Entre Luz e Trevas

4 Lembrança sanguínea


Não sentia nada, estava frio, e alguma coisa me dizia que não era a primeira vez que sofria tal desconforto, tudo começou a girar, cores se misturaram e formas surgiram, uma nova paisagem se formou.

Estava em um jardim e estava escuro, à minha volta o cheiro da relva dominava o ar. Gritos abafados seguiram pelo local, em pouco tempo já corria em direção ao som, parecia que de algum modo já conhecia aquele lugar, segui por um caminho de pedra, e virei à esquerda, me deparei com um corredor que tinha a porta destrancada, continuei em frente subindo uma escada, e me encontrei num salão, sangue brilhava nas paredes, mas não havia corpos, e uma energia estranha parecia fluir dele, então, vozes e passos explodiram à minha volta. Tornei a correr. As portas pareciam se destrancar à minha vontade, até que me deparo com uma gigantesca porta, instransponível, ela era a única pela qual eu não podia atravessar, em pouco tempo, um grito, e uma forte luz, voltam a me sufocar.

Tudo se dissolveu, e a sensação de queda retornou.

Quando acordei, me vi em uma praia de areia negra, quente, além do mar, ilhotas circundavam toda a parte do oceano visível. Um calafrio seguiu em minha espinha e quando me viro noto, discretamente, dois olhos femininos, na relva, me encarando.

— Olá? — Arrisquei com a desconhecida.

Nenhuma resposta, mas ao me aproximar, ela correu, e quando a estava quase alcançando, a perdi de vista, e me vi cercado por um penhasco, sem saída. Obviamente, conhecia o local melhor que eu, ela apareceu silenciosamente ao meu lado.

— Quem você é, e o que quer? — ela perguntou como se fosse uma ordem.

— Seria ótimo voltar para casa.

Ela desdenhou depois de ouvir minha resposta.

— Ninguém vem até esta parte da Ilha, você não parece um aldeão, e muito menos parece estar perdido, a não ser que... — Ela virou seu rosto para o céu, e apontou para uma marca no céu, parecia uma cicatriz... Uma trinca na sua grande redoma de vidro azul — Você veio de lá, não é? Um Ressurgente, você deve ser o primeiro em milênios a fazer a viagem e permanecer vivo. O primeiro depois do massacre. Deve ter uma pedra como esta. — Disse retirando do bolso uma pedra em tons avermelhados. — As lendas eram reais!

— Ressurgente? — Levei um momento para me lembrar da pedra de que ela falava, aquela, em comparação a minha parecia ligeiramente menor e leve. Tentei desfocar o assunto, parecia à coisa certa a se fazer. — O que é aqui? — Soltei a pergunta, sem perceber o que havia acabado de dizer.

— Segunda Legião, Terceira Ordem da Monarquia. Terceira das treze ilhas primárias, você está na Zona de Fogo — ela disse tudo com certo respeito, como se o tivesse memorizado com afinco.

— Acho que é agora que eu me apresento, sou Richard, e não sei o porquê de estar aqui, nem o que é este lugar.

— Sou Adália. Siga-me, vamos para a cidade, você precisa de ajuda.

Antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, ela simplesmente saiu andando, me deixando sem qualquer alternativa além de segui-la. O caminho pelo qual me guiou era sinuoso e precário, algumas extensões dele eram cobertas por plantas silvestres que pareciam bem antigas. Ela está me guiando por um caminho alternativo, pensei, e conclui que a finalidade era me desnortear, a fim de que me perdesse, caso tentasse fugir, não que tentaria, seria idiota tentar fugir de um local que pouco conhecia podendo me meter em encrencas ainda piores.

Fizemos uma caminhada de, provavelmente, mais de uma hora. Foi quando chegamos a uma vila à beira da estrada que percebi a gravidade do que estava acontecendo ali. As casas, em sua maioria fabricada em madeiras em tons escuros, extremamente precárias. Nós cruzamos a vila e chegamos a uma clareira que parecia se esconder entre duas rochas que se cruzavam formando uma sombra escura.

— Podemos dormir aqui em segurança hoje, mas iremos embora quando amanhecer, e poderemos chegar à Capital antes do meio-dia.

— Como iremos dormir? — inquiri.

Ela simplesmente apontou as folhas secas espalhadas pelo chão.

— Se tiver sorte, terá o bastante para se sentir confortável.

A garota passou uma pedra em volta da clareira enquanto sussurrava uma palavra — Trance — e então, um fino cristal pareceu nos cercar.

Assustado, dei um passo para trás.

— O que é isso? — perguntei. Ela me encarou outra vez, mas agora me avaliando.

— Isso é um dos dons do fogo, ele é um ótimo protetor. Toque-o.

Quando me aproximei, percebi as ondulações nele, parecia brasa viva, e quando o toquei, ele acendeu, abraçando as chamas contra minha mão, a tirei rapidamente, mas, minha mão já não ardia, há pouco o fogo a consumira e agora tudo parecia ser parte de um longo sonho.

— Se você fosse um invasor, a chama te incineraria, até restar somente cinzas, talvez alguns ossos.

— Ótimo sistema de segurança, mas o que era a pedra? — Perguntei enquanto tentava me arrumar em uma pequena pilha de folhas.

— São extremamente raras, existiam várias no passado, mas elas foram caçadas e destruídas há mais ou menos sete séculos antes, na mesma época do Grande Golpe, que colocou nosso atual líder, o elemento “Trevas” no poder.

— Algum motivo especial para ele não gostar delas? Do meu ponto de vista elas podem acabar sendo úteis.

— Segundo ele, elas representam algo ruim, nas mãos erradas podem fazer estragos. — Percebi que enquanto ela dizia a segurava fortemente, uma vitória, me fiz entender. — Agora durma, iremos sair bem cedo amanhã.

Eu consegui dormir em pouco tempo, estava cansado da caminhada que havia feito à tarde inteira, mas o descanso não veio fácil, primeiro o sonho.

O horrível grito de sofrimento de uma mulher quando vê os corpos sem vida de seus entes e amigos estirados na cozinha, ela segurava um bebê, havia algo de familiar em tudo aquilo, algo realmente estranho, até que ela começa a correr e se depara com um homem, que antes julgava estar morto. Ela se assustou e então percebeu o sangue escorrendo pelas vestes do homem, então correu mais uma vez. Ela precisava salvar a vida daquela criança. Eu conseguia sentir toda a força e determinação que dela provinha. Ele tinha que viver. Um longo som se projetou atrás deles, ele a estava seguindo.

Então acordei, mas o barulho continuou.