Entre Sombras e Segredos

47 📖Capítulo 45: O Labirinto do Cronista Infante


O mundo não desmoronou; ele simplesmente se dobrou. Quando Leonardo pronunciou o nome de Vaelen, a realidade de Vesperthalia e o aroma de sangue e ozônio foram substituídos pelo cheiro seco de papel de mil anos e o brilho metálico de um horizonte infinito.

Leonardo sentiu o chão sob seus pés tornar-se líquido, mas não afundou. Ele estava de pé sobre um oceano de mercúrio prateado que refletia um céu sem estrelas, preenchido apenas por prateleiras de vidro que flutuavam em ângulos impossíveis, subindo e descendo como os pistões de uma máquina divina.

— Não pise com tanta força — disse uma voz infantil, vinda de lugar nenhum. — Você está amassando o rodapé do meu verso favorito.

Leonardo girou o corpo, a mão instintivamente buscando uma arma que não estava lá. No Memorial, ele era apenas essência e pensamento. A dez metros de distância, sentado em um balanço feito de luz sólida que pendia do nada, estava um menino. Ele aparentava ter dez anos, usava um chapéu de papel dobrado e balançava as pernas freneticamente.

— Vaelen? — Leonardo perguntou, sua voz soando estranhamente nítida naquele vácuo de silêncio.

O menino deu um mortal para trás, desaparecendo no ar e surgindo a centímetros do rosto de Leonardo. Seus olhos não tinham pupilas; eram nebulosas em miniatura, girando em tons de roxo e ouro.

— "Vaelen" é um nome tão... terminado — disse o menino, fazendo um bico. — Eu prefiro "O Problema", ou "Aquele que Escreve". Mas como você é o protagonista da vez, pode usar o nome oficial.

Subitamente, o rosto do menino endureceu. Seus ombros cresceram, e sua voz desceu três oitavas, ecoando como se mil anciões falassem em uníssono:

— Leonardo do Abismo. Você cruza o limiar da memória buscando o que não lhe pertence. O registro de Kael é uma ferida que ainda sangra nas páginas do tempo. Por que o Cronista deveria lhe emprestar os olhos?

Leonardo recuou um passo, atordoado pela mudança súbita de autoridade.

— Porque o tabuleiro que você tanto gosta de observar está sendo queimado. Se Kael vencer, não haverá história para contar, e você será o cronista de um vazio sem palavras.

Vaelen piscou. O ar de autoridade sumiu como fumaça. Ele começou a rir, uma risada aguda que fez as prateleiras de vidro vibrarem.

— Oh! Ele usa argumentos de gênero literário! — Vaelen bateu palmas. — Voidrex disse que você era ranzinza, mas você é divertido. Vamos brincar? Se você me seguir até o centro do Labirinto sem se perder nas suas próprias memórias, eu te mostro o que Kael esconde sob a máscara.

O menino saiu em disparada, correndo sobre o mercúrio prateado. Enquanto corria, ele deixava um rastro de tinta negra que se transformava em paredes. O Labirinto começou a se erguer ao redor de Leonardo. As paredes não eram de pedra, eram feitas de frases flutuantes.

Leonardo começou a correr, mas as frases nas paredes tentavam distraí-lo. “O dia em que ele falhou com Malakai...”, “O medo secreto de nunca ser o suficiente...”. Eram suas próprias memórias, expostas como livros abertos.

— Não olhe para os lados, Leo! — Vaelen gritou, agora sentado no topo de uma pilha de livros que flutuava à esquerda. — Se você ler sobre si mesmo, vai acabar virando um ponto final!

O menino mudou de novo. Sua expressão tornou-se melancólica, quase cruel.

— Sabe, Leonardo... — a voz dele agora era a de um historiador cansado — ...Kael também correu por este labirinto uma vez. Ele também tinha essa ruga entre as sobrancelhas. Ele também achava que era o herói da própria tragédia.

Vaelen surgiu à frente de Leonardo, bloqueando o caminho. Ele agora segurava um pirulito que brilhava com uma luz sinistra.

— Ele quer saber quem é o Kael, quer? — Vaelen perguntou, voltando a ser a criança travessa, mas com um brilho de malícia nos olhos. — Mas o conhecimento é como um doce, Leo. Se você comer demais, sua alma fica com cáries. E eu... eu adoro ver os dentes dos deuses apodrecerem.

Leonardo parou, recuperando o fôlego. O Labirinto de Vidro parou de girar. Ele olhou para a criança à sua frente, percebendo que cada "personalidade" de Vaelen era um filtro para uma verdade diferente.

— Eu não vim aqui para brincar, Vaelen. O massacre em Vesperthalia... as crianças que morreram sob a Lua Sangrenta... isso não é apenas tinta em um papel para mim. É a minha realidade.

Vaelen inclinou a cabeça. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Por um breve momento, as múltiplas personalidades pareceram se fundir em algo singular, antigo e assustadoramente lúcido.

— A realidade é apenas um rascunho que eu ainda não passei a limpo — murmurou o menino.

Ele caminhou até Leonardo e estendeu a mão pequena. A ponta de seu dedo indicador brilhava como uma supernova comprimida.

— Você quer a verdade sobre Kael? Você quer saber o que é Kaorath? — O sorriso de Vaelen desta vez não era de uma criança, mas de algo que viu o início e o fim de tudo. — Então segure o fôlego, Filho do Abismo. Vamos ler o capítulo que Kael tentou rasgar.

O dedo de Vaelen tocou a testa de Leonardo.

O mercúrio prateado explodiu em um branco ofuscante. O som de mil páginas sendo rasgadas ao mesmo tempo inundou os ouvidos de Leonardo, e a biblioteca desapareceu, dando lugar a uma visão que mudaria tudo o que ele acreditava sobre o bem e o mal.


O toque de Vaelen não foi apenas um contato físico; foi como se um relâmpago de informações brutas tivesse sido injetado diretamente no córtex cerebral de Leonardo. Ele não viu apenas imagens; ele sentiu o peso dos séculos.

​— Ainda não! — gritou Vaelen, puxando o dedo abruptamente, interrompendo o fluxo antes que Leonardo pudesse processar a primeira imagem. — Você é muito apressado. Se eu te mostrar tudo agora, seu cérebro vai virar mingau de aveia, e eu detesto mingau. Estraga a estética da cena.

​Leonardo caiu de joelhos, arquejando. O mercúrio prateado sob ele ondulava violentamente, reagindo à sua turbulência interna. Seus olhos demoraram a focar, mas quando focaram, o cenário havia mudado novamente. As prateleiras de vidro agora formavam um anfiteatro colossal. No centro, uma única mesa de madeira carcomida com duas cadeiras desparelhadas.

​— Sente-se — ordenou Vaelen, agora usando um monóculo que parecia feito de um fragmento de lua e uma cartola três vezes maior que sua cabeça. — Para entender o monstro, primeiro você precisa entender a gramática que o criou.

​Leonardo levantou-se com dificuldade, sentindo uma pressão constante atrás dos olhos.

— Você fala de Kael como se ele fosse uma criação sua, Vaelen. Se você é o Cronista, por que permitiu que ele escrevesse aquele massacre em Vesperthalia?

​Vaelen saltou sobre a mesa, agachando-se como um gato. Sua expressão mudou para uma seriedade gélida, a personalidade do Observador Imparcial assumindo o controle.

— Eu não escrevo as escolhas, Leonardo. Eu apenas registro os resultados. Se um autor decide matar todos os seus personagens, o papel não pode gritar "pare". O papel apenas aceita a tinta. Kael descobriu como roubar a caneta, mas ele ainda está usando o meu sangue para escrever.

​Ele estalou os dedos e, sobre a mesa, surgiu um bule de chá que servia um líquido negro e denso, que parecia conter pequenas estrelas moribundas.

​— Beba. Vai ajudar sua mente a não se despedaçar quando virmos a origem de Kaorath e Kael.