Entre Rosas e Espinhos
5 Capítulo 5: Em busca dos sonhos
Notas iniciais
Praga.
Uma pose, uma foto. Foi assim o dia inteiro para os fugitivos turistas e seus amigos. Estavam tão maravilhados com a cidade que até pensavam em ficar para sempre. Parecia que viviam em um filme de romance e ação, mas longe de Berlim se sentiam mais confiantes para levar o plano em frente.
Já era meio dia, sol fraco e um clima muito agradável, quando eles sentiram fome e pararam para almoçar num pequeno restaurante em frente ao rio Vlatva.
— Bem, amigos, vamos comemorar agora! Está sendo ótimo participar desse plano com vocês, estou amando esse lugar! – Disse Aiacos, já com uma cerveja em mãos.
— Realmente. Podemos nos casar aqui também, não é mesmo Aiacos? – Indagou Violet.
— Casar? Mas já? Melhor irmos com calma! – O jovem sorria cinicamente enquanto Violet o dava tapas.
— Pandora, onde pretendem passar a lua de mel? – Perguntou Minos, curioso.
— Eu não sei, não planejamos nada disso...
— Diga um lugar e iremos, minha querida.
— Pode ser aqui mesmo, e depois podemos pensar num outro lugar, talvez na Áustria, ou Grécia.
— Então assim será!
— Agora vocês me dão licença, eu preciso fazer uma ligação...
— Como assim amiga? Vai entregar a gente? – Questionou Violet.
— Não é bem entregar, é que tem uma pessoa me ajudando, entende? Um amigo meu. Eu falei dele pra você, é o Hypnos!
A jovem saiu do restaurante e ao ligar o celular percebeu que havia várias notificações de mensagens e chamadas. Ela tratou rapidamente de ligar para o amigo, que a atendeu com a mesma velocidade.
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— Alô? Hypnos?
— Pandora! Vejo que está cumprindo nosso trato. Já estava preocupado com você.
— Não precisa, eu estou bem, aliás, estamos bem. Além de mim e do meu namorado, três amigos vieram juntos... Mas como estão as coisas por aí?
— Seu tio retornou. Mas fique calma, nós conversamos e ele se convenceu em te deixar em paz.
— Nossa, não sei como te agradecer...
— E tem mais. Os pais do seu namorado vieram aqui.
Pandora respirou fundo.
— Imaginei que a essa hora já tivessem descoberto... Mas o que disseram?
— Eles estavam muito nervosos, seu tio os expulsou daqui. Porém não tema, eles não querem acionar a polícia, pois o filho ficaria em maus lençóis... Apenas falaram que vão dar um jeito.
— Menos mal então... Muito obrigada Hypnos, agora tenho que desligar.
Antes que ela completasse a ligação, o homem a interrompeu.
— Pandora, espere. Me diga onde vocês estão, lembra que me prometeu que diria?
— Estamos em Praga, na República Tcheca, numa pousada chamada Praga Sunshine. Até logo! – Disse a jovem, encerrando a ligação.
—-------------- Fim da ligação -------------------
— Tudo certo, amiga?
— Sim, Violet. Está tudo bem, exceto pelos seus pais, Rada. – Disse a jovem fitando o namorado. – Eles estão nervosos, te procurando... temo que nos achem, por que eu sei que são poderosos o suficiente pra isso.
— Não irão. A Alemanha é enorme, além do mais não deixamos rastros em aeroporto, ou coisa do tipo. Fique tranquila, vamos aproveitar a cidade!
— Eu acabei de ter uma ótima ideia que vai te deixar de alto astral, Pandy!
— Tipo o que?
— Vamos eu e você hoje mesmo procurar um vestido de noiva! – Sugeriu a ruiva.
— Violet, sua louca! Não sabemos onde encontrar isso por aqui e o casamento será simples...
— Não, não, não, você merece! E também vou procurar saber onde faz um bolo de noiva por aqui. Se começarmos tudo isso hoje dará tempo de fazer algo bem legal.
— Já que é assim, eu vou com os rapazes procurar um bom restaurante pra comemorarmos o casamento! Afinal eu sou o padrinho, tenho de fazer alguma coisa. – Falou Aiacos, cruzando os braços.
As moças saíram pela cidade, pedindo informações, até que encontraram uma loja especializada em roupas de festa. Elas admiravam os vários e belos vestidos que viam, imaginando como ficariam em cada um deles.
— Posso ajudá-las? – Uma atendente se aproximou.
— Claro! Precisamos de um vestido para a noiva – Disse a jovem apontando para Pandora. – E outro para a madrinha!
— Os vestidos de noiva ficam na próxima seção!
Ao chegarem à seção elas viram vários vestidos brancos e longos, muito tradicionais. Pandora provou vários deles, por mais ou menos meia hora. Entretanto nenhum deles lhe agradou.
— Então, senhorita, com qual ficará?
— Eu gostei de muitos, mas... Vocês têm algum modelo na cor preta?
A vendedora arregalou os olhos.
— Para noivas não. Mas na loja temos vestidos pretos sim.
— Eu quero vê-los!
Pandora se encantou com o primeiro que viu, ele era completamente preto, com um belo decote, mangas rendadas no estilo medieval, um corset e uma bela cauda bem trabalhada.
— Vou ficar com esse! – Escolheu a jovem, ainda trajando o vestido, deslumbrantemente.
Após comprarem, as duas pegaram na mesma loja o contato de um bom buffet da cidade, para encomendar o bolo e alguns doces e salgados.
—-------------------- Mais Tarde ----------------------------
— Você ainda não me contou como foi hoje na compra do vestido, meu amor.
— Foi divertido, eu espero que você ache ele bonito...
— Me conta como ele é então. – Disse o jovem, agarrando Pandora pela cintura.
— Vai esperar uma semana pra poder ver. – Pandora piscou para ele e em seguida lhe deu um beijo.
— Não olhe pra mim assim, espere o dia do nosso casamento. – Ele sorriu.
— Eu não quero esperar nada, que tal adiantarmos isso?
Pandora retirou lentamente o longo hobby de cetim, ficando apenas com uma bela camisola do mesmo tecido, na cor negra. Seus cabelos estavam soltos, um pouco despenteados, o que dava um charme a mais.
Radamanthys a tomou nos braços e a levou para a cama delicadamente, onde passaram uma das muitas noites juntos.
—------------------------------------ Equador -------------------------------------
Os dias pareciam durar uma eternidade. Ela estava atenta a qualquer movimento que pudesse lhe dar uma oportunidade para fugir.
Esmeralda jurava a si mesma todos os dias que aguentaria seu destino quieta, conformada. Todavia, em todos os seus miseráveis dias ela descumpria as próprias juras.
Aproximava-se o período de quase um mês do seu casamento e tudo até então tinham sido os piores momentos de sua vida. Jango a tratava como um animal. De dia a jovem permanecia trancafiada no quarto, dopada devido aos remédios que tomava à força. À noite ela tinha de aguentar a presença insuportável daquele homem que apenas a violentava sem pena.
A bela garota, de feições tão inocentes, estava perdendo sua juventude naquele cárcere privado.
Naquele dia ela havia acordado um pouco menos sedada, seu organismo já estava se tornando tolerante aos remédios. Estava no quarto, largada sobre a cama, no entanto, presa pela coleira de ferro que circundava seu delicado pescoço.
Um raio de luz entrava pela janela, dando um pouco de iluminação ao quarto escuro. Esmeralda apertou o canto dos olhos e bufou. Ela sabia que seria mais um dia de luta, mais um dia de ficar à espreita para qualquer oportunidade de fuga.
Jango, como de costume, foi até ela levar o café da manhã.
— Trouxe sua comida. Vejo que está bem desperta hoje. – Disse o homem, praticamente jogando a refeição sobre a cama.
— Me sinto um pouco melhor. – Ela desviou o olhar.
— Está fedida! Venha, eu vou te dar um banho, depois você come.
Jango retirou a coleira e a arrastou pelo braço até o banheiro, que ficava fora do quarto. Chegando lá, ele mesmo a despiu com grosseria e foi até a lavanderia buscar uma toalha.
Nesse momento mil pensamentos permearam a mente da garota. Jango havia deixado ela só, poderia então tentar escapar. A única coisa que ela visualizou para utilizar como arma foi uma vassoura que estava próxima ao banheiro.
Esmeralda, sem fazer barulho, tomou a vassoura e saiu do recinto. Ao chegar à sala pensou em desistir, pois estava nua, seria vergonhoso escapar daquela forma. Mas não havia alternativa, deveria tentar mais uma vez, pela última vez.
— Desgraçada! Não pense que vai escapar de mim! – Gritou Jango, furioso, já correndo para capturá-la com uma faca nas mãos.
A garota conseguiu chegar à rua, ela tentava correr, mas se sentia fraca demais devido aos remédios.
Jango correu e conseguiu alcança-la. A jovem, cambaleante, acabou tropeçando em um dos vários buracos da rua de terra, e isso foi decisivo: Foi capturada outra vez.
— Achou que ia conseguir se livrar de mim, vadia? – Dizia o homem colocando a faca no pescoço da jovem, que gritava por socorro, imobilizada. – Não adianta gritar, eu já disse. Ninguém aqui bate de frente comigo!
— Você é um monstro! – Ela esperneava entre lágrimas.
— Está ridícula, nua e nojenta como uma qualquer – Ele a olhou com desprezo. – Sabe o que vai acontecer contigo? Vai voltar pra o quarto, sem banho, sem comida e vai apanhar também!
Com toda brutalidade ela foi arrastada pelos cabelos até o quarto. Seu corpo ficou muito arranhado devido ao atrito com o chão. Mas esse tipo de cena já estava se tornando comum para ela.
Ao chegarem no quarto, Jango aprisionou-a novamente. Para começar ele pegou o café, que ainda estava quente, e despejou nos cabelos da jovem.
— Jango, por favor, me deixa ao menos comer um pouco!
— Vai ficar com fome até segunda ordem. Quando eu terminar de bater em você, a fome passa!
O homem retirou o cinto de couro da cintura e bateu fortemente nas pernas de Esmeralda, que gritou de dor.
— Não me bate mais... Me perdoa!! – Disse ela sussurrando e soluçando.
— Repete. – Ele bateu outra vez.
— Me perdoa!
— Mais alto, vadia!
— Me perdoa!!! – Ela gritou.
— Gostei de ver... Mas ainda está faltando dizer algo.
— Eu prometo que nunca mais tentarei fugir. Prometo que me tornarei uma boa esposa pra você, Jango. Cada centavo que você gastou valerá a pena.
Ao ouvir aquelas palavras o homem recuou. Ele saiu do quarto sem proferir mais uma palavra, depois retornou e jogou as roupas da jovem no chão, mas logo em seguida saiu outra vez, em definitivo.
Esmeralda respirou aliviada, sabia que se não tivesse dito aquilo certamente apanharia muito mais. Sem demora ela devorou o pão que ele havia deixado sobre a cama, saciando a fome. Depois deitou-se, pensou em Ikki, em todos os planos perdidos e adormeceu.
—----------------------------------- Mais tarde ----------------------------------------
Chegou a noite e a jovem continuava dormindo, afinal de contas sonhar era o seu melhor passatempo e embora tivesse muitos pesadelos os bons sonhos eram recompensadores.
Jango entrou no recinto, ainda desconfiado devido ao que acontecera pela manhã. Esmeralda acordou abruptamente ao ouvi-lo fechar a porta.
— Se levante, menina! – Ele ordenou olhando fixamente para ela.
— Sim, senhor.
— Tire a roupa!
Ela abaixou a cabeça, temerosa, sabia o que estava por vim, mais uma vez. Mas não vacilou, dessa vez estava finalmente disposta a obedecer sem se rebelar.
— Apesar de ainda estar suja, continua bela! Se o que você disse foi verdade, faça meu dinheiro valer a pena esta noite!
— Farei tudo que você quiser, marido.
— Vou te dizer uma coisa: Se você se comportar como uma verdadeira esposa eu lhe tiro desse castigo.
Esmeralda sentiu um alivio, sabia que a vida continuaria um inferno, mas sendo obediente as coisas poderiam ser suavizadas. Seria uma escrava com privilégios? Teria de arriscar para ver.
Naquela noite ela agiu como uma verdadeira serva e mulher, sem espernear em momento algum, o que fez Jango ficar satisfeito e de fato acreditou em sua promessa.
—--------------------------------------- Berlim -----------------------------------------------
Há quase uma semana os Wyverns procuravam incessantemente pelo filho em toda a Alemanha, mas não conseguiam pistas do seu paradeiro.
— Nunca imaginei que ele seria capaz disso, estou muito decepcionada com nosso filho. E quer saber? Eu acho que ele não vai mais voltar, afinal não podemos prendê-lo, já é adulto.
— Ele vai brincar de fugitivo até o dinheiro acabar, minha querida. E mesmo que seja um adulto, somos os pais, ele deve nos obedecer!
— Esse seu discurso não vai mais funcionar. – Disse a mulher, incrédula.
— Eu tenho certeza que ele não abrirá mão de nos honrar, além disso, sempre foi obcecado pelas nossas empresas, pelo nome a zelar. Vai ser fácil manipulá-lo ao nosso favor! Ele não abrirá mão da vida que tem pra ficar com aquela menina estranha.
— Se está confiante assim, vá em frente, mas sem o encontrarmos, tudo isso não passa de conjectura, no momento ele nos trocou por ela sim.
— Senhor Richard, um dos seus encarregados deseja entrar. Posso abrir a porta? – A empregada interrompeu a conversa.
— Sim, mande entrar.
O homem se dirigiu ao escritório, apressado.
— Senhor, não quero tomar seu tempo, apenas vim lhe entregar isso. – Disse ele entregando um pedaço de papel
— Do que se trata?
— É o telefone de uma pessoa que parece ter visto o seu filho.
O Sr. Wyvern tomou rispidamente o pedaço de papel, com um olhar de incredulidade. De toda forma, ele não tardou em ligar para aquele numero que aparecia como uma esperança.
—---------------------- Chamada Telefônica -------------------------------
— Alô?
— É verdade que sabe onde está Radamanthys de Wyvern? – Richard disparou sem fazer apresentações.
— Vamos com calma, ok? Primeiro me diga quem está falando.
— Sou o pai dele. Agora já pode me dar a informação?
— Certo, mas eu tenho uma exigência a fazer...
A conversa durou uma pouco mais de cinco minutos. Ambas as partes saíram satisfeitas. Enquanto isso, Lucy aguardava ansiosa para saber o paradeiro do filho.
— E então, querido, onde ele está?
— Fora do país. Ele está com a namorada mesmo, na Republica Tcheca.
— Temos que ir para lá imediatamente!
— Não. – Ele falou seco.
— Como assim? Até poucos minutos você estava desesperado atrás dele, e agora fala desse jeito, como se tivesse desistido de procura-lo!
A cada palavra que dizia, Lucy parecia mais histérica, o que fazia o marido se irritar.
— Pare de desespero, mulher! Eu não desisti de nada, apenas não é a hora certa de irmos. Quando chegar o momento estaremos lá.
—----------------------------------------- Praga -----------------------------------------------
O sol da manhã entrava pela janela do pequeno quarto de aspecto simples, porém muito confortável.
Pandora estava adormecida, parecia uma princesa, com um ar de serenidade. Ela descansava da longa viagem que fez, da andança pela cidade e também da noite agitada que passou com seu amado.
Radamanthys, por sua vez, já estava desperto, mas permanecia na cama, sentado, velando o sono da jovem. Ele se sentia hipnotizado pela beleza de Pandora e por quem ela era. Estava disposto a fazer qualquer loucura para satisfazer a namorada, como um servo, ou até mesmo um cão fiel.
— Você é a minha vida... – Pensou consigo mesmo enquanto acariciava as longas madeixas negras de Pandora, que estavam espalhadas sobre o travesseiro e a cama.
Até que a jovem foi despertando gradualmente. Aos poucos os belhos olhos violáceos apareciam, e ela ronronava como uma gatinha.
— Bom dia, minha deusa!
— Bom dia. – Ela o cumprimentou ainda sonolenta, estirando os braços para puxá-lo. – Me abraça um pouquinho!
Radamanthys foi puxado, caindo por cima da morena, que o agarrou para logo em seguida inverter as posições, tomando o comando e o enchendo de beijos e carinhos, até que sua expressão mudou completamente: o sorriso tímido transformou-se num bico, as sobrancelhas franziram e os olhos se encheram de lágrimas. Ela desabou.
— Meu amor, o que houve? Por que está chorando?
— É que eu estou muito confusa...
— Confusa? Me explique o que está acontecendo.
Os dois se abraçaram enquanto Pandora tentava controlar o choro e encontrar as palavras, que insistiam em não sair.
— Sabe, Rada, eu estou muito feliz por que estamos aqui, juntos. Por tanto tempo eu estive só nessa vida e então você apareceu pra me fazer companhia. Há muito tempo eu não sabia o que era ser amada!
— Eu fico ainda mais feliz por você se sentir assim comigo, mas por que chora? Deveria sorrir, meu amor!
— É por que eu tenho muito medo de te perder. Sei que está chegando o dia do nosso casamento, mas eu sinto um aperto no coração toda vez que penso nisso... É como se algo de muito ruim fosse acontecer!
— Não fique insegura e ansiosa, Pan. Nada vai acontecer, tire essa ideia da sua cabeça e venha aproveitar a cidade hoje comigo, que tal?
— Não é só ansiedade. Desde que chegamos eu tenho lembrado de muitas coisas da minha vida. Queria que você me entendesse, me ouvisse...
— E eu te entendo, sempre pode contar comigo! Se quiser desabafar aqui o dia inteiro, eu irei te ouvir, deixamos o passeio pra depois.
Radamanthys acariciou o cabelo de Pandora, que começava a ficar mais tranquila ao perceber que não estava sozinha.
— Às vezes eu não consigo acreditar que um dia eu serei feliz, por que minha vida sempre foi marcada por desgraças... Se meus pais estivessem vivos tudo seria muito melhor...
— Infelizmente eles não estão, mas você sim, e por isso precisa ser forte.
— Você sabe o que é ser tratada como um lixo?
— Pandora... – Ele tentou interrompê-la.
— Rada, eu tenho tanto ódio de mim. Eu fui tão fraca.
— Não foi culpa sua.
— Todas as noites eu sinto como se ele estivesse me corroendo por dentro. Eu lembro de tudo, desde a primeira vez que ele me bateu e de quando...de quando começou a me abusar.
— Você era só uma criança indefesa, meu amor.
— Mas isso tudo está entalado, sabe. Quando acontecia, ele fazia questão de dizer que eu não significava nada, era apenas uma vadia órfã. Que eu não podia fazer nada. Ele disse que eu jamais seria amada outra vez, que tudo se acabou quando...
— Quando?
— Quando meu pai se matou. Thanatos – Ela engoliu seco. – Aquele homem disse que meu pai fez isso por que não me amava mais.
— Você sabe que isso não é verdade.
— Eu me sentia tão rejeitada quando ele falava isso, toda vez... Ele disse que pessoas rejeitadas não tem nada para oferecer de bom, que ao menos meu corpo poderia servir para a tortura. – Ela entregou-se ao pranto. – Eu tenho cicatrizes no corpo das vezes que ele me chicoteou, e tenho muitas outras na alma.
— Não vai mais precisar ver esse homem...
— Eu sei disso, e graças a você! Você veio para provar que ele estava errado, por que me ama! Com você todas as minhas feridas estão se fechando, por isso eu não posso te perder, entende? Esse é o motivo do meu choro repentino. – Ela enxugou as lágrimas.
— E se eu falhar com você?
— Eu sei que isso não vai acontecer, por que nosso amor é verdadeiro! Você é verdadeiro.
Radamanthys fez o movimento de quem iria se levantar, fazendo com que Pandora se afastasse. Ele sentou na beira da cama e mirou um ponto qualquer, pensativo.
— O que houve? – A jovem perguntou curiosa, abraçando-o pelas costas.
— Nada demais, é que... O que você falou. Bem, eu não sou tudo isso Pandora.
— Não quero que se sinta pressionado, eu apenas confio muito em você, no que sente por mim.
— Pandora, eu te amo e vou te amar pra sempre. Eu sei que represento muito pra você, mas tenho medo de magoá-la. Você é tão frágil...
— Frágil? Não, está enganado, eu suporto muita coisa.
— Você se força a suportar.
— Onde quer chegar com essa conversa? Não está pensando em... Em me abandonar. É isso?
A jovem se voltou nervosa.
— Ei, calma, não é nada disso! Apenas estou te avisando que em algum momento da nossa eternidade juntos eu posso te magoar, ok?
Ele virou-se para Pandora, segurando o rosto da jovem para fita-la profundamente.
— Ok. Mas como seria esse magoar? Acharia outra garota mais bonita que eu?
— Pan! — Ele apenas sorriu.
— Até por que isso não é difícil de acontecer, já que eu sou uma mulher esquisita, tímida, insegura e azarenta.
— Está se boicotando outra vez, apenas isso, pois você é a garota mais incrível do universo!
— Jura?
— Eu juro. E, além disso, é também a minha quase esposa, será a mãe dos meus filhos e a avó dos meus netos. Minha alma gêmea de muitas, mas muitas outras reencarnações.
— Vai me abraçar e nunca mais largar?
— Vou fazer o que você quiser, minha senhora Pandora.
Com muito cavalheirismo, ele pegou a mão delicada da morena e a beijou, para selar o momento.
Pandora levantou-se, dando-lhe um intenso beijo. Depois se dirigiu até a mesinha que ficava ao lado da cama, pegou um cigarro e foi até a janela para fumar.
— Eu prefiro Whisky! – Disparou o loiro, em tom de brincadeira, e em seguida afastando o cabelo de Pandora, para beijar o pescoço da jovem.
— Tanto faz, contato que seja algo mortal...
— Curte um suicídio, né?
— Se você fizer isso comigo, com certeza, meu amor!
“Lost, but now I am found
I can see, but once I was blind
I was so confused as a little child
Tried to take what I could get
Scared that I couldn’t find
All the answers, honey
Don’t make me sad, don’t make me cry
Sometimes love is not enough
And the road gets tough, I don’t know why
Keep making me laugh
Let’s go get high
The road is long, we carry on
Try to have fun in the meantime
Come and take a walk on the wild side
Let me kiss you hard in the pouring rain
Do You like your girls insane?
Choose your last words
This is the last time
‘Cause you and I, we were born to die”
(Born to die – Lana del Rey)
—------------------------------- Inglaterra ------------------------------------------
Na residência do Sr. Takashi todos estavam bem dispostos naquela manhã: Shun ajudava o ancião na cozinha enquanto Ikki realizava uma faxina. O local havia se tornado um verdadeiro lar, com uma atmosfera muito pacífica.
Ikki volta e meia lembrava-se da antiga vida, e principalmente de Esmeralda. Mas quando fazia isso acabava triste, principalmente depois da ultima conversa que teve com a namorada, onde pôde se sentir o homem mais impotente do mundo.
Mas naquele dia de tanta cooperação, permitiu-se esquecer um pouco dos problemas e lembrou que em Londres tinha encontrado muito do que lhe faltou em tantos anos no Equador: Um lar e amigos verdadeiros.
Além disso, ansiava por uma nova notícia, pois a qualquer momento poderia receber sua carta de admissão na universidade. E como as forças do Universo pareciam estar conspirando ao seu favor, isso não tardou a acontecer.
Ikki viu pela janela quando o carteiro depositou um envelope na caixa de correio.
— Será que é o que estou pensando? – Disse consigo mesmo e saiu apressado.
Ele retirou o envelope da caixa, ansioso. Suas mãos estavam trêmulas e suadas de nervosismo, principalmente quando viu que estava endereçada para ele mesmo e o emissário era a universidade para o qual havia prestado o exame.
— Será que devo abrir agora mesmo, ou entrar e fazer isso junto ao Shun? – Pensou. – Não, tem de ser agora!
Ao abrir, seus olhos apenas buscavam a palavra final e quando a encontrou, não pode conter-se.
— Aprovado! Meu Zeus, eu fui aprovado! – Gritou aos quatro cantos.
Ikki entrou em casa, praticamente correndo, e foi até a cozinha onde Shun preparava sushi com Takashi.
— Tio, Shun! Eu tenho uma boa notícia.
— Primeiro precisa se acalmar, jovem rapaz. Quer água? – Disse serenamente o ancião.
— O que houve, Ikki? Seu rosto está encarnado!
— Shun, segure essa carta. – Ele entregou nas mãos do mais novo.
— É da universidade...
— Isso mesmo irmão!
— Se é o que eu estou pensando e você está eufórico desse jeito, quer dizer que... – Shun abriu a boca, abismado.
— Quer dizer que eu fui aprovado em Medicina!
— Ikki! Meus parabéns, eu estou tão orgulhoso de você!
Os dois se abraçaram, ternamente. Shun não conseguiu conter a emoção e acabou chorando nos braços do irmão, que mantinha um sorriso radiante.
— Não chore, Shun.
— É que eu estou muito feliz, sei que esse era seu sonho irmão! Nossos pais devem estar emocionados também agora.
— Meus parabéns, Ikki! Você é mesmo um rapaz de fibra, deu a volta por cima na sua vida! Venha Shun, precisamos fazer muito sushi hoje pra comemorar e podem chamar seus amigos.
— Certo tio! Vamos preparar bastante, mas antes irei ligar para nossos amigos. Essa ocasião merece mesmo ser comemorada!
—------------------------ Mais tarde -------------------------------
Dentro de algumas horas tudo estava pronto: Algumas bolas festivas enfeitavam a casa e os móveis foram reorganizados permitindo que houvesse um espaço maior para a locomoção.
A mesa estava repleta de peças de sushi, de tipos muito variados e bem preparados. Em outro canto da sala havia uma mesinha de doces, que Shun fez questão de fazer às pressas, mas o resultado foi ótimo. Por fim, a geladeira estava cheia de cervejas e refrigerantes.
Aos poucos a humilde residência foi sendo preenchida pelos novos amigos de Ikki e Shun: Os garotos da academia.
Hyoga chegou na frente e logo buscou Shun, para lhe fazer uma saudação amistosa; Shiryu e a prima Shunrei vieram acompanhando e auxiliando o mestre Dohko, que por ser já muito idoso tinha dificuldades em se locomover. Por último veio Seiya, acompanhado de três belas jovens.
Ao perceber a chegada dos convidados, Ikki se apressou em recebê-los, um por um, e tratou de conhecer aquelas jovens que eram para ele até então desconhecidas.
— Seiya! Fico feliz que veio, e vejo que trouxe companhia.
Ikki observou bem as jovens e apesar do seu coração ser fiel à Esmeralda, não podia negar a si mesmo que estava em frente a belas mulheres.
— Ah sim! E como eu não viria?! Mas deixa eu te apresentar. Essa é a Marin, a minha irmã, de quem eu já te falei – Disse ele apontando para uma linda ruiva de cabelos ondulados e corpo muito esbelto. – Ela é a June, uma amiga minha. – Ele fez menção à uma jovem mocinha de longos cabelos loiros e portadora de um lindo par de olhos azuis.
— E eu sou Shina, a namorada dele! E irmã da June.
A garota de cabelos tingidos de verde e olhar sensual o interrompeu antes que ele a apresentasse, agarrando-o no braço, com força.
— Vai com calma, assim você me machuca!
— Desculpa, lindinho.
— Meus parabéns, cara, não sabia que estava namorando.
— Pois é... Nem eu!
Shina fez um bico e pisou no pé de Seiya, o fazendo exprimir um gemido de dor. Mas ao perceber o clima entre os dois, Ikki preferiu cortar o assunto.
— Acho melhor entrarmos, venham comigo! – Ele deu passagem para que entrassem e estendeu a mão para acompanhar Marin.
Já dentro da casa, Hyoga conversava com Shun. A cada dia que se passava os dois se tornavam mais amigos.
Shun não era um adolescente muito dado a amizades, devido aos problemas que sempre enfrentou nas escolas onde passou, por conta de sua fragilidade emocional; ele preferia ficar sozinho, estudando ou apreciando o ar livre, sempre pensativo. A única pessoa com quem se abria, até então, era Ikki, seu irmão e protetor. Mas quando começou a frequentar a academia passou a sentir muita confiança em Hyoga e com ele se sentia à vontade para se abrir um pouco mais.
— Quer dizer que você preparou os doces e a grande parte dos shusis? – Perguntou o loiro, admirado.
— Sim, mas o Sr. Takashi também me ajudou...
— E fez a arrumação também? – Questionou o loiro, o interrompendo.
— Também. – Shun sorriu, tímido. – Mas isso não foi nada, Hyoga, nem me deu trabalho, e eu fiz por prazer, pelo meu irmão, por que ele merece. Isso é o mínimo!
— Queria muito ter um irmão como você, Shun! Uma pena que isso não é mais possível... – O jovem se entristeceu.
— Por quê? Vejo que isso te deixa triste.
— Minha mãe faleceu quando eu tinha dez anos.
— Eu sinto muito. E seu pai, não pode lhe dar irmãos?
— Até que pode, mas ele ainda não casou novamente.
— Aliás, você ainda não me falou sobre ele. Como se chama?
Hyoga primeiramente hesitou em falar, a relação que tinha com o pai não era das melhores. Desde o falecimento da esposa Natássia, o pai do jovem tornou-se um homem frio e distante, que muitas vezes evitava contato com o próprio filho, obrigando o garoto a se virar sozinho e sem muito afeto.
— O nome dele é Camus. Mas é melhor mudarmos de assunto.
Os dois se entreolharam e Shun entendeu que de alguma forma aquele tema causava dor emocional no amigo. No entanto, antes que a conversa tomasse outro rumo eles foram interrompidos por uma das jovens recém-chegadas.
— Oi! Você que é o Shun?
— Sim! E você é uma das amigas do Seiya, qual o seu nome?
— Me chamo June. Finalmente descobri o seu nome! Olha, acho que você não se lembra de mim, mas eu já te conheço.
— Prazer! Mas de onde nos conhecemos?
— Estudamos na mesma escola! Eu sou da oitava série.
— Perdoe-me por não te reconhecer, é que eu não costumo prestar muita atenção nas pessoas lá.
— Eu sei, você vive sozinho, lendo. – A jovem sorriu.
— É, sou o carinha estranho do primeiro ano.
— Não vejo problemas num cara que gosta de ler no recreio. É normal.
— Diz isso por que não me conhece.
— Se você deixar poderei te conhecer melhor.
Ao perceber que estava sobrando na conversa, Hyoga reconheceu que seria melhor se retirar para se reunir com os outros, deixando Shun e June sozinhos para conversarem um pouco mais.
Sentados num sofá estavam o Mestre Dohko e o Sr. Takashi, conversando e se entendendo muito bem, enquanto Shunrei apenas ouvia sentada numa cadeira, perto do avô e observando o primo e os demais que estava numa outra extremidade.
— Então, Marin, o que você faz? – Perguntou Ikki.
— Eu estudo Educação Física e a Shina é minha colega de turma. Mas ainda estamos no primeiro período!
Ela sorriu e se mexeu o suficiente para deixar que um pouco do cabelo lhe cobrisse o rosto. Ikki retirou algumas mechas ruivas, deixando Marin desconcertada com aquela atitude.
Desde que a viu pela primeira vez, o jovem sentia-se diferente. Ao mesmo tempo se recriminava internamente por estar pensando em outra mulher que não fosse Esmeralda.
— Você é muito bonito, Ikki. Imagino que tenha namorada, ainda mais agora que é um futuro médico.
— Namorada? E-eu tenho... Quer dizer, tinha, mas ainda a amo. É uma história muito complicada.
— Imagino. Outra hora você me explica então! Que tal dançarmos um pouco?
Uma música agitada tocava naquele momento. Como os móveis da casa haviam sido afastados, sobrou espaço para que todos pudessem dançar no meio.
Ikki e Marin foram os primeiros a entrar na dança. Em seguida Shun e June também se animaram juntamente com Shiryu e Shunrei, que apesar de ser muito tímida estava tentando se soltar.
Seiya relutou em dançar, mas Shina praticamente o obrigou a fazer isso depois de muitos beliscões.
Até mesmo o Sr. Takashi e o Mestre Dohko acompanhavam o ritmo da musica fazendo movimentos com os braços. Apenas Hyoga permanecia parado, somente observando, no entanto, alegre pelo momento.
Todos se divertiram e dançaram até a exaustão. Enfim, Shun chamou a atenção de todos para convoca-los ao ápice da festa.
— Atenção! Irei fazer um discurso!
Fez- se um silêncio.
— Primeiramente eu quero agradecer a vocês que vieram, essa foi uma festinha de ultima hora, mas que tem um grande significado. Hoje está sendo um dia muito importante na vida do meu irmão.
Ao perceber que os olhos do jovem se enchiam de lágrimas, Ikki tentou quebrar o clima.
— Shun, não precisa falar nada, vamos voltar a dançar!
— Não Ikki, eu quero falar.
E prosseguiu:
— Irmão, você é um vencedor, quem diria que um órfão pobre, que sempre estudou em escola pública e agora, fugitivo, conseguiria entrar num curso de Medicina? Eu tenho orgulho de você, por que tudo que deseja sempre alcança! Parabéns, Ikki, seu futuro brilhante está só começando.
Ao encerrar do discurso, todos aplaudiram. Alguns mais exaltados assobiavam, e Ikki apesar de ser um cara durão deixou que algumas lágrimas rolassem pelo seu rosto corado.
O momento se tornou para ele algo muito emocionante e aquelas palavras de Shun o fez refletir sobre sua trajetória de vida. Seu caminho sempre foi marcado por duros golpes do destino. Primeiro perdeu os pais, depois teve de se virar trabalhando desde a infância e cuidando de Shun. E por fim, perdeu o amor da sua vida e teve de fugir da morte.
Com o golpe final sua vida se fez em mil pedaços. Ele se encontrou em terras distantes, pobre, apesar de ter recebido o apoio do Sr. Takashi, quem o ajudou no passado quando seus pais se foram. Mesmo assim cultivou o sonho de estudar. Agora, renascia das cinzas como uma fênix, atingindo seu primeiro de muitos objetivos. Estava dando a volta por cima.
Ao perceber a comoção do irmão, Shun o abraçou, também chorando de felicidade, e em seguida o Sr. Takashi também se uniu ao abraço. Os pais dos jovens também estavam presente, não fisicamente, mas espiritualmente e naquele momento estavam muito satisfeitos com a superação do filho.
Passado o forte momento de confraternização, o clima de descontração ressurgiu. O rádio foi ligado novamente e todos voltaram a atacar a mesa de doces a de sushi.
Ikki e Marin se aproximaram outra vez.
— Que área pensa em seguir na medicina?
— Ainda é muito, mas muito cedo pra isso, não acha, senhorita?
— Bem, eu achei que no seu pacote de sonhos já tivesse contida alguma predefinição. – Ela sorriu.
— Não quero me limitar agora. Vou entrar com a mente aberta no curso. No entanto...
— No entanto?
— Eu tenho um interesse primário pelo cérebro e pela mente humana... Acho que a psiquiatria ou neurologia pode ser uma forte opção.
— Olha aí! Boa sorte então com isso. Se seguir mesmo esta área pode até cuidar de mim, pois sou um pouco maluca!
Marin se jogou nos braços dele, fazendo com que ele a envolvesse compulsoriamente, se desvencilhando em seguida.
— Estou percebendo. – Ele sorriu sem jeito. – É melhor irmos com calma.
— Desculpa.
— Como eu lhe disse, eu tenho em mente uma pessoa. Sinto decepcioná-la.
— Tudo bem, Ikki. Confesso que estou me sentindo atraída por você, mas irei te respeitar.
— E eu te agradeço pela compreensão, pois meu caso é muito delicado.
— Ao menos poderemos ser amigos?
— Com certeza!
— Ei vocês dois. – Seiya chamou atenção. – Vamos tirar uma foto agora, venham!
Todos se reuniram perto da mesa para saírem na foto oficial do dia, exceto Hyoga, mais uma vez, pois como não gostava muito de sair em fotos se ofereceu para tirá-la.
A imagem que prevaleceu foi de muita alegria, todos estavam com o sorriso estampado no rosto, felizes pela conquista de Ikki, felizes por estarem confraternizando como uma família.
“Some days are meant to be
remembered
those days we rise above
the stars
So I'll go the distance
this time
seeing more the higher I climb
that the more I believe
all the more that this
dream will be mine
if I could reach, higher
just for one moment touch
the sky
from that one moment in
my life
I'm gonna be stronger
know that I've tried my
very best
I'd put my spirit to the test
if I could reach”
(Reach – Gloria Estefan)
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