Entre Sombras e Segredos
6 📖 Capítulo 5 - Vozes da Sombra
O salão ancestral do clã Braverd parecia respirar como um organismo vivo. As paredes eram cobertas de inscrições tão antigas que até o tempo temia apagá-las. O fogo das tochas ardia baixo, como se obedecesse a um silêncio maior.
Elion entrou. Os anciãos já o aguardavam em semicírculo. Cada um deles era mais que carne e ossos — eram pilares da memória do clã, cada palavra sua tinha peso de maldição.
O primeiro a falar foi Drael, de barba prateada e olhos vazados por rituais antigos. Sua voz lembrava pedras se partindo:
— Trouxe desordem à nossa porta, Elion. O selo queimar nos olhos do garoto não era para este tempo.
Selvar, magro como um cadáver, inclinou-se sobre o cajado de ossos que segurava. Sua respiração era um chiado constante.
— Se o herdeiro carrega a marca, então o sangue de Kael já devorou esta linhagem.
Um murmúrio percorreu o círculo. Maelith, a única mulher entre eles, envolta em véus negros, ergueu a voz.
— O erro não é do garoto. O erro foi permitir que Kael respirasse por tanto tempo. O abismo que ele abriu começa agora a engolir tudo.
Orvas, o mais rígido, ergueu o braço e o ar pareceu pesar.
— Calem-se! O perigo não está em Kael. O perigo é no que o menino pode se tornar.
As palavras se chocaram como espadas invisíveis. Elion avançou um passo, o rosto marcado pela raiva.
— Vocês veem apenas maldição. Mas eu vi esperança nele. Leonardo não pediu por isso. Não é o inimigo!
O silêncio caiu denso. E então, do centro do círculo, o mais velho se moveu. Eryon, cuja pele parecia pergaminho e cuja voz vinha de um lugar além da vida, ergueu o cajado. O impacto contra o chão ecoou como trovão.
— Ignorantes… — sua voz não foi alta, mas atravessou cada coração. — O símbolo não é maldição. É sentença. Nem o conselho, nem o garoto, nem o sangue de Kael escaparão do que está escrito.
As tochas vacilaram, e por um instante pareceu que a própria sala respirava medo.⁸
Na floresta, Leonardo tremia. As raízes pareciam mãos tentando puxá-lo para o chão. O frio rasgava sua pele, mas o olhar de Aurélia queimava mais que qualquer febre.
Ela não se moveu de imediato. Apenas o observava, olhos profundos como abismos. Quando falou, sua voz veio como sussurro que não pedia resposta:
— Você não correu da mansão. A mansão expulsou você.
Leonardo arfou, tentando negar, mas as palavras envenenavam seus pulmões.
— Eu… eu não quero isso em mim…
Aurélia inclinou a cabeça, aproximando-se lentamente. Cada passo dela parecia apagar a floresta em volta.
— Desejo não muda destino.
Ele recuou, o corpo instável. As lágrimas ardiam, mas não traziam alívio.
— Então eu sou… condenado?
Um sorriso breve e cruel desenhou-se no rosto dela.
— Condenado não. Escolhido. E os escolhidos não têm escapatória.
Leonardo fechou os olhos, sentindo o peso de algo invisível o esmagando. Quando os abriu, ela estava diante dele, tão perto que o ar desapareceu. Aurélia ergueu a mão e tocou-lhe o peito. Não foi calor, nem frio. Foi ambos, misturados numa guerra sem fim.
— O sangue já fala por você — murmurou, retirando a mão. — E em breve, todos vão ouvi-lo.
No alto do penhasco, envolto pela névoa viva, o homem que não pertencia à ordem natural abriu os braços. As correntes de sombra ondulavam como serpentes ao seu redor. Seu nome era Kaorath — e apenas pronunciá-lo era carregar trevas na boca.
Seus olhos ardiam com o selo proibido. Ele sorriu, e o mundo pareceu estremecer.
— Os velhos ainda se agarram às cinzas do equilíbrio. Mas cinzas não detêm a noite.
Ao lado dele, Anastásia ergueu o rosto. A venda que cobria seus olhos tremulava como se respirasse. Sua voz rompeu o ar como um coro de ecos, grave e agudo ao mesmo tempo:
— O conselho vê fragmentos. O herdeiro se afoga em visões. Mas apenas nós ouvimos a verdade inteira.
Kaorath inclinou a cabeça, satisfeito.
— E o que você ouve, Anastásia?
Ela sorriu, e o vento gelou como se tivesse ouvido algo proibido.
— Eu ouço os ossos da terra pedindo sangue. Eu ouço o nome dele sendo chamado pelo próprio abismo.
Kaorath a observou com deleite.
— Então o destino já canta por nós.
Anastásia ergueu as mãos vendadas para o céu, e as nuvens inexistentes se abriram em trovão.
— Não destino… sentença. O mesmo que os velhos temem, eu celebro. E Leonardo será a chave que abrirá todas as correntes.
A névoa ao redor rugiu como uma multidão faminta. A lua se apagou. E no vazio que restou, apenas o nome de Kaorath parecia ter peso.
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