O sol da tarde queimava sem piedade no gramado, transformando o ar em cima do campo em uma névoa quente e sufocante. Eu estava sentado no banco de reservas, com as pernas bambas e os pulmões ainda arfando depois de cumprir a punição do treinador. Por mais que ele tenha falado que ia me ajudar, não pareceu ter aceitado tão bem a ideia de me mudar de time, então esse era seu jeito de me punir, dando 20 voltas no campo.


Inclinei a garrafa plástica sobre a cabeça, sentindo a água gelada escorrer pelo meu couro cabelo e pescoço, ensopando o tecido grudado da camisa de treino. Peguei outra garrafa e dei um longo gole que pareceu acalmar a queimação na minha garganta.


— Você ficou completamente louco ou o quê, Matt? — a voz grave do John veio acompanhada pelo baque pesado da sua chuteira pisando no banco ao meu lado.


Ele estava parado na minha frente, com uma mão sobre os olhos se protegendo do sol, o peito e a testada franzida numa mistura de irritação pura e genuína de perplexidade.

Acho que ele estava se referindo ao fato de eu ter falado pra ele a poucos minutos sobre zarpar daqui e ter saído correndo deixando ele lidar sozinho com essa informação.


— Ir pra natação? Que palhaçada é essa? — ele continuou, ajeitando a faixa na cabeça com um gesto ríspido. — Você tem tudo aqui no time, cara! A gente domina essa escola, os caras respeitam a gente, todo mundo sabe quem a gente é. Pra que raios você quer se enfurnar numa piscina olímpica cheia de cloro?


Soltei um suspiro pesado, limpando a água do queixo com as costas da mão e mantendo o olhar fixo no gramado à minha frente, sem dar o palco que ele claramente queria.


— Você quis dizer que você tem tudo — falei, soltando uma risada curta e sem humor, fazendo pouco caso do drama dele. — Eu só sou um reserva, Johnny.


— Ah, pronto! — ele esbravejou, jogando as mãos para o alto e dando dois passos em volta do banco. — É isso? Você quer glória? Popularidade? Títulos só no seu nome? Qual é, Matt? Quer ser o capitão? Eu deixo você ser a porcaria do capitão, seu ambicioso de merda!


— Eu só quero fazer o que eu gosto — respondi com a voz calma, abrindo a tampa da garrafa e dando mais um gole, sem me deixar afetar pelo show.

Caras como o Johnny com o pavio curto não era bom instigar.


— E desde quando ser a porra de um tubarão tava nos seus planos, seu maldito traidor? — ele disparou, parando de novo na minha frente, a cara vermelha de raiva.


Tubarões? Eu ri disso. Era engraçado pensar em mim assim sendo que sempre fui um dos cachorros. Era uma mudança e tanto sair dos buldogues e ir pros tubarões, vulgo time de natação. Acho que cada clube tinha seu nome em particular, mas não que eu soubesse todos.


— Você sabe muito bem que eu sou assistente de salva-vidas nas férias no clube — comentei, sem dar muita atenção pro chilique dele. John podia espernear o quanto quisesse, mas ele gostando ou não, a minha decisão já estava tomada.


Ele soltou um estalo com a língua, rolando os olhos como se aquilo fosse a maior piada do mundo:


— Tá, beleza! Você salvou duas velhinhas de se afogarem na piscina funda e agora quer uma medalha de ouro? Fala sério! — ele deu uma pausa, percebendo que o deboche não estava surtindo efeito. Soltou um suspiro frustrado, passando a mão pelo cabelo suado, e o tom dele caiu um grau, deixando transparecer um resto de incerteza. — E quando... quando é que você vai embora do time?


— O treinador disse que eu tenho que melhorar minhas notas primeiro, visto que aqui faziam vista grossa pra mim — falei, meio emburrado. A verdade é que aquilo ainda engasgava na minha garganta. Eu nunca me achei um gênio, mas também nunca achei que fosse burro a ponto de precisar aulas de reforço.

John deu uma gargalhada curta, estendendo os braços como se tivesse acabado de provar a tese dele:


— Eles fazem vista grossa pra todos nós. Mas um motivo pra você parar com essa maluquice, cara! Qual é? Quem precisa estudar quando tão dando as coisas de bandeja pra gente? É só ficar quietinho na sua vaga e aproveitar o ano!


Cansei do interrogatório. Me levantei do banco, puxando a barra da camisa de treino ensopada de suor e tirando-a pela cabeça de uma vez só. O vento frio da tarde bateu no meu peito desnudado, me fazendo dar uma respirada mais funda enquanto começava a caminhar na direção do corredor do vestiário.


— Olha, ele falou que eu vou continuar fazendo parte do time como apoio se vocês precisarem em algum jogo importante — soltei por cima do ombro, tentando fechar o assunto. — Para de drama, John. Eu só não vou mais frequentar tanto os treinos.


— Você é um maldito traidor, é isso que você é — ele continuou resmungando, me seguindo pelos passos como um cão de guarda enquanto entrávamos na área coberta. — Um abandonador de barco. E como é que você vai 'melhorar' suas notas do nada? Vão te dar um cérebro novo na secretaria?


— Falaram que eu vou receber aulas de reforço na biblioteca depois do horário — respondi, abrindo a porta de metal do vestiário e indo direto pro meu armário.


John encostou o ombro no armário ao lado, tirando as luvas de treino e jogando no chão.


— Ah, sério? — ele franziu o cenho, tentando puxar pela memória. — Se não me engano, o Adam faz parte desse grupo aí da monitoria... não sei direito, uma palhaçada dessas de nerds.


Girei o cadeado do meu armário e peguei a toalha limpa dentro da prateleira, parando por um segundo.


— Adam? Aquele seu primo? — perguntei, franzindo o cenho enquanto tentava associar o nome. A escola era gigante, um prédio enorme de três andares cheio de rostos que eu mal prestava atenção, mas eu lembrava de ter visto algum parente dele circulando pelos corredores com cara de poucos amigos. E também, o nome Adam tem história pra Johnny...


— É, ele mesmo — John respondeu com desdém, tirando a roupa e caminhando na direção dos chuveiros. — Um esquisito de primeira. Boa sorte se for ele. Aquele moleque acha que é mais inteligente que o resto do mundo.

Puxei a toalha pra cima do ombro e fechei a porta do box com um estalo, ficando sozinho em minha mente por alguns segundos. A ideia de passar minhas tardes trancado com um nerd mala sem alça não parecia a melhor das perspectivas, mas se essa era a ponte que eu precisava cruzar pra chegar até a piscina, eu não ia recuar agora.


- E quando você começa? — Johnny perguntou enquanto esfregava a cabeça de baixo do chuveiro. — Eu posso sondar o manezão pra saber com quem você ficou.


- Eu não sei, o treinador não me falou mais nada. -Comecei a ensaboar meus cabelos. Outros caras entraram no vestiário também. — Acho que vou perguntar pra ele se já to na lista, mas é, pode perguntar pro seu primo.


[…]


O cheiro de terra molhada e adubo impregnava o ar na estufa do clube de jardinagem, mas não fazia absolutamente nada para acalmar os meus nervos. Eu estava com uma raiva palpável, pulsando sob a minha pele com a intensidade de uma enxaqueca que não parecia que ia passar por nada.

Jesse me trouxera até ali na esperança ingênua de que arrancar umas ervas daninhas e mexer na terra fosse me fazer esfriar a cabeça. Se a Jessica era minha cúmplice de conversas e desabafos, o Jesse era o meu porto seguro, o cara mais descontraído, amigável e focado que eu conhecia naquele colégio — e, honestamente, um dos meus raríssimos amigos de verdade. Ele tinha uma pele negra, cabelos em dread, tinha um estilo impecável que fazia qualquer roupa básica parecer alta costura e ostentava uma inteligência absurda, dessas que não precisam pisar nos outros para se destacar. Jesse tinha a capacidade irritante de manter a calma mesmo quando o mundo ao redor estava desmoronando, o oposto exato da minha tempestade constante.

Mas a ideia da estufa tinha sido um desastre completo.


— Adam, pelo amor de Deus, solta essa muda antes que ela declare falência múltipla de órgãos.


A voz mansa do Jesse me tirou do transe. Olhei para as minhas mãos e percebi que eu estava arrancando as folhas de um ramo de lavanda com tanta força que os meus dedos estavam manchados de verde e o caule já tinha virado um fiapo despedaçado no vaso.


— Isso devia me fazer esfriar a cabeça? — esbravejei, jogando os restos da planta morta de volta na bancada com desprezo. — Foi uma péssima ideia, Jesse. Mexer na terra não limpa a mente de ninguém, só deixa a minha mão suja e a minha paciência mais curta!


— A ideia era você cuidar das plantas, não cometer um assassinato em massa contra o meu canteiro — Jesse respondeu, ajustando a jaqueta estilosa sobre os ombros antes de tirar cuidadosamente a tesoura de poda da minha mão. Ele me encarou com aquele olhar sereno de quem me conhecia bem demais para se abalar. — O que deu em você hoje?


— O que deu em mim é que a minha vida acadêmica está nas mãos de um bando de trogloditas! — soltei as mãos para o alto, indignado, limpando a terra nas coxas da calça. — Perder meus créditos de monitoria depois de passar meses me desgastando com alunos medíocres é o fim do picado! — Jesse estava de olhos arregalados assistindo meu chilique. — No começo, nem todos eram de todo ruins; alguns só tinham desvio de atenção. Mas aí a coordenação percebeu que eu sou bom nisso e claro, começou a desovar todos os casos perdidos do colégio na minha mesa.


Cruzei os braços, bufando e encostando as costas na bancada de madeira da estufa. Eu não suportava pessoas idiotas que encaravam a vida como uma piada contínua, gente sem responsabilidade que achava que o mundo era um recreio vinte e quatro horas por dia. O desabafo amargo saiu antes que eu pudesse conter:


— É frustrante. Eu preciso dessas horas de monitoria. Não sou o astro de nenhum time, não sou o cara popular do colégio. Se eu não for bom Nisso, eu não sou bom em mais nada. E agora o Sr. Henderson quer me cortar por causa de gente que nem quer estar ali!


Jesse ajeitou a postura, me observando em silêncio por um instante. Ele puxou um borrifador de água e começou a umedecer as folhas ao nosso redor com movimentos calmos.


— Eu entendo seu lado cara, é uma barra mesmo. Mas ... De onde vem todo esse preconceito acumulado com os caras do esporte, Adam? — ele perguntou suavemente, sem tom de julgamento, apenas curioso. O olhei semicerrando os olhos de um jeito acusatório. Eu era o errado por aqueles idiotas serem... idiotas? Eles eram o que eram! — Nem todo mundo que joga futebol é um monstro sem cérebro. Alguns deles realmente querem aprender. Se não quisessem nada com nada, nem se dariam ao trabalho de aparecer na biblioteca pra ter aula com você.


Dei de ombros com puro desdém. A resposta veio de forma automática na minha cabeça, acompanhada por uma careta de nojo só de lembrar do rosto do sujeito.

— Johnny.

— O seu primo? — Jesse ergueu uma sobrancelha.

— O rei dos trogloditas em pessoa — afirmei, a voz carregada de veneno. — Se tem uma pessoa no mundo que resume perfeitamente o motivo de eu odiar esse tipo de gente, é aquele boçal. Ele passou a infância inteira implicando comigo, me ridicularizando por causa dos meus livros, pelo meu jeito, por não me importar com as imbecilidades que ele achava incríveis. Hoje em dia ele não é exatamente a minha pessoa favorita no planeta. E qualquer um que me lembre o estilo dele... ganha meu desprezo automático.


Parei por um segundo, ajeitando a postura.

— Claro que eu não sou mais aquela criança indefesa. Hoje em dia, se ele tentar qualquer gracinha, eu devolvo à altura e deixo ele no chinelo na frente do time inteiro se for preciso. Mas a essência continua lá. Eu odeio o tipo.


Jesse soltou uma risada baixa e agradável, balançando a cabeça diante do meu drama. Ele guardou o borrifador e deu dois tapinhas no meu ombro com um sorriso leve:


— Tá legal, a traumatologia familiar explica muita coisa. Mas tenta abrir a cabeça, cara. Vai que dessa vez você dá sorte? A escola é gigante, Adam. Quem sabe esse novo aluno não é um cara legal? Alguém mais tranquilo, que realmente colabore com você?

Encarei meu amigo por cima do ombro, soltando um estalo com a língua e soltando um riso seco e totalmente desacreditado.


— Legal? Um atleta que tá zerado em geometria no último ano? — rolei os olhos, caminhando em direção à saída da estufa. — As chances de ser outro primata com um capacete na cabeça são de noventa e nove por cento. Essa semana eu vou descobrir o tamanho do meu castigo.