu,

O sol desapareceu

Dando lugar á lua cheia

Que no céu prevaleceu.


Fiquei ali só observando


Parada e sem reação,

Enquanto a floresta mudava,

Perecendo na escuridão.


Por entre as árvores negras,


Algo chamou minha atenção

Um penetrante par de olhos

Percebeu minha aproximação.


Enquanto eu decidia se entrava naquela floresta ou não, minha cabeça girou, e no que me pareceu segundos, havia pensado nessas rimas. Imaginei que, assim que chegasse em casa eu tinha que anota-las e guardar em um lugar bem seguro, afinal, talvez eu nunca tivesse outro momento criativo tão bem sucedido como este.


A bela lua dourada se impunha cada vez mais alto e eu ainda observava aqueles pares de olhos cor de mel. Eu estava desesperada para segui-los mata a dentro e ver de quem eles pertenciam, porém não o fiz. Não imediatamente. Eu estava sofrendo um impasse. Parte de mim sabia que isso era errado e arriscado, eu deveria dar meia volta e pegar o caminho de volta pra casa, mas meu outro lado, o mais curioso, implorou por uma aventura.

Como sempre, deixei o bom senso de lado e avancei em direção ao parque escuro. O par de olhos vacilou e recuou um pouco. Eu sabia que não era um par de olhos humanos, o que fez minha curiosidade se atiçar ainda mais.

– Ei, espere! Não vou te machucar!

Os olhos pararam de se mexer, e ouvi um ruido aconchegante. Tomei isso como um convite e fui me aproximando devagar. Logo eu enxergava uma silhueta animal, como a de um cachorro, mas ainda estava bem escuro para que eu a distinguisse.

Algo passou à minha frente quebrando alguns galhos, o que me fez pular. Os vibrantes olhos cor de mel ainda me fitavam, porém, notando minha distração, a silhueta se moveu.

Um feixe de luz penetrava na floresta por entre os altos pinheiros, e, saindo de dentro da escuridão, a silhueta caminhou silenciosamente até a claridade enquanto eu observava, ainda curiosa. Então comecei a distinguir: uma pata peluda e grande apareceu primeiro, cuidadosa. O resto do corpo veio logo em seguida. Congelei. Eu estava parada observando um lobo cinzento. E ele era bem grande por sinal. Pensei que aquele era meu fim. O lobo pularia em cima de mim e eu seria seu jantar, mas o lobo não se moveu. Voltei a encarar aqueles olhos cor de mel, que me acompanhavam, curiosos.

Inconscientemente, percorri o olhar por todo o corpo do animal. Ele tinha um focinho comprido e orelhas pontudas, como um lobo normal. Sua cor predominante era cinza escuro, apesar das patas brancas que se confundiam com a neve. Observei-o mais atentamente. Ele tinha pintas por todo o corpo, como se uma fuligem da cor de seus olhos descansasse sobre seu pelo.

Eu praticamente crescera ouvindo meu pai, na cozinha enquanto minha mãe servia biscoitos, conversando com seus amigos e contando histórias mirabolantes sobre os grandes predadores que seu avô, o grande caçador Bill, encontrara em suas caçadas, mas mesmo assim nunca imaginei que encontraria um animal desse tipo tão perto de ultrapassar os limites da floresta, ainda mais sabendo que estas histórias eram mentiras de caçador.

O lobo era um tanto quanto impaciente. Dava para perceber isso pelo modo como de movia freneticamente. Ele olhou para mim de uma forma diferente, assim que mudou de posição de novo. Ele me olhava como se esperasse alguma coisa de mim, e eu ainda esperava que me devorasse.

Eu o encarei, nervosa, e me prendi novamente em seus olhos. Agora eu sabia porque eles tinham chamado minha atenção e me atraído: eu os conhecia! Minha mente foi a mil. Todos os rostos das pessoas que eu conhecia passaram pela minha cabeça, mas não pareciam em nada com os olhos do lobo. Quanto mais eu me forçava a lembrar, mais confusa eu ficava. Era como se eu os conhecesse de muito, muito tempo atrás, porém, só me lembrava dos olhos. Parecia que eu estava tendo um déja vu, mas só que esta sensação não sumia.

O lobo se sentou à minha frente e isso fez com que eu acordasse de meus devaneios. Sentado e agindo desta forma, ele me lembrou um cachorrinho. Ele havia abandonado sua posição mais cautelosa e me observava como se esperasse que eu lhe atirasse uma bolinha. Fui me aproximando bem devagar. Não conseguia suportar, eu tinha que tocá-lo. Estiquei minha mão, cautelosa, e ele não fez nenhuma objeção. Assim que o alcancei, o lobo esticou o focinho em direção ao céu e abaixou as orelhas. Presumi que ele havia gostado, então continuei acariciando o animal, cabeça, costas, pescoço, pata… Seu pelo era muito macio mas muito denso também. Imaginei que para sobreviver em seu habitat natural, ele precisaria mesmo de um pelo assim pra se manter aquecido na neve. Ei, então algo me ocorreu. Se ele era um lobo, seu habitat natural era lugares frios, então, o que ele fazia aqui? Mais uma pergunta que só seria respondida mais tarde.

De repente o lobo se levantou e começou a andar em direção à floresta. Eu fiquei onde estava e não movi nenhum músculo. Durante poucos segundos, eu pensei com sensatez. Me lembrei de que aquele lobo era um animal selvagem e que, caso eu fizesse algum movimento brusco, ele poderia me atacar. Ele voltou a me olhar, e eu o encarei, encorajando e esperando que se embrenhasse floresta adentro, me deixando livre pra voltar pra casa. O lobo parou de andar, como se esperasse por alguma coisa. Com um sobressalto, eu percebi que o entendera: ele esperava por mim!

O meu lado sensato gritava para mim que aquilo era perigoso, e provavelmente eu tinha entendido mal a ação do lobo. Mas meu lado aventureiro gritou mais alto e eu comecei a seguir o animal. Queria ver onde isso ia acabar.