Entre Rosas e Espinhos
6 Capítulo 6: A grande decisão
Notas iniciais
Equador.
Uma semana havia se passado desde que a jovem começou a seguir fielmente Jango. Esmeralda agora agia como uma esposa submissa, sem mais tentativas de fugas ou de rebelião.
Apesar de ter adotado aquela postura a pouco tempo, foi o suficiente para que o marido começasse a ter confiança. Ele não mais precisava agir pela força ou pelo grito e agora acreditava que sua aposta na esposa perfeita havia sido correta.
Esmeralda agora preparava as refeições, lavava as roupas, limpava a casa e ainda servia como mulher na hora que o marido quisesse. No entanto, ainda era vigiada e durante a noite e nas horas que Jango precisava se ausentar, era novamente presa pela coleira.
Naquele dia, Jango estava alegre, especialmente por que estava sendo bem servido pela mulher.
Era ainda muito cedo quando Esmeralda começou a fazer o café da manhã para os dois. Enquanto ela preparava os sanduíches no balcão de mármore da cozinha, uma música suave tocava no rádio que ficava no aposento.
A jovem trajava um vestido verde de tecido leve. Seus cabelos dourados estavam levemente bagunçados, mas lhe conferiam um aspecto muito agradável que realçava sua beleza ainda juvenil.
Tranquilamente, ela colocava os pães na sanduicheira, fazendo com que o cheiro de tostado subisse, aguçando a fome de Jango, que se acercava. Ele a abraçou por trás, beijando-lhe o pescoço e aspirando seu odor de flores.
— Bom dia, minha garota.
— Bom dia, querido.
A jovem se virou repentinamente, depositando um suave beijo nos lábios do marido, o que lhe deixou muito surpreso, pois ela nunca havia feito isso antes.
— O que deu em você, menina? – Perguntou confuso.
— Como assim? A esposa não pode beijar o marido? – Ela sorriu.
— Vejo que finalmente está começando a agir como uma mulher boazinha. Assim que eu gosto!
— No fim das contas, eu me enganei sobre você, vejo que é um bom homem, no fundo.
— Está bem, mas pode parar com esse discursinho chato... Olha, só por que me deu esse beijo, vou permitir que vá à piscina hoje.
— Obrigada, querido.
Apesar de residir ali, Esmeralda ainda não tinha explorado quase nada do ambiente. A piscina era uma novidade para ela.
— E tenho uma notícia para você: Seu pai vem nos visitar hoje à noite. Ele irá dormir aqui em casa. Por isso quero que prepare um ótimo jantar.
— Certo!
Desde o dia do seu casamento, Esmeralda não havia visto mais o rosto de seu pai, o homem que fazia questão de estragar a sua vida. Apesar de agora assumir para si uma postura mais contida, por dentro, sentia-se enfurecer de leve, mas sentia que precisava de uma pitada a mais de frieza para encará-lo mais tarde.
O casal tomou o café da manha num clima de muita harmonia. A mesa estava farta: Havia um delicioso bolo de chocolate, muitas frutas, peças de queijo e presunto, pães variados, uma jarra de suco de laranja e, claro, os sanduíches que a jovem preparou.
Esmeralda servia Jango, inclusive colocava algumas uvas em sua boca, como uma verdadeira serva querendo agradar ao seu senhor.
— Depois de comermos eu posso dar um mergulho?
— Claro e eu faço questão de te acompanhar.
Passado o momento da refeição, a garota colocou um biquíni cor-de-rosa e se dirigiu juntamente com o marido para a piscina.
Naquele dia ela podia andar livremente pela área externa da casa, pois os dois cães ferozes estavam presos.
Esmeralda desfilava até a borda da piscina, pronta para mergulhar, mas foi interrompida por Jango.
— Espera, deixa eu te admirar um pouco mais... Você é perfeita.
— Não exagere. – Ela deu um sorriso tímido.
— Tire o biquíni, quero que nade para mim sem ele.
— Seu desejo é uma ordem, meu senhor.
A jovem retirou lentamente as peças, deixando exposta a sua nudez, seu belo e jovial corpo. Em seguida, deu um mergulho como se fosse uma sereia.
Enquanto ela nadava de forma sublime, Jango observava tudo por trás dos óculos escuros, fumando um charuto cubano.
— Não vai entrar na água?
— Quero apenas te observar, minha rainha!
Ela nadou por uma hora, aproveitando bem o momento. Por dentro sentia uma euforia tomar conta do seu ser. Era uma escrava convencida a servir, mas algo a fazia sentir emoções além...
Esmeralda saiu da água, aproximou-se de Jango tomando o charuto para si. De forma sensual ela de um trago e depois expirou a fumaça no rosto do marido.
—--------------------------------- Mais tarde ---------------------------------------
Já era noite quando a loira foi para a cozinha fazer o jantar. Para aquela ocasião decidiu preparar uma deliciosa sopa de batatas.
Ela descascava delicadamente as batatas com uma faca muito afiada, enquanto assobiava uma canção qualquer. De repente, seus pensamentos voltaram-se para a imagem de Ikki.
— Controle-se! – Pensou consigo mesma.
Jango aproximou-se da entrada da cozinha para dar um aviso.
— Melhor apressar com o jantar, seu pai acabou de chegar. Vou buscá-lo no portão!
— Já estou quase terminando, amor.
— Amor? Achei que não poderia me surpreender mais.
Quando o marido deu às costas, ela correu rapidamente até o quarto e voltou na mesma velocidade para terminar de fazer a sopa.
Prato finalizado, ela carregou um caldeirão médio de barro, com aspecto rústico, até a mesa, lentamente.
A jovem o depositou no centro da mesa e ficou imóvel, olhando profundamente nos olhos de seu pai, sem dizer uma palavra se quer.
Seu olhar era penetrante e tão pacífico que chegou a incomodar Guilty. O homem tentava desviar a atenção para um ponto qualquer, mas sempre acabava olhando novamente para a filha, sentindo-se de certa forma, intimidado.
Jango percebendo o clima instaurado tomou a palavra e interrompeu.
— Esse cheiro bom está me matando de fome!
Esmeralda sentou-se à mesa, junto com eles, e um de cada vez encheu o prato fundo com a sopa.
— Meu amor, está uma delícia, muito obrigada! – Disse Jango, dando uma colherada. – Foi a sua filha quem fez, Guilty.
— Está muito boa, parabéns. – Disse o homem após sorver um pouco da sopa.
— Obrigada, papai. Fiz especialmente para o senhor, afinal essa era a sopa favorita sua e... Da mamãe.
Com a última palavra dita, Guilty mudou de feição, sentindo-se perturbado, pois percebeu um clima de provocação.
Esmeralda e Jango apenas sorriam e se admiravam como um casal em plena lua de mel.
— Olha, sua filha tem se mostrado uma ótima mulher.
— Fico feliz por isso.
— Sim, eu quero ser para você como minha mãe foi para o papai, uma verdadeira esposa.
Ela se divertia ao perceber o incômodo do pai.
— Você tem mesmo que valer o dinheiro que ele me pagou.
— Claro, não sou mercadoria defeituosa. Eu sou de primeira qualidade e Jango sabe disso, não é meu amor?
— E como sei! A cada minuto que se passa sua filha me surpreende mais.
— Pois é, e me sinto muito feliz em ser útil para você! Está vendo, papai? Consegui ser feliz! Muito obrigada por isso.
Guilty levantou-se da mesa, irritado. Esmeralda apenas dava um sorriso para Jango, e gesticulava como se não estivesse entendendo a situação.
Incomodava saber que ela não era mais a garotinha abatida, mas agora se mostrava uma mulher sarcástica.
— Acho que o papai foi dormir mais cedo, hein? Que tal irmos também? – Disse ela, mordendo o lábio inferior.
— Não faz essa cara... Hoje você está irresistível!
O casal foi de mãos dadas até o quarto. Ao entrarem, Esmeralda deu um intenso beijo no marido, como se o sugasse para si completamente.
— Quero que hoje seja especial... – Ela pediu.
— Será como você quiser, minha querida. Inclusive, hoje dispensarei isso daqui. – Disse ele pegando a coleira de ferro com que a prendia todas as noites.
— Você é mesmo um homem bom, posso sentir. Merece uma recompensa por isso.
Em câmera lenta ela foi empurrando o marido para a cama, enquanto retirava a sua camiseta.
— Tire o seu vestido também.
— Tenha calma... Ah e sabe por que eu estou usando ele hoje? – Disse ela se referindo ao vestido rosa florido, o favorito de Ikki.
— Não, por quê?
— Por que ele é especial como esse dia!
Em poucos minutos, Jango estava despido. Esmeralda colocou uma música para tocar, enquanto dançava sensualmente.
Ela deitou-se por cima do marido e começou a beijá-lo por todo o corpo. Jango estava hipnotizado, pois isso nunca havia acontecido, todas as relações tinham sido à força.
— Tenho uma proposta para você hoje, querido. Mas só digo se você jurar que vai aceitar.
— Diga logo, juro que aceito. Não sei o que é, mas hoje farei suas vontades. – Disse ele já louco para agarrar de uma vez a garota.
— Que tal eu te prender? Garanto que vai ser interessante...
O homem pensou por alguns instantes, enquanto a moça mordia carinhosamente seu pescoço. Até então ela é quem era a prisioneira, mas ele achou que poderia ser interessante sentir-se dominado por uma mulher ao menos uma vez.
— Está bem... Só dessa vez.
— Ótimo! Me diga, onde estão aquelas suas algemas?
— Na última gaveta do guarda-roupa.
A jovem pegou o objeto e prendeu os pulsos do marido na cama, deixando-o vulnerável.
— Muito bem, agora você é meu cativo. Mas ainda falta algo...
— O que?
Ela pegou a camiseta do homem e amarrou em volta de sua cabeça, fazendo com que ele ficasse vendado.
— Mulher, o que você está aprontando?
Esmeralda começou a lambê-lo por todo o corpo, e ele apenas gemia baixo, muito solícito. Até que ela se afastou e pegou um objeto que estava debaixo do colchão.
— Por que parou, hein?
— Calma, querido!
Ela retirou a venda improvisada.
— Bem melhor agora que posso te ver... Mas ainda está vestida. Tira logo!
Antes que ele dissesse mais uma palavra, Esmeralda pegou novamente a camiseta e dessa vez amarrou na altura da boca, fazendo com que ele ficasse impossibilitado de falar, gritar, ou emitir algum som alto.
— Muito bem, agora começa o meu show.
Esmeralda tinha em mãos uma das facas da cozinha que ela levou até o quarto no momento em que Jango foi buscar seu pai no portão. Era uma faca do tipo peixeira, extremamente afiada, capaz de fazer grandes estragos.
Ela espetava delicadamente parte por parte do corpo do marido, que por sua vez estava com os olhos arregalados, pois era a única reação que podia exprimir.
Sentada por cima do homem, a jovem começou a falar.
— Sinto muito por ter feito você acreditar que eu estava começando a te achar um bom homem. Você é um lixo. Seu grande erro foi achar que eu seria uma menina boazinha do dia pra noite. Achei que fosse mais esperto... Eu não queria ter de fazer isso, mas você estragou uma parte da minha vida.
Esmeralda começou a retalhar o homem, fazendo cortes não muito profundos na região do abdômen, mas que causavam muita dor.
— A primeira facada é por você ser um cafajeste que trata um ser humano como mercadoria. Sim, eu te odeio por que você me comprou!
Ela o atingiu na região do intestino. Jango se contorceu de dor.
— A segunda vai ser por você ter me tratado como uma escrava desde que cheguei aqui.
Dessa vez, a facada foi na altura do estômago.
— A terceira...ah, a terceira. Essa vai ser um pouco diferente, será um corte. Esse corte eu quero que você veja antes de morrer. É por todas as vezes que você me estuprou, seu verme!
Com o semblante sereno e demonstrando frieza, Esmeralda tomou o pênis de Jango em suas mãos e começou a cortá-lo com a faca. Após amputar o membro, ela o exibiu para o homem, que chorava descontroladamente e tinha seus urros de dor contidos pela camiseta. A jovem jogou o órgão na direção do rosto do marido, e este acabou caindo para o pescoço.
O sangue jorrava e molhava o vestido e o corpo de Esmeralda. Após a terceira facada, ela começou a dar várias outras, sem parar, por todo o corpo do homem, que já estava sem força.
— Morre desgraçado!
Ela cravou a faca no coração de Jango, depois nos olhos e, por fim, cortou-lhe o pescoço.
O homem agonizou por alguns instantes e morreu.
Com paços lentos e sem fazer barulho ela se dirigiu até o quarto de hóspedes, onde Guilty estava dormindo. Em suas mãos estavam a faca e as algemas.
O pai estava dormindo profundamente, de barriga para cima. O abajur estava ligado, o que a ver melhor seu corpo.
Esmeralda veio até a cama, ensanguentada dos pés à cabeça. Em seu olhar sereno começava a despontar o ódio. Sem pestanejar ela o esfaqueou no rins, deixando-o já sem força para reagir. Depois furou o abdômen, os braços. Quando percebeu o baixo poder de reação do pai, ela o algemou e sentou por cima dele, assim como fez com Jango.
— S-sua desgraçada! – Ele gritou.
— Você eu vou deixar falar, olhar, enfim. Eu quero que você presencie com todos os detalhes a sua morte.
Ela o espetou várias e várias vezes por todo o corpo. A jovem cortava pedaços de carne do pai em fatias, como se cortam os filés.
— Eu estou fazendo isso pela minha mãe e por mim, seu miserável. Você acabou com as nossas vidas! Mas se achou que eu me curvaria a você como ela fez... Jamais. Não passa de um verme bandido e matador!
Com dificuldades para falar, Guilty tomou a palavra.
— Realmente você não se curvou. Mas agora você é exatamente o que eu sou: Um matador. Não se curvou a mim, mas se curvou ao ódio! Odeie-me mais, Esmeralda, isso vai te corroer pra sempre, vadia!
Sem esperar que ele dissesse mais uma palavra, ela cravou a faca no coração. Guilty tentou respirar algumas vezes, e agonizando disse as últimas palavras:
— Você nunca será feliz!
Após liquidar o pai, ela o arrastou pela casa até chegar ao quintal, e fez o mesmo com o corpo de Jango. Por onde passou deixou o rastro de sangue.
Ela passou a noite inteira retalhando os corpos, friamente, e por vez ou outra chorava de alegria pela vingança que havia feito.
Com o amanhecer, ela deu aos cães, que Jango havia deixado presos no dia anterior, alguns pedaços dilacerados do pai e do marido. E quanto ao resto do corpo, a jovem os jogou na piscina.
A água foi sendo tingida de vermelho enquanto os corpos boiavam.
Esmeralda colocou para tocar uma música clássica e tomava uma taça de vinho, apreciando o balé dos corpos flutuantes.
Ela foi até o quarto, pegou o celular de Jango e fez uma ligação anônima para a polícia, avisando que havia dois homens mortos na residência.
Quando a polícia chegou, entraram na casa sem esforço, pois a porta estava aberta. Puderam ver o cenário terrível. Não havia um local na casa sem os rastros de sangue, muito sangue.
Eles procuraram pelos corpos nos quartos e não encontraram. Até que seguiram o rastro e foram parar no canil, onde os cães ainda comiam das carnes.
— Parece que houve um verdadeiro massacre aqui. É provável que o assassino tenha fugido. – Disse o chefe da operação.
— Talvez não, senhor.
Enquanto andavam, chegaram até o local da piscina, onde o policial apontou para a jovem que tomava sol naquele momento.
Lá estava Esmeralda, ainda trajando o vestido cor-de-rosa florido, como se tivesse tomado um banho de sangue. Ela apontou a taça de vinho para os policiais e começou a gargalhar freneticamente.
Quando os policiais se aproximaram, ela mesma ofereceu os braços para ser algemada.
— Você está presa!
— Não, eu estou livre.
“Violence is legitimate in cases such as this
Cruel retribution is fitting
Vengeance will be dealt out with a ruthless iron fist
Worthless filth receive no mercy
They deserve to die
They deserve to die
Plans have been completed and the time is drawing near
Punishment will be relentless
They deserve to die
Vacuous faces hammered into mash
Beaten senseless, sense they never had
Merciless smashing shatters teeth and bone
Ignorance earned every crushing blow
Killing has just started and my lust for blood will grow
Justice will be found in murder
Stupid as they are they didn't know the seeds they'd sown
Grew into my savage hatred
They deserve to die
They deserve to die”
(They Deserve To Die – Cannibal Corpse)
—------------------------------ República Tcheca/Praga -----------------------------------
O relógio marcava 5:00 horas da manhã quando Pandora levantou da cama. Ela estava com a cabeça pesada e muito agitada, pois não havia conseguido dormir em boa parte da noite.
Ao levantar, olhava de um lado para o outro, como se estivesse perdida, procurando ação sem, no entanto, saber o que fazer. De repente, começava a perceber seu coração palpitar mais forte e sentia um frio na barriga.
Tudo isso estava acontecendo por que havia chegado um dia decisivo para a sua vida: O dia do seu aniversário de dezoito anos e também o dia do seu casamento.
A situação era libertadora e ao mesmo tempo assustadora. A partir de agora seria dona da sua própria vida, livre de Thanatos, e dentro de algumas horas estaria casada com a pessoa que amava. Mas essas novidades em sua vida implicavam consequências e responsabilidades; por um lado teria que assumir a guarda do irmão e seus deveres para com ele, além disso, deveria aprender imediatamente a administrar sua herança. Por outro lado seria uma mulher casada, e por isso teria de tomar muitas decisões em conjunto com o marido, teriam de viver juntos e talvez em outro país.
Até então ela ainda não havia pensando em nada disso. Seu planejamento se focava em coisas imediatas, como se livrar do tio. E naquela hora da manhã a mente começava a dar sinais de reflexão.
Por ser uma jovem muito ansiosa, Pandora começava a sentir medo diante do que iria acontecer, mas de forma alguma tinha como recuar.
Enquanto pensava, roía as unhas das mãos, sem parar. Chegava em frente ao espelho do banheiro e começava a procurar imperfeições na pele para cutucar, como forma de escapar de sua ansiedade. Quando pensou em relaxar, ela decidiu que iria ouvir as músicas armazenadas no celular, mas de tão nervosa e trêmula que estava, deixou que o aparelho fosse ao chão, fazendo barulho e como consequência, acordando o seu futuro marido.
Radamanthys, atordoado, pegou seu celular que estava no chão para olhar a hora, apertou os olhos e mirou Pandora, que estava paralisada.
— Pan, o que houve? Por que se acordou tão cedo?
— Me desculpe! Eu não queria te acordar, mas deixei meu celular cair sem querer e...
— Não precisa se desculpar, meu amor. Acho melhor que volte a dormir.
— Eu perdi o sono. Mas não se preocupe comigo. Acho que vou dar uma volta.
O jovem, ainda confuso e com sono, não entendeu muito bem a situação e voltou a dormir, enquanto Pandora trocou rapidamente de roupa e saiu da pousada para continuar sua reflexão ao ar livre.
Na rua, o clima estava frio, se aproximava o Outono na Europa, as folhas das árvores já começavam a cair, e o vento estava um pouco mais forte.
— O Alone deve estar sentindo minha falta. – Pensou consigo mesma.
Enquanto andava pelas ruas ainda vazias da cidade, ela deu de cara com uma mulher misteriosa.
— Bela jovem, deixe-me ver a sua sorte!
Pandora estancou, assustada. Sem que tivesse tempo de reagir, a mulher tomou uma de suas mãos e prosseguiu falando.
— Deixe-me ver... Parece que hoje é um dia muito importante, mas...
— Mas?
— Em seu passado eu vejo muita tristeza, no seu presente há muita esperança, mas em seu futuro existe muita dor e...
— Dor? Deve estar enganada.
— Escute bem, moça, caso você decida viver terá de ser forte o bastante. Se você resistir, toda a tempestade irá passar e então você conseguirá alcançar a felicidade que planejou. Exatamente como planejou.
— Bem, eu já aguentei muita coisa, mas o que você tem a me dizer sobre...
Ela foi interrompida.
— Se prepare para uma grande tempestade.
— Olha, minha senhora, está delirando, está dando tudo certo e eu devo ser otimista, inclusive hoje é o dia do meu casamento! – Pandora disparou, já muito irritada.
— Guarde bem as minhas palavras. Seu destino já está traçado.
— Meu destino quem faz sou eu!
— Seja forte, Pandora.
Ao ouvir seu nome, a jovem tornou-se estática, enquanto observava mulher ir embora. Até então estava cética, mas começava a despontar em sua mente uma certa crença em tudo que havia escutado, no entanto, quando percebia que estava a ponto de acreditar, negava-se.
— Grande tempestade. Mas que bobagem! – Ela pensava.
Aquela conversa premonitória havia lhe tirado a vontade de refletir a cerca do seu dia especial. Mas estava relacionada com o futuro, algo que naquele momento afligia a jovem.
Após passar uma hora sozinha, perambulando, ela resolveu voltar para pousada. Chegando lá, encontrou Violet sentada no sofá da recepção.
— Pandora! O que fazia a esta hora na rua?
— Ué, também acordou cedo? Eu perdi o sono e resolvi dar uma volta...
— É que eu estou um pouco ansiosa por você hoje, então perdi o sono também.
— Poxa, não precisa se preocupar comigo.
— Claro que sim! Você é a minha melhor amiga e sei o quanto o dia de hoje representa pra ti.
— Pessoas como você me fazem perceber que eu não estou tão só...
— E realmente não está. Você tem a mim, aos rapazes e também a seu irmão.
— Obrigada por estar comigo!
Chorosa, Pandora sentou no sofá e abraçou a amiga.
— Olha, hoje eu vou te ajudar. Vou te arrumar para seu casamento e também vou organizar a festinha.
— Acha que vai dar tudo certo?
— Claro que sim! Não seja pessimista.
— É que... Eu estou com um pressentimento ruim e também apareceu uma bruxa, ou sei lá o quê, dizendo que eu vou passar por problemas.
— Ai, Pan! Eu até acredito em videntes, mas é muito melhor se manter positiva hoje! Depois você estará casada e poderá enfrentar os problemas junto ao seu marido, e ao seu irmão também.
— E se acontecer algo errado com o casamento?
— Não vai. Agora venha comigo, vamos começar a preparar as coisas!
Embora fosse cedo, já era mesmo hora de começar com os preparativos, pois o casamento estava marcado para ser no final da tarde.
As duas subiram para pegar dinheiro e as roupas da festa, e da pousada seguiram até um salão de beleza. Apesar de o casamento estar planejado para ser no cartório, Pandora queria se arrumar como faria em uma celebração mais luxuosa.
—-------------------------------------- Mais tarde -------------------------------------------
As comidas encomendadas começavam a chegar à pousada. Primeiro foram os doces e salgados, depois o simples e pequeno, mas bonito, bolo.
Pandora e Violet já haviam retornado da sessão de beleza e tratavam de organizar as coisas. Estavam exuberantemente lindas, especialmente a morena.
A jovem já trajava o vestido que escolheu para a ocasião. Seus cabelos estavam soltos e ondulados, e apenas duas mechas se entrelaçavam na parte de trás. Outras duas mechas caíam sobre o rosto na lateral, uma de cada lado. A maquiagem era suave, para contrastar com o preto do vestido.
— Acho que exageramos com a comida, hein? – Pandora indagou.
— Não encomendamos tanto assim. Você vai ver, nem vai sobrar pra amanhã!
No quarto em que estava hospedado, Radamanthys terminava de se arrumar, na companhia de Minos e Aiacos.
— Está nervoso? – Perguntou Minos.
— Não sei dizer o que estou sentindo... É algo único.
— Você tem muita sorte, a Pandora é uma garota incrível.
— Eu sei disso...
— Bem, eu acho que você está desanimado. – Disse Aiacos, se interpondo entre os dois.
— Engano seu. Sabe que eu sou assim, calado.
— Olha, não vai se arrepender antes da hora, hein?! – O moreno brincou.
Por um momento Radamanthys parou e pensou. Não se sentia em momento algum arrependido, no entanto pensava na reação dos pais ao saberem do casamento, não bastasse a fuga. Mas agora seguiria em frente com seu objetivo, se casaria.
— Não irei. Pandora é a mulher da minha vida, eu não posso perdê-la.
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O tempo foi passando e todos estavam prontos para irem ao cartório.
Pandora e Radamanthys se encontram no saguão da pousada. Ela linda com seu vestido preto, e ele também muito bonito, de terno preto. Mal conseguiam piscar ou tirar o olhar um do outro.
— Dizem que dá azar o noivo ver a noiva antes do casamento. – Disse Pandora.
— Você conseguiu ficar ainda mais linda!
O jovem se aproximou para beijá-la, mas ela recuou.
— Não, não, não. O próximo beijo que eu quero receber é o de quando estivermos casados. – Ela sorriu.
— Então terei de me segurar bastante para não fazer isso antes!
Enquanto isso, os outros três jovens assistiram toda a cena. Minos estava ficando entediado, pois não era muito dado a romances; Aiacos e Violet apenas se encaravam, imaginando como seria quando fossem se casar também.
— Bem, é melhor irmos logo. Temos hora marcada! – Disse Minos, interrompendo os noivos.
Os cinco entraram no carro de Aiacos. Naquele dia Radamanthys assumiu o volante, e Pandora sentou no banco de passageiros da frente, ficando ao lado do seu noivo.
Para não perderem o costume, um bom e velho heavy metal tocava nas alturas, enquanto todos se divertiam, contando piadas e rindo da própria vida, quebrando um pouco o clima de nervosismo dos jovens noivos.
Pandora resistia em não roer as unhas que haviam sido feitas a pouco tempo. E também controlava os pensamentos, para não vir a cabeça algo triste que a fizesse chorar, estragando a maquiagem e o momento.
Eles chegaram ao cartório às 17:30 em ponto, a hora em que estava marcado o casamento.
Pandora saiu do carro segurando um buquê simples. Ela deu a outra mão a Radamanthys e os dois entraram juntos no local, seguidos pelos amigos, que seriam os padrinhos.
Ao entrarem no cartório, que estava bastante vazio, eles tiveram uma surpresa. Sentados num banco estavam Richard e Lucy Wyvern, os pais do noivo, e de pé estava Thanatos.
— Olá, sobrinha! Surpresa?!
— Filho! – Se levantaram os pais de Radamanthys e falaram em uníssono.
O jovem casal congelou.
— Já sabemos do seu plano maluco...
Antes que a mãe terminasse sua fala, o rapaz tomou a palavra.
— Olha não é nenhum plano maluco, eu já fiz minha escolha, irei casar com Pandora agora mesmo.
— Vai casar com ela e perder todo o seu futuro, não é mesmo? Vai continuar sendo um vagabundo sem responsabilidades, apenas curtindo a vida e o meu dinheiro – disse enfaticamente – Com essa garota desvairada! – Concluiu Richard.
— Senhor, não tem o direito de me insultar! Eu não sou desvairada, ou o que quer que seja!
— Pai, eu vou trabalhar, vou me sustentar, e além do mais posso muito bem levar a Pandora comigo pra os Estados Unidos.
— Filho, pense bem, você é muito novo ainda pra se casar, ainda não amadureceu. Precisa primeiro crescer individualmente. Por favor, meu anjo, não seja tão impulsivo. – Pediu a mãe.
— Se você quiser casar, faça. Mas saiba que estarei decepcionado pra sempre com você, principalmente por ter fugido e não lhe darei mais um centavo.
Ao ouvir a palavra decepção, Radamanthys calou-se. Para ele era muito importante ter a aceitação dos pais em tudo e jamais decepcioná-los. A questão de honrar os interesses da família muitas vezes superavam sua vontade de viver por si só, por suas próprias regras.
Pandora ao perceber que o noivo estava abalado tentava se comunicar com ele pelo olhar. Angustiada, ela sentia o coração apertar, com medo de que ele desistisse do casamento.
— Temos tantos planos pra você, meu filho. Realmente quer passar por cima de tudo isso? Quer que eu, seu pai, sinta desgosto por você? Eu jamais me esquecerei desse dia, para o bem, ou para o mal. Minhas memórias sobre hoje dependem da sua escolha.
— Pai, eu nunca te desobedeci, mas...
— Nunca? Desde que viemos para Berlim a única coisa que você tem feito é me frustrar. Não é mais um rapaz sério, vive em bebedeiras, deve até se drogar e sei que isso é influência dessa Pandora!
— Tudo que faço é pelo meu próprio querer, não a envolva!
— Saiba que se decidir casar hoje, eu e sua mãe vamos embora. Não nos procure por um bom tempo. E não terá mais mesada.
— Não seja tão duro com ele, o que tem de mais nos casarmos? – Pandora se intrometeu.
— O que tem de mais é que ele é muito novo pra isso, e ele está mudado pra pior. Eu só quero resgatar o meu filho de antes. Sei que você é uma menina problemática que só vai atrapalhar a vida do Radamanthys. Ele nasceu para ser um homem de sucesso como eu, e não para perder tempo com um casamento fadado ao fracasso.
— Nós vamos dar muito certo, pois eu amo o seu filho!
— Lógico que não. São jovens e imaturos, e você é instável. Ingredientes perfeitos pra que seja um grande erro que só irá atrapalhar a vida dele.
— Pai, chega! – Gritou Radamanthys, nervoso.
— Filho, escute seu pai, escute nossos conselhos. Venha conosco para a América. Lá você vai crescer como homem, depois pensa em se casar com a Pandora.
— Mas eu quero me casar agora!
De repente, Richard levou a mão ao peito e começou a passar mal, como se estivesse enfartando. Mesmo assim resolveu continuar falando.
— Nossa empresa precisa de você. Será meu sucessor, filho. Na América você vai continuar seus estudos, eu sei disso. Mas se ficar aqui tenho certeza que não será nada na vida.
— Papai, tente confiar em mim...
— Não consigo. É muito triste pra mim vê-lo bêbado quase todos os dias. Eu achei que seria melhor que mudasse de país pra você tomar jeito, mas vejo que não vai adiantar... Vejo que não quer seguir o conselho de seu velho pai...
Enquanto apertava o peito, Richard chorava de decepção. Em sua cabeça, Radamanthys deveria ser um filho modelo, exemplar. Mas desde então ele vivia desregrado. Caso assumisse um cargo na empresa nos Estados Unidos, poderia se tornar um alguém mais responsável.
— Querido, o que está sentindo? – Perguntou a Srª. Wyvern, muito preocupada.
— Uma dor forte e falta de ar... Sinto que vou morrer de desgosto hoje.
— Não pode jogar essa culpa para o seu filho, senhor! – Gritou Pandora.
— Cale-se, Pandora! Não se intrometa em assuntos de família. – Disse Thanatos, que até então só observava, igualmente aos demais.
— Pan, precisamos conversar... Vamos lá fora.
Radamanthys tomou-a pela mão e seguiram até a rua.
Chegando lá, Pandora sentia seu coração palpitar, com medo do que viria à tona.
— Pronto, pode falar querido.
— Eu te amo muito, eu quero você pra ser a minha esposa!
— E eu serei sua esposa, meu amor!
— Mas...
— Mas?
— Eu estou confuso.
— Como assim confuso? Não quer mais casar?
A jovem gelou. Em sua mente vinham várias palavras desordenadas, que, se vacilasse sairiam rapidamente, como num surto.
— Eu quero me casar com você. Mas estou sentindo um peso na consciência pelos meus pais. Sabe, eles são muito importantes pra mim, temo decepcioná-los. Você não sabe a fé que eles colocam em mim!
— Decepcionar por que vai casar comigo? Francamente, Radamanthys, achei que você fosse um cara mais seguro! – Ela começava a perder o controle.
— Eu sou seguro, mas, caramba. Eu amo o meu pai extremamente, ele está a ponto de morrer lá dentro por minha causa!
— Então me diz, o que vamos fazer agora? Vai me largar?
— Não vou te largar, mas quero fazer uma proposta: Você esperaria mais algum tempo para nos casarmos?
— Mas que merda!
— Minha querida, espere eu me estabilizar na América, desse jeito meus pais não terão do que reclamar. Eu quero provar pra eles que consigo ser um homem responsável e potencial substituto do meu pai. Desse jeito terei o apoio deles e você comigo. Não quero abrir mão de nenhum dos lados, entende?
— Se tinha isso em seu intimo por que fugiu comigo? Por que me fez de boba? Até nossos amigos você envolveu pra agora desistir? Radamanthys eu achava que você estava certo do que queria, eu...
— Eu estou certo, eu quero me casar, mas se esperarmos um pouco mais tudo dará mais certo! Tente me entender!
— Eu não quero te entender! Você é um imbecil! Não passa de um filhinho de papai, que vive na barra deles. Eu queria que tivesse mais atitude própria, que pensasse por si!
— Esse é o único jeito para resolver as coisas. Poxa, não quero romper com meus pais.
— E pra isso está sacrificando nossa relação. Achei que eu era um pouco mais importante pra você. Vai ver você também acha que sou desvairada!
— Meu amor, eu sei que é difícil por que já está tudo pronto pra o casamento, mas me entenda.
Ele tentou se aproximar da jovem, mas ela se afastou bruscamente e começou a chorar sem controle.
— Você está me deixando no altar!
Pandora repuxava o vestido. Ela arrancou o véu que cobria os cabelos e começava a se bater no rosto, na tentativa de acordar de um possível pesadelo. A garota gritava palavras desconexas, chamando a atenção de quem passava pela rua.
Chorando bastante, ela entrou novamente no cartório, já com a maquiagem completamente borrada e olhou para Thanatos, que não escondia um sorriso no canto dos lábios, depois olhou para os amigos e, finalmente, fixou o olhar nos pais de Radamanthys.
— Não passam de manipuladores, jamais serão pais de verdade! Aposto que está passando mal de mentira, seu velho farsante!
— Amiga, se acalma! – Disse Violet tentando se aproximar de Pandora, que se debateu tentando repelir a outra jovem.
— Não toca em mim!
Pandora nem ao menos piscava, seus olhos estavam arregalados.
— Vocês sabem o que esse covarde fez? Ele desistiu de casar comigo!
— Não foi bem assim, meu amor.
— Eu não sou mais o seu amor! Você me rejeitou vestida de noiva por capricho de seus pais!
— Se você me compreender vai ficar tudo bem.
— Não tenho nada pra compreender! Acabou essa palhaçada.
Pandora olhou para o véu que segurava em uma das mãos e em seguida o rasgou na frente de todos, que ficaram chocados.
Perdendo ainda mais o controle, ela começou a rasga todo o vestido e a gritar novamente.
— Eu te odeio Radamanhys, eu odeio seus pais também! Desejo a vocês uma morte horrível, bem tortuosa!
— Sabia que era mesmo uma louca. Filho se você já se decidiu, vamos embora. – Disse Lucy.
O loiro se aproximou de Pandora para dizer as ultimas palavras.
— É verdade que eu te amo e que quero me casar. Eu nunca te iludi nem tive duvidas quanto à isso. Essa foi a escolha mais difícil e eu também estou sofrendo... Mas sei que no futuro você irá me entender e então ficaremos juntos. É nosso destino ficarmos juntos, Pandora, ainda que não seja agora. Espero que quando se acalmar, voltemos a conversar... Não vou te dizer adeus, por que isso não acaba aqui, mas digo até logo. Meu coração sempre será seu, só seu, e quanto tudo estiver resolvido, eu voltarei.
"Come up to meet you, tell you I'm sorry
You don't know how lovely you are
I had to find you, tell you I need you
Tell you I set you apart....
Nobody said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh, take me back to the start"
The Scientist (Coldplay)
Quando ele se aproximou e deu o último beijo, Pandora foi ao chão e se agarrou nas pernas do jovem.
— Por favor, Rada, não vai embora. Diz que é tudo brincadeira, diz que vai ficar comigo. E-eu te perdoo se você ficar!
— Eu sinto muito, Pan.
— Você, você disse que nunca iria me deixar! Você prometeu pra mim! – Ela chorava e soluçava enquanto se humilhava.
— Já expliquei a situação e como tem de ser. Vamos nos reencontrar!
— Mas eu não quero esperar, e-e eu sei que você não volta mais, eu sei! Então não me deixa. Eu faço tudo que você quiser, serei a melhor esposa do mundo, te darei muitos filhos... te amarei pra sempre. Só diga que não vai embora! Diga, diga pra seus pais que você me escolheu, e foda-se a empresa! Diga que são um bando de materialistas ridículos, e que você valoriza mais o nosso sentimento...
“Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas”
(Ne me qitte pas – Maysa)
Ao ver o descontrole de Pandora, os seus amigos se entristeceram profundamente por perceberem que ela estava enlouquecendo.
Radamanthys sentia por dentro um peso enorme pelo que estava a fazer. Qualquer decisão que tomasse o deixaria mal. Mas ele fechou os olhos e se livrou das mãos de Pandora.
Antes que o jovem fosse embora, Pandora deu curso ao seu surto e saiu com o vestido rasgado pelas ruas de Praga, correndo sem destino enquanto chorava descontroladamente.
Após observar tudo, Thanathos, com muita calma, entrou em contato rapidamente com serviço de saúde e com a polícia, para conterem a sobrinha.
Radamanthys, muito preocupado com a atitude da jovem, receou ir com os pais. Passava por sua cabeça voltar atrás de tudo aquilo e dar seguimento ao casamento, mas estava quase que petrificado.
— E-eu acho que devo procura-la... – O rapaz falou num quase sussurro.
— Não há mais nada que você possa fazer, Radamanthys. Vá logo embora! – Disse Violet, com muita aspereza.
De repente, todos os amigos o olhavam com muita ira pelo que ele havia feito. Não havia decepcionado apenas Pandora, mas a todos aqueles que o tinham como um irmão, que desejavam o casamento e que haviam dedicado um tempo de suas vidas para ajuda-los na fuga.
— Pessoal... Vocês precisam me entender. – Ele sorria forçadamente tentando controlar o choro.
— A Violet já disse, e eu repito, vá embora! – Gritou, já impaciente, Aiacos.
— Foi lamentável, Rada. Eu mal consigo olha pra sua cara... – Disse Minos, desviando o olhar.
— Eu não posso ir embora sem saber como ela está!
— Ela está arrasada, apenas isso! E nem venha tentar se arrepender, já era. Eu, como melhor amiga dela, não permito que se aproxime mais.
Ao perceber a total rejeição, Radamanthys deus às costas e decidiu seguir em frente, com os pais.
Aiacos, Violet e Minos saíram pelas ruas a procura de Pandora, que a essas alturas se encontrava parada numa calçada, prestes a entrar numa avenida com um fluxo rápido e movimentando de carros.
Os olhos da jovem estavam pesados de tanto choro. Suas feições desfiguradas revelavam o desespero. Nada mais fazia sentido, Radamanthys era seu sentido. Enquanto se preparava para colidir com algum veículo propositalmente, ela olhava para o céu, na esperança de que algo viesse lhe salvar, talvez seus pais... Ou talvez Radamanthys.
— Você foi um covarde, estragou tudo, por quê? – Pensava consigo mesma. Agora eu não tenho mais nada... Nenhum sonho!
"And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it's
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky...
Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you..."
The blower's Daughter (Damien Rice)
O pé direito tocou o asfalto da avenida, enquanto ela ainda estava travada. Até que num impulso ela se jogou de uma só vez na pista. Nesse momento, ela sentiu seu corpo desvanecer, e perdeu os sentidos. Entretanto, não pode sentir que antes de se entregar por completo à morte, teve seu braço puxado e foi arrastada novamente para a calçada por uma mulher que a estava observando.
Após salvar a vida de Pandora, a mulher entrou em contato com uma ambulância, que ao ouvir as descrições da jovem, logo a identificou como a que já estava sendo procurada.
Ao chegar no local, a equipe médica concluiu que a jovem tinha todos os sinais vitais, apenas estava desacordada devido à forte emoção. No entanto, por saberem da situação a sedaram e levaram-na para o hospital mais próximo.
Dentro da ambulância, Pandora ia recuperando seus sentidos, mas seu corpo estava pesado devido ao sedativo. Ela abriu os olhos, e começou a ouvir o som da ambulância. Não sabia se tinha sido atingida, se ainda vivia, ou estava apenas fazendo a passagem para morte. No entanto uma lágrima escorreu pelo seu rosto, até que ela viu a figura de uma mulher que lhe disse: Está tudo bem. E adormeceu.
Os seus amigos e Thanatos já haviam sido comunicados e se encontravam no Hospital ansiando por novidades.
— Oi, eu estou aqui pela paciente Pandora Heinstein, ela deu entrada agora a pouco, nós queremos saber se já podemos visita-la no quarto. – Perguntou Aiacos para uma das enfermeiras.
— Ah, sim, claro. Venham comigo.
Quando chegaram ao quarto, ela dormia tranquilamente, mal parecia que tinha sofrido todo aquele estresse.
— Nossa, ela nos deu um susto! Sabe se vai demorar muito para que desperte? – Perguntou Violet.
— Bem, a dosagem de tranquilizante foi grande devido ao estado fragilizado. Mas dentro de três horas é o esperado para que ela acorde.
Todos, exceto Thanatos que mantinha um semblante frio, aguardavam apreensivos pelo despertar da moça, inclusive a mulher que havia feito o socorro.
O médico que fez o atendimento chamou por Thanatos para lhe dar algumas advertências sobre como proceder na situação.
— Bem, você é o único parente adulto da jovem pelo que consta.
— Sim, doutor.
— Sua sobrinha está num estado de choque, ela está sendo mantida por tranquilizantes. Mas ao sair deste hospital será necessário que ela seja acompanhada por um psiquiatra e faça também uma psicoterapia. Infelizmente sou apenas clinico, mas posso lhe indicar algum especialista.
— Está bem, acredito que vá passar tudo isso, mas vou considerar a sua sugestão.
Thanatos sorria de canto, enquanto desviava o olhar.
— Não é uma sugestão, é necessário. Sem o acompanhamento sua sobrinha pode ter sérios problemas. Por acaso não está me levando a sério, senhor?
— Longe de mim estar fazendo isso! Apenas acredito que ela ficará bem.
— Meu aviso está dado. Estaremos fazendo um monitoramento do estado da sua sobrinha e realizando alguns exames mais gerais só para saber seu estado de saúde, mas amanhã daremos alta para ela e eu receitarei uma medicação específica.
— Ok, ok...
Passaram-se as horas e a morena foi acordando lentamente. Primeiro ouviu o som do ambiente, o barulho do ar-condicionado. Depois sentiu o frio do quarto, e por fim, abriu os olhos gradativamente, tomando consciência.
Naquele momento as recordações vieram todas de uma vez, como uma martelada. Estava impotente num leito de hospital, se quer tinha forças para chorar. Seu plano de suicídio tinha falhado miseravelmente.
Ela tocou o próprio corpo, na tentativa de achar ferimentos de uma possível colisão, mas não encontrou, o que a levou a pensar que alguém a salvou antes do pior.
Agora que havia sobrevivido, teria de assumir o que aconteceu e seguir em frente, mas naquele momento não queria fazer nada, apenas ficar prostrada no leito. Contudo, nos primeiros devaneios que teve, pensou:
— Será que foi ele quem me salvou?
Um raio de esperança surgia, mas seria em vão.
Aos poucos, um a um dos amigos foram entrando no quarto para visita-la, mas ela só conseguiu se abrir quando chegou a vez de Violet.
— Eu só quero que você me abrace! – Pandora desatou em lágrimas.
— Eu sempre vou te abraçar, sempre estarei com você.
— Não consigo entender como tudo isso pôde ter acontecido, eu vivi um sonho, uma ilusão.
— Você viveu o que tinha de viver, mas acabou. Agora começa uma nova etapa na sua vida, ok?
— Mas ele era a minha vida.
— Pan, escuta. Pessoas vêm e vão, você mais do que ninguém sabe o que é perder alguém. Já superou a perda dos seus pais, quer coisa pior?
— Só que está doendo muito...
— Claro, mas vai passar e eu vou te ajudar. Vamos voltar pra casa amanhã e tudo ficará cada vez melhor. Confie em mim!
Após as duas conversarem um pouco mais, Violet se retirou para que a ultima visita pudesse entrar. Era a mulher que salvou Pandora.
— Vejo que está bem melhor.
— Você... Eu me lembro do seu rosto, vagamente.
— Sou eu quem te impediu de cometer aquela loucura.
— Ah, meu deus. – As palavras lhe faltaram. – Bem, eu deveria lhe agradecer então...
— Não precisa! Eu te observei um pouco, analisei seu estado e fiquei de prontidão esperando o pior. Você desmaiou antes de pular na frente dos carros.
— Eu estava, e ainda estou muito mal...
— Eu sei, já fui informada de toda a história, e sinto muito. Mas ao mesmo tempo fico feliz que esteja bem, e também fico feliz por você ter amigos de verdade.
— Pois então... Já que você me salvou, diga-me seu nome.
— Partita!
— Humm, acho que o meu já lhe disseram.
— Sim, senhorita Pandora!
As duas se olharam profundamente como se fosse ligadas por uma força maior. Pandora, que estava visivelmente abatida, deixou escapar um tímido sorriso e sentiu-se bem com a presença daquela que era até então uma desconhecida.
Ambas trocaram contatos para que nunca mais se perdessem de vista. E entre uma conversa e outra as horas foram passando até que chegou o momento da bela jovem receber alta.
Ela saiu do quarto acompanhada da sua nova amiga, Partita. Sentia-se tão fraca que precisou ser apoiada. E chegando ao salão principal deu de frente com os amigos, com seu tio, no entanto quem ela procurou com o olhar não estava. Radamanthys não estava.
Pandora sentiu morrer por dentro outra vez. Para ela tinha chegado o momento da confirmação: Ele realmente se foi. Ele realmente a abandonou. Mas ela segurou as lágrimas e o desespero, pois não queria mais permanecer naquele lugar. Ela queria voltar para casa, rever Alone e por as coisas em ordem.
Na viagem de volta, para a surpresa dos amigos, ela preferiu embarcar num avião com Thanatos, para chegar à Berlim o mais rápido possível.
Sentada em sua cadeira confortável de primeira classe ela olhava para o céu o tempo inteiro, tentando criar novos sonhos e sentidos para sua vida, enquanto Thanatos mantinha uma postura enigmática, olhando fixamente para a jovem.
— Não precisa ficar me encarando o tempo todo. – Disse Pandora ao perceber que era observada.
— Sabe, depois de surtar você está ainda mais encantadora, Pandora.
A jovem se virou rapidamente, expressando repulsa, mas teve seu rosto puxado de volta.
— Não, não, não! Nada de revirar o rostinho. Olha bem pra mim.
— Olha, quando eu chegar em casa a primeira coisa que vou fazer é te expulsar de uma vez! – Ela começou a alterar a voz.
— Silêncio, aqui não é lugar pra dar outro escândalo. E digo mais, quando você chegar em casa teremos muito a conversar...
— Não tenho mais nada pra conversar com você a partir de agora, Thanatos.
— Ah, tem sim. Primeiro vamos conversar sobre essa sua loucura de fugir que poderia ter me colocado em sérios problemas. E depois eu tenho uma notícia pra te dar; notícia fresquinha.
— Me poupe das suas notícias. Nada que vem de você me interessa.
— Mas essa notícia não vem de mim, vem de você mesma!
O silêncio pairou entre os dois. Pandora abaixou a guarda e voltou a observar o espaço aéreo, sendo incomodada uma vez ou outra por carícias indesejadas de Thanatos em suas pernas. Mas isso pouco lhe incomodava se comparado com a curiosidade que acabara de ser plantada pelo tio sobre a tal notícia a seu respeito.
Foto do capítulo: Esmeralda e Pandora
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