Ainda não conseguia acreditar no que realmente havia feito. Só me dei conta enquanto corria. Adália estava à minha frente, eu carregava uma pequena garota e tudo parecia ter sido instantâneo; eu a acordei por causa do barulho de passos na mata, depois, já estávamos à espreita na cidade, onde centenas de homens se organizavam.

— Negociantes de escravos, aposto que estão aqui para buscar as novas cargas.

— Escravos? Isso não é algum tipo de crime contra os Direitos Humanos?

— Você dever ser de muito longe mesmo, o Estado das Trevas diz que abomina essas ações, mas em troca de apoio político, eles fingem não ver o que está acontecendo, é basicamente isso, crianças crescendo sem suas mães, e as que não se acostumam com o trabalho, morrem em poucos anos — ela dizia como se tivesse vivido isso, e no fim, não duvidava disso. Ficamos observando o festival de horrores por um tempo, até que um grupo nos chamou a atenção, nele estavam vários adultos e algumas crianças, não aguentei, fui espreitar, Adália ainda me seguia, já imaginava o que estava prestes a fazer. Havia quatro homens vigiando aquele grupo, um ainda dormia e os outros pareciam estar jogando dados numa mesa.

Consegui me aproximar silenciosamente, o grupo parecia estar preso por uma única corrente que os unia — uma chave, eu preciso de uma chave — foi quando avistei o brilho incerto saindo do bolso do homem que dormia.

Quando alcancei a chave com um galho, joguei-a para os escravos, que já haviam me visto. Quando todos se soltaram, eles esperaram os homens que jogavam caírem no sono, para soltar os outros grupos. Depois de tudo, apenas a vaga lembrança de ter sentido a pedra em meu bolso esquentar, quando a toquei, uma sombra vagueou em torno de nós. Como uma ilusão, fantasmas tomaram o lugar dos libertos.

No momento da fuga, uma garota do primeiro grupo veio até mim, ela tinha uma marca no rosto, eu a peguei e fugimos; a voz de Adália me chamou para a realidade.

— O que faremos agora, com eles? Em poucas horas os guardas irão perceber e se… — Foi quando um homem a interrompeu.

— Sou Salazar, agradeço pelo que fizeram, mas ela está certa, seremos pegos se não fizermos nada. Eu conheço essa área, posso cuidar de todos, mas a questão é aquela ali — disse apontando para a garota que eu havia carregado — Ela parece doente e fraca, também é a menor, não sei se sobreviveria conosco.

— Nós iremos levá-la. — interveio Adália, eu a encarei.

— Tem certeza? — Claro — disse ela andando em direção à pequena. — Qual o seu nome? — Ela levantou os olhos, parecia estar fazendo um grande esforço para continuar consciente.

— Selena, meu nome é Selena.

Notas finais
Finalmente atualizando aqui...