Entre Luz e Trevas

5 O Cavaleiro Renegado


O sol ainda se ocultava atrás dos montes do leste quando me apresentei no salão principal da Sede do Governo; saudei o guarda que estava no portão da muralha interior e adentrei o pátio, onde uma fila já se formava. Era o povo implorando pela misericórdia do rei. Quando me apresentei à porta do salão, fui imediatamente recebido pelos servos, que me instruíram a aguardar o rei à mesa.

As luzes das velas criavam um aspecto estranho naquela sala, aquele não era um local qualquer, a luz ali era repelida, como inimigos travando uma batalha. Enquanto me serviam com pão e mel, a porta se abriu, revelando um rosto temível, seus olhos cinza pareciam ler a mente das pessoas a sua volta. Imediatamente levantei, e realizei um rápido cumprimento.

— Meu rei, qual o motivo de ser convocado à sua presença? Hoje seria a inauguração das novas instalações do OEM¹. — Nós nos sentamos.

— Lorde Edrick Storm, temo que tenham lhe informado mal meu desejo, não era para estar aqui, na verdade nunca mais irá voltar aqui. — Eu procurei sentido em suas palavras, mas tudo o que vinha era incerteza. O que ele estava fazendo?

— O que quer dizer com isso, majestade? — Enquanto falava ele fez sinal a um dos servos e sussurrou algo em seu ouvido, logo, ele saiu apressadamente.

— Um pequeno erro foi cometido por meu mensageiro. — Um homem entrou no salão, era Solus. No passado havíamos sido grandes amigos, mas ele não se mostrou confiável nos últimos tempos. Descobri que tentou me sabotar, em batalha. Algo estava errado, ele vestia a armadura com o símbolo da Guarda Principal. — Eu estou te rebaixando de cargo, este homem será o novo Mestre de Armas e Comandante da Guarda Principal, como gosta de dizer, estou, simplesmente, te destituindo do cargo e do direito de viver na Capital.

Estava em choque e podia ver o sorriso dos dois quando viram minha expressão. Acalmei-me e tentei entender o que estava acontecendo.

— Eu o ajudei quando me pediu, o servi fielmente, me dei de corpo e alma a causa e ao Reino, perdi longos anos ao seu lado, você não... — Ele me interrompe repentinamente.

— Posso pelo menos saber o motivo de tudo isso? — Outro sorriso sarcástico se formou em seu rosto.

— Lembra-se de quando jurou sua espada e sua lealdade a mim? — Ele já sabia a resposta daquela pergunta, então para ele aquilo era só mais uma parte de seu jogo.

— Não, isso nunca aconteceu, só estou aqui porque você tinha minha esposa e filhos — que hoje estão mortos, completei mentalmente —, como reféns.

— Exato. Você sempre foi fraco, nunca foi digno do cargo; mas claro, você, naquele momento, era o único em quem poderia... Confiar.

— Devo imaginar que não vai me deixar sair vivo daqui, não é?

— Sempre fraco, mas nunca idiota, devo admitir a mim mesmo que gostava disso, mas os tempos mudaram, preciso de ações e não de estratégias e teorias. Desembainhe a espada, quero vê-la pela última vez. — A espada, uma herança de família, recebida uma vez que havia chegado à idade adulta; prata formava o punho, seu pomo, uma pedra em vários tons de cinza, a pedra representava o símbolo da Entidade da qual minha família fizera parte, o peso era, em um dos lados uma inscrição dourada reluzia à luz da sala; O elo que nos une; quando tudo isso havia acabado? Lembranças soterraram minha mente e sem me dar conta, voltei aos tempos de infância, quando observava as reuniões que meu pai administrava, homens e mulheres discutindo sobre todo tipo de assunto, era um segredo, ele havia me dito; mas uma reunião em particular me chamara à atenção, nesse dia ele havia proibido de acompanhá-lo, mas isso não me impediu de escutar atrás da porta do meu quarto, era algo sobre uma profecia, uma tarefa incompleta e muitas mortes, a maior parte dos detalhes, há muito esquecido; após esse dia, o número de pessoas diminuíra cada vez mais, foi quando ele desapareceu e as reuniões cessaram. Um traidor, minha mãe me confessou, depois de tudo aquilo fui obrigado a ir para os Ensinos Militares, para provar a lealdade da minha família, foi lá onde aprendi a usar espadas, lanças, adagas e toda sorte de armas, foi também onde aprendi estratégia, onde mais me destaquei. Meus pensamentos voltaram à sala e o que ocorria em minha volta.

— Sim, sempre foi uma bela espada, mas temo que nunca a tenha merecido — Não gostava do tom de sua voz — Pode me entregar? Gostaria de vê-la mais de perto — Entreguei-a, ele alternou a espada de mão e a ergueu — Bela, muito bela. Sim... Realmente uma obra de arte, pena ter caído em suas mãos, como já disse e repito, você não merece essa honraria.

Ele entregou à Solus, e por um momento, pensei que iria tomá-la, todos os homens sabem que as almas de seus donos são guardadas em suas lâminas, uma prisão digna de grandes guerreiros, almas fortes não podem ficar livres e, tomar a espada de um homem, só traria maldições, um ato terrível, até para seus princípios.

O rei ainda me observava com interesse, até que Solus começou a segurá-la firmemente e virar a lâmina, torcendo-a. Como? Foi tudo que tive tempo para pensar, até que notei a pedra central da armadura de Solus brilhar conforme se movia.

Depois, tudo o que me lembrava era de tomá-la de volta e ouvir Solus chamando os guardas, os meus guardas, meus homens, para me prenderem nas masmorras.

Notas finais
¹ Orgão de Ensinos Militares: Uma instituição do controlada pelo Supremo Governo Monarquíco do Estado Sede, com o objetivo de ensinar ética e treinamentos avançados nas artes de guerra. O último era o Comandante das Armas, deposto pelo rei, a qual os dois cargos que ocupava passaram para Solus West.