Entre Mundos
2 Começo do Fim!
Notas iniciais
Eu me chamo Mañana, mas todos me chamam de Mana, pois a maioria não sabe pronunciar meu nome. Eu nasci em Alecrim, uma pequena cidade de apenas 320,1 Km² e 7357 habitantes, que moram em comunidades rurais. Minha cidade faz fronteira com a Argentina, por isso meu nome é um tanto diferente, meu pai era Argentino e minha mãe Brasileira, eles se conheceram em uma manhã de sol e me disseram quando eu era pequena, que logo depois eles me ganharam, daí saiu o nome Mañana. Eles morreram em um acidente logo depois que completei 10 anos, por isso não falo muito deles. Sou estudante de biologia do terceiro semestre em uma universidade particular em Porto Alegre, por isso moro sozinha em um apartamento, ou podia ser um apertamento, já que só cabe eu, meus livros, um colchão, uma geladeira e um fogão.
Não me acho bonita, apesar de saber que causo alguns suspiros pela rua. Sinto-me uma anã com meus um metro e sessenta de altura. Meus olhos são escuros como a noite, e tenho a pele clara como a lua, e todos dizem que esta é uma bela combinação. Como me acho muito normal perante as outras garotas, invento coisas diferentes no meu cabelo. Originalmente ele era castanho claro, mas hoje em dia ele tem uma mistura de verde, azul, rosa e roxo. Junto com minhas tatuagens, me destaco entra as outras como uma pessoa estranha.
Conheci o Samael no primeiro semestre da faculdade, e nunca mais nos largamos. Ele é um homem bonito, tem uma pele caramelo, mas não tão escura. Seus cabelos são pretos, lisos e compridos até os ombros, seus olhos são de um verde claro pouco visto por baixo dos cílios fartos. Ele tem lábios grossos e cheios. Não é magro, mas tem um corpo bonito e musculoso que gosta de exibir para as outras meninas. Temos gostos muito parecidos para musicas e para histórias, ambos lemos muitos livros. No inicio acabamos nos envolvendo, ficamos alguns dias juntos, mas notamos que éramos melhores como amigos. E dai em diante somos inseparáveis! Muitos ainda pensam que somos namorados ou que Samael é gay, mas não damos muita importância para isso, somos melhores amigos e pronto.
Quando eu vi o cartaz sobre uma excursão até a Floresta Amazônica, fui a primeira a incomodar Sam para irmos, eu sabia o quanto ele odiava plantas e o fato de ter de se enfiar no meio do mato e estudar elas o deixam irritado, mas comentei que teriam meninas lindas e muitas cachoeiras. Eu sei o quando mulheres bonitas e uma oportunidade de mostrar seu corpo bem definido o cobiçam, então falei o quanto a região era bonita e que muitas mulheres iam para aproveitar as belas cachoeiras, pois sabia que ele iria se entusiasmar. Era tudo mentira, mas eu faria qualquer coisa para que ele fosse comigo, afinal somos estudantes de biologia, e esse é nosso dever.
...
O dia da viagem chegou tão depressa que não pude acreditar. Minha mala estava feita há muitos dias e eu havia comprado milhares de livros sobre as plantas e animais da região. Samael não parecia tão feliz quanto eu, e passava horas me perguntando quanto tempo iriamos ficar por lá. Eu dizia que não muito, mas a verdade é que passaríamos o verão inteiro, acampados no meio da Floresta Amazônica. Porque no fundo, eu queria explorar toda a área pela qual estaríamos caminhando, mas nunca poderia imaginar o que aconteceu.
– Pra que tu vai levar panela e fogão? – disse Sam com uma cara engraçada – não tem cozinha no acampamento? E pra que tantos livros? Deviam ter peso máximo para as mochilas nessa viagem! – Ele deu uma risada e quando tornou a retirar a mão da mala, mal se aguentava de tanto rir, meu corpete de renda e fitinhas estava pendurado entre dois dedos dele, como se fosse algo muito nojento. – E isso? – Risos e lágrimas – Pra que isso? Vai noivar por lá?
– Isso eu coloquei porque eu quis! – Arranquei o corpete das mãos dele e escondi atrás de mim – E quanto aos livros, quero poder saber o nome de tudo que eu poder enxergar e não sabemos se vai ter comida boa, assim eu garanto a minha e a TUA alimentação, ou vai querer ficar a mercê de outras pessoas? – Eu disse lhe dando um tapa na mão que ainda remexia as coisas dentro da mala e ele balançou a cabeça com uma cara de quem não comeria nada além do que eu fizesse.
Ele me ajudou a carregas as malas para o ônibus e dava risadas cada vez que levantava a mala com os livros, como se eu fosse uma piada boa que só ele sabia a historia. No fundo ele sabia que eu acabaria por deixar os livros de lado e ficaria viajando com o monte de mato em volta de mim!
...
A viagem demorou muito, pois fomos o caminho todo do Sul do Brasil até o Norte com um ônibus, que dava medo de desmanchar em cada curva. Mas chegamos todos bem, um pouco cansados e talvez enjoados do balanço, mas inteiros.
O acampamento era em uma vila que ficava bem no meio da Floresta Amazônica, era um lugar lindo, com vários animais caminhando em volta e muitos macaquinhos andando soltos entre os humanos. Eu jamais pensei que isso fosse possível. Nós recebemos cada grupo de quatro pessoas uma cabaninha, eu e Sam fiamos juntos com mais uma menina e um menino de São Paulo. Nós dividimos as camas e organizamos nossas coisas nos armários, e saímos para conhecer o lugar, pois o guia da viagem havia combinado de nos encontrar às 14 horas em frente à cabana central da vila, e eram apenas 11 horas da manhã, então tínhamos um tempo livre até a hora de encontrarmos o guia.
Andando por entre as cabanas da vila descobrimos algumas histórias dos moradores, e como adorávamos histórias sentamos para ouvir algumas. A maioria falava de seres diferentes, e extraterrestres que vinham às vezes perto da vila, de animais com asas e que solvam fogo e de pequenas borboletas com corpo de gente. Na hora eu e Sam sabíamos que eram contos tirados de algum livro, pois as criaturas nada mais eram do que Elfos, Dragões e Fadas. Os moradores prometeram que quando a noite chegasse, contariam em torno de uma fogueira, sobre a lenda que há anos era passada de pai para filho naquela vila.
...
O dia passou rápido, o guia apenas nos mostrou como chegar à margem do rio Amazonas, nos apresentou para cada morador da aldeia, inclusive para uma senhora de 103 anos, cujo rosto me lembrou de uma arvore velha, onde seus galhos têm tantas histórias pra contar quanto um livro de mil páginas. Ainda nos mostrou onde iniciavam as trilhas, onde era o refeitório, explicou que éramos nós quem preparávamos nossa comida, e disse também que dentro de cada cabana tinha um horário com todos os guias e quais as trilhas que eles seguiriam. Explicou que faria uma chamada todas as manhãs e todas as noites, e que éramos para estar até às 9 horas na vila, pois ficava muito escuro depois.
Nós fomos para a cabana e trocamos de roupas, eu arrumei a cozinha portátil que havia levado, e que Sam havia tirado sarro, na sala de nossa cabana, e fiz frango grelhado com arroz selvagem e vegetais cozidos na manteiga. O casal de São Paulo perguntou se podia comer com a gente, e eu fiquei feliz em alimentar todos.
Terminamos o jantar e lavamos a louça em uma pequena torneira que havia do lado de fora da cabana. Arrumamos a sala e nos dirigimos a fogueira, que os moradores haviam montado na praça central e colocado bancos de troncos de arvores em torno para que ficasse bem rustico e antigo, apesar de que eu particularmente acho que é por que eles não tinham outros tipos de bancos. E logo acenderam os gravetos que estalaram e queimaram com um fogo ardente que surgiu das faíscas. Então começaram as lendas.
– O que eu vou lhes contar, meu pai meu contou, e o pai dele contou para ele, e o pai do pai dele e assim desde que se tem lembrança. – O homem que fala era um senhor de idade, devia ter uns 80 anos em média, mas se sentava bem ereto no tronco, como se fizesse aquilo a vida toda. – Eu me chamo Ephaminondhas, e sou o curandeiro desta vila. Muitos de vocês devem se perguntar por que nós chamamos nosso lar de vila, e não de aldeia. Bem, nem todos aqui são índios, alguns são pescadores que acabaram decidindo viver entre nós, então resolvemos mudar o nome. – Eu e Sam estavamos boquiabertos com o tom de voz do homem, ele tinha uma pele cor de cobre, e seus ralos cabelos eram brancos como a neve. Sua pele era toda enrugada no rosto e em torno das mãos, o resto do corpo não se via, pois ele usava uma túnica vermelha longa que ia do pescoço aos pés, e cobria os braços por inteiro, ela tinha desenhos em forma de espirais coloridos, que se entrelaçavam e se soltavam de novo.
– Voltando à história que eu ia lhes contar. Essa é uma lenda muito antiga, ela provém da época em que apenas índios viviam nessas terras, e o homem branco não era conhecido. – Continuou Ephaminondhas, com um olhar vago, como quem se lembra de algo muito antigo – Dizia-se que seres brancos como a lua vinham visitar os moradores da aldeia, e com sigo sempre traziam animais diferentes. Eles eram conhecidos como seres da lua, pois sempre apareciam na lua cheia, quando a aldeia inteira ficava iluminada por ela. Estes seres estranhos tinham a companhia de uma borboleta com corpo de mulher, que falava perto de suas orelhas compridas sempre antes que eles se comunicassem conosco. Algumas vezes eles vinham montados em uma espécie de lagarto com asas, mas muito, muito maior que um lagarto comum. Eles nos diziam que estes seres tão estranhos não podiam andar em nosso mundo, pois o homem o mataria por sua pele e por não compreender o que de fato eles eram. Também nos contaram de uma menina mestiça, filha de uma elfa e de homem, que viria para abrir o portal de Artheros, que era nada mais que uma fenda entre mundos, onde se podia entrar em Zaifron, o mundo dos sonhos, de onde pessoas do mundo inteiro poderiam sonhar com estes seres diferentes, poderia desejar vê-los, poderia até escrever sobre eles, mas já mais os teriam em suas vidas. Nos disseram também, que essa menina encontraria o portal de Artheros por acaso, pois ela já tem uma imensa ligação com os seres vivos, e com todos os tipos de organismos existentes. – Quando o senhor Ephaminondhas parou de mexer com um graveto no fogo e nos olhou, notei que eu estava com a boca escancarada olhando-o fixamente, e que Samael também se encontrava do mesmo jeito. Ficamos vermelhos e nos ajeitamos para que ninguém notasse, mesmo não sabendo a quanto tempo tínhamos ficado daquele jeito. – E nos deram uma missão, passar a todos os visitantes da tribo essa lenda, para que todos saibam que aqui existe um mundo entre o nosso, um mundo de sonhos. Mas não se enganem crianças, o mundo dos sonhos nem sempre é bonito e cheio de flores, há trevas e escuridão nele também, pois é de lá que provem os pesadelos e sonhos ruins.
Eu estava estática, não sentia meus músculos, não pisca e tinha me esquecido de respirar. Sam teve de me cutucar para que eu voltasse a vida. Eu me sentia dentro de um de meus livros preferidos, como Eragon ou A Maldição do Tigre, era como se a história acontecesse comigo, como se eu fosse a protagonista, mesmo sabendo que aquilo não se passava de uma mera lenda. E foi justamente o que o nosso guia fez questão de lembrar logo depois, que tudo era uma lenda, que a região já havia sido explorada e que nenhum “portal” para outro mundo fora encontrado.
Não sei se era o cheio da fogueira, ou se tinha algo no chá que nos ofereceram, mas eu sentia como se algo estranho estivesse para acontecer, como se alguma coisa não estivesse certa. E fui para nossa cabana com aquele sentimento estranho no peito, esperando que fosse apenas um efeito do ar puro em pulmões saturados de carbono.
Fale com o autor