Entre Sombras e Segredos

5 📖 Capítulo 4 - Marcas do Abismo


As tochas ardiam preguiçosas nos corredores da mansão, lançando sombras que se esticavam como olhos atentos. Elion fechou a porta do quarto de Leonardo atrás de si. O brilho branco nos olhos do sobrinho ainda queimava em sua mente. Aquilo não era um delírio. Era um aviso.


Com passos firmes, ele atravessou o corredor principal, até que o silêncio se abriu no grande salão.


No centro, Kael o aguardava. As chamas das tochas projetavam sua figura nas paredes, e até a luz parecia hesitar diante dele.


Elion parou, ergueu o queixo e falou com a voz carregada de rancor:

— Continua o mesmo, patriarca… preso ao abismo que abriu com as próprias mãos.


Kael ergueu o rosto e sorriu, lento, cruel.

— Prisioneiro? Não, Elion. Eu apenas aceitei o que sempre fomos. Você ainda corre atrás de fantasias de pureza… mas sabe, no fundo, que a mesma podridão corre em suas veias.


As palavras ecoaram pelo salão como lâminas invisíveis. Elion fechou o punho, pronto para responder, mas antes que o silêncio se rompesse, um mensageiro entrou apressado:

— Senhor… os anciãos do clã Braverd exigem sua presença.


Elion desviou o olhar, contendo a raiva que queimava por dentro. Kael apenas inclinou a cabeça, satisfeito, como quem já havia vencido antes mesmo do confronto.

— Vá ouvir os velhos. Eles têm medo do que eu abracei.


As sombras nas paredes ondularam, como se rissem junto dele.


Enquanto isso, no andar superior, Leonardo ainda arfava. O eco da visão o consumia como uma febre. O quarto parecia encolher, as paredes se aproximando, o ar ficando pesado demais para respirar.


Atordoado, levantou-se de um salto. Não queria permanecer ali, não queria permanecer em lugar algum. O instinto falou mais alto que a razão.


Os corredores da mansão se tornaram um labirinto embaçado diante de seus olhos. As tochas tremulavam como se zombassem dele, e cada sombra parecia estender mãos invisíveis para agarrá-lo. Leonardo correu, sem pensar, sem medir o caminho.


Quando percebeu, já não havia paredes, nem portas, nem teto. Apenas árvores. A mansão tinha ficado para trás, engolida pela noite. Ele estava na floresta.


O vento trazia consigo sons distorcidos: lamentos, risos, murmúrios que não pertenciam a nenhum ser vivo. Tropeçou, arfou, o peito queimando como se estivesse acorrentado a algo invisível.


O gosto metálico de sangue não saía de sua boca. Seus olhos ardiam. Caiu de joelhos, e um sussurro escapou entre dentes:

— Não… não de novo…


Então o silêncio se quebrou com o estalo de um galho.


Aurélia surgiu da escuridão. Não caminhava — parecia deslizar, moldada pela própria noite. A lua a banhava com uma luz estranha, tornando-a tão bela quanto intocável, e tão ameaçadora quanto inevitável.


Leonardo tremeu. Seu coração gritava para fugir, mas seus olhos o mantinham preso.


Aurélia parou diante dele. Ao tocar seu ombro, um choque percorreu-lhe a pele: calor e frio, vida e morte, duas forças em guerra disputando seu corpo.

— Você viu — disse, a voz sem emoção. — O que deveria permanecer enterrado.


As lágrimas vieram antes das palavras.

— Ele… ele não é humano…


O silêncio de Aurélia foi mais cruel que qualquer resposta. Seus olhos carregavam um julgamento que Leonardo não compreendia, mas que o despedaçava por dentro.


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E, acima de tudo, em um penhasco onde a lua parecia menor que a sombra, alguém observava.


O homem surgiu envolto em névoa negra. Não era apenas escuridão, mas matéria viva, serpenteando ao seu redor como correntes que respiravam. Belo e terrível, cada traço de seu rosto parecia feito para atrair… e devorar.


Seus olhos eram brasas, e dentro deles ardia o símbolo proibido — o mesmo que Leonardo havia visto em sua visão. Um selo que pulsava como uma ferida eterna no tecido do mundo.


Ao lado dele estava Anastásia. Vendada, imóvel, mas longe de ser cega. A venda era um rito, um pacto. Quando falou, sua voz soou como um coro de ecos, como se muitas bocas falassem através dela:

— Ele corre para a floresta… mas não há fuga. O sangue o chama.


O homem sorriu, lento, como quem saboreia um destino inevitável.

— O sangue é o caminho e a prisão. Nem ele, nem os anciãos escaparão do que já começou.


As sombras se agitaram em torno dele, como serpentes famintas. A lua foi engolida pela treva, e mesmo assim um trovão rugiu sobre um céu limpo.


O símbolo em seus olhos queimou mais forte, marcando a noite como um presságio que não poderia ser desfeito.


E o mundo pareceu prender a respiração.