Entre Paredes
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Do lado de fora a noite brilhava em seu máximo esplendor negro enevoado. Gotas discretas caíam pela janela, não sendo ouvidas, apenas observadas. O som estava consideravelmente alto, músicas um pouco pesadas para o usual. Minato estava deitado no sofá, Madara no chão, sobre o tapete, dizendo besteiras, compartilhando segredos... A garrafa de vinho recém comprada já se via seca, sem nem ao menos uma gota. Onde arrumariam bebidas à essa hora? Vestidos como estavam?
O loiro se levantou. Seu longo kimono negro arrastou-se ao ritmo de seus passos; estava procurando um jeito de não pensar em quão belo o outro estava, nas mesmas cores, mas num significado completamente diferente. Madara não parecia apenas um garoto alí. Parecia uma criatura bela, da noite, tão sobrenatural quanto os vampiros de livros baratos... Parecia... fascinante.
— A cidade está brilhando...
Ouviu a voz rouca bem próxima de seu pescoço, de seu ouvido. Fechou os olhos por um instante. O cheiro doce de Madara o deixava inebriado. Não era algo como um perfume ou coisa assim... Era... dele. Como se sua pele fosse doce assim como seus beijos venenosos, viciantes. Era como se fosse convidativa o bastante para que pensasse em prova-la.
Sentiu lábios em seu pescoço. Um toque casto de início. Seu coração estava disparado, mas sabia que cedo ou tarde a situação tomaria seu rumo. Não pretendia passar toda a noite apenas conversando, assim como Madara também não, mas não sabia o que fazer. Agora, não precisava mais pensar. Podia entregar-se aos lábios que agora pareciam banhados em lascívia, às mãos que pareciam atormentar seus sensos enquanto puxavam o kimono para baixo, expondo o ombro claro, mais território para colonizar, conquistar, marcar; Minato se sentia entorpecido. Não queria demonstrar, claro, mas quem disse que era forte o bastante para aguentar calado? Foi inevitável. Aquele gemido que pedia, suplicava por mais, deixou seus lábios quando sentiu o corpo dele em contato com o seu. Não sabia se era efeito do veneno dele ou do vinho, mas um calor quase beirando o insuportável tomou conta de seu ser.
— Madara...
Sussurrou o nome profano daquele que agora ansiava por beijar seus lábios enquanto era voltado a ele. Suas costas contra o vidro gélido o fizeram lembrar do que realmente estava acontecendo. Pouca diferença fez, pois logo foi tomado de assalto por um beijo quente, beijo que o fez estremecer enquanto sentia o toque provocativo em sua coxa, que sabia, estava fazendo o longo kimono subir para que mais espaço fosse revelado àquelas mãos...
— Não quero que se assuste, não quero te forçar a nada, mas... eu te desejo...
Ouviu as palavras sussurradas, e ouviu também as batidas de ambos corações. Nem mesmo o som alto era forte o bastante para calá-las.
— Você me deseja?
Ele perguntou. Aqueles olhos negros enfeitiçavam seu pobre ser, aqueles olhos negros o invitavam a ceder e responder a verdade.
— Sim.
Disse, tocando o tórax ainda coberto pela seda tão negra quanto os longos cabelos que logo foram tocados também. Ele estava alí, era real e ao mesmo tempo em que sentia toda a vontade do mundo, sabia que era assustador. Não, não queria se importar.
“E se for pecado?” Questionou-se mentalmente enquanto olhava para a face tão expressiva. “Que se dane. Eu não acredito em inferno.” E num instante, soube que tudo estava perdido. O gosto doce dos beijos foi substituído pelo tão mais doce da pele cremosa, aquele pescoço pálido pedindo para ser marcado. O ouviu gemer pela primeira vez, e logo, com agressividade que antes não demonstrara, tomou a cintura fina. Ele o pertencia.
Madara perdeu-se. Não estava conseguindo manter o controle. Seu corpo queimava por Minato, por mais toques, por mais selvageria, força... Queria senti-lo dominando seu ser como há muito ninguém fazia. E pensar que antes quisera dominá-lo... Havia algo no loiro que o fazia deseja-lo por cima de seu corpo, e sim, com bastante força. “Vamos ver o quão bom você pode ser, Minato.” Pensou, arranhando as costas largas, sentindo que ele se animava mais e mais pelos beijos, pela força com a qual tomava seus pulsos enquanto o arrastava para o quarto...
— Minato...
Praticamente gemeu quando ele segurou seus cabelos como se quisesse impedi-lo de dar mais um passo. Toda a sua pele estava arrepiada e começava a temer o que sabia que viria à seguir. No fundo, tinha medo. Não medo de se machucar, e sim medo de acabar gostando bastante e se apaixonar. Essa era uma das coisas que se prometera jamais fazer. Não queria de todo pertencer a alguém a ponto de deixar de ser o que era.
Seus pensamentos esvaneceram como poeira no vento quando se viu ante o espelho, quando viu toda a cena. Minato estava às suas costas, as mãos grandes tocando seu corpo por sob o kimono, arranhando sua coxa direita... Aquele brilho selvagem nos olhos do loiro gritava que não, ele não ia parar agora.
Dentro do peito de Minato, o medo se fazia presente. Como diabos levaria essa situação adiante sendo que nem mesmo se dava bem com garotas desse modo? Tremeu nas bases por um instante quando Madara roçou o corpo contra o seu. O cheiro doce do outro o estava deixando torpe e com vontade de não se importar com nada, nada mesmo. E sentia que logo estariam na cama, talvez devagar, talvez quebrando a mesma em pedaços.
O que se seguiu fez com que ambos esquecessem todo o resto do mundo. Era como se o universo se traduzisse apenas nos dois corpos se chocando com brutalidade sobre os lençóis antes imaculados. Mesmo na penumbra, podiam ver os olhos brilhando, cheios de uma luxúria digna do próprio inferno... Lábios nos lábios traduziam o que nem mesmo todos os idiomas do mundo seriam capazes de dizer, toques marcavam tanto quanto o ato em sí, e as dores que antes assolavam ambos, assim como todos os temores, haviam saltado pela janela e ido parar bem longe, longe o bastante para nem mesmo serem os motivos de tantos gemidos, ofegos, e quase gritos.
Sim, estavam perdidos.
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Depois de tanto na última noite, Minato abriu os olhos com uma dor de cabeça que seria capaz de deixar até mesmo o homem mais feliz do mundo com um humor digno de um ogro. Como pequenos flashes, imagens vieram à sua mente, fazendo com que olhasse para aquele ser adormecido ao seu lado e se arrepiasse por completo. Deus... O que fizera? Não queria nem mesmo pensar por seu lado racional, caso contrário estaria realmente enrascado. Ficaria completamente arrependido, temeroso...
Sacudiu a cabeça espantando todos os maus pensamentos e se levantou um tanto que cambaleante. Seu corpo estava gritando por um bom banho. O som permanecia ligado na sala, assim como rastros de toda aquela baderna que mal se lembrava ter feito horas antes.
Perdido em seus pensamentos, parou ante o espelho do banheiro. Quantas marcas e hematomas não haviam alí... Caso alguém o visse desprovido de vestimentas pensaria que foram adquiridas num combate corpo a corpo, briga de rua.
Sorriu. Por que as coisas não eram tão divertidas assim com as garotas? Não, não queria saber. Deixou-se ir até o chuveiro, ligando-o, desfrutando a água que tanto parecia varrer, limpar todo o seu cansaço e algumas dores extras nos braços. Fechou os olhos deixando-se afundar nas lembranças e em vários questionamentos que o levavam a uma única conclusão: Sua sanidade havia ido para o espaço. Só podia estar louco para nem mesmo conseguir se repreender..
Foi arrancado abruptamente de seus pensamentos quando sentiu mãos em sua cintura. Sabia que ele estava alí, sabia o que ele queria, sabia que não sairiam dali tão cedo, e nada pôde fazer além de aceitar tudo, de retribuir cada instante de prazer, de desejar.
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Era noite; Madara pensava, em seu quarto, em todas as coisas que vinham acontecendo em sua vida. Tanto trabalho, tanta pressão por parte da família e tão boas sensações ao lado de Minato... Minato. Deus... se seus pais soubessem que estava de caso com outro garoto e que, por ventura, estudariam na mesma escola, poderia considerar-se deserdado, excomungado e morto. Sabia que teria que manter segredo. Só esperava que o outro entendesse, afinal, ele também tinha uma família e uma reputação a zelar, não?
Preso em seus pensamentos, viu que não, de forma alguma, queria se afastar do loiro. Queria tê-lo sempre perto, perto demais, ao seu lado de preferência. Se lembrou de onde ele dissera trabalhar. Talvez com uma carta de recomendação e alguns favores pudesse fazer uma surpresa a ele...
— Vamos ver como se sente no meio da alta sociedade, Minato...
Sorriu de canto. Precisava manter seu status. Precisava de amigos ricos, influentes. Era apenas um adolescente, e sabia que para sua fase adulta, teria que ser bem relacionado. Minato tinha classe. Sim, poderia torna-lo um diamante. Bastava lapidar.
Ouviu batidas na porta; não sabia de quem se tratava, mas talvez fosse algo interessante.
— Entre.
Logo pôde ver seu irmão. Os longos cabelos estavam trançados, o robe vermelho escuro contrastando com a pele de alabastro...
— Izuna...
— Onde esteve? Papai está furioso com seu sumiço.
— Então porque ele não vem falar comigo?
— Sabe como ele é, Madara. Não quer falar nada pesado demais como sente que fará...
— Eu não entendo... Ele quer que eu aprenda a viver como um adulto, mas não posso aprender apenas tendo ele como referência... Eu tenho que aprender por mim, pelas minhas experiências!
— Eu sei... Mas... por favor, repense antes de agir como um delinquente de novo.
Dito isso, o outro o deixou sozinho aos seus pensamentos. Estava confuso, revoltado. Como Izuna pudera dizer “delinquente” enquanto se referia a sua conduta da última noite? Não, não queria pensar em nada. Nada além dos braços daquele com quem havia se deitado. Deus... ainda podia sentir os toques em seu corpo, os lábios nos seus... Mas não. Agora não podia pensar nisso, ou acabaria achando-se viciado no outro, desesperado por seus toques, por sua luxúria, desesperado por sua presença.
Na verdade, sabia que estava;
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