Entre Rosas e Espinhos
3 Capítulo 3: Decisões complicadas
Notas iniciais
Equador.
— Guilty, já podemos ir agilizando as coisas, hein. Estou com o dinheiro que você me pediu, eu a quero o mais rápido possível! – Disse Jango.
— Calma! Você é bem apressado. Mas ok, dentro de um mês farei esse casamento.
Esmeralda escutava às escondidas e tinha certeza: Estavam falando sobre ela, sobre o tal casamento arranjando com aquele traficante. Infelizmente a vida não estava se desenrolando como ela desejava. Sempre sonhou em se casar, mas com Ikki. Ela queria ter filhos, porém não de um bandido.
Mas o que poderia fazer? Fugir estava fora de cogitação, pois estava o tempo todo sendo vigiada, e seu pai havia dito que se ela tentasse escapar outra vez não iria mais poupar sua vida.
Enquanto seu pai a “negociava” com Jango, ela se trancou no banheiro do quarto, pegou o celular e ligou para Ikki.
— Meu amor, atende logo! – Pensou consigo mesma.
— Alô, Esmeralda!
— Ikki, ótimo que me atendeu!
— Estranho você me ligar agora, fora da hora que combinamos. Aconteceu alguma coisa? – Ele perguntou desconfiado.
— Bem, é que... – Os olhos da menina se encheram de lágrimas e ela sentiu que sua voz estava falhando, como se houvesse um nó na garganta.
— Diga logo, por favor! – Ikki começava a se angustiar, franzindo a sobrancelha e apertando os olhos.
— Vou me casar dentro de um mês! É isso.
— O quê? Não, não é possível. Meu Deus... Esmeralda!
— Você precisa fazer alguma coisa, disse que sempre iria me proteger e agora está bem longe de mim! – Ela começou a se desesperar do outro lado da linha.
— Está sendo injusta comigo, como pode falar assim? Se eu estou aqui foi por sua culpa! Eu tive de fugir do seu pai. Lamento muito, lamento todos os dias por ter te perdido naquela rodoviária. – O rapaz parou e respirou fundo antes de continuar.
— Então você não vai fazer nada? Não vai voltar pra me salvar?!
— Não tenho como voltar ainda, Esmeralda. Eu queria poder te dizer que hoje mesmo iria tomar um avião e te livraria do seu pai, que depois disso ficaríamos juntos pra sempre, bem longe desse lugar horrível onde você está. Mas eu não posso, não tenho condições de fazer isso até agora. E-eu sinto muito... Eu estou falhando com você. – Ao dizer aquelas palavras, ele sentia como se estivesse sendo rasgado por dentro. – Mas eu prometo que um dia irei te libertar!
— Bem, então por enquanto eu vou aceitar o meu destino... Se tem de ser assim, Ikki, até logo. Espero que você volte, mas até lá quem sabe eu não aprenda a “amar” o Jango.
— Não fale assim, minha vida!
— Não podemos fazer nada por nós por enquanto e sinto que jamais voltaremos a ficar juntos, portanto não quero que continue a nutrir esperanças por isso, quero que viva em paz. Eu sei que você é forte o bastante pra seguir em frente, eu também serei... Então adeus, Ikki.
— Esmeralda, vou até ao inferno por você! – Ele gritou, mas ela não o ouviu, pois havia encerrado a ligação.
A menina sentou no chão do pequeno banheiro de seu quarto. Não conseguia controlar o choro. Ela vivia praticamente como uma prisioneira esperando seu libertador, que até aquele momento não tinha previsão para chegar. Tudo girava em torno de promessas, de expectativas, e a felicidade se distanciava cada vez mais.
Esmeralda queria gritar, mas não podia fazer isso, caso contrário atrairia a atenção de seu pai. Então ela abocanhou o antebraço e mordeu com todas as forças, na tentativa de extirpar o que estava sentindo, e conter seu próprio grito de desespero.
A mordida foi tão forte que a pele chegou a sangrar, mas ela não sentia dor por isso. Porém sentia ódio. Odiava seu pai, odiava Jango, odiava a si mesma e até mesmo Ikki. Odiava a vida. Cogitou o suicídio, mas não conseguia ter coragem suficiente, pois no fundo do seu coração ainda restava uma ponta de esperança.
De repente ela ouviu a porta do quarto se abrir, certamente era seu pai. A jovem lavou o rosto, limpou o ferimento do braço e colocou um pouco de perfume.
— Esmeralda? Cadê você?
— Estou aqui, papai. – Disse ela enquanto saía do banheiro com um leve sorriso forçado no rosto. – Estava tomando banho.
— Percebi, está cheirosa.
— Quer alguma coisa, pai?
— Quero te avisar que seu casamento com o Jango será no próximo mês.
Ela mirou os olhos no chão, ainda mantendo o sorriso, e consentiu balançando a cabeça positivamente.
— Agora venha lavar os pratos! – Guilty deu às costas e saiu.
Depois daquele dia ela estava decidida: Iria seguir em frente, aceitando o seu destino.
“Give me a whisper
And give me a sign
Give me a kiss before
You tell me goodbye
Don't you take it so hard now
And, please, don't take it so bad
I'll still be thinking of you
And the times we had, baby
Don't you cry tonight
Don't you cry tonight
Don't you cry tonight
There's a heaven above you, baby
And don't you cry tonight
And, please, remember
That I never lied
And, please, remember
How I felt inside now, honey
You gotta make it your own way
But you'll be alright now, sugar
You'll feel better tomorrow
Come the morning light now, baby”
(Don’t Cry – Guns N’ Roses)
—---------------------------------------- Londres ---------------------------------------------
Desde que a ligação foi encerrada, daquela maneira, após aquela conversa, Ikki ficou prostrado no sofá. Seus olhos praticamente não piscavam, estavam fixos num ponto qualquer. De fato o rumo que sua vida havia tomado era praticamente sem volta, e só lhe restavam apenas duas opções: Ou se entregava à desgraça, ou lutaria para que as coisas melhorassem.
Ele pensava muito em se entregar, mas lembrava de Shun, seu irmão mais novo. Lembrou-se que estavam praticamente sozinhos no mundo, pois o Sr. Takashi já tinha muita idade e poderia morrer a qualquer momento, então quem cuidaria do seu irmão?
Com certeza desistir não era a melhor opção, certamente não estava nos planos dos seus pais que sua vida fosse um fracasso. Eram pessoas muito guerreiras, mas que infelizmente mexeram com indivíduos errados e pagaram por isso. E Ikki pensou neles também, nos planos que eles tinham para os filhos, de estudarem para ser alguém na vida.
Estava tão absorto em seus pensamentos que não havia percebido que Shun e o Sr. Takashi tinham acabado de entrar em casa. Eles voltavam do mercado cheio de compras nas mãos e estranharam por que o rapaz não se ofereceu para ajuda-los com as compras. Até que o caçula o despertou:
— Ikki? Está tudo bem meu irmão? – Perguntou o garoto fitando-o curiosamente.
— Shun! – Disse ele ao se levantar subitamente, fazendo com que o irmão recuasse um pouco para trás. – Deixa eu te olhar.
Houve um momento de silêncio. Os dois irmãos se olharam profundamente. Shun conseguia sentir a dor que olhos do seu irmão exprimiam, no fundo ele sabia que se tratava de algo sobre Esmeralda e sobre a situação em que eles se encontravam, mas o menino não disse nada. Ikki colocou levou as mãos até os ombros do irmão e apertou forte.
— Eu preciso de você, Shun.
— Eu estou aqui, irmão, sempre estarei disposto a te ajudar. Somos apenas nós dois agora, se você fraquejar, eu vou sofrer também!
— Não vou falhar. – Disse ele, sacudindo o mais novo. – Prometo que seremos felizes aqui.
— Eu confio em você!
Os dois se abraçaram ali na sala, emocionados, mas sem derramar uma lágrima se quer. Esse momento marcava um recomeço; a ficha finalmente estava caindo. O Sr. Takashi apenas observava a cena afastado, com um sorriso orgulhoso.
—------------------------------------ Dias depois --------------------------------------
— Vamos, Shun, não vai querer se atrasar logo no primeiro dia!
Os irmãos Amamiya estavam um pouco nervosos para iniciar uma nova atividade em suas vidas. Eles haviam aceitado o convite de Seiya para participar de uma academia de artes marciais e aquele seria o primeiro dia de treino.
A academia ficava a poucos quilômetros de distancia de onde eles moravam, o que possibilitava que fossem andando. O horário dos treinos seria à noite, pois Ikki estava trabalhando num supermercado pela manhã.
Naquele dia o lugar estava um pouco vazio, apenas alguns jovens estavam treinando, conversando, gastando bem o tempo. Quando os dois entraram, todos se viraram para olhar os novatos e Seiya foi o primeiro a recebê-los.
— Que bom que vieram! Sejam bem vindos!
Ikki estava sério, ainda se adaptando ao ambiente, enquanto Shun estava de sorriso aberto, bastante empolgado.
Um pouco distante viram uma figura se aproximando: Era um senhor de baixa estatura, ele usava roupas chinesas tradicionais, um chapéu chinês e andava lentamente, com ajuda de uma bengala improvisada de madeira.
— Deixa eu apresentar pra vocês. – Disse Seiya apontando para o senhor. –Esse é Dohko, o Mestre Ancião!
— Hum. Venham todos aqui receber os novos alunos! – Convocou o senhor.
Naquele lugar era uma tradição acolher os novatos de forma que fossem bem integrados, pois o mestre gostava que seus alunos formassem uma grande família.
— Olha, mestre, eu posso apresentar todos eles se quiser. – Sugeriu Seiya, convencendo o ancião.
— Está bem, meu filho.
— Bem, primeiramente esse aqui é Shiryu, o neto do mestre. – Dizia ele apresentando o rapaz chinês com uma tatuagem de dragão. – Esse outro aqui com cara de metido é o Hyoga. Percebam o quanto ele é... Gelado! – Falou em tom de brincadeira sobre o rapaz loiro. – Aquelas duas são Marin, minha irmã, e Shunrei, que também é neta do mestre. Bem é isso. Até me cansei. – Falou o rapaz, brincalhão.
— Fiquem à vontade por aqui, nossa academia é diferente, não tratamos as artes marciais como mercadoria, e gostamos de viver como uma família. – Shiryu falou com muita seriedade, mas de forma amistosa.
Todos voltaram aos seus treinos, e Ikki logo iniciou as atividades junto ao mestre. Enquanto isso, Shun ainda estava envergonhado, limitava-se apenas a olhar Seiya treinando com um saco e ficou admirado com as habilidades do rapaz.
— Por que não começou a lutar ainda? – Perguntou Hyoga, tentando uma primeira aproximação.
— Bem, é que eu gosto de observar primeiro. Estou um pouco abismado com as habilidades do Seiya. Ele é muito veloz!
— De fato, ele é conhecido por aqui como o garoto que atinge a velocidade da luz! – O loiro quis descontrair um pouco. – Já falei para ele se tornar um profissional, mas até agora não surtiu efeito. Você gosta de lutar, Shun? Não é esse seu nome?
— É meu nome sim e, bem, não tenho nada contra luta, mas não gosto de ferir as pessoas.
— Ora, não precisa ferir ninguém, apenas treine para você mesmo, para adquirir qualidade de vida e aprender uma habilidade nova. Você não precisa ser um profissional se essa não é a sua vontade! Mas me diga: o que faz da vida?
— Bem, eu estudo, estou no ensino médio ainda, e você?
— Eu entrei na faculdade no começo do ano, estudo Física! Adoro termodinâmica! Eu e o Shiryu somos colegas de faculdade, mas ele estuda Direito.
— Que legal! Meu irmão vai tentar agora no próximo semestre o vestibular para Medicina! Eu sei que ele vai conseguir, o Ikki é muito inteligente. – Bradou o menino, orgulhoso.
Ikki também se aproximou de Seiya para observá-lo treinar, realmente o garoto chamava atenção de todos. Mas naquele momento o Amamiya mais velho sentiu seu sangue ferver, não por raiva ou coisa do tipo, simplesmente estava com muita vontade de desafiar alguém.
— Ei, garoto! Você é rápido, hein?
— Não me atrapalha! – Disse Seiya entre sorrisos e socos.
— Que tal uma luta agora? – Propôs Ikki em alto e bom tom.
Seiya estancou, virou-se e encarou o rapaz um pouco. Não costumava ser desafiado na academia, mas o seu olhar era de um vencendor mesmo antes da batalha. O desafio foi aceito e os dois foram para o tatame.
Enquanto o jovem convencido se alongava um pouco, gesticulando com as mãos, Ikki apenas o encarava de braços cruzados.
— Vamos lá, Seiya, tá esperando o que?
Seiya praticamente voou em sua direção com o punho fechado, em alta velocidade, mas Ikki estava atento e deu uma desviada sutil para o lado, deixando o adversário socar o vácuo e em seguida lhe deu uma joelhada nas costas.
Quando se recompôs, Seiya começou a atacar Ikki com vários socos seguidos, até que conseguiu acertar alguns, mas o jovem permanecia de pé.
Depois de trocarem chutes e outros golpes, a luta chegou a seu ponto crítico: Seiya já estava cansado, embora fosse veloz, o outro jovem parecia superá-lo, o que lhe deixou surpreso e bastante desconcertado, pois até então se considerava imbatível.
Quando percebeu que o garoto estava cansado, Ikki decidiu terminar a luta, sentiu seu corpo enfurecer e entrou em estado de transe. Há muito tempo ele não “brigava” com alguém, obviamente que aquilo não era uma luta séria, estava programado para ser apenas um duelo amistoso, mas ele sentia fúria dentro de si. O rapaz deixou que os pensamentos do seu passado permeassem sua mente, e então viu a figura de Guilty ao invés de Seiya. Foi então que com todas as suas forças ele se preparou para o golpe final.
Com toda velocidade e furor, aquele soco certamente causaria danos fatais ao oponente, e de fato era o que Ikki queria: Matar aquele fantasma que estava vendo, matar o maldito “pai” de Esmeralda.
Seiya não esboçou qualquer reação, pois a luta estava muito rápida, ele apenas arregalou os olhos e estava pronto para perder. Shiryu foi o primeiro a perceber que Ikki estava fora de si, ele gritou algumas palavras para que ele voltasse ao normal, mas o jovem parecia não perceber. Até que Shun também percebeu e antes que ele acertasse o oponente com seu soco final, ele exclamou:
— Ikki!
Em fração de segundos o rapaz ouviu aquele chamado. A figura de Guilty se desfez e ele pode enxergar quem de fato estava a sua frente. O punho do garoto ficou a poucos centímetros da fronte de Seiya.
Houve um silêncio. Ikki ficou paralisado e Seiya se jogou no tatame levando a mão ao rosto, não por que tinha sido atingido, obviamente, mas por que estava atordoado.
Passado um minuto, o rapaz ainda tenso estendeu a mão para o seu amigo oponente, que logo se levantou.
— Está bem, Seiya? – Ele perguntou sério.
— Cara, por alguns segundos eu vi toda a minha vida passando como um filme. É sério! – Enquanto ele falava gesticulando e sorrindo, Ikki apenas sorria timidamente. – Mas olha, você só ganhou por que hoje eu não me preparei muito bem!
— Admite que encontrou um oponente à altura, garoto! – Disse Hyoga, que observava tudo junto aos demais.
Após a tensa luta, todos resolveram continuar suas atividades e depois seguiram para uma lanchonete próxima para conversar e se divertir um pouco. Os irmãos Amamiya estavam agora conhecendo outro tipo de gente. Aqueles jovens eram felizes, livres e de bom coração, além disso, estar com eles era como encontrar pessoas queridas de outras existências, pois mal tinham se conhecido e já sentiam afinidade. Seria então o inicio de uma jornada juntos, ou apenas uma amizade passageira?
—------------------------------- Berlim, dias depois -----------------------------
O jantar estava posto, havia uma grande variedade de comidas. Os Heinsteins finalmente poderiam aproveitar a refeição com tranquilidade, sem as grosserias do tio. Hypnos se mostrava uma pessoa muito gentil. Cuidou muito bem de Alone ao longo daquele mês, e deixava Pandora sempre à vontade, saindo quando bem entendia, se expressando do jeito que quisesse.
— Tio Hypnos, poderia cortar uma fatia de bolo para mim? – Perguntou o pequeno Alone.
— Claro, meu querido! – Respondeu o homem, sorrindo.
Enquanto todos estavam entretidos com a boa refeição, a campainha da casa tocou.
— Hum, parece que teremos visita hoje, crianças!
— Senhor Hypnos, tem um rapaz solicitando falar com a Senhorita Pandora. – Avisou uma das empregadas da mansão.
— Está esperando visita, minha querida?
— Não... – A jovem respondeu curiosa. – Ann, peça para entrar!
— Sim, senhorita! – Disse a empregada, indo obedecer a ordem da patroa.
Passados alguns segundos ela se deparou com o namorado entrando na sala de jantar. Hypnos e Alone olharam em silêncio.
— Radamanthys!? Que surpresa boa! – Disse ela enquanto corria para abraçá-lo.
— Quero muito conversar contigo. – Respondeu o jovem após dar um beijo romântico em sua amada.
Hypnos soltou um leve sorriso ao ver a cena e tomou a palavra, primeiro batendo palmas.
— Que coisa linda de se ver, duas pessoas tão jovens e tão apaixonadas! – Ele franziu o cenho e sorriu. – Rapaz, sente-se conosco, afinal de contas ainda não nos conhecemos.
Ele aceitou o convite, pois ainda não havia jantado, e estar ao lado de Pandora era um motivo a mais para que se demorasse.
— Você é alto hein, cara!? – Alone apontou um garfo para o cunhado, enquanto falava de boca cheia.
— Alone! – A irmã o repreendeu com o olhar, um pouco sem graça.
— Bem, rapaz fale um pouco de você. O que faz da vida? – Perguntou Hypnos.
— Eu ajudo meu pai com os negócios, mas em breve iniciarei minha graduação em Direito.
— Qual é o tipo de negócio do seu pai?
— Ele é dono de uma corporação bancária internacional. – Respondeu o Jovem, deixando Hypnos impressionado.
Após essas perguntas iniciais todos continuaram a refeição tranquilamente, mas logo o homem começou a questionar novamente o rapaz, que estava sentado ao lado da namorada.
— Mas me diga, quais são as suas intenções com Pandora? Por enquanto eu estou tomando conta dela, então é importante que eu saiba, pois já a considero como uma filha. – Disse ele, sorrindo para a garota, que retribuiu sorrindo também, um pouco tímida.
— Eu quero, e irei, me casar com ela. – Afirmou com segurança.
— Mas ainda são muito jovens pra isso...Você tem quantos anos, rapaz? Dezessete ou dezoito?
— Isso não importa, senhor. Sei que ela também quer isso, e vamos até o final. – Respondeu o rapaz, já encomodado com a situação.
— Mas fazer as coisas de forma precipitada pode colocar tudo a perder, não acha? – Insinuou Hypnos, fazendo um bico com os lábios.
Um clima de tensão se estabeleceu no ambiente devido às perguntas e a troca de olhares entre os dois, fazendo com que Pandora também se sentisse incomodada, o que a faz cortar a conversa.
— Pra mim já chega. – Ela disse de súbito e pausou em seguida, atraindo a atenção. – Já comi demais por agora. Venha comigo, meu querido, contar o que tinha pra me dizer!
Os dois levantaram-se da mesa e subiram as escadas, rumo ao quarto de Pandora. Caso Thanatos estivesse em casa, jamais permitiria isso, aliás, essa havia sido a primeira vez que ela recebia o namorado em casa.
— Nossa! Esse é seu quarto?! – Disse ele surpreso com a decoração.
— O que foi? Não gostou. – Ela colocou as mãos na cintura e parecia decepcionada.
— Não meu amor! É incrível. Foi você quem planejou tudo isso?
— Sim, ao menos isso eu tive direito.
O Quarto era enorme. As paredes tinham a tonalidade de um roxo claro, com frisos negros em suas metades e também no teto. A mobília era negra, num estilo gótico, havia uma grande penteadeira antiga, onde Pandora costumava passar várias horas se arrumando. A cama era digna de uma princesa, com um dossel que dava um toque especial. E o que chamava mais atenção era uma bela Harpa que ficava em um canto de parede. Entrar naquele recinto assemelhava-se a fazer uma viagem para tempos antigos, e a jovem havia escolhido esse visual para que se parecesse um pouco com o que havia no castelo de sua família.
— Bem, não quero enrolar. Eu tenho uma coisa muito séria pra te dizer...
A jovem estremeceu. Por ser muito ansiosa qualquer suspense lhe deixava mal.
— Conte-me logo tudo de uma vez!
— Meus pais vão embora do país e eu terei de ir junto.
— O quê? – Perguntou incrédula. Como assim? Você vai me deixar, é isso!? – Seu tom de voz começava a se alterar visivelmente.
— Não, eu não vou te deixar. Tenho um plano pra nós: Vamos fugir.
— Fugir? Você ficou maluco?
— Pandora, eu acho que não passarei nem mais um mês aqui se depender dos meus pais. Portanto vamos fugir até que você complete a maioridade, depois disso nos casaremos imediatamente e então você viaja junto comigo, e claro, levaremos o Alone.
— Isso pode não dar certo. – Disse ela abaixando a cabeça. – Sei que os seus pais não gostam de mim... Até acho que eles estão fazendo isso só pra nos separar!
— Eles não vão conseguir, confie em mim.
— Quanta insanidade! – Falou Pandora enquanto o abraçava.
— Já disse que faço qual-quer coisa por você.
Os dois se envolveram em abraços e beijos, há um tempo não ficavam tão sozinhos como naquele momento, e aquele local se mostrava muito convidativo para que ficassem um pouco mais à vontade.
Pandora tirou o vestido que usava, ficando apenas com sua lingerie rendada. Ela o encarava com um olhar sedutor, enquanto o arrastava para a sua cama, com total poder sobre o jovem.
Naquele momento ela o dominava, como sempre fazia. Parecia uma serpente sufocando uma presa. Ela retirou a camiseta do namorado enquanto se beijavam ousadamente. Passados alguns minutos de intimidade, foram surpreendidos.
— Pandora, vim saber se está bem! – Falou Hypnos abrindo a porta que a jovem esquecera-se de trancar, entrando de súbito no quarto.
O casal tentou se recompor rapidamente, bastante envergonhados com a situação desconfortável, e naquele momento, se pudessem cavariam um abismo para se jogarem juntos de tanta vergonha.
— Hy-hypnos. – Foi a única palavra que ela conseguiu proferir naquele momento, quando sentiu sua face aquecer e se avermelhar tal como pimenta.
— Ah, me desculpe, acabei atrapalhando vocês! – Disse o homem de forma gentil, e em seguida retirou-se do ambiente.
Pandora olhava pra o namorado, e ela a olhava de volta. Ficaram assim por alguns minutos.
— Não gostei desse cara. Por que diabos ele vem ao seu quarto?
— Juro que hoje foi a primeira vez que isso aconteceu.
— Olha, Pan, vou pra casa agora, não vou conseguir dormir aqui e olhar pra ele dele pela manhã... De verdade, eu não fui com a cara dele.
— Está com ciúmes meu querido? – Ela o abraçou por trás.
— Claro que não. – Ele teve dúvidas ao falar. – Apenas fiquei envergonhado.
— Eu quero só você.
— Mas eu preciso mesmo ir agora. – Disse enquanto se afastava delicadamente da moça.
— Quando nos veremos?
— Em breve. Da próxima vez que nos encontrarmos será o dia de por em prática o nosso plano.
Após a breve conversa, Pandora o acompanhou até a porta principal da sala. Eles se despediram brevemente e ela planejou retornar para o quarto. Mas quando passava pelo corredor do andar de cima se deparou com Hypnos à sua frente, ficando com a feição avermelhada outra vez.
— Me desculpe pelo que viu.
— Ei, não precisa disso! – Enquanto falava, segurou a jovem pelo queixo e levantou sua cabeça, para que ela o mirasse nos olhos.
— Não é algo legal de se ver... Meu tio me mataria por isso!
— Eu não sou o seu tio, e o que eu vi é extremamente normal! Não me importo que se relacione assim com aquele rapaz, aliás, vocês vão se casar. E outra coisa. – Ele pausou. – Já te disse uma vez que somos amigos, pode confiar em mim, jamais contarei seus segredos para Thanatos.
A morena sorriu e sentiu uma verdadeira confiança nele; começava a ver em Hypnos a figura de um pai que teve, mas por pouco tempo. Depois da conversa com Radamanthys, sobre a viagem e a fuga, ela sentia a necessidade de contar aquilo para alguém, e a pessoa que mais se mostrava solícita para ajuda-la e ouvi-la era justamente o homem que estava olhando em seus olhos.
Com total confiança ela se abriu para ele, ali mesmo na escada, e contou da sua angústia, do seu forte medo de perder quem tanto amava, mais uma vez. Ela contou também do plano de fuga.
Hypnos mostrou-se um ouvinte tão solícito que a conversa acabou tomando outro rumo. Os dois já cansados de estarem ali, de pé, na escada, resolveram descer para terminar o assunto no jardim da mansão.
Ela estava tão segura que acabou contando muita coisa sobre sua vida, e ele também terminou por confidenciar alguns segredos. Ela falava sobre os pais, sobre o irmão, sobre o medo que tinha de que tudo desse errado em sua vida outra vez... Também citou Thanatos, ainda que com muito temor.
— Então... Imagino que depois de tudo isso se sente sozinha, não é mesmo?
— Muito!- Disse a jovem enquanto passava a mão pelos longos cabelos. – Eu nem sei como eu vou ficar se esse plano com o Rada der errado...
— Se der errado eu estarei aqui pra te ajudar. Pode contar comigo, sempre!
— Obrigada, muito obrigada!- Ela se aproximou e deu um abraço fraterno no seu novo amigo.
Naquela noite Pandora demorou para adormecer. Pensava na fuga. E se fosse tudo por água abaixo? Ficaria só? O medo da solidão a assolava constantemente, o que lhe fazia uma menina muito carente, por isso se apegava a Radamanthys como se ele fosse seu bem mais precioso, a sua única esperança de ser feliz.
Ela torcia para que tudo desse certo e já sonhava com o casamento e com o futuro que se vislumbrava a sua frente. Um futuro cheio de alegria, diferente do seu passado triste, ao lado da pessoa que tanto ama. Pensar nisso lhe dava ansiedade e ao mesmo tempo esperança.
Felizmente tinha Thanatos não estava lá para atrapalhar seus planos, e certamente receberia o apoio de Hypnos. Talvez a ausência do tio fosse um indício de que o universo estivesse conspirando, finalmente, a seu favor.
“There's a song that's inside my soul
It's the one that I've tried to write over and over again
I'm awake in the infinite cold
But you sing to me over and over again
So I lay my head back down
And I lift my hands and pray to be only yours
I pray to be only yours
I know now you're my only hope
Sing to me the songs of the stars
Of your galaxy dancing and laughing and laughing again
When I feel like my dreams are so far
Sing to me of the plans that you have for me over again
So I lay my head back down
And I lift my hands and pray to be only yours
I pray to be only yours
I know now you're my only hope
I give you my destiny
I'm giving you all of me
I want your symphony
Singing in all that I am
At the top of my lungs I'm giving it back”
(Only Hope – Mandy Moore)
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