Entre Pixels e Perfumes
6 O Brinde do Caçador
Notas iniciais
O restaurante era o ápice do luxo paulistano: luzes baixas, música de piano ao vivo e o tilintar discreto de cristais. Jessy estava sentada à mesa circular com Marcos, Maira e quatro investidores alemães. Ela cumpria seu papel com perfeição técnica, deslizando o dedo pelo tablet e explicando a interface do perfume Éter em um inglês impecável.
Marcos, ao seu lado, era o anfitrião ideal. Seguro, articulado e focado. Mas Jessy notou quando, durante uma pausa para a entrada, ele levou a mão discretamente ao bolso.
O celular dela, escondido sob a coxa, vibrou.
Lupus: O jantar está um tédio sem você. Queria brindar ao nosso futuro, onde quer que você esteja agora.
Segundos depois, outra notificação. Uma foto. A mão de Marcos — a mesma mão que segurava uma caneta de ouro há poucas horas — agora envolvia a haste de uma taça de vinho tinto. O relógio de luxo no pulso dele era inconfundível.
Um fogo de audácia subiu pelo peito de Jessy. Ah, você quer jogar, Sr. Delavga? Vamos jogar.
Enquanto um dos alemães fazia uma pergunta técnica para Maira, Jessy fingiu ajustar algo no tablet. Com um movimento rápido, ela inclinou o corpo para o lado, focou a câmera do celular no bar de mármore iluminado que ficava logo atrás deles, no outro extremo do salão, e disparou a foto.
Morena: Talvez eu esteja mais perto do que você imagina. Um brinde, Lupus.
Ela enviou a foto do bar — uma visão que qualquer pessoa naquele restaurante teria se olhasse para trás.
O efeito foi instantâneo.
Marcos, que estava prestes a levar a taça aos lábios, parou no meio do caminho. Seus olhos se arregalaram levemente ao ler a mensagem. Ele largou a taça com tanta pressa que o vinho quase respingou na toalha branca.
Ele não disfarçou. Marcos Delavga, o homem de gelo, começou a olhar em volta freneticamente. Ele ignorou o investidor que falava com ele e girou o tronco, mapeando cada mesa, cada rosto feminino no restaurante.
— Marcos? Está tudo bem? — Maira perguntou, franzindo a testa com o comportamento errático do irmão.
— Sim... eu só... achei que tivesse visto alguém — ele respondeu, a voz visivelmente tensa.
Ele voltou a olhar para o celular, digitando com os dedos nervosos, e depois olhou novamente para o bar. Jessy mantinha os olhos fixos no tablet, o rosto neutro como uma estátua, mas por dentro ela saboreava cada segundo daquele caos.
Lupus: Você está aqui? No Fasano? Morena, me diga onde você está sentada. Agora.
Jessy viu Marcos passar a mão pelo cabelo, desfazendo o penteado perfeito. Ele estava suando frio. O CEO implacável tinha desaparecido; ali estava apenas um homem desesperado para encontrar a mulher que amava através de uma tela.
— Sr. Delavga? — Jessy chamou, com uma voz doce e profissional que beirava o sarcasmo. — Os investidores estão esperando sua confirmação sobre o cronograma de produção. O senhor está presente conosco?
Marcos olhou para ela, os olhos nublados pela confusão e pelo nervosismo. Ele a encarou por longos segundos, como se tentasse processar a realidade, mas logo balançou a cabeça, tentando retomar o controle.
— Sim, Srta. Walle. Perdão. Prossiga — ele disse, mas seus olhos continuavam fugindo para as mesas vizinhas a cada cinco segundos.
Jessy sorriu internamente. Pela primeira vez em quatro anos, ela tinha o controle total. Ele podia ser o dono da empresa, mas ela era a dona do coração que batia descompassado sob aquele terno caro.
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