Entre Linhas e Fórmulas
1 Quem é Matthew Novaes?
A poeira que flutuava no feixe de luz da janela parecia andar mais rápido do que o ponteiro do relógio no alto da lousa. A voz do professor de matemática ao fundo era apenas um chiado monótono e arrastado, um zumbido sem fim sobre matrizes e determinantes que parecia ter o único propósito de sugar qualquer vestígio de vida daquela sala.
Olhei ao redor. Uma fileira à minha esquerda, um garoto babava discretamente sobre o caderno aberto; na minha frente, duas garotas trocavam mensagens com um entusiasmo ridículo sobre alguma fofoca fútil do fim de semana. Todo mundo ali era absurdamente entediante. Uma massa amorfa de adolescentes previsíveis, preocupados com festas medíocres, jogos de futebol e aprovação social.
Quase nada ali tinha graça. Na verdade, quase nada em lugar nenhum parecia ter graça ultimamente.
Suspirei, girando a caneta entre os dedos. Em casa, o cenário não era muito diferente, só mais silencioso. Meus pais estavam em mais uma daquelas viagens de negócios intermináveis, deixando para trás uma casa grande demais, limpa demais e vazia demais. Além do mais, eles eram divorciados e a bola da vez era sempre eu, sempre rolando de casa em casa com essas viagens e, quando nenhum dos dois podia ficar comigo eu acabava ficando na casa da minha tia mas até que já faz um bom tempo que isso não acontece. A solidão era uma companhia constante, daquelas que entram sem bater e se acomodam no sofá. A única vantagem de passar as tardes no colégio era justamente ter um pretexto para não encarar aquele silêncio antes do tempo, mas sinceramente, é bem melhor do que ter que socializar com o idiota do meu primo.
O sinal finalmente tocou, estridente, despertando a sala do seu torpor. Dei uma grande bocejo teatral e arrumei minhas coisas sem pressa jogando o material na mochila enquanto os outros saíam atropelando as carteiras. Minha parada seguinte era a biblioteca, onde o tormento diário continuava, só que do outro lado da mesa.
[...]
— Não, seu troglodita! Será possível... Se você multiplicar o expoente antes de resolver o parêntese, a equação inteira vai da errado. — Suspirei impaciente. — De novo.
O garoto sentado à minha frente — um brutamontes do terceiro ano, um dos membros do time de futebol e visivelmente dotado de uma inteligência comparável à de uma pedra — piscou lentamente, encarando o papel como se eu estivesse falando em árabe.
— Mas o sinal de mais tá ali, cara... — ele resmungou, a voz grave e arrastada, coçando a nuca com ar de tédio e visivelmente desconfortável.
— O sinal de mais não muda a ordem das operações, seu animal — soltei a caneta na mesa com um estalo seco, cruzando os braços e me encostando na cadeira. Minha paciência tinha atingido o limite absoluto. A criatura na minha frente parecia querer me irritar de propósito, e quer saber? — Sabe de uma coisa? Chega. Pega suas coisas e vaza. Eu não sou pago — aliás, nem pago eu sou — pra ensinar álgebra pra quem tem o raciocínio lógico de um molusco.
— Qual é cara? Você não pode me expulsar assim, eu preciso da sua ajuda! — Ele falou jogando a caneta na mesa. Semicerrei os olhos. — Além disso o professor disse que...
Me levantei lentamente inclinando o corpo sobre a mesa, travando o olhar no dele com toda a frieza e indiferença que eu sentia por ele. Ele engoliu em seco. Minha postura de superioridade e a reputação de ter uma língua afiada costumavam ser mais do que suficientes para compensar qualquer diferença de porte físico com esses trogloditas.
— Eu disse: vaza — repeti, a voz baixa, fria e absolutamente pausada. —
O garoto me encarou por dois segundos, hesitou, engoliu em seco e começou a recolher os cadernos de qualquer jeito, praguejando baixinho enquanto se levantava e saía pisando fundo entre as estantes.
Revirei os olhos.
Céus! Por que sempre me mandam essas criaturas?
— Outro, Adam? Sério mesmo?
A voz doce e divertida veio do meu lado. Me virei e vi a Jéssica caminhando até a minha mesa com uma pilha de livros nos braços. Os cabelos ruivos caíam em ondas sobre os ombros e ela ostentava aquele sorriso paciente que só ela conseguia ter naquele lugar. Jéssica também era tutora no programa de reforço, mas, ao contrário de mim, ela tinha uma santidade quase irritante com os alunos.
— Ele era inanimado, Jéssica. Tinha morte cerebral, eu juro — respondi, me ajeitando na cadeira e soltando um suspiro exasperado. — Não sei como você aguenta esses jumentos.
— Você precisa ter mais calma — ela riu baixo, puxando uma cadeira e se sentando ao meu lado, puxando o material do garoto que eu tinha acabado de expulsar. — Você só funciona com os nerds, Adam. Se o aluno não souber a teoria da relatividade de cor, você perde a paciência em cinco minutos.
— Porque os nerds raciocinam — dei de ombros, mas não pude deixar de sorrir fraco. Jéssica era uma das raríssimas pessoas ali que eu realmente suportava. Tínhamos uma cumplicidade fácil, um espaço onde podíamos falar sobre qualquer besteira sem as máscaras que eu usava com o resto do colégio.
Ela começou a folhear o livro, mas logo deu uma olhada disfarçada em direção à entrada da biblioteca, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Falando em pessoas difíceis... — ela murmura, com uma mudança sutil no tom de voz que eu conhecia muito bem. — O John tá no treino hoje?
Rolei os olhos, balançando a cabeça.
— Tá, Jéssica. Meu querido primo capitão tá lá no campo, gritando com os outros trogloditas. Você devia parar de secar o garoto de longe e ir falar com ele de uma vez.
— Ah cala a boca — ela deu um tapinha no meu braço, corando levemente, mas mantendo o sorriso tímido. — Ele nem sabe que eu existo... -Suspirou fazendo manha.
— Sorte a sua — resmunguei. — Ele é um chato, não sei o que você e as outras patetas veem nele.
Antes que ela pudesse me rebater, uma sombra se projetou sobre a nossa mesa. Olhei para cima e dei de cara com o professor de matemática, o Sr. Henderson, segurando uma prancheta com uma expressão que previa tempestade.
— Adam. Na minha sala. Agora.
Jéssica me deu um olhar piedoso enquanto eu recolhia minhas coisas com um nó no estômago. Segui o professor pelo corredor em silêncio até a sala dele. Assim que a porta se fechou, ele se encostou na mesa e cruzou os braços, encarando-me por cima dos óculos.
— Quatro alunos em menos de duas semanas, Adam — ele começou, o tom direto e sem um pingo de humor. — Quatro. Você expulsou o Silva hoje em menos de vinte minutos de aula.
Vinte minutos? Até que eu aguentei muito.
— Ele não queria aprender, professor, ele estava ocupado demais tentando não babar na mesa...
— Chega de desculpas — o Henderson me interrompeu, levantando a mão. — O programa de monitoria existe para ajudar os alunos com dificuldades, não para servir de palco pro seu ego. Seu desempenho como tutor tem sido péssimo. Você é brilhante com as suas notas, mas é um péssimo professor. Ficou inviável manter você na equipe. Estou te tirando do programa.
A menção de ser cortado fez meu sangue gelar. Perder a monitoria significava perder o único pretexto para ficar longe daquela casa vazia à tarde, além de manchar meu histórico perfeito.
— O quê? Não! — dei um passo à frente, engolindo o orgulho e mudando o tom na hora. — Qual é, professor! Me dá mais uma chance! Eu consigo, eu juro que consigo adaptar a explicação!
O Sr. Henderson me encarou por longos e dolorosos segundos, avaliando a minha reação desesperada. Ele soltou um suspiro pesado, ajustou a prancheta nas mãos e correu o dedo por uma lista de nomes.
— Não sei se você merece, mas vou te dar uma última chance, Adam. Uma única chance. Se você expulsar ou distorcer as coisas com mais um aluno, você está fora definitivamente e vai perder os pontos extras do semestre.
Eu poderia pular no colo dele e rodopiar. Mas me contentei só em em suspirar.
— Fechado. Quem é? — perguntei, aliviado, mas já me preparando para o pior.
O professor olhou para a folha e depois fixou os olhos em mim:
— Matthew Novaes. Ele precisa passar em geometria pra poder migrar de time. Ele deve te procurar em alguns dias, caso não, procure você mesmo. E é bom você fazer esse garoto aprender ou bye bye.
Ele me deu um olhar atravessado antes de me mandar sair.
Quem caralhos é Matthew Novaes?
Do outro lado do colégio, apitos soavam e chuteiras ficanvam na grama recém cortada. O cheiro forte de suor acumulado e desodorante barato preenchia o ar pesado do vestiário. O som de gargalhadas ecoava contra os azulejos brancos enquanto um grupo de garotos cercava um dos calouros, que tentava se encolher perto dos armários, totalmente vermelho.
— Segurem esse otário! — John gargalhava alto, empurrando o ombro do garoto o jogando para os outros. Ele estava visivelmente irritado, liderando a zombaria no meio da roda. — O sujeito teve a audácia de furar um passe livre na cara do gol no último quarto! Se a minha avó estivesse de muleta, ela teria dominado aquela bola melhor que você, seu tanso!
— Foi o sol, cara, eu juro! — o garoto tentou se defender, mas a galera só vaiou mais alto, jogando meias sujas e toalhas molhadas na direção dele.
Eu vinha caminhando pelo corredor entre os bancos, rindo da cena fazendo que não com a cabeça. Eu era gentil, não gostava de ver ninguém ser humilhado de verdade, mas não dava pra negar: eu também fazia parte daquela corja de trogloditas. Cresci no meio deles, sabia como a dinâmica funcionava e me divertia com a bagunça.
Arranquei uma cueca limpa que estava em cima do meu banco e, sem pensar duas vezes, joguei direto na cara do John.
— Qual é capitão! Você errou três chutes a gol no primeiro tempo e ninguém tá jogando pedra em você! — brinquei alto.
A cueca voou em cheio. John desviou no último milissegundo, fechando a cara na hora. Ele deu um passo na minha direção com um sorriso de canto ameaçador, fingindo que ia partir pra cima de mim:
— Ah, é? Ficou corajoso agora, Novaes? Vem aqui que eu vou fazer você engolir essa...
PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
O apito do treinador ecoou no recinto fechado com tanta força que fez metade dos garotos taparem os ouvidos e gemerem de dor em coro, inclusive eu.
— Parem já com isso, seus cães fedorentos! — o treinador esbravejou, pisando fundo na entrada do vestiário com a sua prancheta debaixo do braço. — Cinco minutos pra todo mundo estar de banho tomado e fora do meu ginásio! Se eu vir mais uma toalhada voando, todo mundo vai correr vinte voltas no campo no sol do meio-dia!
A bagunça se desfez num piscar de olhos. Enquanto os caras corriam em direção aos chuveiros resmungando, vi a oportunidade perfeita. Era agora.
Peguei minhas coisas apressadamente e corri até o treinador a tempo de alcançá-lo.
— Treinador? Posso dar uma palavra rápida com o senhor? — Perguntei a suas costas que deram um leve sobressalto. Ele me encarou por cima do boné, desconfiado.
— Quem...? Ah, você Novaes. Fala rápido. O que foi?
Ajeitei a alça da bolsa no ombro, respirando fundo antes de soltar o que vinha remoendo há semanas:
— Eu ... tô querendo mudar de esporte. Quero sair do time de futebol e migrar pro time de natação.
O treinador estancou no lugar. Olhou pra mim como se eu estivesse falando em outra língua e soltou uma gargalhada curta e desacreditada:
— Que absurdo é esse? Natação? Ficou louco, garoto? — Ele balançou a cabeça negativamente. — Onde já se viu, um cachorro querer virar um peixe?
A reação dele não me surpreendeu. A verdade é que eu só estava no time de futebol por causa do John. Quando entramos no colégio, ele praticamente me arrastou pros testes e assim viramos parte dos buldogues. Por comodismo, eu fiquei. Eu nunca fui o astro do time, o cara dos holofotes como o John, mas também nunca fui ruim — longe disso. Minha força física e meu ritmo me mantinham firme ali. Só que agora estávamos no último ano. Eu queria que esse ano realmente valesse a pena, que fosse sobre algo que eu quisesse. E entrar pra faculdade com uma bolsa de atletismo em natação era a minha melhor chance.
— Tô falando sério, treinador — mantive o tom firme, sem recuar. — Eu rendo muito mais na água do que no campo. O senhor sabe disso.
O treinador franziu o cenho. Ele odiava perder atletas, mas sabia que eu era reserva na maior parte dos jogos. Não que ele quisesse se desfazer de mim — afinal, nunca se sabe quando o time vai precisar de um cara forte no banco —, mas também não viu um grande mal em me liberar pra natação.
— Olha, Novaes... — ele suspirou, cruzando os braços. — Você sabe que enquanto tá no futebol, a diretoria e eu fazemos uma vista grossa pras suas notas medianas. O esporte principal da escola tem seus privilégios. Mas se você quiser ir pra natação, vai ter que andar na linha. O técnico da piscina não passa pano pra ninguém.
Ele me encarou com severidade:
— Se quiser a vaga, vai ter que ir bem em todas as provas. E pelo que eu vi no boletim do conselho ontem, a única matéria que tá afundando você é matemática. Geometria, especificamente.
Pisquei, um pouco surpreso.
— Geometria? Mas eu nem tô tão mal assim... -Dei um sorriso amarelo.
— Você tá na corda bamba, garoto — ele me interrompeu. — E na natação, com nota vermelha você nem entra na água.
Cocei a nuca, incomodado. Eu sabia que não era nenhum gênio das exatas, mas não achava que a situação estava tão feia a ponto de ameaçar o meu ano.
— O senhor vai falar com o professor responsável pra me dar uma força nas notas? — perguntei, engolindo o seco.
— Eu vou falar com ele pra te arrumar um tutor de reforço — o treinador respondeu, dando dois tapinhas secos no meu ombro. — Você vai ter aulas de matemática depois do horário até essa nota subir. — Sem tutor, sem natação. E outra, se o time um dia precisar de você, vai ter que vir prestar socorro, claro, nada que vá comprometer seu outro time.
Assenti com a cabeça.
Ele virou as costas e saiu, deixando o som do apito pendurado no pescoço balançar.
Fiquei ali parado no meio do vestiário. A ideia de passar as minhas tardes trancado numa biblioteca com algum nerd me explicando frações não me agradava nem um pouco, mas eu não tinha escolha. Se era isso que eu precisava fazer pra cair na piscina e garantir meu futuro, eu teria que engolir essa pílula amarga.
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