Entre Linhas

9 O Tecido do Tempo


Expressei meu descontentamento com toda aquela situação.

Ela ficou alguns minutos olhando para o chão, os dedos entrelaçados em um gesto nervoso. Logo em seguida, veio outro pedido de desculpas:

— Sinto muito. Vou dar um jeito nisso.

— Não, está tudo bem. Fui eu quem concordou em ajudar você. Deveria ter imaginado que coisas assim pudessem acontecer. Vamos resolver isso juntas, irmãzinha. — Falei, forçando um sorriso.

Seus olhos brilharam, e ela sorriu, aliviada.

— Sempre quis ter uma irmã. Obrigada por aceitar.

Enquanto me despedia dela, meus pensamentos se embolaram. Pensei que seria como um filme de aventura, que no final tudo daria certo. Acho que ainda não queria acreditar que era real. Quero voltar para casa.

Caminhei até meu aposento, os pés pesados. Passei a mão na maçaneta, hesitante.

Passei a pensar na minha casa e quarto, Me imaginei deitada na minha cama. Então lembrei do meu gato quando cheguei na frente do quarto. Comecei a desejar com todas as minhas forças para que o momento que abrisse a porta fosse levada de volta para casa.

Fechei os olhos e desejei com todas as minhas forças: Por favor, me leve de volta.

Ao abrir a porta, uma luz dourada do entardecer banhou meu rosto. O coração disparou,me deparei com o cenário que tanto ansiava.Estava no meu apartamento.

Me belisquei duas vezes para ter certeza que não estava sonhando.

— É real... — Murmurei, beliscando meu braço duas vezes para ter certeza.

Andei pela casa inteira, que na verdade é um apartamento de quatro cômodos que só consegui comprar porque era de uma amiga que casou recentemente.

Caminhei pelos cômodos ao perceber, chamando seu nome suavemente.

— Onde está você? — Chamei baixinho, procurando meu gato. Nada.

Meu gato não estava lá.

Meu coração afundou. A expectativa de reencontrar meu gato se transformou em uma pontada de tristeza.

Tentei não ficar triste e me tranquilizar, fui até o calendário para ver se realmente havia se passado algum tempo.

Uma onda de choque percorreu meu corpo. Dois meses. Contei mais de uma vez para confirmar. Fiquei chocada. O fato de que tudo foi verdade. Me sentei na sala e permaneci imóvel.


A fechadura girou mas não liguei, continuei olhando para o nada.

— Meu Deus! — Uma voz conhecida falou.

Virei me para olhar. Era Lily, minha amiga de infância, com os olhos arregalados.

— Você voltou! Venho aqui toda semana pra ver se aparecia. Então, como foi dessa vez? Você deve ter se divertido em mais umas das suas viagens malucas! Me conta tudo" Ela disse animada.

— Cadê meu gato? — Perguntei, com a voz trêmula.

— Você quer dizer o meu gato, né? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Imagina se eu não tivesse buscado ele no dia combinado. O pobrezinho ia morrer de fome.— Ela sorriu da minha cara e foi preparar algo na cozinha enquanto conversávamos.

—O que? Livro Mágico? Viagem no tempo? Princesa em perigo. Como assim? O Thomas não vai acreditar quando eu contar tudo a ele.

—...Lily, Por Favor. Não é porque ele é seu marido que você deve contar tudo.

—Mas ele também é nosso amigo de infância. Você pode confiar...—Ela disse esperançosa que eu concordasse.

—Você sabe muito bem que ele não acredita nessas coisas. —Falei negando.

—Está bem, mas só porque sei que você está certa e eu amo fantasias. E o Rei era alto?

—Sim. Acho que bem alto.

—Então pelo que me descreveu antes ele é um gato e cheio de músculos. Se voltar casa com ele.—Ela falou brincando mas não admiti que considerei a possibilidade.

— Ou se trouxer ele pra cá, pelo menos você desencalha de vez.

Lily falava animada, mas eu mal ouvia.

—Pela sua cara você tá considerando.

— E a princesa? Vai ajudá-la? — Lily perguntou, séria agora.

—É claro. Dei a minha palavra e vou cumprir. —Falei confiante.

—E como você vai fazer isso?

—Ainda não sei.

Ela suspirou, batendo no meu ombro. — Boa sorte, amiga. Vai precisar.

—Vou descansar agora. — Disse indo para o meu quarto dormir.



No Castelo


—Já procuramos em todos os cantos, senhor. Ela não está aqui. — Disseram os guardas.

—Procurem em todo o Castelo!— Disse o Rei inquieto.

—Sim, Senhor.— Os guardas disseram se dividindo pelo castelo para procurar por íris. Ouvi enquanto escutava atrás da porta.

Eu sabia que ela tinha ficado brava pelas mentiras que contei ao rei. Ela foi embora. Íris não vai mais me ajudar.


—O que vou fazer agora? E se o Rei não enviar as ervas que meu pai precisa? Estou sozinha. —Disse a princesa Dahlia.


Horas Depois

Os guardas já haviam vasculhado o Castelo inteiro e não tinha sinal da princesa íris, nem por onde ela poderia estar. Ela Simplesmente evaporou.

Sem muita ideia do que fazer, escrevi uma carta explicando tudo que estava acontecendo para minha mãe, a Rainha.


No Apartamento — Presente


Voltei para sala e Lily ainda estava lá, agora lendo o tal livro mágico.

—Hum. Aqui diz que para você voltar para casa ou ir para outro lugar precisa passar por duas árvores alinhadas lado a lado e estar conectada ao seu lugar desejado. Pular na água, passar por portas. Enfim, aqui tem muitas maneiras de voltar. Não preciso ficar preocupada com você presa lá.— Ela disse aliviada.

—Interessante. Agora você precisar dar uma olhada nisso.— Disse Lily apontando para as últimas páginas do livro que estavam limpas e algumas datas e horas aleatórias escritas.

—"10/12/1362 — Vi a queda da estátua de Orionis".

—"03/07/1689 — O povo grita por pão".

—Deve ser dos antigos donos. Será que é o ano que pegaram o livro? Ou eles foram para estas épocas? anos 900? Não faz o menor alguém ser dono desse livro nesse período. —Falei ficando em dúvida.

Páginas em branco, com datas aleatórias rabiscadas.

— Testa uma — Lily sugeriu, empurrando uma caneta para mim.

—Vamos ver o que acontece. —Disse Lily animada.

Me vi tentada a escrever e logo comecei.

Escrevi: 10/01/1920 – 20:15.


Escrevi e esperei, segurando o livro aberto.

Uma luz forte que parecia vir do lado de fora da janela, veio em minha direção. Tudo ficou BRANCO.

O clarão branco me engoliu... Não consegui enxergar nada.


Presente

—Não acredito. É Real. É Real. É Real. Ela sumiu.— Falei sem acreditar nos meus próprios olhos. Pensou Lily


10/01/1920 – 20:15.

Ano de 1920 — Noite de Gala

O estridente som de um saxofone cortou o ar enquanto eu emergi no meio da pista de dança. Corpos vestidos em seda e linho branco congelaram ao meu redor, seus rostos pintados com expressões de choque sob a luz dos candelabros. O cheiro doce de champanhe e óleo de motor se misturava com o suor da multidão.

Minha visão foi ajustando ao ambiente. Fui notando o local que me encontrava.

— Caramba! — soltei bem alto ao perceber que estava no centro de um salão de festas, com todos me olhando.

Um homem de bigode fino derrubou seu copo de cristal, que se espatifou no chão de mármore como gelo quebrado.

Preciso sair.

Corri entre os convidados paralisados, minhas solas escorregando no parqué encerado. A música morreu abruptamente. Alguém gritou em francês. Do lado de fora, o ronco de um motor de automóvel antigo me fez estremecer — era tudo tão barulhento, tão caótico comparado ao silêncio majestoso do castelo

1920 — Ruas da Cidade


Do lado de fora daquela casarão enorme. Parei, tentando respirar.

Por alguma razão comecei a pensar no castelo e que talvez se tornasse um problema se eu não estivesse lá. Assim, continuei andando para fora. Avistei um portão e logo tentei alinhar meus pensamentos ao castelo.

Imaginei o corredor que me despedi da princesa da última vez. Enquanto atravessava o portão que estava aberto de olhos fechados.

Castelo de Orion

O ar gelado do corredor me golpeou como um balde de água. A cena que se desenrolava a poucos metros fez meu sangue ferver — o Rei segurava Dahlia pelo braço, seus dedos deixando marcas pálidas na pele dela.

Quando os abri novamente, estava lá.

Vozes agitadas ecoavam adiante.

— Onde ela está? — O rei gritava, segurando Dahlia pelo braço.

—Vocês devem ter planejado isso. —O Rei apertou seu queixo com dedos que já haviam estrangulado inimigos. —"Diga-me como ela desapareceu ou juro que--".— Uma voz fria falava

Corri seguindo a voz

—Me diga. Onde ela está?— Disse o Rei inquieto e bravo. Chacoalhando a Princesa Dahlia.

—O que você está fazendo com minha irmã, Majestade? —Falei quase sem fôlego.