Entre Luz e Trevas
7 Nova saída
Correr não foi a parte mais difícil do que veio a seguir. Primeiro, um campo enlameado fez nossos passos serem mais lentos e cuidadosos, após uma tempestade, até encontrarmos uma caverna. Adália fez sua mágica e rapidamente obtivemos fogo.
— Aqui, coloque-a perto do fogo, ela está esfriando muito rápido, precisamos chegar à cidade o mais rápido possível.
— Não existe um atalho ou algo assim? — perguntei.
— Acha que já não pensei nisso? — inquiriu ela lançando-me um olhar descrente. — O único jeito seria por uma aldeia, chegaríamos em poucas horas, mas não seria tão seguro. Vamos continuar atravessando a montanha.
— Prosseguiremos assim que o tempo se acalmar — eu disse, mais pensando em voz alta que realmente constatando o óbvio —, e fazer possível para que Selena se mantenha aquecida. — murmurei. Uma onda de sono me invadiu.
— Pode descansar se quiser, te acordarei assim que pudermos ir embora.
— Claro, mas você sabe que não precisa agir sempre assim, não é?
— O que está querendo dizer com isso? — Sua voz era ríspida.
— Desde que te conheci, tudo o que fez foi mandar como uma líder autoritária, quando soltamos aquelas pessoas, observou sem fazer nada, age como se estivesse acima dos outros... — Parei quando percebi o eco que minha voz fazia na caverna e como Selena me observava.
— É isso que acha? Você age como se fosse um herói totalmente abnegado, isso chega a ser burrice, e na próxima vez que quiser fazer algo por impulso, me avise! — disse ela enquanto virava a cabeça para não me encarar.
Selena nos observava em silêncio, ainda parecia ter medo de nós, e a última cena, não foi tão bonita.
Comecei a cutucar Adália com o pé, sem que Selena percebesse. Mandei um sinal de silêncio e sussurrei:
— Vou sair um pouco, tente conversar com Selena. — Tudo o que recebi em troca foi um suspiro.
A chuva ainda caia forte, e nada parecia que ia mudar isso, o vento estava forte, mas, para a direção que queríamos ir, poderia haver um caminho que contornasse a montanha e nos permitisse chegar a tempo. Não tínhamos escolha, se esperássemos a chuva passar, Selena poderia não sobreviver, enquanto a carregava, senti o suor frio e a febre que provinha de seu corpo. Um longo grito como o do sonho chamou minha atenção, como o do sonho, mas o eco... Não... Tinha de estar acontecendo algo, tudo o que escutei a seguir, foram meus passos tamborilando na rocha e sentir o calor que mais uma vez tomava meu bolso.
Adália estava em uma ponta da caverna segurando uma faca, Selena estava caída sobre o chão, com os olhos vidrados para uma direção, a parte que ela encarava estava escura, mas era possível escutar um som de respiração ritmada, um som de pedra raspada passou pelo ar. Adália tentou se colocar entre Selena e o ser oculto, deu um passo e o ser atacou. O animal tinha quase um metro e meio, parecia um lagarto com feições humanas.
— Pegue Selena e saia daqui, eu ganho tempo!
Quando me aproximei dela, notei que não estava machucada.
— Vamos, garota, aguente firme — sibilei para ela.
Quando chegamos à abertura da caverna, a chuva ainda caia. E Adália ainda não havia nos seguido.
— Selena, fique aqui, vou dar uma forcinha para ela. — Selena apenas concordou com a cabeça. — Sabe, eu acho que tem uma grande chance de ganharmos um tapete de lagarto hoje.
a ~~—~~ b
Adália estava suando, com apenas uma faca ela não seria capaz de derrotar um animal como aquele. A fogueira ainda estava acesa, mas já enfraquecia. O animal pulou para ela, tentando atacá-la com suas garras, mas ela conseguiu escapar. Ela desferiu um golpe que arranhou seu peito, e de longe pôde escutar mais uma vez o som dos passos de Richard. E então caiu, com os olhos fechados, temendo o que viria a seguir.
a ~~—~~ b
Adália estava desmaiada, Selena quase morrendo, e eu estava cara a cara com um monstro, alguns diriam que este é o tipo de aventura que sempre sonharam, mas não para mim. Eu era um fantasma. Vivia minha vida sem chamar atenção, sem realmente ‘viver’. Kelly, era o oposto de mim, mesmo com sua deficiência, sempre colocou seus objetivos acima de tudo. Como eu queria ter sua força.
O animal ainda parecia me avaliar como se dissesse: Ele fica melhor cru ou com umas batatinhas? E eu não permitiria que ele descobrisse.
A umidade da caverna estava aumentando, o vento frio já excedia as paredes de pedra, mas ele é um lagarto, eu poderia usar isso? O animal soltou mais um ganido, por que ele não me atacou ainda? Ou talvez... Seria possível? Em todas as cavernas que poderíamos entrar, chegamos a uma que servia de lar a ela, e não duvidada que tivesse ovos em algum lugar. Tentei criar uma aura calma, e tentar falar com ela.
— Vamos... Amiga? Desculpe, nós entramos na sua casa sem querer... Não faça essa cara... Juramos ir embora, ficamos presos quando a chuva começou, e precisamos levar minha amiga à cidade, imediatamente... Nos desculpe.
Então, por mais inacreditável que parecesse, ela havia entendido, e mostrou isso fazendo movimentos com a cabeça. E depois fez um gesto com a mão para que a seguisse. Alguns minutos mais tarde, me deparei com um buraco em uma das paredes, havia sete pequenos clones dela, seus filhotes. Mas ela continuou, e me mostrou mais uma passagem, e me fez gestos, me chamando e mandando que prosseguisse; à minha frente, um túnel infinito e escuro. Ele poderia atravessar a montanha? Claro, a fêmea lagarto estava nos ajudando, mostrando o caminho. Iríamos chegar a tempo.
Iríamos salvar Selena.
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