Entre Muros
1 Prólogo: resumindo a história.
Eu cresci vendo essa comunidade encher de gente. Cresci jogando bola, descalço, e todo dia quando batia 13hrs no relógio, tu só escutava minha mãe gritar um nome que é muito famoso aqui na rua. Victor.
É, aquele moleque que talvez quebrou sua janela um dia, tenta perdoar. Não foi por mal. E posso te dar a certeza que esse nome ecoou durante uns treze anos, até o negócio pegar fogo.
Meu pai era policial, foi criado aqui na comunidade do Gato Preto, nada tirava esse herói daqui, mas quando o descobriram, não foi muito legal. Caçaram minha mãe, meu irmão mais velho e deram um fim horrível no meu pai, acabaram o considerando um traidor.
Já que o meu padrinho, no caso, era o dono do morro. Eles eram melhores amigos, mas meu pai decidiu entrar pra Polícia Militar assim que meu irmão nasceu. Tava apertando pro nosso barraco, e essa coisa de ter policial na família, pelo menos aqui, é um segredo que você não deve contar nem para o melhor amigo.
Foi o que aconteceu, durante dezesseis anos esse segredo foi escondido. Papai sabia de tudo, mas nunca entregou nada, sabia das drogas que iriam chegar no mês, o fornecedor, das pessoas mortas, de cada culpado por cada assassinato que aparecia na tv. Até uma identidade levar tudo isso pra polícia, e meu padrinho ficou desesperado, foi bater lá em casa logo na hora que meu pai estava colocando a farda na mala. Assistiu tudo pela janela, e com raiva, sem nem pensar, deu dezesseis tiros para o alto, lá em cima do morro mesmo. Se você perceber, foi tudo na base do dezesseis.
Dezesseis dias com pessoas estranhas seguindo o resto da minha família, e apenas dezesseis minutos de conversa que o padrinho teve com o meu pai dentro do quarto. Eu tava jogando videogame no andar de cima com o meu irmão, até que escutei dezesseis tiros. Oito pra cada um. Meu pai e minha mãe, que tentou explicar o mal entendido.
É, meu irmão, foi a pior fase da minha vida. E nem sei como tô inteiro até hoje, minha vó se tornou a base do mundo. De tudo.
Essa é a minha história. Perdi meus pais e me rendi ao graffiti, comecei a ir pra baile, meu padrinho sempre tentou ajudar, porque mesmo com os "erros" do meu pai, tinha um laço comigo.
Padrinho e afilhado, mas nunca perdoei o que ele causou na minha vida. Meu irmão, Lucas, entrou numa depressão, teve muitas dificuldades no ensino médio e hoje ele parece viver numa casca. Todos nós vivemos.
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