Entre Luz e Trevas

8 Capital da Zona do Fogo


Adália parecia não acreditar em nada do que eu havia contado, e Selena tudo o que repetia era como havia deduzido aquilo tão rapidamente.

— Então quer dizer que você negociou com um Harden? E como saber se não há outro no final deste túnel? — Adália retrucou.

— Eu confio na palavra dela, e se não quiser nos acompanhar, fique aqui.

— Você acredita mesmo que conseguiria achar a pessoa certa na Capital? Faça-me rir... Eu vou, mas se algo acontecer saiba que foi sua culpa — ela completou.

— Claro, o túnel não deve ser tão longo, você pode ir na frente; pegue sua pedra, e queima um pedaço de pano em uma madeira, assim teremos luz para atravessarmos, e eu irei carregando Selena.

O túnel não era diferente da parte inicial da caverna parecendo ser feito de pura rocha, sua altura era de quase dois metros, e dava pra ver buracos nas paredes, como se alguém tivesse escavado. Adália havia feito o que eu tinha dito, e a pouca luz não iluminava mais que trinta centímetros a partir do seu rosto, também havia buracos no chão, e não podia deixar de notar um suave burburinho atrás das paredes, como se houvesse água descendo por elas. O ar era pesado, estático, mas quando chegamos ao outro lado, ele batia com força nas paredes, levando as últimas nuvens de tempestade com ele. Os campos já brilhavam com a relva e os primeiros sinais do amanhecer, aquela visão era de tirar o fôlego. E no fundo, seguindo o curso de um rio, estava a maior cidade que já havia visto. Com prédios bem mais altos do que já havia visto, ela parecia crescer ao redor de uma enorme torre, que se estendia quase até as nuvens.

— Chegamos a tempo para as comemorações de Efeméride, uma das primeiras noivas do Patrono da Nação do Fogo. — Eu continuei olhando e percebi que na praça ao redor da grande torre havia uma multidão, e um leve burburinho, que deveria ser a música. — Vamos descer logo, precisamos chegar rápido à casa dos meus avós — completou. — E antes que me esqueça, sejam bem-vindos a Czar, a capital da Primeira Zona de Fogo, meu lar.

A base da cidade parecia tão imensa, construído com tijolos vermelhos, enquanto ele refletia a luz do sol parecia que estava pegando fogo. No início da cidade já podiamos ouvir o som da feira e dos ferreiros trabalhando. Tudo era incrível.

Adália nos conduziu por uma série de becos, parou de andar quando encontrou um sem saída.

— Está perdida? — debochei.

— Óbvio que não. Olhe e aprenda — disse ela enquanto tirava uma corrente do pescoço, antes oculta, e tateando o chão em busca de uma fenda incomum. Ela logo a achou, e inserindo a chave que estava na corrente, parte do chão começou a se mover, revelando uma passagem.

Ela era tão úmida e escura quanto à caverna, só que com duas vezes mais aranhas.

— E então? Mais segredos femininos? — Ela começou a rir em resposta.

— Segredo feminino, não; herança de família, talvez. Isso era uma passagem para os soldados da Antiga Ordem que protegiam a cidade, mas com a extinção da ordem, esse lugar foi esquecido, agora uso por conveniência. O Império das Trevas faz a patrulhas, mas, além disso, nada mudou.

— Entendi.

Depois de um tempo andando pelo labirinto que se formava a cada passo, Adália nos deu sinal para subirmos por uma escada. Lá fora, o visual não tinha mudado muito, mas foi pelo monte que percebi que estávamos do outro lado da cidade. À leste da grande torre, agora que estávamos mais perto, podíamos ver que ele era adornado por peças em vermelho, branco e negro, mostrando um mosaico que apontava para o céu.

Adália nos mostrou a sua casa, a base também de tijolos vermelhos, mas sendo mais rústico, com paredes de madeira e o telhado feito com telhas claras. Nunca tinha visto aquele tipo de arquitetura.

Kelly me fazia ler livros de todos os tipos, principalmente filosofia e política, depois vinham artes, música, estratégia, e conhecimentos gerais, sempre achei engraçado, ela nunca ter me feito aprender línguas estrangeiras. Ela me fazia ler sobre tudo, de Shakespeare à Machado, e até Charles Dickens e Allan Kardec. Ela queria me mostrar um mundo que se estendia para além daquelas paredes, infelizmente nunca havia realmente me dedicado.

— Entrem, minha avó saberá o que fazer.

Internamente, era tal como podíamos imaginar olhando por fora: rústico, com um forte odor de cera queimada e fumaça, denunciando excessivo uso de velas. Dois ambientes dividiam a construção em sala e cozinha. Após um tempo, percebi à esquerda, na penumbra, uma escada que levaria a um segundo andar. As paredes eram cobertas por tecidos de cores quentes, meus olhos percorreram a sala, até que encontrei outro par de olhos, me encarando, numa das passagens, uma senhora alta e idosa me olhava, seus olhos translúcidos, pareciam julgar minha alma, voltou a encarar Adália.

— Esta garota. Você fez de novo, não é?! Achei que tinha entendido da última vez. O que ela tem? Não é nada contagioso, é? E esse garoto? Porque está tão mal vestido? Trouxe tudo o que pedi? Conseguiu vender todos os produtos na Grei da Terra? Aqueles sovinas...

— Vó, ela precisa de ajuda.

— Ora, está bem, mas não ouse se acostumar! Garoto coloque-a em cima da mesa, Adália, pegue aquela caixa do canto — disse apontando enquanto colocava Selena na mesa, ela estava mais quente do que de costume. — Não, Adália, a de baixo. Sim, a pequena, traga logo.

Ela começou a vasculhar a caixa e tirou um pote com uma viscosa pomada branca e começou a passar sobre a pele de Selena. Em seguida derramou um líquido estranho com um cheiro forte sobre um tecido colorido e com ele limpou a pomada. Concentrou-se em fazer movimentos na marca. Pouco a pouco, ela desapareceu, até restar somente, uma mancha vermelha.

— Era só uma mistura de veneno, isso só pode significar que era uma escrava. Francamente, Adália...

— Na verdade, boa parte da culpa foi minha — eu disse interrompendo-a.

— Ora, quem é esse jovem? Por que é tão pálido? Está doente? Quer algo para comer? Acho que deve ter algo por aqui... — disse a avó de Adália, enquanto seguia em direção à cozinha.

— Não ligue para ela, se pudesse falaria com as paredes. Às vezes, chega a ser irritante... — Adália suspirou, mudando de assunto — Então, Selena, precisamos te devolver para sua família, se lembra de algo?

Selena, ainda sentada sobre a mesa, balançou a cabeça, negando. Adália parecia não acreditar.

— Não se lembra de nada? Sua casa, alguém, algum parente, o lugar de onde te tiraram? — pergunta Adália e Selena continua balançando a cabeça, discordando, e forçando os olhos, nem ela parecia acreditar, isso era algo triste, porque já havia me sentido da mesma forma.

— Claro, talvez se lembre de algo com o tempo, minha avó acabou de tirar um bloqueio, talvez ele tenha bagunçado sua mente...

— Então foi por isso que tive aquele sonho antes de conhecer vocês? — Selena interrompe.

— Que sonho? — Adália solta rapidamente.

— Que um anjo, muito parecido com Tyr me libertava, com ajuda de uma Minus. Eles me lembram vocês. E depois, na caverna, eu senti a Harden, antes que Adália a visse... Esse tipo de coisa tem acontecido muito frequentemente.

Isso não era um sonho comum. Adália olhava abismada para Selena. Ela não tinha resposta para aquilo.

— Richard, depois precisamos conversar sobre isso... — sussurrou, e nesse momento, sua avó voltou para a sala.

— Bem, eu estou preparando algo aqui. Adália, leve os remédios para seu avô ele está lá em cima, se estiver dormindo, não o acorde... E, eu me esqueci de perguntar seu nome rapaz.

— Sou Richard. — Ela havia perguntado meu nome, mas não parecia esse o motivo de sua curiosidade.

— Você é diferente, tem uma energia que nunca senti antes. Uma energia pura, se assim posso definir. Também é do Fogo? Se for deve ser um Herdeiro. Aquela garota parece ser Água, a Selena, mas não tenho certeza, tudo nela está embaçado, como se alguém a tivesse chacoalhado até tudo sair do lugar, é meio... Anti-natural. — O que ela fez foi cuspir a última palavra, como uma maldição. — Mas não é isso que quero dizer, se um Harden Real sentisse sua presença, seria morta como aberração.

— Morta, por quê? — perguntei sem me conter.

— Houve mistura no sangue dela, isso é crime pelas leis do Império do Governo das Trevas, enfim... A sopa já deve estar pronta.

Mistura, pelo que havia entendido, todo aquele mundo era divido em partes, cada parte um dos elementos primordiais para manter a vida: água, terra, fogo, ar e trevas. Cada um deles tinha seus próprios títulos, provavelmente, escolhidos para melhor designação, mas, ‘mistura’ significava que Selena tinha pais de elementos diferentes, o motivo de considerarem isso errado ainda não estava claro. Por que Selena era considerada anormal, ou até mesmo, anti-natural? Aquilo era surreal, transcendia tudo o que já havia visto, e sinceramente, não desejava tanto assim saber. Tinha medo da resposta.