Entre Linhas
5 A Princesa e o Pacto
Algo não encaixava.
Enquanto a suposta vítima soluçava no canto da carruagem, meus olhos percorreram cada detalhe de sua aparência: as mãos demasiado bem cuidadas,o tecido caro do vestido que nem mesmo a sujeira da captura conseguia esconder. E então vi — a tiara de prata quase escondida em seus cabelos desgrenhados.
"Por que você se deixou ser capturada, Alteza?" perguntei, dedo apontando para a tiara de prata quase escondida em seus cabelos.
Ela era uma peça em movimento.
Seus olhos, antes cheios de lágrimas, se arregalaram. A carruagem balançava enquanto atravessávamos vales floridos,montanhas verdejantes que se dobram como cetins sob o vento ,a paisagem tão bela que doía.
Ela engoliu seco antes de responder: "Você é mais observadora do que parecia."
Ela sorriu, e de repente parecia décadas mais velha. "E você, por que pulou numa carruagem de sequestradores?"
Sorri, afastando o pó do meu vestido. "Aventuras tem dessas. Agora me conte — que tipo de princesa se entrega a seus sequestradores?"
A História dos Dois Reinos
O sol já começava a se pôr quando ela terminou de falar.
"Na Grande Seca," explicou, dedos traçando padrões na poeira do assoalho, "Dois reinos outrora irmãos, foram separados pela Grande Seca de 1203... E então, se tornaram inimigos mortais."
"Meu pai, o Rei de Sirius, quebrou um pacto sagrado", confessou, os dedos torcendo o tecido do vestido. "Na Grande Seca, quando nossos reinos roubavam uns dos outros como animais famintos, um acordo foi feito: os filhos dos soberanos seriam trocados como garantia de paz.
O relato dela escorreu como mel envenenado. Seu pai, o Rei de Sirius, definhava por uma doença misteriosa. A cura? Uma planta rara que só crescia no reino vizinho de Orion — o mesmo reino com quem mantinham um acordo quebrado há vinte anos.
O acordo era simples: troca de herdeiros como garantia de paz. Mas seu pai enganara Orion, enviando seus filhos homens para reinos distantes. Agora, ela se oferecia como pagamento atrasado.
Sussurrou enquanto a carruagem balançava. "Minha mãe nunca permitiria. Por isso o teatro."
A paisagem pela janela transformava-se em um borrão verde enquanto ela falava mais detalhes sobre os reinos.
"E agora você vai cumprir o pacto no lugar deles", completei, entendendo finalmente o jogo político em que entrei.
Ela assentiu, os olhos brilhando com determinação que só os nobres parecem possuir. "Preciso daquela planta, não importa o custo."
O silêncio que se seguiu foi cortado pelo rangido das rodas. Fora, as montanhas deram lugar a vales floridos — estávamos cruzando a fronteira para Orion.
O Encontro Inesperado
Quando a carruagem finalmente parou diante dos portões floridos de Orion, eu estava pronta para qualquer coisa — exceto para quem nos aguardava do outro lado. A porta se abriu, a luz do entardecer me cegou por um instante. Então vi ele.
Lá estava ele — o homem da taverna, aquele de sorriso fácil e olhos que pareciam conhecer todos os meus segredos. Seu traje agora era de nobre, mas a expressão era a mesma daquela noite em que me observara cantar.
Aquele homem de olhos frios que agora fingira não me conhecer estava diante de mim, vestido com as cores de Orion, uma cicatriz familiar cruzando seu rosto como um raio congelado.
"Olha só," murmurei, sangue pulsando nos ouvidos, "o fantasma decide aparecer."
Ele inclinou a cabeça, sorriso afiado. "Parece que ambos gostamos de jogos perigosos."
"Pensei que reconheci essa voz", ele disse com os lábios se curvando enquanto me examinava. "A cantora se transformou em heroína. Fascinante."
A princesa olhava entre nós, confusa. Eu forcei um sorriso enquanto meu cérebro montava o quebra-cabeça:
Ele não era um viajante como antes havia dito.
Ele estava disfarçado na taverna.
Ele trabalhava para Orion.
E agora estávamos todos no mesmo tabuleiro.
Ele estendeu a mão para nos ajudar a descer, seus dedos quentes envolvendo os meus por um segundo a mais do que o necessário. "Bem-vindas a Orion, minhas damas." disse ele, descansando sua mão no punhal. "Onde os convidados inesperados... tendem a desaparecer. Acredito que vocês tem muito o que discutir... e talvez um pacto para cumprir."
A última luz do sol morreu nas montanhas ao longe, e pela primeira vez desde que cheguei a esse tempo maluco, senti um frio genuíno percorrer minha espinha.
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