Entre Mundos
3 Artheros
Notas iniciais
Acordamos bem cedo no outro dia, eu queria aproveitar o máximo todas às saídas por entre as árvores, eu não podia perder nada. Tomei um banho gelado, pois aquela sensação estranha ainda estava comigo, mas pensei que um banho gelado a afastaria. Quando sai do banho continuava sentindo aquela sensação estranha, mas resolvi que ia deixar de lado e seguir com as programações.
Louca por cozinha como sou, resolvi que iria fazer um café da manhã reforçado, pois sabia que iriamos demorar a voltar para o almoço. Fiz ovos, panquecas e bacon, parecia um café da manhã saído de alguém filme piegas que eu havia visto. Preparei o café e chamei todos da cabana para nosso banquete. Eu me sentia nervosa, como se algo estivesse para acontecer, e a ultima vez que tinha sentindo algo parecido foi no dia do desaparecimento dos meus pais e a constatação de sua morte. Não consegui comer sequer um pedaço das delicias que eu fiz.
Vi que Sam me olhava com certa curiosidade, afinal de contas eu comia muito sempre. Organizei os pratos na pia e ouvi a menina que dividia a cabana conosco dizer que lavaria os pratos. Arrastei Sam para fora, para o inicio de nosso primeiro dia feliz de amantes da natureza. Nós nos arrumamos do lado de fora da cabana e fomos de encontro ao guia que esperava em frente à praça.
O guia nos colocou nos grupos de acordo com o tipo de local que gostaríamos de visitar. E nos deu alguns avisos.
– Bom dia, amantes da natureza. – a animação dele era contagiante, ou não. – Hoje iremos começar o inicio de nossa aventura. Todas as trilhas possuem marcações, e há muitas ramificações em cada uma. Todas elas sempre vão de encontro com uma trilha principal que desemboca no inicio da aldeia, assim vocês nunca se perderão.
– Mas se eu quiser sair da trilha eu posso? – perguntou um menino com um aspecto sujo, acredito que não tomava banho há muitos dias.
– Não, isso não pode acontecer em nenhuma hipótese. – Falou em tom áspero nosso guia principal. – Todas as trilhas são marcadas, fazendo com que possamos encontra-los se algo acontecer. Se um de vocês sai da trilha e se perde, iremos demorar muito tempo para acha-lo. Além do mais, essa floresta não é nossa. Ela pertence a milhares de espécies de animais e outras milhares de plantas. Muitos desses animais podem aparecer no caminho de vocês. Por isso sigam sempre a trilha! Isto é de extrema importância.
– E se por um acaso, um desses animais, aparecer na trilha perto de nós? O que fazemos? – Perguntou uma menina com uma caderneta na mão, e notei que ela anotava até quando o guia se coçava.
– Se um animal, qualquer que seja ele, aparecer perto de vocês, mantenham a calma, esperem em silêncio que ele vá embora e aguarde uns minutos antes de tornar a andar. Estamos todos entendidos? – A resposta foi um silêncio total – Aceito isso como um sim, então vamos começar!
Percebi que Sam resmungava algo.
– Bem que um urso bem grande poderia aparecer e comer um dos integrantes do outro grupo não é? – comentou Sam em um tom que só eu pude ouvir. Sua voz continha entusiasmo quando falou de novo. – Ou, já penso, imagina só, ia ser muito legal.
– Sam, primeiro que não existem ursos aqui, e segundo, como eu vou imaginar algo legal se tu não me disser o que é? – falei rindo, pois já estava acostumada a ter de praticamente ler os pensamentos dele quando ficava entusiasmado.
Sam tinha uma mania de viajar com coisas bizarras só em sua mente, e às vezes fazia pequenos comentários sem logica. Então eu já sabia que tinha de perguntar o que ele estava pensando.
– Ah, pois é. Eu não falei de novo não é mesmo. Eu pensei que podia aparecer um sátiro, ou um dragão bem grande. E que eles podiam nos levar embora, ou o dragão podia comer um dos guias. Já penso que legal que seria?
– Pois é uma pena que não existem esses animais né!
– É eu sei que isso é coisa da minha imaginação!
Notamos que o guia seguiu em direção as entradas da floresta e separou os grupos. Nós o seguimos por um pedaço do caminho, ouvindo tudo o que ele dizia e eu anotava sempre que podia e lembrava, pois tudo em minha volta me atraia.
Resolvi pegar uma trilha que dobrava para a esquerda e descia alguns metros depois, Sam foi me seguindo com uma cara de quem não estava nem um pouco com vontade de andar por aquele lugar, afinal, meninas bonitas e animais selvagens que eram bons, não tinha. Andamos um bom pedaço, e eu parava a todo o momento para tirar fotos de alguma planta que eu achava diferente.
Depois de caminharmos por um tempo considerável, decidimos parar para descansar. Notei uma trilha que seguia para a esquerda de onde viemos, e resolvi ver onde ela dava. Sam disse que iria ficar um pouco ali, e que eu deveria ir rápido, pois não era bom andar sozinha no meio da floresta.
– Cuidado Mana, as onças vão achar que tu é um animal exótico e tentarão experimenta-la. – disse ele entre risos.
– Não te preocupa, meu gosto é ruim, logo elas me soltam.
Continuei pela trilha que fazia curvas até me deparar com uma árvore que tinha um tronco desenhado. Eu nunca tinha visto algo parecido com aquilo. Os desenhos no tronco da árvore me lembravam de pequenas estrelas e flocos de neve. Passei o dedo pelos estranhos riscos e notei que conforme eu terminava o contorno ele se tornava alto, e logo todo o tronco ficou com desenhos em alto relevo. Me assustei, dando um passo para atrás, pisei em falso, e cai senta na grama. Notei que uma luz estranha vinha do meio das folhagens próximas a árvore. Então algo aconteceu.
A árvore se mexeu, eu jurei que estava ficando louca, mas ela continuou a se mexer, e seus grossos galhos se transformaram em braços, suas raízes em pernas e grandes olhos surgiram em seu tronco desenhado. Quando abriu sua boca, que era feita do nó central de seu tronco, a árvore me lembrava dos Ents, seres que eu via quase sempre nos meus livros de Tolkien. Parecia que eu tinha entrado em uma de minhas histórias preferidas.
Depois de algumas tentativas de compreender o que aquela grande arvore falava, percebi que ela tentava acertar o idioma, e finalmente havia falado em minha língua, quando disse:
– Oh, Filha dos Mundos. A qual o poder de Kheranos, o pai de tudo e de todos, foi lhe concedido. Bem vinda. Eu sou Joshua Euzef, guardião do Portal de Artheros, ou Portal Entre Mundos. Agora tenho que lhe perguntar, para que em nosso mundo possa adentrar, e de seu poder utilizar. Qual a cor da pena de uma Fênix?
Fiquei boquiaberta, eu não havia entendido por que a árvore havia me chamado de Filha dos Mundos. E quem era Kheranos? Eu não tinha as respostas para as minhas perguntas, mas tinha a resposta para a pergunta que me fizera. Apesar de achar ridículo, respondi a pergunta da árvore.
– As penas da Fênix não possuem cor, e ao mesmo tempo possuem todas as cores do mundo. Elas são feitas de vidro, e também são feitas de ceda. São feitas das nuvens, mas também dos arco-íris. São ar, e fogo. São vida e morte. São luz e cinzas. Assim são as penas de uma Fênix.
A árvore deu um longo suspiro. Eu esperei até que a árvore falasse de novo. Eu tinha milhares de perguntas, e não sabia por que não sentia medo daquela estranha criatura. Afinal de contas, árvores não falam não no mundo em que eu vivia. Fiquei esperando um tempo que pareceu muito longo, mas que poderia ter sido apenas alguns segundos. Então a árvore falou novamente com um tom grave.
– Filha, há muito tempo esperamos que chegasse esse momento. Sua vinda é aguardada e esperada por todos a milhares de anos. Sei que tem muitas perguntas, mas todas serão respondidas no momento em que passar por este portal. Bem-vinda a sua casa Filha dos Mundos.
Antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta a árvore voltou a ficar imóvel. E notei que uma nova trilha se formava a minha frente. Nesse momento eu me perguntei se deveria seguir por ela ou voltar e esquecer. Talvez eu estivesse louca ou com febre. Afinal, árvores não falam. Mas algo me fez seguir em frente, e encarar algo desconhecido, algo que eu não podia explicar.
A trilha parecia ser feita de pequenos vagalumes. Pequenos pontos de luz marcavam para onde eu deveria ir. Eu por muitas vezes parei para olhar em volta e me certificar que aquilo não era coisa da minha cabeça. A trilha não era muito longa e logo eu notei algo diferente. Plantas com colorações esquisitas e de modo estranho apareciam entre as folhagens verdes da mata.
E de repente tudo mudou!
Fale com o autor