Entre Rosas e Correntes
8 Bolo de "carne"
Notas iniciais
Eu não sabia quantos dias haviam passado desde que Judal nos traiu, não dava pra saber quando era dia nem quando era noite, não haviam janelas lá. Parecia que o oxigênio iria acabar, me sentia horrível toda vez que olhava para as paredes. Um sentimento de estar completamente preso estava me possuindo e eu não conseguia escapar. Tentei diversas vezes me jogar contra a porta, mas nunca disse uma palavra enquanto eu estava lá. A única água que existia era a da pia e eu não queria beber aquilo, tinha certeza que devia ser a água do banho que eles reaproveitaram, pois encontrei coisas estranhas na pia, claro, eu tinha que beber as vezes pra não morrer de sede, mas aquilo era horrível.
Tentei contar os dias com o numero de refeições que me traziam, eram 3 ou 2 por dia, mas eu acabei perdendo a conta após 3 dias. Matava meu tempo arranhando as paredes e desenhando no chão com o sangue que saia dos meus dedos quando eu fazia aquilo. Machucava muito, mas era melhor do que deixar aquele sentimento me matar.
Eu não ouvia minha própria voz fazia tempo e as únicas vozes que eu conseguia ouvir eram as dos garotos que ficaram loucos lá na solitária. Eles gritavam dia e noite, não conseguia dormir direito e a comida era tão terrível que eu mal comia.
Eu entendi o que significava se sentir sozinho quando tive que admitir para mim mesmo que sentia saudades do Nicky. Ele era um doente mental, traiçoeiro e podre, mas eu me identificava com ele. Ele era minha base naquele lugar, o único que eu deixei que se aproximasse de mim. Ele era incrível e irritante, eu queria sua companhia, mas também queria mata-lo, eu o odiava, mas ao mesmo tempo eu meio que eu gostava do jeito dele.
— Gosto? — falei pra mim mesmo — não sou tão retardado ao ponto de gostar de alguém como aquele cara... Pareço um louco, falando sozinho, mas retardado eu não sou, será que sou?
Fiquei em silencio, esperando uma resposta, mas não tinha nada além dos gritos dos garotos. Nenhum grito soava como um “sim” ou “não”.
— Gosto? — Uma outra voz apareceu, rindo — Eu meio gosto um pouco daquele maníaco chorão.
— Nicky! — Exclamei, surpreso, procurando de onde vinha a sua voz.
— Miller, aonde você está? — Tinha um eco estranho na sua voz.
— Na cela, aonde mais eu estaria seu idiota? — Reparei nas pequenas aberturas com grades que ficavam perto do teto, ligando uma cela a outra.
— Está vendo a abertura que tem na parede? Jogue qualquer coisa para eu saber em qual cela você está.
Eu peguei um resto de bolo de “carne”, separei em dois e joguei cada um em uma abertura. Nicky devolveu o pedaço pela abertura da esquerda.
— Você acertou minha cabeça! — Nicky reclamou. — Vamos arrumar um jeito de sair daqui, certo?
— Sair? Nicky, nos estamos ferrados, vamos passar o resto das nossas penas aqui. — encostei na parede da esquerda, procurando um jeito de subir até a pequena abertura.
— Quer ficar louco como o resto dos caras aqui?
— Não tem jeito, vamos morrer aqui dentro, loucos ou não... É impossível sair daqui. — Encostei minha testa na parede, jogando minha esperança no lixo.
— Por que eu ainda tento explicar pra um cabeça dura como você as minhas intenções? — Ele pareceu muito irritado — A primeira coisa que vamos fazer é sair da solitária. Eles não vão nos deixar aqui pra sempre.
— Nicky, matamos pessoas dentro da prisão. Claro que vamos ficar aqui.
— Você sabe tão pouco sobre o processo todo. Vão nos levar pra ser julgados em breve. Lá tem uma cela especial, vamos ficar lá por pouco tempo.
— Ainda vamos estar na cadeia, idiota.
— Lá tem uma segurança bem... Fraca, comparada com a daqui. É a nossa última chance.
— Última? — Eu realmente imaginei que fossem nos condenar a pena de morte.
— Última, juntos. Vão nos mandar pra cadeias diferentes, aposto. Tem um plano... Não sei se vai dar certo... — Ele soou incerto, aquilo me fazia ter arrepios, por algum motivo.
— E qual é?
— Somos pequenos e magros demais, isso vai soar clichê, mas podemos usar os dutos de ar quente, já que devemos estar entrando no inverno agora.
Eu me calei, estudando as possibilidades. É claro que as entradas dos dutos de ar tinham grades bem seguras e não tinha como abri-las, mas sempre alguém conseguia inventar alguma coisa.
— Você tem que dizer o que acha, Robert, senão vou pensar que você morreu. — Nicky disse, parecia rir um pouco.
— Claro, só temos que planejar direito. Vamos ter que ser discretos dessa vez.
— Claro que vamos ser. E dessa vez, só nos dois. Pelo menos você eu sei que nunca irá me trair... Até o fim do nosso acordo, claro! — Ele quase cuspiu a ultima frase, falando muito rápido. Não pude evitar de rir.
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