Entre Sombras e Segredos

46 📖Capítulo 44: Sangue Sob a Lua Vermelha


O silêncio que se seguiu ao amanhecer era mais pesado que os gritos da noite anterior. Quando a Lua Vermelha finalmente se pôs, cedendo lugar a um sol pálido e indiferente, a cidade de Vesperthalia parecia um necrotério a céu aberto. O cheiro de ferro e ozônio impregnava o ar, e as ruas, antes vibrantes, tornaram-se o palco do que seria eternamente lembrado como o Massacre da Lua Sangrenta.

Malakai, exausto após seu retorno e a tentativa desesperada de estabilizar as energias antes que a lua atingisse seu ápice, observava as raízes do antigo Carvalho. O sangue que as manchava não era apenas de inimigos, mas do povo que ele tentou proteger. Os números eram uma ferida aberta: cento e vinte mortos. Trinta e sete feridos. Entre as vítimas, o pequeno corpo de crianças que não tiveram tempo de entender por que as sombras haviam ganhado garras. Como um guerreiro que viveu séculos, Malakai sentia cada uma daquelas mortes como uma falha pessoal, um peso que nem mesmo sua força bruta poderia carregar.


Duas Semanas Depois Leonardo caminhava pelos corredores de pedra da fortaleza, evitando o olhar dos sobreviventes. Durante as últimas duas semanas, ele conviveu intensamente com os Dei Lupari, mas sua mente não estava no luto, e sim na estratégia. Ele se isolou com os conhecimentos trazidos pelos espiões do pai de Aurélia, o verdadeiro líder daquela alcateia, cujos olhos e ouvidos estavam espalhados por todos os cantos do mundo.

Graças a essa rede de informações, Leonardo finalmente começou a enxergar através da névoa. Ele descobriu que o ataque era apenas uma peça de algo muito maior: o plano de Kael. No entanto, a identidade real de Kael e a natureza de Kaorath permaneciam como abismos sombrios em seu mapa mental.

— Eu sei o que ele quer, mas não sei quem ele é — murmurou Leonardo, encarando os pergaminhos. — Preciso de alguém que enxergue o que os olhos mortais não alcançam.

Naquela noite, Leonardo buscou o isolamento necessário para quebrar as barreiras da realidade. Ele chamou por aquela que era seu elo com o divino.

— Mãe...

A figura de Ayla materializou-se como uma névoa suave no centro do quarto. Leonardo foi direto ao ponto:

— Mãe, as escrituras falam de uma entidade que conhece tudo o que está dentro e fora deste mundo. Alguém que conhece as leis, as regras e o destino de cada alma e deus. Quem é ele?

Ayla hesitou, sua forma tremeluzindo em uma incerteza que Leonardo raramente via.

— Meu filho... há segredos que estão além da minha linhagem. Eu não tenho essa resposta.

Mas o ar na sala subitamente congelou. A voz não veio de Ayla, mas de todos os cantos do Refúgio Celestial ao mesmo tempo. Era uma voz que parecia vibrar diretamente na alma de Leonardo.

Você busca o que não pode ser contido em palavras mortais, Filho do Abismo.

Leonardo firmou os pés, sentindo a autoridade daquela presença.

— Eu busco a verdade sobre Kael e as leis que regem este caos.

A verdade absoluta não pertence aos vivos, nem aos mortos comuns,continuou a Entidade do Refúgio. Ayla conhece o coração, mas há apenas um que guarda o registro de todas as existências. Ele é o irmão caçula das forças primordiais. A Quinta Entidade.

Leonardo sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— Qual é o nome dele?

A voz ressoou como o bater de um martelo sobre o metal:

O nome dele é Vaelen, o Cronista do Vazio. Ele é o Olho que nunca pisca diante do tempo. Se você deseja saber o plano de Kael e a origem de tudo, terá que encontrar aquele que escreve a história enquanto ela ainda é um suspiro no escuro.


Enquanto o Refúgio Celestial era feito de luz e ordem, o domínio de Vaelen era feito de memória. Imagine um oceano de mercúrio prateado sob um céu sem estrelas, onde milhares de prateleiras de vidro flutuavam sem fim, carregando pergaminhos que se escreviam sozinhos.

Vaelen estava sentado no topo de uma pilha de livros que flutuava a dez metros do chão. Ele usava um chapéu de papel feito de uma página de um destino descartado e tentava equilibrar uma pena de fênix na ponta do nariz.

— Ooh, veja só! — Ele exclamou, olhando para um ponto vazio no ar onde uma imagem de Leonardo se projetava.

— Ele está tão determinado. Olhe para aquela sobrancelha franzida! Ele acha que está sendo estratégico, mas mal sabe que eu já escrevi o capítulo do lanche dele de amanhã. Spoiler: vai ser pão amanhecido.

Ele começou a rir, dando um mortal para trás e caindo sentado em uma poltrona de nuvem cinzenta que surgiu do nada.

— Vaelen! — Uma voz de trovão abafado ecoou, fazendo as prateleiras de vidro vibrarem.

O menino fez um bico, cruzando os braços. De uma poça de sombra no chão, a figura monumental de Voidrex emergiu. Onde Vaelen era movimento e cor, Voidrex era estática e silêncio absoluto.

— Lá vem o Senhor Alegria..." — resmungou Vaelen. — Você sabe que é falta de educação entrar no domínio dos outros sem bater, Voidrex? Eu poderia estar em uma reunião muito importante com... com as minhas outras personalidades!

Voidrex não se abalou. Ele caminhou pelo chão espelhado, sua massa escura contrastando com o brilho prateado do lugar.

— Este lugar está uma bagunça, criança. Há linhas temporais se cruzando ali no setor sete e você está... brincando de equilíbrio?

— Não é bagunça, é organização criativa!" — Vaelen saltou da poltrona e flutuou até ficar cara a cara com a névoa que formava o rosto de Voidrex. — "E eu já vi o Leonardo. Ele está vindo. Ele chamou o meu nome, Voidrex! Sabe quanto tempo faz que um mortal não pronuncia 'Vaelen' sem começar a chorar de medo?

— Ele não é um mortal comum, e você sabe disso" — disse Voidrex, sua voz suavizando ligeiramente. — Se você contar a ele o que está registrado sobre Kael antes da hora, você pode quebrar a espinha do destino.

Vaelen pousou os pés no chão, sua expressão mudando de travessa para algo profundamente antigo e melancólico em um piscar de olhos. Seus olhos de nebulosa brilharam com uma luz intensa.

— O destino já está com a espinha quebrada, grandão. Kael não está apenas jogando o jogo; ele está tentando queimar o tabuleiro. Se eu não der ao garoto a peça certa, não haverá mais nada para eu cronicar.

Voidrex ficou em silêncio por um longo momento. No Memorial do Infinito, o silêncio era tão denso que se podia ouvir o som das páginas virando a quilômetros de distância.

— Seja cauteloso, Vaelen. O conhecimento é uma faca que corta quem o entrega e quem o recebe.

— Eu sei. — Vaelen sorriu de canto, recuperando seu ar brincalhão e conjurando um pirulito de energia pura. — Mas admita: você também quer ver a cara que ele vai fazer quando descobrir quem o Kael realmente é.

Voidrex não respondeu, apenas começou a desaparecer na sombra novamente.

— Não deixe que ele quebre nada, Vaelen. Especialmente o próprio espírito.


Quando Voidrex sumiu, Vaelen deu um suspiro longo, jogando o pirulito fora. Ele olhou para o horizonte prateado de seu domínio, onde a essência de Leonardo começava a brilhar como um farol distante.

—Prepare o chá, Vaelen... — murmurou para si mesmo, endireitando o chapéu de papel. — "O convidado de honra está chegando, e a história está prestes a ficar muito, muito complicada.