Entre Rosas e Espinhos
7 Capítulo 7: Enfrentando as consequências
Notas iniciais
Londres, Reino Unido.
Era uma bela manhã de sábado. A cidade sempre cinzenta dessa vez estava com o céu limpo, uma raridade!
Ikki dormia tranquilamente e ao seu lado repousava a bela jovem ruiva, Marin. Essa foi a primeira noite que passaram juntos depois de terem saído para dançar e beber. Ambos descansavam, até que o celular do rapaz tocou por volta das 7:00 horas. Ele acordou num sobressalto, levando a mão ao peito, como se pressentisse algo.
— Alô!! – Exclamou, aflito, sem ao menos verificar de quem era o número.
— Oi, primo. Quem fala é o Megume! Está tudo bem?
— Que susto você me deu...
— Como assim? Estava esperando algo ruim?
— Não é que... Eu achei que poderia ser a Esmeralda. Mas parece que ela nunca mais vai me ligar de novo.
— Ainda mais agora.
— Agora? O que houve? – Perguntou, já angustiado.
— Melhor você se sentar, respirar um pouco. Relaxe. Eu tenho algo muito sério para te dizer sobre ela.
Ikki sentiu o corpo gelar. Há um tempo não recebia notícias de sua amada. Sabia do casamento, no entanto depois do última conversa dramática que tiveram ela nunca mais havia dado sinais de vida, e ele tinha decidido tentar seguir em frente, até mesmo procurando se envolver com outras pessoas, como a Marin. Mas saber que algo não estava bem com a jovem lhe deixou extremamente perturbado naquele momento.
— Ikki, a Esmeralda está presa.
— Quem a prendeu, o tal marido?
— Não, a polícia. Ela matou o marido e também o miserável do pai.
O jovem levou as mãos à cabeça. Jamais imaginara que aquela garotinha frágil seria capaz de tal ato.
Ambos passaram cerca de uma hora conversando a respeito do acontecido, e ao acessar sites locais de emissoras de TV, Ikki pode constatar que era verdade, pois tudo sobre o crime tinha sido noticiado devido às condições da situação.
No final da ligação o jovem sentia-se arrasado. Queria poder ter feito algo para livrar a amada das mãos do pai, do marido. Poderia ter cometido essa loucura em seu lugar. E agora nada poderia fazer para ajuda-la, pois ainda não tinha dinheiro para voltar, tampouco para pagar advogados bons o suficiente.
Mas o que mais lhe incomodava era pensar que sua doce Esmeralda jamais viveu a plena liberdade. Quando não mais encarcerada pelo pai, agora estava detida pela polícia.
As lágrimas rolavam pelo rosto do rapaz.
Enquanto isso, Marin fingia estar dormindo, porém escutou toda a conversa e espiava o sofrimento de Ikki por debaixo das cobertas, até que decidiu abraçar o rapaz.
— Melhor que vá embora, Marin.
— Me deixa cuidar de você...
— Eu quero ficar sozinho.
— Ikki você precisa seguir em frente, querendo ou não ela já pertence ao seu passado. Você mesmo me disse que ela te dispensou! Eu quero ficar contigo, poxa.
— Por favor, vá embora! Sinto muito, não tenho cabeça para assumir nada com você no momento.
Após ouvir o tom áspero do rapaz, a jovem decidiu obedecer. Vestiu-se, recolheu seus pertences e foi embora, batendo a porta do quarto com toda força, fazendo com que Shun, que dormia na sala, despertasse.
— Marin, o que aconteceu? Por que já vai?
— Pergunta pra o seu irmão.
Sem olhar pra trás, Shun foi correndo até o quarto onde estava o irmão e o encontrou jogado na cama, aos prantos, enquanto gritava por Esmeralda.
— Irmão! Calma!
— Foi minha culpa, Shun! Eu deveria ter ido lá e resgatado ela!
Shun sem pedir qualquer informação, abraçou o irmão com força e deixou que ele chorasse até se acalmar completamente e então tiveram uma longa conversa.
— Ikki, você não tem por que se culpar. Precisa entender que o seu plano de trazê-la conosco falhou, mas foi uma fatalidade. E depois que chegamos, não havia mais como você voltar... As coisas tiveram de ser assim.
— Mas eu penso que poderia não ter voltado, que poderia ter acabado com a raça daquele velho maldito!
— Não pode se condicionar a viver de “poderias”. Passou, mas não acabou. Você e ela permanecem vivos, veja que bom!
— Bom? Shun, ela está presa, e vai ficar assim por sei lá quantos anos. E eu, bem eu estou preso aqui, sem dinheiro.
— Mas um dia vocês podem se reencontrar. Veja você só tem duas opções: Ou espera pacientemente o dia de vê-la, ou segue em frente com a sua vida, quem sabe com a Marin, com outra garota, ou até mesmo sozinho por um tempo! Dê tempo a você, irmão, mas pode contar comigo pra se levantar, faremos isso juntos.
Ao escutar as palavras do irmão, Ikki sorriu.
— Você é tão jovem, mas já tão cheio de sabedoria. Eu te admiro muito, Shun. Obrigada pelo seu apoio! A partir de agora vou lutar mais do que nunca pra conseguir revê-la!
— Mas não faça loucuras, lembre-se de que a faculdade começará em breve, e é seu sonho.
— Não irei fazer nada disso. Vou seguir com meu sonho e a partir dele é que irei voltar para minha Esmeralda.
— Fico feliz que seja assim!
— Shun, agora eu tenho mais força ainda pra lutar. Eu jamais serei feliz sem ela, jamais amarei outra vez...
Equador.
Numa pequena cela escura, com cerca de cinco mulheres, se escondia, no canto da parede, a jovem Esmeralda. Os cabelos estavam completamente desgrenhados, e o olhar sempre distante.
— Ei, menina. Melhor ir se levantando, daqui a pouco é o banho de sol.
— Não vou.
— Como assim não vai, já faz uma semana que você diz a mesma coisa e fica aqui trancada. Ainda por cima não come. Desse jeito vai morrer!
— Eu quero ficar sozinha.
— Odeio ver as pessoas se matando assim... Por isso não vou deixar você só, ok? Aliás, qual é o seu nome mesmo?
— Esmeralda...
— Prazer, Jisty!
— O que você fez pra parar aqui?
— Eu matei meu tio, porque ele me estuprou. E você?
— Eu matei meu pai e meu marido...
— Nossa, e por quê?
— É uma longa história.
Jisty convenceu Esmeralda a ir com ela tomar o banho de sol com as outras detentas. Enquanto isso, ambas foram contando suas histórias de vida e de crime.
— Você já foi julgada, Jisty?
— Sim, eu peguei oito anos... É muito tempo, mas meu advogado vai tentar reduzir a pena. E você?
— Ainda não. E eu não tenho advogado. Nas minhas condições é impossível que eu tenha...
— Mas e esse homem do qual você me falou, o tal de Ikki, ele não poderia arrumar algum?
— Eu te disse que dei um fora nele. E além do mais, ele não tem como voltar, não tem dinheiro.
— Eu sinto muito, só um milagre então.
— Acho que vou pegar a pena máxima... Eu não quero nem imaginar o que as pessoas estão pensando de mim!
A jovem loira pôs-se a chorar, enquanto era consolada pela outra detenta.
— Não fiques assim, você é uma moça boa que infelizmente teve de tomar essa atitude! Os monstros da questão eram seu pai e seu marido... Nossa, que asco deles! Os homens sempre fazem as merdas e nós mulheres temos que aguentar até explodirmos. É injusto que te olhem mal.
— É injusto que te olhem mal também.
Enquanto as duas jovens conversavam, um grupo de mulheres de aproximou.
— Ei, você é a tal bonequinha assassina? – Perguntou a mulher mais alta, apontando para Esmeralda.
— Não fala desse jeito com ela, María!
— Olha só, viram meninas? A vamp já está defendendo a amiguinha!
— Me deixa em paz!
— Ui, ela grita!
As mulheres começaram a gargalhar.
— Seguinte, aqui você não é nada, entendeu? Vim só pra avisar que você me deve respeito e obediência. Pelo visto vamos passar muitos anos juntas, então é melhor se acostumar. Quando eu pedir pra você fazer algo pra mim, você fará, ok?
Esmeralda fingiu que não escutou e virou o rosto. Mas imediatamente María puxou-a pelos cabelos.
— Eu perguntei se tá ok. – Disse a mulher, trincando os dentes.
— Ninguém fará de mim escrava outra vez! – Gritou Esmeralda, cuspindo em seguida no rosto da mulher.
— Vadia desgraçada! Você vai se ver comigo!
O bando deu às costas para Esmeralda, mas de súbito, as cinco detentas retornaram para agredir a frágil garota.
María, a líder, deu um forte soco no rosto da jovem, que foi ao chão. E em seguida as outras quatro mulheres lhe chutaram até que ela pôs sangue pela boca.
Ao se darem conta da situação, várias outras detentas se acercaram e formaram uma roda de observadores, enquanto Esmeralda continuava sendo agredida. Quando então algumas agentes penitenciárias chegaram ao local e acalmaram a situação.
Até então, Esmeralda ainda não estava sofrendo muito pelo local onde se encontrava. Mas ela percebeu então que de agora em diante seria muito difícil estar ali. Talvez morresse antes de concluir sua pena.
Ela foi levada à enfermaria, onde passou um tempo com Jisty, até que recebeu um chamado.
— Esmeralda Gonzalez, tem visita pra você! Se arrume e venha comigo. – Disse uma das agentes.
Ela pôs o uniforme rapidamente, mal penteou os cabelos e seguiu até a sala de visitas. Ao chegar ao local se deparou com a figura de um homem alto, forte, cabelos negros compridos e que a aguardava com um sorriso tímido.
— Pois não? – Ela perguntou
— Olá, Esmeralda. Prazer, me chamo Saga Arvanitis! Sou advogado.
— Prazer senhor, mas sinto muito, não tenho condições de ter um advogado.
— Eu sei. – Ele sorriu.
— Então o que deseja?
— Eu me interessei muito pelo seu processo, desde que vi o caso pela televisão. Passei várias noites lendo sobre você, sobre o ocorrido e me sensibilizei bastante.
— Não preciso de pena. Pode ir embora.
— Não se trata de pena, mocinha. Acho que pelo meu sotaque você já deve ter percebido que eu não sou daqui. Eu venho da Grécia, já atuei em várias partes do mundo como criminalista, menos na América do Sul. Decidi então me mudar por uns tempos e atuar no Brasil, mas acabei descobrindo seu caso na internet e me comovi bastante, é como se fosse um chamado... Agora estou aqui. Pretendo que esse seja meu ultimo caso na vara criminal, então, por favor, peço que reconsidere.
— Isso é loucura... Não perca seu tempo com uma causa perdida.
— Garota, eu sou o melhor advogado de Athenas, acha mesmo que vim pra perder? Você tem chances de ter uma pena bastante reduzida. Aceita ou não minha ajuda?
A jovem loira, desajeitada, por dentro achava a história muito confusa. Mas Saga mostrava em seu semblante ser um homem muito seguro, determinado e que estava realmente disposto a ajudá-la.
— Está bem... Senhor Saga, eu aceito que me ajude.
— Ótimo, será um prazer lhe ajudar. Hoje mesmo começarei a por as coisas em prática! Por enquanto, tome meu cartão, eu entrarei em contato com você dentro de alguns dias.
Esmeralda tomou o cartão, enquanto o homem acenava, despedindo-se.
Sempre que lia as informações do cartão e se lembrava da figura confiante de Saga, ela sentia uma ponta de esperança. Seguiu pensando sobre aquilo durante os dias que se seguiram até o próximo encontro.
Nova York, USA.
A família Wyvern chegou ao novo endereço num dia chuvoso em Nova York. Eles tomaram um taxi até uma parte nobre da cidade e finalmente chegaram a uma mansão muito bonita, com um grande jardim e algumas esculturas gregas.
Lucy passou a primeira meia hora apenas admirada com magnitude do imóvel e por vezes questionava ao marido se realmente teria sido necessário tanto luxo.
Richard, por sua vez, apenas mantinha uma expressão fechada desde que partiu de Berlim. Ele ainda estava bastante irritado com a última travessura do filho, e por isso tentava se esquivar da esposa eufórica.
A casa já estava devidamente decorada de acordo com o gosto dos proprietários. Já contava com a presença de vários empregados e o jantar inclusive já estava pronto. Esses eram alguns dos luxos que a família multimilionária poderia desfrutar.
Mas Radamanthys não se admirava com nada daquilo. Era para ele uma situação indesejável.
O jovem não sentou-se à mesa para fazer a primeira refeição da casa junto aos pais. Ele seguiu diretamente para o seu quarto, que era o último na ordem do grande corredor do segundo andar.
Seu olhar estava perdido. O semblante era horrível, carregado. A qualquer momento ele poderia explodir, mas só lhe faltava a oportunidade.
A primeira coisa que fez ao entrar no recinto foi se jogar na cama e por os fones de ouvido para escutar alguma música que o fizesse relaxar antes de qualquer coisa. Porém ao tomar em mãos o celular e deslizar a tela de bloqueio ele viu o que falta para lhe destruir completamente: Pandora. A foto da jovem que enfeitava sua tela inicial.
Várias memórias confusas vinham à sua mente naquele momento, mas única que sobressaía era a imagem de uma linda noiva arrasada, correndo sem destino em direção a lugar nenhum. Era a imagem do último adeus.
Sem beijo de despedida, apenas uma tapa. Foi assim que tudo acabou para os dois, depois de um ato de covardia por parte do rapaz.
Agora tudo estava feito e ele só poderia lamentar. A julgar pelo gênio forte da garota, sabia que Pandora jamais o perdoaria, e a sua vergonha e culpa eram tão grandes que ele nem ao menos conseguia pronunciar mentalmente o nome dela e mal suportava olhar para aquela foto. Sentia-se e era um homem covarde.
“And maybe, I'll find out
A way to make it back someday
To watch you, to guide you
Through the darkest of your days”
Ao perceber que o plano de relaxar ouvindo música não deu certo, ele decidiu tomar uma ducha fria, quem sabe para afastar aqueles pensamentos.
Ele entrou debaixo do chuveiro do jeito que estava, vestido, deixando a água fluir em sua potência máxima. Parecia estar debaixo de uma tempestade fortíssima, o que condizia naquele momento com o estado que se encontrava a sua alma.
Ali se permitiu pela primeira vez chorar pelo acontecido. Tamanho o desespero de seu choro que precisou se apoiar na parede e suas grossas lágrimas competiam com a água que caía sob seu rosto. E logo pensou que precisava fazer algo.
Passados trinta minutos do tortuoso banho, ele caminhou novamente até a cama e tomou o celular mais uma vez. Ele discou o numero de Aiacos, pois queria saber dele como estava Pandora, mas a ligação não foi atendida. Ligou também para Minos, e também não foi atendido. Só não teve coragem de ligar para a própria Pandora.
A falta de informação e a curiosidade para saber se ela estava bem lhe torturavam. E quando ele pensava que ela poderia ter cometido um ato de loucura por sua culpa, seu coração gelava. Foi até mesmo acometido de náusea.
As palavras culpado e covarde invadiam a cada segundo sua mente. Não conseguia mais suportar.
“Run away with my heart
Run away with my hope
Run away with my love”
Radamanthys foi novamente até o banheiro e levou alguns objetos pessoais. Estava prestes a fazer algo que jamais havia pensado ou feito outra vez, algo que para ele sempre foi coisa de pessoas fracas. Mas ele era um fraco agora.
Ele pegou uma lâmina de barbear e olhou fixamente para o objeto. Passados alguns minutos o jovem tomou coragem e feriu a si mesmo.
Enquanto abria o primeiro corte ele pensou na única pessoa conhecida que já havia feito algo assim: Pandora. Tanto que ele a incentivou a não mais fazer isso! Mas pensou: Seria provável que neste exato momento ela pudesse estar numa recaída outra vez, que pudesse dessa vez estar levando o corte até o final... E quanto mais pensava nisso, mais aprofundava a lâmina.
De alguma forma sentia alívio, pois estava transferindo a dor psíquica para a dor física. E queria ir além, queria acabar com tudo, com a culpa e a vergonha. Mas não teve coragem de ir até o final e caiu de joelhos no chão, ensanguentado, quebrado.
E adormeceu ali mesmo.
“If I could, then I would
I'll go wherever you will go
Way up high or down low
I'll go wherever you will go
If I could turn back time
I'll go wherever you will go
If I could make you mine
I'll go wherever you will go” (The Calling — Wherever You Will Go)
Berlim, Alemanha
Há uma semana Pandora não saía do quarto, não se alimentava e nem tomava banho. Tudo que a jovem fazia era chorar e dormir.
Em grande parte do tempo era visitada por Alone, que em solidariedade à irmã sempre levava um doce, porém ela não comia nenhum deles.
Naquele dia ela acordou bastante enjoada, foi até o banheiro e vomitou o estômago, pois de conteúdo não havia nada. Depois disso, finalmente ela começou a sentir fome e então criou coragem para descer até a cozinha.
Na ocasião, Thanatos e Alone estavam almoçando em total silêncio até que a moça apareceu.
— Pan!! – Gritou o menino Alone. – Finalmente você veio!
— Mas olha só quem ressuscitou, a princesa Pandora.
Apática, ela seguiu até o balcão para fazer seu próprio prato, sem proferir qualquer palavra. Sentou-se à mesa e começou a devorar rapidamente a grande quantidade de alimento.
— Desse jeito vai se engasgar, querida! – Disse Thanatos em tom sarcástico.
Pandora olhou fixamente para o tio e subitamente desmaiou, caindo da cadeira em que estava.
Alone ficou aflito, e Thanatos apenas sorriu. Ele foi até a jovem, tomou-a pelos braços e a levou novamente até o quarto.
Durante quinze minutos Pandora permaneceu desmaiada, no entanto respirava normalmente. Então ela acordou e se deparou com a figura do tio, que estava sentado ao seu lado na cama.
— Você é forte, sobreviveu!
— O que quer aqui, Thanatos?
— Eu lhe trouxe até aqui.
— Como assim? Achei que eu estava dormindo...
— Não minha querida, você acabou de desmaiar lá embaixo. Eu te trouxe de volta.
— Então... Então não foi um sonho, eu realmente desci.
— É, Pandora. Percebe que não está bem?
— Eu estou bem, apenas estou com fome, talvez seja isso.
— Talvez seja isso, talvez seja outra coisa que eu tenho certeza de que é.
— Melhor você ir embora, pois não estou disposta a ouvir suas asneiras. E logo quando eu me recuperar te expulsarei daqui!
— Melhor mesmo é você se alimentar um pouco, pois precisamos conversar. Já esqueceu que tenho um assunto para lhe contar? Mas não precisa fazer esforço! Pedirei que tragam seu almoço até aqui.
Uma das empregadas levou o almoço de Pandora e a jovem se satisfez depois de um longo período de jejum. Mas ao mesmo tempo em que comia, sentia seu coração palpitar forte diante do suspense feito pelo tio.
— Pronto. Já pode me dizer do que se trata.
— Respira fundo. – Falou o homem enquanto gesticulava.
— Não me enrola mais!
— Ok. Pandora, acredito que você não tem se sentido muito bem.
— Faz parte.
— Enquanto você esteva internada naquele hospital fizeram alguns exames e...
— E?
— Descobriram que você está com uma grave doença. Algo que realmente vai mudar sua vida, por isso eu me preocupei em te fazer almoçar, para que aguentasse a notícia! – Disse Thanatos enquanto franzia o cenho cinicamente, e se expressava de modo teatral.
Pandora cerrou os olhos e conteve a emoção. Respirou algumas vezes e seguiu na conversa.
— Posso saber qual é a minha doença?
— É algo muito, muito terrível.
— Foda-se, eu já estou muito mal mesmo. Mas tenho direito de saber. O que eu tenho?
— Gravidez. Eu sinto muito.
Pandora estremeceu. Ela levou a mão ao peito enquanto lhe faltava o ar. Naquele momento ela acabou de desmoronar completamente, a cabeça parecia girar, mas ela não desmaiou outra vez, apenas estava completamente perdida e sozinha.
— Vo-você deve estar brincando comigo...
— Quer que eu te mostre o exame? Tudo bem, pode pegar.
Thanatos entregou um envelope contendo alguns dos exames que ela fez no hospital em Praga, dentre ele o fatídico em que constava o resultado da gravidez.
Pandora olhou uma, duas, três vezes até conseguir digerir que a notícia era verdadeira e então pôs-se a chorar copiosamente se agarrando ao travesseiro.
— Está vendo, não é? O titio não mentiu. Agora pode ir parando de chorar! Está grávida por que quis, sua irresponsável! E está completamente sozinha por que aquele vagabundo te abandonou. Sabe o que ele deve estar fazendo agora? Fazendo filho em um monte de puta enquanto você faz a donzelinha abandonada. Bem feito.
— Seu miserável, eu vou te matar!
Pandora estendeu o braço para dar uma tapa no rosto do tio, mas ele a deteve segurando a delicada mão da jovem.
— Cuidado com o que você pensa em fazer e abaixe o tom de sua voz!
A garota se rendeu e sua expressão mudou rapidamente para algo próximo ao choroso.
— Exijo que saia agora, Thanatos.
— Não tenho mais nada a fazer por aqui mesmo... Curta o seu momento. – Disse o homem, dando uma piscadela.
Quando o homem se retirou, Pandora se atirou ao chão, na tentativa de cavar um buraco e se esconder do mundo. Sentia-se a pessoa mais solitária da face da terra; agora teria de criar um filho sem pai.
Ela sempre sonhou em ter um filho de Radamanthys, mas não esperava que isso fosse ocorrer nessas condições e o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça depois do choro foi de que não queria seguir com a gravidez.
Em seguida ela juntou algumas roupas, pôs numa bolsa e se dirigiu até o apartamento de Aiacos na pretensão de conversar com Violet, sua melhor amiga.
—--------------------- No apartamento de Aiacos ------------------------
O local estava bagunçado, com indícios de uma noite de farra. O relógio marcava duas horas da tarde e Aiacos ainda dormia profundamente, assim como Minos. Mas Violet estava acordada, assistindo uma programação qualquer, quando se assustou com as batidas de Pandora à porta.
— Quem é? Não precisa derrubar a porta, ok?
— Sou eu, a Pandora. Abre logo, por favor.
Quando Violet abriu foi imediatamente abraçada pela amiga que chorava sem parar.
— Por Hades! O que aconteceu contigo? Seu rosto está encarnado de tanto chorar!
— Aconteceu uma coisa muito ruim amiga, eu quero morrer!
— Calma, senta aqui no sofá, eu vou pegar uma água pra você...
Pandora sentou-se e tomou o líquido. Mas seu corpo inteiro tremia, sua pele estava gelada e ela tentava se explicar entre soluços.
— Então, vejo que está melhorando... Você está me deixando muito aflita, me conte o que houve.
— Vo-vo-cê promete que não vai me abandonar?
— Por favor, Pan! Que é isso agora? Estou contigo até o fim, você é minha irmã do coração! Não me importa o que tenha pra dizer, eu te apoio, ok?
— É que todo mundo sempre vai embora, não é mesmo?
— Não exagere. Sei que esse todo mundo aí se refere ao traste do rada...
— Não somente a ele, mas aos meus pais também.
— Seus pais morreram, é diferente. Não os coloque no mesmo patamar daquele covarde.
— Meu pai também foi um covarde... Se ele me amasse não teria feito aquilo!
— Já disse milhões de vezes que você precisa perdoar o seu pai. Mas olha, o assunto aqui é você. Me conta logo o que aconteceu, mulher!
— Eu estou grávida. – Disparou a jovem.
Violet de início ficou sem reação, mas tentou esboçar um sorriso, mesmo sabendo que a situação era delicada.
— Deve ter um lado bom nisso tudo...
— Eu vou abortar. – Pandora a interrompeu.
— Epa, epa! Olha só o que você diz, hein? Isso é muito sério.
— Olha pra mim. Como você acha que eu tô me sentindo? Você acha que é legal criar um filho sem pai? Pior, acha que vale a pena ter um filho daquele imbecil?
— Esse bebê não tem nada a ver com o que aconteceu. É uma criatura indefesa que precisa de você. Seja forte, poxa!
— Ah então agora você é conservadora? Achei que fosse apoiar minha decisão.
— Não sou conservadora, mas estou achando sua decisão muito precipitada.
— O que eu vou dizer pra essa, essa... Esse filho quando ele perguntar sobre o pai?
— Diga a verdade, ué. Aliás, vá atrás dos seus direitos e enfrente o pai e os ridículos avós desse bebê!
— Jamais! Eu não quero ter contato nenhum com aquele povo...
— Então não diga a verdade, omita. E Pandora, cá entre nós se você fosse uma mulher pobre que não pudesse dar uma vida digna a essa criança, tudo bem. Mas você é bi, tri, multimilionária, pode contratar babás, dar tudo de melhor, boa educação. Outra coisa, não foi fruto de uma violência. Vocês se amavam! Você desejava o tempo inteiro ter um filho pra poder dar a ele a vida feliz que não tivestes... Então por favor, agora siga em frente com isso.
— Ma-mas.
— Mas nada. Você quer matar esse bebê por puro ódio ao Radamanthys. Está projetando sua raiva nele, simplesmente isso.
Após ouvir tudo aquilo, Pandora calou-se. Ainda não passava pela sua cabeça aceitar a gravidez, mas por hora já considerava a opção de esperar mais um pouco até tomar a decisão final.
— Está bem. Não vou abortar...
— Ótimo! – Disse Violet, sorrindo.
— Por enquanto.
— Já é um progresso.
— Mas até eu me decidir de uma vez, não quero nem pensar que estou... Assim.
— Quer que eu guarde segredo?
— Bem, eu pretendo contar pra os garotos. Para o Hypnos também.
— Falando neles...
Do quarto vinham os dois rapazes completamente despenteados e ressacados.
— Pandora? Que cara é essa? – Questionou o jovem Minos.
— Tenho um aviso para todos. Estou grávida.
— Uau, deixa eu me acordar direito, rapaz. Não vem me dar um tiro assim não! – Disse Aiacos, bastante surpreso.
— Meu santo Hades. O que vai fazer?
— Não sei ainda... Mas quero pedir a todos vocês que guardem segredo. Estão proibidos de contar pra o traste do pai.
— Quem é o pai? — Perguntou Aiacos.
— Nossa em quem você aposta? – Pandora questionou, irônica.
— Claro que é o Rada, seu anormal! – Disse Minos, dando uma tapa na cabeça do amigo.
— Foi mal, Pan. Eu estou sequelado de ontem. Usei umas coisas meio pesadas, sabe como é? Isso afeta meu raciocínio, mas é bom! – Ele gargalhou.
— Bem, eu quero ficar hoje aqui com vocês, estou me sentindo muito só e meu tio vai me perturbar muito em casa. Aliás, foi ele quem me deu a notícia fazendo muito terrorismo e até me humilhou... Enfim, não quero olhar pra cara daquele monstro.
— Você já era pra ter expulsado ele, Pan. – Disse a ruiva.
— Não pude, estava muito mal de saúde, sem forças pra fazer qualquer coisa. Mas logo irei fazer isso.
— Bem, fique à vontade, o apê é seu também.
— Obrigada, Minos.
As horas foram se passando e Pandora pegou no sono enquanto assistia a um filme com Violet.
A jovem dormia tranquilamente até que foi invadida por sonhos confusos, vendo a figura do pai, depois de Radamanthys e por fim, de um bebê. Ela acordou bastante perturbada e aos prantos.
Violet tentou consolar, mas não obteve sucesso. Então Pandora foi até o quarto de Aiacos tentar se acalmar por outros métodos.
— Pan, está mal de novo?
— Preciso que me ajude se não eu vou surtar.
— O que eu posso fazer?
— Me dá alguma coisa... quero me sentir melhor, tranquila pelo menos por um momento.
— Pra acalmar? Alguma porcaria que uso então?
— O que tiver de melhor.
Aiacos buscou entre as suas coisas um dos seus cigarros ilegais e entregou para Pandora. Ela preveria fugir da realidade que encará-la de frente. Por alguns minutos relaxou, e em seguida voltou a dormir sem mais interrupções.
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