Entre Pixels e Perfumes
5 O Silêncio no Banco de Trás
Notas iniciais
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No espelho do quarto, a imagem que refletia era a de uma mulher que exalava poder, embora por dentro Jessy se sentisse em pedaços. O vestido preto era de um cetim pesado que abraçava suas curvas com elegância; o decote em "V" e as alças finas destacavam sua pele morena clara, enquanto a fenda lateral revelava os sapatos scarpin de salto 15, que a deixavam quase na altura de um gigante.
Ela soltou os cabelos escuros, deixando que as ondas caíssem naturalmente sobre os ombros. Uma maquiagem leve, apenas para realçar os olhos que ainda guardavam o brilho da decepção daquela tarde. Por fim, borrifou seu perfume favorito: uma fragrância de flores frescas que era sua marca registrada.
— Caramba, maninha... se o "Doutor Gelo" não descongelar com isso, ele não é humano, é um boneco de cera.
Luccas estava encostado no batente da porta. O grandalhão usava uma regata que deixava os bíceps em evidência, mas seu olhar, geralmente brincalhão, suavizou ao notar o semblante de Jessy. Ele caminhou até ela e, com uma delicadeza surpreendente para o seu tamanho, colocou as mãos em seus ombros.
— Ei — ele sussurrou, dando um beijo carinhoso no topo da cabeça dela. — Por que essa tristeza? Você está maravilhosa. Devia estar pronta para conquistar o mundo, não para um funeral.
— É como eu me sinto, Lu. Indo para o funeral de uma ilusão — Jessy forçou um sorriso, ajeitando a pequena bolsa preta. — O Lupus não passa de um personagem, Luccas. O Marcos de verdade me expulsou da sala dele hoje como se eu fosse um lixo.
Luccas suspirou, apertando os ombros dela num abraço de urso reconfortante.
— Esquece o celular por hoje, tá? Vai lá, faz o seu trabalho de designer incrível e mostra para aquele egocêntrico que você é muito mais do que ele merece.
Uma buzina grave e insistente ecoou lá embaixo. O motorista de Marcos havia chegado.
— É a minha carruagem de abóbora — Jessy ironizou, pegando a bolsa.
— Vai lá, Cinderela! — Luccas deu um tapinha leve no braço dela. — E se ele for grosso de novo, avisa que o seu irmão "suplementado" sabe onde fica o estacionamento da empresa dele, beleza?
Jessy soltou uma risada curta, a primeira do dia, e saiu.
Ao descer, o sedã preto de luxo já a esperava com a porta aberta pelo motorista. Assim que ela se acomodou no banco de trás, o perfume amadeirado de Marcos inundou seus pulmões. Ele já estava lá, sentado no canto oposto, imerso em seu tablet.
Marcos sequer desviou os olhos da tela quando ela entrou. Ele estava impecável em um terno sob medida, a personificação do sucesso e da arrogância.
— Boa noite, Srta. Walle — disse ele, a voz fria e mecânica. — Espero que o tablet de apresentação esteja carregado. Não tolerarei falhas técnicas hoje.
— Boa noite, Sr. Delavga. Está tudo em ordem — ela respondeu, curta e seca, olhando fixamente pela janela.
O motorista deu partida. O silêncio que se instalou no carro era tão denso que chegava a ser sufocante. Não havia música, não havia conversa, apenas o som do trânsito de São Paulo e o abismo que agora separava a "Morena" do "Lupus". Jessy sentia o peso do olhar dele de soslaio de vez em quando, mas ela se recusava a retribuir. Para ela, o homem ao seu lado era apenas um estranho com quem ela era obrigada a trabalhar.
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