Entre a Luz e a Escuridão
3 Capítulo 3 - Insanidades
Notas iniciais
Mary - A protagonista. Estudante de veterinária, apaixonada por animais, porém, trabalha como gerente de uma empresa para poder se sustentar enquanto não se forma. É ela quem narra toda a história, porém ela não se descreve tão cedo.
Luke - o lobo, guardião de Mary.
Inna - A senhora que encontra Mary no parque e a leva para a Terra da Luz.
Fui seguindo o lobo floresta adentro, o que não era muito difícil graças às suas patas brancas que contrastavam na escuridão da floresta por onde passávamos.
Confesso que comecei a me arrepender. Eu nunca deveria ter seguido aquele animal e agora eu não via mais os limites da floresta. Tentei imaginar quantos metros já deveríamos ter avançado. Caminhamos pelo que me pareceu uma hora até que eu começasse a me preocupar de verdade. Notei que ziguezagueávamos pelo parque, que eu nunca percebera ser tão grande, de modo que agora eu não sabia mais o rumo de casa. Desejei que tivesse uma bussola comigo, mas pensando melhor, eu não saberia mesmo qual sentido seguir para voltar. Não me restava mais nenhuma outra opção a não ser continuar seguindo o lobo e retornar quando amanhecesse. Imaginei que, enquanto estivesse na companhia daquele animal, eu estaria segura dos outros, afinal, se ali tinha um lobo, podia muito bem ter um urso!
Baseando-me pela lua, julguei ser uma hora da manhã. Isso era muito tarde para uma garota que deveria ter ido até a padaria e voltado. Maggie e Kim deveriam estar desesperadas procurando por mim. A polícia já deveria estar mobilizada. E se eles me encontrassem? Ou se eu saísse daqui? Como explicaria que simplesmente segui um lobo parque a dentro? Resolvi deixar esse assunto pra lá, só me preocuparia em arrumar uma explicação quando isso estivesse bem próximo de sair dali, e, pelo modo como iam as coisas, isso ia demorar.
Chegamos a um lugar onde os grandes pinheiros começavam a diminuir o tamanho e abrir espaço. Passamos por eles e espiei. Estávamos na beira de um penhasco. Aproximei-me da borda para investigar. Era um penhasco muito íngreme, deveria ter uns vinte metros de altura, no mínimo, e para piorar, um rio agitado se encontrava lá em baixo, refletindo a bela lua cheia em suas águas. Era uma paisagem muito bonita, daquelas que você vê pintada nas telas de grandes artistas, mas por outro lado, também era muito assustadora. Lá de cima do penhasco era possível ver a copa dos pinheiros mais altos lá em baixo, e também se via a margem do rio e alguns animais que se aventuravam até ali durante a noite para matar a sede. Era uma visão deslumbrante, mesmo que estivesse um pouco distante. Observei mais atentamente o rio, que ricocheteava nas paredes de pedra do penhasco com uma força violenta e pensei: ”Pobre daquele que despencar daqui de cima”, e isso fez com que eu me afastasse da borda, afinal esse alguém podia ser eu se continuasse me arriscando a escorregar nas pedras úmidas e cheias de musgo da beirada do penhasco.
Olhei para trás e vi o lobo sentado perto dos pinheiros, observando-me com aquela expressão de cachorro esperando uma bolinha. Eu devia estar enlouquecendo, pois comecei a falar e reclamar com o animal que eu mal conhecia. Falar com minhas cachorras era uma coisa. Eu vivia com elas a muito tempo, nem me pareciam mais cachorras e sim amigas, mas este lobo?
– O que foi que está olhando? Assim que amanhecer você vai me levar para casa, já que me trouxe até aqui. E não quero saber de desculpas ouviu?
O lobo nem parecia se importar, apenas tombou a cabeça para um lado e soltou um gemido, como se não tivesse ouvido nada do que eu disse e agora estava tentando adivinhar o que eu queria dizer com aquilo. Ouvi um farfalhar de folhas atrás de nós e me virei para ver o o que ou quem estava ali. Tomei um susto e me desequilibrei quando quase colidi com uma mulher bem velha.
– Me desculpe ter te assustado, minha querida!
– Tudo bem. — respondi — Quem é a senhora?
– Acho que a pergunta mais adequada para o momento é: quem é você?
– Ah! Me desculpe, eu sou Mary.
– Hum. E o que faz aqui, Mary?
– É o que eu pretendo descobrir. Eu apenas segui este lobo até aqui. — e apontei para o animal que se encontrava sentado atrás de mim.
– Este lobo ao qual você se refere minha jovem, chama-se Luke, e ele é seu guardião.
– Ele é o que? — perguntei exasperada. Imaginei ter ouvido alguma coisa errada.
– Isso mesmo que você ouviu. Venha até aqui e sente-se, essa é uma longa história. — a senhora apontou para um tronco de árvore tombado perto dela. Minha vontade era de sair correndo pra dentro da floresta, mas, muito contra gosto, eu a obedeci.
– Então… Eu não sei por que nome devo chamá-la. — arrisquei, eu estava tentando descobrir o nome daquela senhora de uma forma mais sutil, já que perguntar “Quem é você” não parecia funcionar com ela.
– Você me parece uma jovem bem insistente. Tudo bem, já que quer saber, me chamo Inna.
Enquanto eu esperava a senhora chamada Inna, que caminhava até o tronco, comecei a analisá-la. Ela era morena, de cabelos pretos e lisos, na altura do pescoço. Não era uma mulher esbelta, mas também não podia ser chamada de gorda. Usava blusa laranja e uma saia estampada com flores brancas.
Inna alcançou o tronco e se sentou ao meu lado. Ela me analisou por um bom tempo e eu fitei o chão, um pouco desconfortável. Finalmente ela disse:
– Nunca imaginei que você retornaria desta forma.
– Como é? — Inna dizia coisas cada vez mais sem sentido para mim.
– Alta, cabelos claros, longos e ondulados… Você está bem diferente de como era, 150 anos atrás. Você tinha cabelos pretos e lisos, como os meus sabia? — Essa parte me interessou. Sempre fiquei curiosa para saber como eu seria ruiva ou morena.
– 150 anos? Diferente? O que… — Inna me interrompeu com uma carranca antes mesmo que eu ao menos pudesse começar meu discurso de indignação, coisa que, devo dizer, eu aprendi com minha mãe. Como aquela mulher podia me convidar para conversar com ela quando tudo que ela me dizia eram coisas malucas? Comecei a imaginar que ela estava doida, ou estava tendo um surto. Isso explicaria porque eu a encontrei naquele estado vagando sozinha pela floresta.O que meu pai me diria se descobrisse que eu aceitei a companhia de uma louca? E pior, em um lugar onde não havia movimento algum?
– Acalme-se, Mary. Eu vou explicar. Você acreditando ou não.
– Estou esperando, quando quiser. — respondi, já irritada.
– Você não pertence a este mundo. Você pertence à Terra da Luz.
– Terra da Luz? E onde fica? — Meu cérebro estava dando um nó depois de tentar encontrar algo sensato em tudo que Inna me dizia.
– Fica muito, muito longe daqui. É impossível encontrá-la se não for por passagens de matéria escondidas em todos os mundos que nós conhecemos.
– Ta, e onde eu me encaixo nessa história toda? — resolvi ignorar suas maluquices e deixar ela seguir em frente em sua narrativa sem sentido.
– Ainda não sei, mas acredito que você seja a Princesa da Terra da Luz. Você era morena, de cabelos escuros e lisos, como já disse. Por isso me assustei quando a encontrei neste mundo com essa aparência. Seus pais, o rei e a rainha, decidiram que você deveria liderar as tropas do exército do reino, já que você era a filha mais velha e não tivera nenhum irmão, só quatro irmãs. Os desejos do rei foram atendidos e você foi treinada para lutar com os melhores professores. Seu pai evitava lhe enviar, mas todas as batalhas que você liderava eram ganhas. Pouco tempo depois, um homem misterioso apareceu para tomar o reino de seus pais. O nome dele ninguém sabe até hoje, mas fora denominado de o Mestre da Morte, porque todos os lugares por onde ele passava as pessoas descobriam a morte, a tristeza, a perda e a dor. O Mestre da Morte era muito astucioso. Logo montou um plano para dominar o reino. Ele sequestrou seus pais e exigiu que as cinco princesas viessem ao seu encontro e se entregassem, para que seus pais fossem soltos. Você convenceu as suas irmãs e obedeceram o Mestre da Morte. Chagando lá, ele não cumpriu o trato e matou você, seus pais e suas irmãs. O exército ficou desorientado e logo pereceu nas mãos daquele home perverso. O povo virou escravo dele e é até hoje. Claro que o Mestre da Morte não está vivo, mas o poder do reino foi passado por hierarquia à seus descendentes, que são tão perversos e malignos como o verdadeiro Mestre da Morte e continuam no controle até hoje. Por isso esperamos que a Princesa renasça para que possa liderar o povo novamente e vencer mais uma batalha, corrigindo o erro que cometeu muitos anos atrás imaginando que as condições que lhe foram impostas eram sua unica escolha. Lembre-se disso Elizabeth: nunca se desespere, sempre há outra escolha, mesmo que esta seja difícil de se encontrar.
–Deixa eu ver se eu entendi. A senhora imagina que essa princesa sou eu. — Dessa vez não consegui segurar o sarcasmo.
– Exatamente, e Luke a encontrou!
– Luke? Como? — já que eu não podia ir contra, resolvi entrar no jogo e me fiz de curiosa.
– Assim que você se tornasse madura o suficiente para liderar um exército, Luke a encontraria. Pelo faro. Como disse, ele é o seu guardião. Designado por seu pai para cuidar de você. Na Terra da Luz, os animais e as plantas são capazes de nos entender e de raciocinar e diferente do seu mundo, um animal é capaz de viver 450 anos com plena saúde e o seu guardião possui apenas 189 anos, ele ainda tem muito o que viver! Isto explica agora porque Luke não lhe devorou quando a encontrou?
– Em parte. — a história estava ficando complicada de se entender. Eu sentia como se conhecesse essa história, mas era uma lembrança muito vaga, assim como a lembrança dos olhos do lobo. E realmente, isso explicaria porque o lobo, ou Luke, não me fez de jantar. Mas eu ainda não sabia em quê acreditar, era loucura demais para mim em um só dia!
– Você vai entender melhor quando conhecer o seu povo.
– O quê? Ha, você pensa que eu vou para a Terra da Luz? — Inna estava me deixando muito irritada.
– Sim. Você não terá escolha. Mais cedo ou mais tarde você terá que ir, querendo ou… — Inna se interrompeu quando Luke deu um salto próximo à mim. Ele deveria ter se aproximado enquanto eu tentava entender aquela história e eu nem havia notado. Ele estava de pé, com pelo eriçado e rosnando, exatamente como eu imaginara que ele faria quando eu me aproximei dele na floresta, só que essa reação não era para mim. Ele rosnava para alguém além de meu alcance visual. Alguém dentro da floresta. Inna se levantou tão rápido que eu mal a vira.
– Vá, pule do penhasco!
– Pular do penhasco? A senhora enlouqueceu? — não podia acreditar no que estava ouvindo. Ela queria que eu me suicidasse?
– Sim. Lembra o que eu disse sobre os portais que transportam matéria? Então, este penhasco é um dos portais escondidos em seu mundo!
– E se não for! Eu vou morrer!
Inna não me respondeu, sua atenção estava voltada para outra coisa, assim como Luke. Comecei a ouvir um barulho como se milhares de pés estivessem correndo em nossa direção. O chão começou a vibrar sob mim. Comecei a me desesperar.
– O que é isso? Me responda, Inna!
– O exército do Mestre da Morte. Assim que Luke pôde lhe rastrear, o Mestre da Morte também pôde. Você deve pular, Mary. Ele não sabe onde estão localizados os nossos portais de matéria! Você estará segura por enquanto na Terra da Luz. Segura até que ele a descubra novamente!
Comecei a enxergar figuras escuras vindo em nossa direção. Assim que ultrapassaram os últimos pinheiros eu pude vê-los nitidamente. Haviam muitas figuras de capa preta, com gorros pretos também que me impediam de ver seus rostos. Todos estavam a pé, mas pelo som, a cavalaria vinha logo atrás. Observei enquanto eles tiravam alguma coisa das costas. Meu sangue desacelerou. Uma centena de arcos preparados com flechas estavam apontados para nós. Vários soldados encapuzados surgiram de trás deles e começaram a abrir espaço entre os arqueiros para passar por eles, quebrando sua linha linha de frente. Eles vinham correndo em nossa direção bramindo espadas. Eu não tinha outra opção. Preferia cair daquele penhasco do que me deixar ser abatida por aquele exército. Então tomei impulso, prendi a respiração, corri até a borda e saltei no ultimo instante, procurando deixar meu corpo o mais longe possível das paredes de pedra. Percebi que Inna e Luke saltaram logo atras de mim. Ouvi um som estranho e logo uma saraivada de flechas despencaram perto de nós, enquanto vários soldados bramiam a espada e gritavam para nós. A sorte era que, por estarmos tão próximos da parede do penhasco, as flechas não conseguiram uma manobra mais eficiente e choveram um metro a mais à nossa frente.
Fiquei esperando pelo impacto na água, mas este estava demorando. Foi aí que notei que estávamos desacelerando em nossa queda. Senti um formigamento no braço e me arrisquei a olhar. Uma flecha havia conseguido me alcançar e cortara meu braço. Não doía, talvez porque eu ainda estivesse com o sangue quente, mas eu sentia cócegas.
Assim que nos aproximamos do rio, eu prendi o máximo de ar que consegui em meus pulmões, esperando o impacto, mas ele não aconteceu. Paramos de vez no ar e quando eu pisquei, estava em um cenário diferente. Caí os últimos quinze centímetros que me faltavam e me equilibrei, de modo que me mantive de pé. Eu estava de frente para uma fonte e no topo havia estátua de três golfinhos soltavam água pela boca. Inna quebrou o silêncio.
– Bem-vinda de volta ao seu mundo, Mary.
Não respondi. Estava atônita demais. Se o portal funcionava, então todo o resto da história também era verdade! Eu ainda não queria acreditar.
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