Entre Muros

2 Antes do ocorrido.


O despertador parecia gritar junto com a minha mãe.

–Os dois, fora da cama, agora! – disse furiosa ao adentrar o quarto.

–Que isso, mãe! Qual é?! Deixa eu dormir mais um pouco!

–Tá de sacanagem comigo, Lucas? – dizia enquanto dobrava os lençóis e abria as cortinas em nossos respectivos rostos, que saco.

–Ah, qual é, cara! – reclamei com a cara no travesseiro – A gente nem tem aula direito hoje!

–Isso não é motivo de faltar! E daí que a metade dos professores está em greve? E daí que as merendeiras também estão? A culpa não é de vocês, e até o ultimo momento terão que cumprir com o dever de aluno! – É, minha mãe realmente era muito chata com regras escolares, não importava o dia, escola era prioridade sempre! Não tinha outra coisa.

Assim, levantei num pulo só e fui direto pro banheiro. Eu nunca entendi muito bem essa lógica esquisita do meu pai, pô, pensa comigo: o cara era policial, ainda morava na favela e nem pra fazer uma obra legal no nosso banheiro. Mas não me acostumaria tão fácil assim não pra essa vida de playboyzinho, não, mané. Eu tô bem nesse chuveirinho aí, essa parede mal feita também, até gosto dessa lâmpada presa no fio.

Depois da ducha, me arrumei e desci o morro mesmo, não tava com paciência pra esperar o Lucas descer comigo. Antes, passei no túnel do Zézinho pra dar aquela moral de deixar um pastel pago para depois da escola.

–Aí, zézinho – gritei – deixa um pastel pago aí já, quando eu voltar da escola passo aqui.

–Oh, moleque! Isso é hora de ir pra escola?

–Fica tranquilo aí, irmão.

–Já é, até daqui a pouco, Vitinho!

–Até!

Eu mal suspeitava do que aconteceria.

* * *

–Você é um maluco, sabia disso?! – disse Mirella, minha melhor amiga, uma garota alta, morena e tinha um cabelo bem legal. Sei lá. Ela cresceu comigo, é como uma irmã.

–Ih, não começa não, Ella.

–Começo sim, que história é essa de pichar por aqui? Porra, cara, te avisei que aqui é perigoso e a diretora tá furiosa com a turma de artes!

–Pichar? Você sabe que eu não faço essa merda! Pichar é como rabiscar paredes em vão, eu graffito, dou vida a elas. Uma alegria a parte!

–Tá, larga de ser boiola. Queria saber quem foi que pichou...

–Vai perguntar logo pra mim?

–Sei lá, né, Lucas... Quer dizer, Victor! – suspirou, olhou para o alto e depois fez aquela cara estranha. Eu sabia muito bem o que era aquela cara estranha. Lucas tinha dado outro fora nela, meu irmão é muito burro mesmo.

–Ele ainda vai te dar valor.

–Quê? Ih, eu hein, larga de maluquice! Quem me dar valor?

Levantei as sobrancelhas e encarei-a.

–Tá. – depois de uns segundos finalmente respondi. – Veja, Ella... O Lucas é meio tonto.

–Tudo bem, enfim... Não teve aula hoje e você faz questão de chegar na hora do intervalo, quer fazer alguma coisa? Tenho baldes e alguns sprays...

–Não, eu vou voltar pra casa, vim por nada, odeio quando minha mãe faz isso.

–Beleza, até amanhã.

–Até!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.