Entre Linhas

10 O Guarda e o Rei


No Castelo de Orion

O corredor do castelo estava envolto em sombras alongadas quando entrei na cena. O Rei, com seus dedos ossudos cravados no braço de Dahlia, parecia uma figura saída de um pesadelo gótico. A luz das tochas jogava sombras dançantes em seu rosto contorcido pela fúria.

A atmosfera no corredor do castelo estava tensa. Princesa Dahlia parecia frágil e assustada, mas seus olhos mantinham uma determinação feroz.

Com um grito, exclamei: "Você não tem o direito de tratá-la assim! Solte-a imediatamente!" Minha voz ecoou como um tiro na quietude da ala real.


Dahlia ergueu o rosto, seus olhos se iluminando como brasas ao me reconhecer. "Você voltou..."

O rei, surpreso, a soltou. O Rei girou em minha direção com a fluidez de uma serpente. Antes que pudesse reagir, meu corpo agiu por instinto — um chute certeiro nas suas canelas, com toda a força que meus músculos podiam oferecer. O impacto fez um som surdo, mas ele apenas riu, um som que arrepiava a espinha.

"Adorável," sibilou, esfregando a perna sem demonstrar dor. "A pequena fera mostra suas garras."

Princesa Dahlia, ao meu lado, segurou a respiração. Eu me preparei para o próximo movimento, os músculos tensos. O rei, em vez de revidar, surpreendentemente sorriu.

"Você é mais corajosa do que eu pensava." ele disse, com um brilho nos olhos.

Surpreendentemente, sua expressão mudou. A fúria deu lugar a algo mais perigoso — interesse genuíno. "Bem-vinda de volta, Íris." Seu sorriso agora era o de um colecionador diante de uma peça rara.

De qualquer forma, esta situação está ficando cada vez mais intrigante!

Após o Rei sair de cena...

Dahlia me puxou para um abraço que cheirava a lavanda e medo. "Cinco dias," sussurrou contra meu ombro. "Pensei que tivesse desistido de mim."

"Princesa, sinto muito por demorar." Disse me sentindo culpada.

"Não precisa se desculpar, você está aqui agora"

"E me chame de dahlia. Você é minha irmã, você mesmo falou ao rei." Ela disse sorrindo

Eu apenas assenti dando um sorriso.

"Mas me diga, aonde você estava? " dahlia perguntou

"Em casa. Eu precisei resolver algumas coisas." Disse, me lembrando que não resolvi nada e ainda esqueci minha bolsa lá.

"Já fazem 5 dias desde que sumiu. Eu pensei que ficaria sozinha aqui de novo" disse dahlia

"Sinto muito mas vou precisar ir de novo. Eu volto o mais rápido possível, diga ao rei por mim."

" O que? " Em Surpresa

"Eu vou ter que aguentar os surtos do rei por mais 5 dias." Disse dahlia já com expressão triste

" Dessa vez ele não vai fazer nada, não se preocupe." Digo virando as costas e me despedindo caminhando direto para meu aposento.

"Espera" falou a princesa

"Antes de ir. Você pode, por favor, levar essa carta a minha mãe? Nessa carta estou contando toda a situação para ela. Até sobre você. Preciso que chegue rápido antes que mandem alguém daqui até lá."

"Não tinha pensado na possibilidade." Falei pensando por alguns segundos mas acabei concordando.

Peguei a carta e segui andando para o meu aposento.

Noite no Aposento Real

O quarto que me foi designado era um sonho em tons de azul e prata. Fiquei tentada em aproveitar a luxúria do conforto por mais tempo. Passei meus dedos sobre o dossel de veludo da cama quando um ruído na porta me alertou.

Um bilhete deslizara por baixo, escrito em uma caligrafia tensa.

Era um pedido de desculpas do guarda que morava na taverna disfarçado.

Abri as portas sabendo que ele estava do outro lado.

"Fale com palavras não por meio de bilhetes, Vincent-." Disse o encarando.

O guarda de olhos de âmbar que me fizera esquecer por momentos que era apenas uma viajante no tempo. Seu uniforme estava impecável, mas seus olhos... seus olhos estavam vermelhos.

Ele não me deixou terminar e começou a falar.

"Serena," ele começou, usando o nome que me dera na taverna, "eu..."

Não deixei que terminasse também. "Você cumpriu seu dever, Vincent. Nada mais."

Ele me agarrou pelos ombros, suas mãos trêmulas. "Não foi dever! Foi traição ao que senti — ao que ainda sinto!" Seu sopro quente contra meu rosto me fez lembrar noites na taverna, quando seu alaúde e minha voz se entrelaçavam como amantes.

"Serena. Por favor!"

"Sei que é difícil me perdoar mas por favor. Sua amizade e confiança significam muito para mim." Ele falou com os marejados.

Parei e o observei. Eu senti seu despero e isso me deixou inquieta. Esse momento estava mais doloroso para Vincent do que para mim. Senti que devia abraça-lo.

O abracei calorosamente, pude sentir seu corpo fraquejar nos meus braços.

Eu tinha esquecido a paixonite que tive nele quando cheguei a esta época. Meu coração palpitou mais rápido quando ele me olhou ainda segurando a minha cintura. Fiquei vermelha e me distanciei.

"Princesa íris? Quem diria que a cantora Serena a mais famosa da cidade de Zifi seria a princesa. Eu nunca imaginei que aconteceria." Disse brincalhão

"Eu também não."

"O que?"

"Nada não." Falei disfarçando.

Quando nos separamos, ambos estávamos sem jeito. "Princesa Íris," ele murmurou contra meu rosto, "que jogo é esse que você joga?"

Vincent me abraçou mais uma vez antes de se despedir, tentei fingir normalidade mas ele sorriu percebendo a minha cara. Ele se despediu e seguiu para sua ronda no castelo.

Voltei para o quarto começando a me preparar para sair. No meio da arrumação escrevi um bilhete para o rei.

Missão Secreta

Ao amanhecer, executei meu plano mentalmente com precisão militar. O bilhete para o Rei, o encontro furtivo com a Rainha em seus aposentos privados — cada movimento calculado.

Quando terminei caminhei direto até o quarto do rei que estava com a porta aberta e o deixei em cima da sua cama.

Andei concentrada, estava tudo alinhado mentalmente. Segurei firme o livro.

Quando sai para fora vi o jardim que encontrei da primeira vez que vim parar nesse período. Sem tempo para ficar surpresa, apenas andei para dentro do palácio. Caminhei esquiando, desviando de todos os guardas e empregados do Castelo para que não me vissem.

Bati em várias portas de quartos chamando pela rainha até que em uma alguém respondeu.

"Rainha! Rainha!"

"Sim?"

"Trouxe uma carta da sua filha."

Escutei passos apressados vindo em direção a porta.

A porta se abriu.

A Rainha saiu com o olhar ansioso.

A Rainha era uma versão envelhecida de Dahlia, seus olhos carregando o mesmo fogo sob as finas linhas de preocupação. "Minha filha vive?" Ela agarrou a carta como um náufrago se agarrando a tábua de salvação.

Ela pegou ansiosamente e se afastou para dentro deixando a porta aberta. Aproveitei a oportunidade, mas uma vez segurei firme o livro. Atravessei o portal invisível entre as portas gêmeas da alcova da Rainha — deixando para trás um reino em turbulência e um coração dividido entre dois tempos.